Divã

Divã

Essa sou eu,
mas, às vezes, uma confusão bate e vou na janela.
Pergunto se posso tirar os sapatos. Mostrar quem sou de fato.
Tiro as roupas também? – pergunto –
Nua me mostro no espelho e o reflexo que vejo é ela.
Sempre ali. Cara sobreposta na minha. Olhosdelameninadosolhoseu.
É típica de tempestade interna essa indecisão/procura.
O espelho nunca te mostra onde é você mesma.
O reflexo me vende olheiras. Vazio branco oco por dentro.
Desatino.
Saio com riso de louca no olhar. Quebro o espelho.
Mais sete anos de sorte.
Tem consulta hoje?

Mariana Gouveia
*Imagem: Nan Goldin

Divã

"Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante…"

Entro na sala e ela não está.
Sento próxima da janela. Vejo vultos como se fossem formigas. Apressados para a rotina diária. Refaço meu dia para a continuidade das coisas. Ela entra.
Senta. Anota.
Me inquieto na cadeira. Ela fixa seu olhar em algum ponto.

Às vezes, tenho a impressão de que não me ouve quando falo.
– Vamos falar de seu quintal? Alguma coisa nova por lá?
Estranho a pergunta. Quero sair correndo dali. Mas alguma coisa me prende, sei lá.
Nessa hora, penso que sou eu quem a ajudo.
– Há uns vinte casulos no meu quintal. – Ela se espanta –
– De borboletas – digo eu – As lagartas se espalham e criam os casulos em lugares que contando, ninguém acredita.

Ela anota, escuta. Olho fixo num ponto da parede.
– Fiquei sete dias sem poder abrir o portão todo, porque uma foi criar o casulo na dobradiça maior do portão. A ordem em casa era: abra o portão de correr.
Parece inacreditável, mas está lá, o casulo seco para quem quiser ver.
Vigio os casulos como eu fosse pari-los.

Percebo que ela anota a palavra pari-los. Pergunta:
– E depois? –
– Depois, quando nascem, elas gravitam em torno de mim como se eu pudesse voar. Mapeiam meu quintal com seus voos e pousam nas flores, plantadas ali, para elas.

De novo ela fala de suas inquietações sobre borboletas.
Olha o relógio. O assunto traz ansiedade. Não é de mim que ela quer ouvir. Acho que é dela mesmo a palavra – preciso respirar –

Saio de lá com a sensação de ter visto nas mãos dela algo que lembrasse borboletas e me pareceu ouvi-la cantarolar Raul quando a porta se fechou.
“Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante…”

Mariana Gouveia – do Divã
*imagem: We Hearts It

Divã

Às vezes, é preciso enfrentar a verdade.

Aquela que dói no peito e bate na porta avisando: não tem jeito. Eu anoto. Não antecipei o contexto. Apenas repeti. E previ. Era outono nas manhãs do nada. Um pássaro morre no meu quintal. Tento fazer a simpatia que minha mãe fazia quando eu era criança. Coloco o pescoço do pássaro em volta dele mesmo. Molho a cabeça dele e depois o coloco debaixo de um balde. Dou as três batidas e mais três. Já não tem vida ali.

Já não há voos na minha manhã sombria. Pensei que seria véspera de asas. Acabou.
– Tem dificuldades em lidar com o que acaba?
– Não! Sou áspera na palavra respirar. Acato. Aceito. Sou submissa na atenção dos dias. O fim é sempre uma porta para um novo começo.
– Mas?
– É a reconstrução de um tecido que já foi rasgado. Ditados populares de séculos – Não deite remendo novo em pano velho – e por aí, vai. Diante da verdade possível fica um vão de medo. Planejei o dia de hoje em uma conversa simples, limpa, feliz e pensei nisto com o coração, lembrei de todas as conversas que quis ter, cafés, sorvetes, sombras e varais repletos de palavras e libélulas penduradas na palavra acariciar.
– E não aconteceu?
– Não. Tive de lidar com a morte logo cedo.
Seria possível remendar sonhos?
Anoto eu mesma a minha resposta.
A verdade é que às vezes, é preciso enfrentar a verdade.
Há um pássaro vazio de voo na minha mão.
Hoje, ela não fala…

Mariana Gouveia – Divã

Divã · Revista Plural · Scenarium Livros Artesanais

The end

The end

“The end” – foi isso que sobrou.

Resta em mim essa ternura, essa vontade de começar tudo de novo…
e o seu silêncio a ecoar canções dentro de mim.

Resta essa vontade de chorar e essa raiva… não sei do que e nem de quem.
Mas principalmente de mim.

Resta esse conhecer absurdo do que é sonhar e esse medo estranho de que a palavra esperança suma de vez da minha memória e da minha vida.

A canção que você gostava repete e repete e de tanto ouvir, já sei de cor as palavras, o ritmo…
Me proponho a ouvir pela última vez a sinfonia, e de tantas vezes ouvir e outras tantas acompanhar, eu já sabia de cor as suas palavras, e ia repetindo dentro de mim, antecipando a última, que seria o fim, sabendo que tudo o que é lindo precisa terminar.

Ah, eu fiz tudo que eu nunca fiz… eu cantei, eu dancei, eu teimei, eu… eu… eu te amei.
Não!
Eu te amo! Eu te amo com todos aqueles exageros de poetas em poemas de amor.
Te amo com a melodia soando no meu íntimo… Eu te amo com esse exagero louco do signo, com todos os desígnios doidos do destino.
Eu te amo com a melodia na pele a gritar claves na tatuagem de voos e sons em mim.

A música é bela porque a vida é rápida e não dura mais que o tempo da melodia… e você repete e você repete até saber de cor a hora que ela se encerra. E a memória te grita. E a memória me queima e me dá raiva.

Até o beijo… Dá raiva dos beijos que dei, dos que nem cheguei a dar e dos que não darei. Porque já é o fim.
Um dia te disse que te beijaria para sempre e você me recitou uma parte de um poema lido em algum lugar que não me lembro de onde:
“Que amante suportaria um beijo que não terminasse nunca?”
Que amante ia querer eternamente esse queimar, esse molhar, esse afago, esse voar de borboletas na barriga?
Que amor iria querer durar até o fim sem viver outro amor?
Que ouvidos iriam querer ouvir só uma voz e uma única canção?
E eu não soube te responder.
Daí, você muda a palavra para saudade. E muda a canção e vê na melodia a saudade. Chega a mastigar. Chega a doer… (ou você achou que podia ser feliz pra sempre, sua boba?)
Finais felizes só existem no cinema, em novelas e em livros e você não vive livros, nem novelas, nem histórias. Você vive ilusão.
Te vendem ilusão. E você compra. E de repente você se vê só, em meio à solidão e descobre o que é sentir falta. A saudade só floresce na ausência.

Floresce e você vive com medo de que morra. De que essa sensação te sufoque e ao mesmo tempo deseja que isso aconteça. E que a vida seja flor e que você seja flor sempre na minha vida.
É na saudade que nascem os poemas mais bonitos – um dia você me disse isso – É como a melodia que ecoa em voz e som… e nessa hora te vejo em tudo que toco.
Um dia te verei de novo?
A pergunta explode dentro de mim e me lembro de que te disse sobre isso uma vez em um poema que escrevi. Divino é o reencontro. É como o céu que se abre e aos poucos oferece todas as estrelas.

Porque eu desejo viver tudo isso de novo. Até mesmo essa saudade.

Então, diante de tudo isso o que me resta é esse monólogo dizendo tudo que sinto e queimando as últimas palavras que não me disse, fazendo de conta que nunca foi embora. Abrindo a porta para que a cada rumor de barulho pudesse entrar mais uma vez e tomar posse de mim e do meu amor.

E eu, na minha cabeça de vento declamando em silêncio o último verso: the end…

Foi então que, no último momento, o imprevisto aconteceu: parece que a música recomeça e eu acredito que o repeat errou… talvez tenha achado tudo tão bonito e tenha encontrado inspiração e era tudo um teste para ver o tamanho do meu amor e ali ficou a voz de Bethânia cantando Drama, repetindo palavras:

“Eu minto, mas minha voz não mente
Minha voz soa exatamente
De onde no corpo da alma de uma pessoa”.

E eu vou lá e desligo tudo. Apago todo resto que pode me ligar a isso…
Depois disso foi o silêncio.

É bem possível que o último verso tenha sido o primeiro…
mas eu quero tudo isso de volta…

Mariana Gouveia
Texto publicado na Revista Plural Inéditos & Dispersos
Scenarium Livros Artesanais
*fotografia: Adam Klaus

Divã

Você era pássaro na minha mão.

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Eu te voava.
Te prendia em uma gaiola onde de louca – eu – a vida atirava pedras.
Onde de louca – eu – gritava nas janelas vizinhas que te amava.
Onde de louca – eu- e a camisa de força prendendo as asas e eu não podia voar.
E te prendia no laço. E você se libertava e voava e louca – eu –
morria.
De saudades.

Mariana Gouveia
*imagem: Anita Anti

Divã · Revista Plural · Scenarium Livros Artesanais

Solidão tão minha

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Ph: Adam Klaus

Os corredores nunca foram tão longos e nem a solidão tão minha…Havia dores de ossos em todo canto – a moça de azul que hoje não vestiu azul via as dores como normal – preocupava-se mais com as dores da sua alma. Era olho distante do agora. Fosse ela reparar em dor – ali, era dor todo dia -não faria nada.
Os cartazes pedindo silêncio para a solidão dos outros. Alguém já não existia no vácuo entre o que era e será. Havia apenas o alívio de quem saía, nunca calmaria da dor. Eu escrevi a saudade enquanto era tempo. Era ali, no canto da mensagem que o coração batia.

Mariana Gouveia

Divã

Sede

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Ph: Nishant Dange

Daqui da minha janela, onde o vento passeia acariciando a cortina laranja lembro do seu corpo a roçar o meu. Tenho sede de você nas manhãs sem orvalho sem os lilases do gervão a chamar as borboletas.
O vento, lá fora, permanece inalterado em sua rota de devaneio. Desenho no vidro da janela seu nome, dentro de um coração. Já não há mais palavras nas minhas mãos para te entregar. Todas eu repito num frenético gesto de pedir sua volta. O meu desejo precisa do seu sinal, da sua chama, da sua pele para acontecer.

Mariana Gouveia

Divã

O nome dela

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Ph:; Christian Schloe

Ouço fado, vejo estrelas. Vejo o azul que ela desenhou na mesma palavra em fotografias. Me deixa sem palavras – sempre. Faço plagio na dimensão do agora em poemas... Tornou meu dia melhor –  era só o primeiro dia. Provou do meu sabor alado. Estranhou a palavra amor e era a única palavra com que eu a poderia traduzir mesmo usando todos os verbos que conheço e os idiomas todos. Quando quero voar, me dá asas. Tudo sabe teu nome e tem o poder de adivinhar vontades. Dou à ela asas para a liberdade e a palavra. Ela me encanta com poemas que crio na imaginação. Dou à ela a chave para a poesia. Fico mais uma vez sem palavra e a palavra que falta vira poema, no nome dela.

Mariana Gouveia