Alguém me contou a história pelo avesso e vi a sorte no riso de um menino comum. O sábio tinha jeito de louco e o porta retrato trazia apenas asas quebradas. Na folhinha, a magia do dia retratava o dia em que voei. Você acreditaria se eu dissesse que esqueci a cor dos meus olhos e quase disse azul quando me perguntaram?
Deve ser isso que se chama de delicadeza das coisas. Alguém hoje enterrou seu bem mais precioso e de novo estava lá as asas… lembrei dessa mania de voo que me pertence. Para minha lógica comum, sou esse centro onde as ocas rodeiam. Isso de ser de céu é quase um alento aonde tudo é pouso.
eu sabia que esse dia chegaria e confesso que mesmo sabendo dele não estava preparada para o primeiro dia dos pais depois do seu voo. Eu poderia contar as coisas que me aconteceram nesses dez meses de sua partida, na minha ida ao seu lugar, pai… poderia, mas ficaria triste diante de algumas coisas e sei que você não quer isso.
Estive em todos os seus lugares, pai, na minha ida onde você morava e foi estranho ver em alguns dos seus cantos preferidos as teias de aranhas se formando confirmando sua ausência… os pequenos cadeados enferrujados nos portões. O pé de canela morrendo sem ninguém ter aguado. A horta com os restos de cebolinha e coentro, quase deixando de ser horta. Entendo que as coisas do dia a dia não permite que alguém cuide. Há muito que se fazer , inclusive, limpar o lugar, deixar o espaço vazio para que a vida siga adiante.
Sei que essa data se agiganta em saudades e também sei que o locutor da rádio da cidade não vai mais ler nenhuma carta ao vivo, porque o velho moto rádio se calou. As pilhas descarregaram e não tem nem porque trocá-las.
O nosso ritual nesse dia, era a vídeo chamada para os parabéns, as declarações de amor e por fim o riso de despedida. A partir de hoje, vira história essa data… e é por isso que venho dizer do quanto me orgulho em ter sido sua filha e do quanto aprendi com você.
Sei tanto sobre a lua e suas fases, sobre blues, o sertanejo antigo tocado na velha vitrola e o jeito de semear qualquer semente. Também aprendi a arte da benzedura com você, pai… e a entender os bichos, principalmente, os que voam, porque de alguma forma, você me dedicou desde o nascimento às asas. Sou tão grata por isso!
Eu te amo para além desse mundo e de outros que possam haver. Feliz dia dos pais!
Em alguns dias, é dentro da alma que o vulcão expele suas lavas. Em outros, o toque do abraço é um afago diante da manhã. A mão exposta sendo colo, enquanto o objetivo tem como fachada uma lista exposta. A solidão seria um luxo se eu não necessitasse tanto dessa amplitude de aconchego. Os corredores ganham risos quando o que não era mais renasce de novo no toque ofertado. A vida é essa doação de amor. Pudesse eu doar te tocaria. Dentro da palavra fé.
Na minha lista de mulheres que me fizeram o que sou, ela não é a primeira. Mas, é o meu modelo e teve grande influência em tudo que sou. Talvez ela nem saiba que dentro da mulher que sou existe o espelho da mulher que ela é.
Da primeira lembrança, tenho um registro para mostrar: uma foto em preto e branco. Ela vestida de caçadora para uma apresentação da escola. Eu tinha cinco anos e ela… quinze. Eu via a minha irmã mais velha como uma rainha.
Anos mais tarde, a imagem da normalista transformava-se em deusa. O uniforme azul claro – com saia plissada, sapato de verniz, meia três quarto, camisa branca e a gravata – me encantava.
Eu reconhecia o barulho do ônibus que a trazia para casa, todo fim de tarde. Ficava com olho comprido, aguardando que surgisse na estradinha de chão batido para correr até ela e saber tudo que ela havia aprendido durante o dia. Ela não sabe, talvez desconfie… que foi inspiração para a minha poesia, a minha arte e o meu coração porque eu queria ser igual a ela ao crescer.
Vi minha irmã acompanhar a nossa mãe na luta pela vida. Acompanhei a descoberta do amor por um homem e o nascimento dos filhos. Eu sabia que ela era forte, corajosa e precisou ser valente para superar as perdas sofridas. Tempos difíceis que foram se acumulando. A vida exigiu muito dela e ela nem sabia de onde tirava as forças.
Mas eu sabia, era do seu coração. Aprendi com ela o que era cuidado ao vê-la lidar com o nosso pai como se fosse um filho.
Bordadeira e desbravadora. Consciente e sonhadora. Senhora dos rituais da nossa família. Da bá a avó Mariana que não conheci. Mulher da lida com a terra e com os ciclos: do plantio à colheita.
Em nossa linhagem ancestral… é a Matriarca que se vê refletir nos risos das netas. Que aprendeu a cerzir os erros, alinhavar os sonhos e costurar as lembranças em abraços.
E quando pega a tesoura, tecidos e linhas parece consciente de seu papel no mundo… Inspirar!
Quando nos encontramos, ela ainda é a minha “Mia” e quando canta para Manu, Maria e Bianca eu me misturo a elas e completo esse nosso ciclo, de mãos dadas, repetindo cantigas que aprendemos juntas.
Mariana Gouveia Texto publicado no Coletivo Clube do livro Artesanal Ciranda – De quantas mulheres somos feitas. Scenarium Livros Artesanais
Em minha defesa, à mesa, com meus verbos expostos, desde a fome aos cacos das xícaras que quebrei… desde o olho do cão faminto querendo migalhas… ao sonho do livro costurado sobre a mesa.
Bambina mia,
na minha mesa espalho suas cartas e os envelopes laranjas… falar sobre o tema me traz à memória a minha mesa da infância – e já falei sobre isso – sob o pé de sete copas, mas não tenho nenhuma foto para registrar. Mas, se eu fechar os olhos ainda ouço as risadas de todos os irmãos e com alguns passando debaixo da mesa. Em dias quentes, o barulho da faca cortando as ervas em um tec tec antes do almoço. O olho de minha mãe atenta ao ritmo da faca… O controle sobre as cartas, bambina, que escrevíamos ali, na mesa de madeira, que na mudança para cá eu trouxe uma tábua, que se transformou na mesa pequena que me segue desde sempre.
Hoje, minha mesa vira simbolismo nos artesanatos que crio, na mistura do papel sobre as linhas que teço em crochê, nas entregas das encomendas restantes. A mesa cabe a bagunça que a arte abraça.
E como a docilidade atinge meus dias, degusto da fome, da vontade, da leitura e de tudo que afaga a alma.. tudo ali, na mesa que tem coisas da minha infância e coisas atuais. É o que preciso depois de dias difíceis, sem rosas murchando sobre a mesa por falta de água. É o sopro distante da serenidade dos dias onde me cabe. A autora que tão bem sabe de mim e me cede especiarias em palavras.
Sabe, bambina, é a mesa que a família se reúne para as comemorações. Se eu fosse colocar a mesa dos aniversários, dos almoços de domingos, de reuniões de batismos, etc… eu seria crucificada. O olho vermelho da irmã, o bico do sobrinho, o borrão da luz da janela apagando metade da família. Meu olho volta para a mesa do canto, onde os bibelôs – companhias das noites de insônia silenciam – ou não? Fui somente eu que ouvi piados??
O reflexo da luz da rua bate na janela da sala. sou eu quem vejo ilusão na mesa de centro? As borboletas voam na parede da sala. A minha memória guarda as imagens para os dias que não vou poder ver nem na claridade dos dias. O tempo hoje é entre aspas para além dos óculos escuros. Era de mesa que falávamos? Conto sete passos de olhos fechados da sala até a mesa da cozinha… e nove, até a mesa de canto onde os livros para ler esperam… Conto os passos até a mesa de canto do quarto e finalizo a noite, mesmo sabendo que AINDA estou aqui.. no rompante das horas, para os dias que virão.
Bambina, mas em se tratando de mesa… ah, a sua povoa meu imaginário real. Pode isso? Pode sim! Ainda tenho a memória ativa do bolo de fubá no prato, do primeiro livro meu sendo costurado – e nem era cetim ainda.. Lembro-me que mais do que a mesa sob a árvore de sete copas – que serviu de lugar para minha infância e as brincadeiras mil em volta dela – a sua mesa serviu de colo para o meu sonho… o de escrever sentimentos.
O tempo muda por aqui e se eu te contasse quantas vezes a moça do tempo erra em sua previsão você ia dizer que é brincadeira. Está certo, que de vez em quando ela diz: pode chover a qualquer momento – e isso dito dessa forma me dá várias possibilidades. Mas, o fato é que, o tempo muda e um vento frio surge para os lados do Sul e eu te escrevo nesse fim de tarde, quase noite para te dizer que nada mudou. O medo ainda bate na porta, o meu pássaro de todo dia ainda vem para pousar na mão e os girassóis que plantei, devem dar flores em alguns dias.
O céu está estrelado e eu li no poema de uma moça que adoro que: ” numa noite cheia de galáxias distantes, amarraram na sua porteira – sempre entreaberta – uns óculos estranhos, bem mais escuros que o breu dos seus cabelos. Ela sabe que ninguém pode fugir do que está tão perto, do que é sem nome”.
E eu não tenho nome para esse tempo de agora. Porque, às vezes, a vida mistura morte e vida, tristeza e encanto e cabe-nos gerir tudo dentro de nós… nem sempre a gente consegue, assim como a moça do tempo não consegue dizer com certeza sobre a mudança do tempo. Em caso de dúvida, leve um guarda-chuva.
Vi as ranhuras na pele e o vento a debruçar nas janelas vizinhas fazendo as cortinas dançarem. Era o tempo das intenções tolas quando percebi seu sumiço. Você era tão presença que mesmo na distância eu não sentia falta, porque no íntimo de mim vivia pleno.
Foi numa manhã de luto que busquei tua mão e não te senti. Ainda gritei seu nome pelo quintal. Havia apenas a leveza dos insetos sendo consolo em uma tarde que se perdia no tempo, fugindo da previsão que a moça na TV anunciava no jornal do meio dia.
E quando não te achei mais, ali, onde te guardava feito joia, decidi deixar você ir. Era melhor mantê-lo vivo na memória com as alegrias disfarçadas dentro do amor.
E com a vida embaçada de sol recuso o pedido, mesmo porque nada mudou para além das histórias e tudo continua igual ao que o destino preparou.
Hoje, só por hoje pode sentar ao meu lado, até que eu leia todos os livros sobre a mesa.
Bambina mia,
fiquei me perguntando se eu rompia o ritual de te escrever nesse dia ou se corria o risco de ser repetitiva, mesmo mudando as fotografias. Mas ainda assim, como sou dos ritos, vou seguir meu cuore. Só pelo prazer de te escrever. Dessa vez, vamos falar sobre os livros na mesa ou da mesa que recebe os livros, quase como camas, para que fiquem ali, à espera de serem lidos. Antes a mesa acolhia livros alheios… Hoje, acolhem os meus. Se eu retroceder alguns anos atrás, isso era apenas um sonho.
O tema desse julho insano me lembrou a minha primeira professora de inglês e da minha dificuldade com a língua falada mundo afora. Ela era bem jovem na época e tentava fazer com que os alunos se familiarizassem com o one, two, tree, four… o mais engraçado é que ela me encontrou nas redes sociais e se encantou com o Borda-se… Ela lembrou-se de que eu já usava a agulha e as letras, lá nos anos idos da minha infância-juventude. Prometi levar um livro para ela e o farei assim que possível.
Mas, sabe, bambina, que atrevi-me a usara uma foto sua – sorry – porque amo demais essa fotografia, essa mesa e claro, esses livros. rs… Tenho lembranças doces desse móvel e me emociono ao lembrar-me. Sinto saudades dos momentos que passamos ao redor dela e de te ver costurando um a um os livros pedidos. Lembro-me até a canção que tocava no dia…
De vez em quando, esparramo os livros sobre a mesa da varanda, juntamente com suas cartas… Releio uma a uma tentando encontrar a primeira, que perdi dentro de algum livro não encontrado ainda. Sei que está por aqui, entre um verso de algum poema ou de uma poesia. Faço isso, às vezes, para usar depois a frase que me marcou e guardo ali, para futura resposta. Um dia, encontro…
Nessa carta, bambina, não podia deixar de colocar sobre minha mesa as primeiras versões de Lua de Papel I, II e III. As capas já desbotaram em uma parte, porque ao levá-los daqui para ali tomamos pingos de chuva, em uma outrora que choveu. Já sinto saudades da chuva e sei que você também. As nuvens vem, mas mudam seu rumo para além do muro.
Acho que assim como temos em comum tantas coisas, a mesa de madeira também nos ligam em memórias e lembranças… é sempre sentada à beira dela que com um livro em mão ouço seu convite para mais um café… e nunca recuso e em muitas vezes, seu chamado já chega com minha xícara fumegando na mesa enquanto folheio um dos livros costurado. Hoje, sou eu que te convido para mais uma xícara… aceitas?
Quarava os lençóis bordados no sereno, geralmente, em noite de lua cheia com o cheiro de dicuada no ar. A mãe que fazia o sabão, em seu tacho de ferro e moldava as bolas para o dia seguinte… As ervas a ferver para a tintura dos lençóis de cambraia e que a mãe queria mudar de cor. Os olhos, com ondas de mar vendo a correnteza a passar, levando a lua em cada maré. O céu, ponto de apoio para a menina que desejava voar.
Mariana Gouveia Coletivo Sete Luas Scenarium Livros Artesanais