Me pediram o horóscopo do dia. A pessoa que fazia isso morreu – ou viajou, ou mudou – sei lá! Há uma contradição dos astros hoje. O astral me povoa. Cria multidão em mim. Estrelas cintilam nos olhos dela. O vento empurrou Júpiter para perto de Vênus. Marte partiu. Seu signo combina com o meu. O Decanato mora na esquina da rua detrás. Chamam-no pelo apelido. Nunca atende pelo nome dele. Hoje será seu dia de sorte. Amanhã também. Isso se não enlouquecer pensando nos sentidos que as várias fases da Lua tem. O tempo muda hoje. Continue nas rotinas do dia. Vai conhecer o amor da sua vida – isso, se já não conheceu. Momento dos mais benéficos para viver ou morrer. De amor.
Já te contei várias vezes sobre meu lugar… acho até que você conhece as rotas e os meus desvios. Mas hoje, te pego pela mão e vou te mostrar logo aqui, a 100 km o meu Pantanal.
Deixa o seu coração se apaixonar pelas paisagens que vou te mostrar. A entrada se dá por Poconé, uma cidadezinha típica do interior – mas com tantas riquezas culturais como o cururu e siriri, a cavalhada e a apresentação dos mascarados. Uma tradição secular por essas bandas.
Sabe, moço, uma das tradições desse povo é a fé. Está por todo canto estampada… seja nas festas de Santo – a de São Sebastião é a mais tradicional – ou nas igrejas centenárias, como a igreja do Menino Jesus, datada de 1922.
Só delas eu falaria por dias… mas essa missiva tem o dever de te mostrar o Pantanal por meio de suas paisagens bonitas, conhecidas no mundo todo. Por isso, vou ser mais poética e te mostrar sob meus olhos a maneira que vejo essa biodiversidade fantástica. Já adianto que vai faltar espaço.
Os ipês nessa época se vestem para a festa e transforma o lugar em um jardim tridimensional. É lindo de ver!
E o pôr do sol, moço… é de encantar ou se apaixonar – você escolhe – e as aves fazem a festa nessa hora… Os tuiuius, gaviões, garças, as freirinhas, os papagaios e as araras são um show à parte. Não vou conseguir colocar todas as fotos…. Vamos deixar isso para quando você vier ver de perto.
E os jacarés, que vi de tão pertinho que podia tocá-los, assim como a cobra – para susto e desespero do meu marido – na beira da estrada.
Vi de pertinho uma comitiva e a boiada – foi como estar na novela, arraaaa – atravessando na margem de um rio quase seco de tanto que o homem devastou por aqui.
Na verdade, moço, somos nós que fazemos mal para a natureza… mas, como eu só queria te mostrar pelos olhos do encanto meu lugar, finalizo com a imagem que me fez falar uau. Sei que vou ficar devendo mais paisagens, mas quem sabe, um dia posso te mostrar pessoalmente.
Abraço carinhoso,
Mariana Gouveia Missivas de Setembro Scenarium Livros Artesanais
Quando você me deu essa rosa, era de um rosa mais rosa. Eu comemorava um aniversário e você, mais uma vez, com todo amor que lhe cabe, quis povoar meu jardim.
Com o tempo, o rosa foi purificando e a rosa se tornou multicor… Quase branca. Hoje, o aniversário é seu e eu poderia dizer sobre tudo que vivemos… Nem vou dizer o tempo que vivemos, porque, por mais que eu escreva sobre… você é em mim, de tanto tempo que só digo que existo sempre em você.
Assim como a rosa mudou o tom, enfrentou diversidades, a gente também mudou. Depois de quase dois anos sem te ver, mas nesse mesmo tempo sendo presença uma na outra, pude te abraçar e sabe, parece que nunca nos separamos… O riso, a cumplicidade, o amor ultrapassam esse tal de calendário.
O meu desejo é o mesmo de quando te dei o primeiro abraço e parecia que eu já te conhecia de muito antes. Que você seja feliz e eu vou estar aqui sempre, nos dias bons e ruins… Sendo guia ou apoiadora. Te amo infinito
PS: tem certeza de que a rosa era mesmo rosa? Porque o que impera em meu amor e coração é tu, Rose.
Escrevi para ela enquanto as roupas quaravam no jirau feito de angico. Fazia parte de um ritual antigo que minha mãe adorava repetir. Os lençóis de linho a branquear ao sol.
O cheiro do sabão de dicuada, ali, a clarear as roupas e o sol e o vento…
Era isso… enquanto eu escrevia o vento trazia na memória o balanço das folhas, da rede, do cabelo que caía na boca e a voz da minha mãe a ecoar lições.
Contei sobre o tempo de ontem e que havia um bando de pássaros a desenhar poemas no céu.
Amanhã chove – a moça do tempo confirmou com mapas e cores densas – a apontar o dedo para a parte que no mapa, é meu estado.
Brotou flores novas no quintal. Rosa, rosinhas, cravos e as trapoeirabas azuis.
Quando os pássaros cantam eu corro para o quintal a espiar o céu. Eles revoam no sentido contrário e lembro de coisas que te falei. Devo dizer que ganhei o sentido de asa. Os cães quase voam de um sofá para o outro. O pássaro de todo dia aparece e eu escolho palavras ao acaso para desenhar minhas emoções.
Apago, escrevo e torno a apagar. Algumas palavras ganham formas diferentes e sentido igual. Risco e coloco o ponto final Os pássaros voltam novamente e mais uma vez recomeço a escrever. Coloco a data, a cidade e por fim, termino uma carta que nunca vou enviar.
Mariana Gouveia Anne Kramer Das palavras das cartas
mui de muito cor de coração dou de dourado pé de pétala vem do ventre algo de algodão Vem do ventre
Su.
Cheguei ao ponto de sonhar com essa carta… fiquei imaginando essas horas escritas em um futuro impossível e descobri que isso não é para nós… Quando há algo impossível, a gente vai lá e muda tudo. Eu sei que você é assim, e posso te dizer que também sou.
Um dia, li em algum lugar que só as pessoas destinadas fazem isso – de tornar o impossível, possível – e trazem um escudo invisível no peito, camuflado em forma de sorriso. É preciso coragem para conseguir. Percebi essa coragem em você em seus poemas e escritos.
Nesse domingo, acordei de manhã, e como sempre faço, olho o céu – nos últimos dias, ele esteve esfumaçado… parecia agosto e pensei em você – que denominei minha menina nuvem – e ele era pura ostentação de uma nuvem, que não resisti e chamei seu nome – sempre faço isso com minha bambina Lunna, quando vejo raios, trovões e Lua – e agora, quando vejo uma nuvem diferente já chamo seu nome para tu ver.
Deve ter chovido ao redor – já que aqui, conto os dias sem ela… até sonhei dia desses com o cheiro de terra molhada – porque o céu amanheceu azul e a nuvem veio trazendo as tonalidades de vários azuis e eu fiquei fascinada, com o olho acompanhando a nuvem “voar”.
Não há filtros nas fotos, Su… eu fotografei e já quis te mostrar como o encanto vem de repente na vida da gente… seja em poesia, em uma canção ou simplesmente numa nuvem que se desenrola e conversa comigo de uma maneira que meu coração entende. Eu já te disse que sempre vejo corações em toda parte?
Em momentos assim, que o universo conversa comigo eu sou pura leveza, Su… fico quase igual as nuvens… juro que até danço… Nessas horas, Su… só consigo imaginar no futuro possível dentro das horas um dia te abraçar.
Mariana Gouveia Missivas de Setembro Scenarium Livros Artesanais
ficou aquele na mão, preso – a gaiola dependurada no peito – sem jeito de asa ou ninho. Contei nos dedos os séculos sem você e o relógio na parede, vazio de horas e em silêncio lembrou-me da vitrola quebrada sem os vinis. A dispensa abarrotada de lembranças e o céu rendado de tela não me permitiu te oferecer asas. Não posso ver daqui, pela janela fechada a alegria nos teus olhos pelo voo dos teus pássaros.
… que marítimos não atravessam para meu rio.
… que brigam com os meus
… que migratórios não atravessam o oceano.
… que os meus voam rasantes com medo do voo perto desse abismo.
… que é essa solidão…
que moram na árvore morta onde não podem fazer ninhos nem migrar para te oferecerem asas. … que descobrem que a estação muda de acordo com o destino do quintal que não alcança a maresia que alimenta o jardim.
No espaço branco entre o sentir e o não sentir. O pensar e o não pensar. O espaço branco entre o som e o silêncio. No espaço branco entre palavras desenraizadas e histórias abandonadas. O espaço alado da própria pele. O espaço entre os espaços em branco, todos os espaços que se desbravam por ele. Onde tudo existe como sussurro de um longínquo e imaginário passado de personagens, num fantástico e ilusório enredo. Fátima
Leonor,
Assim que o avião subiu ao céu e deixou apenas um espaço branco em meio as nuvens eu já senti sua falta. O ir embora parecia tão distante… Os dias voaram e assim como você chegou em meio as brancas nuvens, da mesma maneira partiu. E não foram só as nuvens que se embranqueceram no azul do céu…
as cortinas já não traziam sua silhueta ao balançar nas minhas manhãs e eu ficava horas ali, a espreitar o vento que não exibia seu sorriso entre a penumbra da madrugada e a brancura suave das manhãs…
Sabe, Leonor, deixei em branco seu lugar à mesa com a xícara sem café e o livro que você esqueceu. Tive vários diálogos com as páginas em um idioma que não entendo e juro que fiz as mesmas perguntas desde então: quer café, flor? Mas não havia resposta e minha voz se esvazia em eco em uma cozinha e mesa tristes.
Também deixei em branco – sem dedicatória – o livro que era para ser seu, com poemas escritos para você. Esse vício antigo de escrever amores que eu sofro na sua ausência. Como pode ter esquecido tudo que prometeu? Como pôde simplesmente sumir no mundo como se aquela nuvem que engoliu o avião tivesse também te transportado para outro além?
Quando alguém me pergunta sobre você tento parecer que é natural o seu silêncio… Lembro apenas que você deixou em branco também a parede quando trocou sua fotografia pelos quadros de artesanatos que fiz e que os dias de falta são marcados pelas folhas da jiboia que você plantou. Cresceram tanto nesses mais de 4015 dias que você partiu e nunca mais voltou.
Leonor, deixei as folhas em branco no caderno sem escrever uma só palavra para você. Já rasguei tantas que escrevi, outras tantas eu apenas embolei e deixei no baú, com a data e seu nome na introdução da carta. Logo eu, que gostava tanto das folhas do caderno em branco para principiar histórias não consigo nem escrever nelas hoje a palavra saudade.
Mariana Gouveia Projeto Fotográfico 6 on 6 Scenarium Livros Artesanais Participam junto comigo desse projeto: Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Suzana Martins
Um dia feliz Às vezes é muito raro Falar é complicado Quero uma canção Fácil, extremamente fácil Pra você, e eu e todo mundo cantar junto Jota Quest
Roseli querida,
Reparei que nunca te escrevi uma carta e aproveitei esse domingo estranho – amanheceu frio aqui – para te levar pela mão no meu quintal. Queria te mostrar os ritmos das borboletas por aqui… Já faz tempo que percebi as lagartas no pé de cleome e de como rapidamente foram devorando as folhas. Eu plantei essa espécie, justamente para elas…
Depois de alguns dias, ao invés das lagartas, foram os casulos que se formaram… eu acho pura magia essa transformação, Roseli… e mesmo que eu já tenha visto várias vezes esse processo, é sempre como se fosse a primeira vez e a cada vez me emociono, então, se meu olho lacrimejar, não repare, viu?
Domingo amanhece aqui com uma tonalidade de azul tão linda que acho um pecado assistir sozinha esse céu… assim como sinto uma dó enorme alguém não presenciar as borboletas nascerem. Já te contei que elas nascem pela manhã? algumas espécies demoram cerca de uma semana para eclodirem o casulo e ganhar voos nos desvios do meu quintal.
Algumas, como se precisassem de amparo, buscam minhas mãos, mas isso, é só até as asas ficarem firmes e elas vão para as flores, plantadas para ela e para o Chiquinho.
Eu diria que minha casa é habitada por elas… assim como pelas suculentas, os cambacicas – que brigam com Chiquinho pelo bebedouro – e por essas manhãs melancólicas, mas felizes… quer experimentar comigo elas?
O chá – ou café – pode ser escolhido pelas ervas frescas, quase ao toque de mão através das janelas… assim como a geleia de jabuticaba, ou de menta – que eu aprendi a fazer recentemente – com pimenta. Mas, se você preferir o café, eu ainda o faço da maneira antiga, no coador de pano, torrado e moído pelo meu pai, vindo lá do lugar onde ele mora… e só não vou te dizer que ele plantou, porque a força dele já não dá mais para isso.
Sabe, Roseli, te mostrar meu canto, mesmo que em fotografias e palavras me faz sentir nostalgia sobre a época dos encontros…
Eu sempre fui de casa cheia, de risos largos, de manhãs de domingos com a cozinha em polvorosa na preparação da macarronada com queijo, da carne assada e maionese. Mas, o tempo foi levando os irmãos para longe, e hoje, nessa manhã atípica – mas feliz e tranquila – te agradeço pela companhia. Que as borboletas tenham adoçado seu dia e que setembro nos envolva em seus dias na proximidade do carinho.
Abraço carinhoso, Mariana Gouveia Missivas de Setembro Scenarium Livros Artesanais