e achei ali, ausência. Minha. Junto das lembranças, um relicário feito de jardim e a flor silvestre no pingente – você transformou a flor que eu trouxe do campo em joia – e as pinturas ao lado do poema que fala de mar, o anel. Uma borboleta de prata, que uma amiga enviou e as conchas marinhas feito versos dentro dos séculos. A ausência era minha. Tão vaga em você. Releio as frases das cartas que não enviei e ali, exponho gotas de saudades, que é para molhar a flor do campo, em seu relicário, para que ela não morra de sede.
Eu passei horas buscando e descobrindo coisas a fazer nesse intervalo que, antigamente, tratavam apenas como férias. Não sabendo lidar com tanto tempo, pintei paredes entre amarelos ocre e brancos padeiro (que não sei bem a diferença), pintei também portas e janelas, a mobília que andava cansada, além de retocar o passarinho e as letras da palavra correio, tão em desuso na era da não-escrita. Mas não foi apenas trabalho meu ócio: tomei muitos cafés do lado de fora e fui à praia de ônibus, estendi a rede para ler ou olhar o céu, cousa que há tempos não fazia, visitei pessoas, dancei, cantei, celebrei e fiz surpresas para mim e para os outros. É possível esticar o que faz bem e digo – sorrindo para mim – que lixar uma parede e deixá-la lisa como uma folha de caderno pode ser algo prazeroso, ressuscitar o passarinho da caixa de correio é bem maior que só retocar o fosco, replantar e plantar e ver brotar é algo vibrante! Feito isso do meu tempo, lembrei de você dizendo que pertence aos espaços maiores dos bons capítulos da vida, pois bem, esse capítulo com o título “Férias” que os mal-amados chamam “recesso”, não foi tão longo quanto nossa humanidade necessita, mas de sentir a delícia de ter um tempo meu, das paredes, de falar com meus botões, de largar tudo e ir ao cinema, viajar de ônibus beirando o mar… Era só pra lhe deixar tranquila ou feliz, Mari. Queria dizer que ando aprendendo a esticar os capítulos bons, mesmo que nem pareçam ser.
Caminho pelas suas ruas e revisito lugares únicos, seus – que conheci ainda menina – a avenida que hoje te corta ao meio era um rio, que desci ladeira abaixo e eu com minhas pernas curtas, atravessava a pequena ponte que me levava à casa de minha avó. As suas palmeiras, hoje, quase caindo, modificadas pelo tempo foram testemunhas dos meus sonhos e da minha vontade de escrever. Por anos, a voz do rádio me levou a ler cartas de amor para toda gente e para os arredores de suas ruas. Ali, enquanto o microfone me fazia porta voz de amor, você crescia e se transformava dia após dia nessa cidade majestosa, mas sofrida. Quando cheguei aqui, ainda menina, fui acolhida pelo teu calor – às vezes, insuportável – mas ainda assim, aconchegante. Sou uma cidadã sua. Documentada e de coração. Conheço teu sabor, teu saber e suas dores. Em cada manhã te vejo com olhos de encantar a alma. Seu céu, infinitamente belo me presenteia todos os dias com suas nuances e cores deslumbrante e no fim da tarde, é magnífica demais para não ser transformada em poesia. Te reverencio em sua beleza. Me compadeço de suas dores. Nas suas noites, me dá de presente seu céu maravilhoso e é agora, diante dele que curvo a você, Cuiabá. Cidade verde que amo. Parabéns todos os dias!
te escrevo nesse cair de tarde no exato momento em que as aves retornam ao bosque para além da rua de baixo… é um ritual que elas seguem diariamente, faça chuva ou faça sol. Parecem que elas seguem um horário predeterminado entre minhas 17: 35 até às 18:15.
Não são aves migratórias… são em sua maioria garças que dormem nas árvores do bosque que circunda a universidade federal. Nunca consegui acompanhar a ida delas, só a volta. Ou elas usam outro desvio para além do meu quintal.
O cair da tarde no meu lugar é variado em suas cores. E claro, que estou entre a parte do fuso que a gente sempre brinca. Quando minha tarde começa aqui, aí já é noite. Então, estou no seu passado ou futuro – nunca lembro. Mas, quando vejo o crepúsculo anunciando o cair da tarde, lembro-me de você.
Mas em algumas tardes, bambina, a lua surge trazendo Marte como companhia e meu encanto me faz te enviar a foto por mensagem no exato instante. Já aconteceu várias vezes, e a tarde se torna mágica enquanto se transforma em noite.
Só que você sabe que moro em um lugar onde sol domina o céu por inteiro e em algumas – quase todas… quase mesmo – tardes ele se arrasta abrasador até a noite chegar de uma vez. Nessas tardes, a despedida do astro rei ressoa no canto dos pássaros, como se com isso, a tarde demorasse um pouco mais para ir.
É quando minha rua se mistura com o horizonte casas acima. Quase suspiro, de tão lindo que acho. Alguns momentos do dia aqui são peculiares – repetitivo, às vezes – mas o cair da tarde muda toda a rotina do céu. As nuvens parecem carregadas de fogo… formam figuras que tento decifrar…
Mas para mim, bambina, o alaranjado que forma quando a tarde cai por trás da casa da vizinha é quase um convite para dançar como se eu estivesse me despedindo da tarde que cai mansamente… Acho que era isso que eu queria te dizer sobre o cair da tarde do meu lugar.
Morreu de improviso as árvores no quintal. O vento veio tão forte que retorceu os galhos, derrubou os ninhos e as sementes voaram se espalhando para além dos muros. Ainda de manhã, encontrei apenas as folhas já murchas no chão. Em cada canto do quintal um lamento de ave buscando amparo diante da tempestade.
Choveu e a água que caiu levou rua abaixo os ninhos desfeitos. O esboço de asas, o ritmo da brisa se misturaram ao eco que o vento fazia. Algo irritara demais o poder que o vento vindo do sudoeste tem. Ficou violento e raivoso. Seu eco espalhou-se pelo bairro todo. Tornou-se penoso amanhecer e o pé de algodão que era sombra e abrigo, virou entulho no meio do quintal.
O meu bosque – árvore de nada nenhum – encerrado em ciclo imposto pela natureza.
Eu falo de fim enquanto a ave me lembra renascimento.
Rasgava a camisa branca a unha… o sangue marcava o passo, o caminho, a trilha por onde andou. O linho desenhado em motivos geométricos. O sistema solar fora de órbita. Continha a palavra sorte na mão.
Jogava as cartas para quem quisesse saber a previsão — do tempo — por que ela própria andava instável dentro das possibilidades de chuva.
Ainda ontem era outro dia e chovia. Hoje não!
Guardara a sete chaves a sombrinha. Pularia todas as poças no mundo da Lua.
Arriscava-se a nomear de novo esse dia… da dor. Estava escrito que haveria um decanato dentro desse período lunar. E muito embora nem fosse cheia, marcava o céu em seu dilema de satélite.
Mariana Gouveia Desvios para Atravessar Quintais Scenarium Livros Artesanais
Agora a pouco choveu e a tarde que se desenhava nublada, de repente, amarelou. Eu já havia dito que o meu pé de ipê é brincalhão e não obedece de jeito nenhum as estações. Em pleno outono ele deu para florir de novo.
O ipê me lembrava sempre minha mãe, por causa de coisas que vivi na infância e as canções que remetia à flor ouvidas no velho motor rádio, mas agora, o ipê também me lembra você e sei que é recíproco. A gente atravessou 2024 para 2025 e de repente foi como se tivéssemos atravessado um século inteiro e o último mês pareceu uma eternidade… Falamos isso por telefone e é estranho retomar o caminho da escrita, ainda com a mobilidade reduzida, mas precisava te seguir nesse abril, para que mesmo à distância – mesmo com tantos te rodeando – você não se sinta sozinha.
Sabe, bambina, não preciso dizer do quanto quis atravessar nossos quintais e ficar em silêncio ao seu lado e nem de como nossas dores couberam uma dentro da outra… tentei te mostrar o lado de cá para te aconchegar no meu carinho do lado daí. Não consegui sair desse quadrilátero que se forma aqui, nem ver os planetas todos alinhados, mas vi um vagalume e chamei seu nome e grito ele bem alto quando trovoa por aqui.
É assim que a gente se encontra e se busca nos ritos entre nossos quintais… é assim que consigo te encontrar no meu cuore cada vez que penso em você… é assim que a gente fica esperando o amanhã,… queria estar junto, ao alcance das mãos, mas como a poetisa que vive em mim diz: e quem disse que é precisoestar juntos… para estar perto?
E chegou o último 6 on 6 do ano e o tema ganha meu coração, você sabe bem. Quintal me traz a palavra afeto e calma. Eu poderia te escrever mil cartas sobre meu quintal e retratá-lo em mil fotos também. Tenho muitos quintais dentro do meu quintal e te ofereço todos os dias um pouco deles. Há o meu quintal das borboletas, das joaninhas, das flores e suas trepadeiras exuberantes. Das aranhas fiandeiras, das rachaduras no cimento e até mesmo do muro que o cerca
Mas hoje, dou-te os meus pássaros – que você conhece tão bem – e seus voos ou pousos, porque afinal de contas o quintal é a morada e o desvio deles. É no meu quintal que meu pássaro de todo dia nasceu e escolheu morar. Chiquinho é esse habitante desse espaço cheio de flores plantadas para ele, além do seu bebedouro ficar sempre a disposição.
Sabe, bambina, algumas histórias e pássaros nos ligam… a gente já falou sobre isso e quando amanhece aqui, meu quintal recebe os pássaros famintos que vêm apenas de passagem. É como se meu lugar fosse o espaço para eles se apresentarem em cantorias e voos, além da comilança das frutas e rações que deixo para eles.
As muitas das nossas conversas acontecem no meu quintal, debaixo do pé de ipê, perto dos fios dos varais onde o bem-te-vi busca a segurança antes do voo para a árvore que abriga seu próximo ninho. Você se lembra de que eu te falei sobre o afeto dentro da palavra quintal, que li em um blog dias desses e dentro desse afeto você agora tem um quintal também e isso me enche de ternura.
E sabe o que é mais bonito em você ter um quintal para chamar de seu? É que a gente faz essa transição entre meus pássaros e os teus, minhas flores e as tuas, meus ventos e até minhas chuvas se interligam nas suas… O bem-te-vi cata aqui e em nossa conversa, o seu canta aí… e claro que entre o meu e o seu poderia ser rodeados de aspas, porque quem tem um quintal possui a liberdade plena de ver a vida ali, entre voos e uma folha caindo… a flor de maracujá se abrindo para no dia seguinte o fruto surgir.
Mais um quintal é sempre cheio de surpresas, bambina… seja nos pássaros novos que surgem, talvez trazidos por outros pássaros, ou mesmo seguindo a rota dos desvios que atravessam meu quintal, seja pelos rotineiros que trazem um galho para a feitura do ninho.
Ah, bambina, e você sabe que do meu quintal, um dos momentos mais felizes são os banhos do sabiá laranjeira que te mando em vídeo quase todas as vezes – lá vem mais um dos vídeos de Mariana… você deve pensar! Ainda há muitos pássaros para te dar, mas aqui só cabem as seis fotos… mas esses são os que te ofereço para além dos muros e de cada quadrilátero onde denomino de meu. É aqui onde me caibo nessa transição entre meu e o seu quintal para te derramar o afeto que a palavra me abraça.
nossa, amanhã, já é dezembro de novo! A gente sempre repete todo ano que o ano voou… mas 2024 veio vestido de vento e causou um imenso tumulto aqui e sabe aquela frase que virou meme- que não me lembro de quem é agora – de que a poesia salva? Salva mesmo, Su…
2024 foi um estampido nos calendários, nas conversas com as pessoas e olha que a gente teve um avanço imenso com a realidade do país. Mas era tanta coisa errada de um desgoverno bandido que vai levar muito tempo para que a poesia nos salve de vez.
Sei que sou muito de acolhida, de dar colo de mãe, de unir laços, mas são poucas pessoas que alcançam minha alma de vento. Esse ano fui tolhida dessa leveza que o vento me traz e fui bombardeada pelo vento que causa tumultos para além de derrubar flores do ipê rosa da rua de cima. O universo me tomou pessoas, me deixou em suspenso feito lençol voando no varal… mas eu consegui me segurar.
Deixei de estar em tantos lugares e de ver/ler tantas coisas… logo agora que eu tinha tanto tempo o não pode me fazia querer ser a flor que voava além do muro. Sei que por aí muita coisa também mudou, embora não falamos sobre isso e sei que a coragem também entrou pela janela trazendo a maresia como puro aconchego e é assim que a gente segue… aspirando as flores, acalentando com as nuvens ou aspirando a brisa do vento.
Que a gente consiga sempre fazer poesia, Su… é isso que nos une mesmo com tantos mil quilômetros nos afastando.
beijo meu,
Mariana Gouveia BlogVember via Scenarium Livros Artesanais