Das rotinas · infinitamente

Antes do temporal,

na rua de cima – era ainda a manhã e o sol de todo dia – os ipês festejaram o vento e espalharam suas rosas e as paletas de cores a desenhar o céu.

As crianças brincavam na rua com seus gritos e falas apressadas. Um gato subiu no telhado e a ave de todo dia dormiu no varal que dançava com as roupas e seus prendedores…

Li Clarice em um instante do dia, uma frase qualquer, dessas que todo mundo repete por ser o dia do poeta – como se poeta precisasse de dia para ser – e tomei chá gelado.

Da varanda eu via as nuvens e sua pressa em correr o céu e as flores que ainda eram da árvore desprendeu – se todas e fizeram um tapete no chão.

E de repente, como se os ninhos fossem sobreviver à tempestade das coisas, veio a fúria do dia dentro do vento…

Alguém contou o que se passou sobre as águas… havia o menino tentando afogar os brinquedos na poça que se formou no quintal.

As mulheres recolhendo a roupa do varal e os muros sendo derrubados onde a parede morreu.

Como se a terra fosse feita de papel e as fronteiras com o medo fossem feitas de nada nenhum esculpimos as palavras em orações e alguém desejou a sorte do dia.

E onde o vento bateu fiquei sem saber o nome das árvores…

Foi quando o abraço conheceu o sentido do afeto.

Mariana Gouveia
das infinitudes

Divã · infinitamente

Tem jeito de anjo, a moça

mas passou a ser indecente
olhar perdido nas nuvens
Resolve ser na mão de alguém

Vivendo doces mentiras do dia,
na noite se fantasia com asas
e pensa em salvar o final feliz da história.

Enclausurada, lá pela meia noite tira a roupa
Traz sempre um cheiro de rosas
(anjo cheira a nuvens – eu acho)

exala amor novo
Sabe ser quente
sabe ser porto – ela diz

e no conto de areia de água doce disfarçada de mar
quer um final feliz.
Satisfazendo os desejos dela dou-lhe o céu e fim

Mariana Gouveia
*imagem: Kamil Vojnar

Das palavras das cartas · infinitamente

E se voássemos para onde o sol se dobra?

Se alguém já não tem a terra,
mas tem a memória da terra,
então sempre pode desenhar um mapa.
Anne Michaels

Luci,

Eu já vi uma árvore desencantar e foi essa da foto, Luci… Ela ficava no quintal da vizinha da direita e eu só via seus galhos e folhas. Era uma goiabeira – igual a sua – e servia de morada para grande parte dos passarinhos que visitam meu quintal hoje.

Naquele tempo, Luci, eu não tinha tanta árvore grande. As minhas cresciam devagar, de acordo com o calendário das árvores – você sabia que elas têm um calendário próprio, Luci? – então, por isso, eu agradecia a goiabeira da vizinha por abrigar os pássaros que voavam por aqui.

Um dia, fui reparando que ela estava ficando murcha, quase seca e de repente, tudo secou. Nesse dia, eu chorei. Fiquei lembrando do sentimento que meu pai sentiu quando o pé de cedro que ele plantou – quase igual a música que ele gostava de cantar quando eu era ainda menina – morreu…

Acho que nunca contei, Luci que meu pai era lenhador antes de ser pai, tinha até uma fotografia em preto e branco, num quadro da nossa sala, onde letras garrafais escritas por alguém importante da cidade dizia ele ser O Rei dos Machadeiros… mas ele mesmo disse que havia plantado o pé de cedro para justificar as árvores que ele arrancava, seja para desbravar lugares, cidades ou mesmo na formação de roças.

Mas, um dia, ele ouviu uma árvore gemer, logo no primeiro golpe de machado. Foi ali que ele aposentou seu machado de vez, quebrou o quadro e depois disso, passou a criar florestas por onde a gente passasse.

Eu agora, Luci tenho no meu quintal um pé de jabuticaba, de algodão, de orai pro nóbis, um de ipê amarelo – que tinge meu quintal de dourado de vez em quando – e um pé de guariroba – uma espécie de palmeira – além outras plantas menores. Lembro-me de que meu filho quando veio de férias estranhou quando abriu o portão e disse: temos uma floresta aqui?

Para além da rua de cima, tenho árvores de estimação em alguns lugares preferidos. Um flamboyant na estrada da faculdade, um ipê rosa no ponto final da linha 609, um ipê branco no estacionamento do shopping, um araçá na rua de baixo e tantas outras em lugares que gosto de ir.

De vez em quando vou visitar esses lugares para falar com essas árvores, Luci… um dos meus amigos pajés me ensinou para abraçar elas quando minha alma estivesse triste. Isso tem funcionado, de alguma forma, em dias difíceis. E fiquei pensando se não seria elas algumas pessoas encantadas me consolando…. será, Luci? Eu não sei explicar sobre isso. Quem sabe um dia teremos uma resposta. Por enquanto, seguimos o calendário do sol, que já vai alto por aqui. E se voássemos para onde o sol dobra, Luci? Seria também uma espécie de encantamento?

Um beijo carinhoso,
Mariana Gouveia

Das rotinas · infinitamente

Dessa vez, para sempre.

Esses vãos escondidos no branco dos olhos
criou de tanto olhar, saudade.
E a chuva não aguou os instantes
que seriam para a eternidade.

Ah, esses vãos subtraídos
dos instantes todos
recolhem vestígios de gozo
nos dedos
sabor agridoce na alma
e cheira a lua que todo mundo espia
e que reflete a vontade
e o silêncio que dura uma eternidade.

Ah, esses desavisos de agonia no peito.
É noite, onde pisei descalça
em homenagem ao sonho que fica e dura.
Essa ansiedade toda de que a lua faça
você abrir a janela, pensar em mim e voltar.
Dessa vez, para sempre.

Mariana Gouveia
Ph Philippe Deutsche

Das palavras das cartas · infinitamente · Projeto Fotográfico 6 on 6

6 on 6 – MISS you

Em voz alta, ensaiei o teu nome:
a palavra partiu-se
Nem eco ínfimo neste quarto
quase oco de mobília

Quase um tempo de vida a dormir
a teu lado e o desapego é isto:
um eco ausente, uma ausência de nome
a repetir-se

saber que nunca mais: reduzida
a um canto desta cama larga,
o calor sufocante

Em vez: o meu pé esquerdo
cruzado em lado esquerdo
nesta cama

O teu nome num chão
nem de saudades

Ana Luísa Amaral

Leonor,

Muitas vezes eu quis mudar o calendário, ultrapassar as rotinas e te esquecer. Mas, todos os dias, nos rumores que a casa vazia faz – logo pela manhã – vem seu nome ecoando lembranças e saudades. Mentalmente, refaço os rituais e passos dos dias em que esteve aqui e dos dias em que se foi, deixando apenas a casa cheia de saudades.

Já te contei que mudei minha rota para não passar perto de onde seu olho se encantou pelas flores do ipê? E que mesmo não atravessando a alameda onde antes era um lixão, eu canto a canção que fala dessa saudade.

Devo confessar que já rasguei algumas cartas sem enviar e que rabisco seu nome em tudo que é lugar. E quando vejo as nuvens se enfeitando como se fossem bolas de algodão, eu recordo as manhãs que o céu do meu lugar te presenteou.

Para a gente, o olho buscava sempre a imagem que marcaria o momento – tão nosso – e se eu soubesse que você se afastaria de vez, não iria permitir tantas lembranças para memorizar agora. A gente sempre via coração em todo lugar e hoje, só vejo metade dele nas folhas, nas flores, no céu.

Como se até a natureza soubesse que sou essa metade insana dentro da saudade que sinto.

Acho que já me acostumei com sua ausência, Leonor… o que não me acostumei foi com essa saudade quando ouço as canções que falam de nós, dos poemas escritos como declarações de amor e com o vazio que ficou em mim.

Mariana Gouveia
Projeto fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam junto comigo desse projeto:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Suzana Martins Roseli Pedroso

Das palavras das cartas · infinitamente · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Estou sozinha. Entre dois mundos.

De quando em quando o tempo sai dos livros e inscreve-se nos corredores das casas nas prateleiras dos móveis e observa mudanças iguais neste presente passado.
Não compreende que como ontem,
hoje foi amanhã, e depois, é quase sempre agora.
Quando saio de mim só quero poder voltar para encontrar a prateleira, o corredor
e encontrar o tempo cá passado, mas bem arrumado, a dias, por meses.
Como sono para ficar no inconforto do vago, no corredor deste dia a dia, surdo.
Como sei das rotinas, das minhas, nunca me cansaram as dos outros.
Gonçalves de Sousa

Bambina mia,

Enquanto te escrevo penso na hora que você já viveu e que sempre invado com meu passado estranho. Já estranhei muito esses fusos – hoje, não mais – e agora até acho lindo ganhar uma hora quando vou te ver e perder uma quando volto do seu lugar. É como se estivéssemos em dois mundos diferentes, mas um dentro do mundo da outra.

Quando li seu texto meses atrás veio na memória o que vivi com você na Paulista. A minha passagem pela famosa avenida da Paulicéia desvairada não poderia ter sido mais emblemática para mim.

Você disse: eis a Paulista! E foi me guiando pelas calçadas para não esbarrar em ninguém. Esse cuidado sempre me comoveu durante nossos passeios pelas ruas do seu lugar. Lembro-me do moço vendendo cds… o outro, com camisetas nas mãos, a mulher com brincos grandes e roupas coloridas – você sendo minha guardiã para que não me barrassem – e uma figura tridimensional vindo em nossa frente.

“o que é que acontece para que, dentre tantos estranhos, um único ser salte aos olhos, de tal maneira, que me invada-preencha-e-ocupe-total-mente?”

Essa sua frase me fez lembrar dele. Juro que por muito tempo fiquei com aquele ser na minha cabeça. Tão branco que parecia ser transparente e pensei que ele poderia ter vindo de outro planeta – falávamos da mesma pessoa, amore? – e sempre que me lembro da Paulista, ele vem em minha memória. Lembro-me que você falava sobre um edifício e explicava alguma coisa sobre o grafite estampado nele… mas, eu fiquei impactada com ele vindo em nossa direção.

Nossos olhos se encontraram… e eu vi gentileza dentro deles. Lembro-me da essência ou aroma que emanava dele… Cruzou por nós e se foi como se fosse um sonho. Com sua roupa branco metálica como se fosse de outro mundo e como se adivinhasse meus pensamentos você disse que a Paulista vagueia em universos paralelos. Nunca falamos sobre isso, mas é uma memória que me conduz ao meu primeiro dia com você.

Isso acontece muito entre a gente… as suas memórias sempre se intercalam nas minhas. E coisas que vivi atiçam as lembranças que tuo cuore carregam. Quantas vezes já me emocionei com o carrilhão do tuo nonno? Já te contei que eles me fazem lembrar do relógio Orient que meu pai por tantos anos carregou no braço direto?

E o dente de leão que a gente sopra espalhando os desejos ao vento? Em sua língua materna, se chama soffione… Achei tão lindo que repeti a palavra tantas vezes que fiquei em dúvida se tatuava a flor ou a palavra em mim. Foi como se eu tivesse ouvido a palavra dita por você em áudio em uma manhã de segunda.

É engraçado escrever no quarto. Geralmente, vou ao quintal para captar essências do que quero escrever. Mas, de repente, lembrei-me da última vez que nos vimos. Você costurava livros, a gérbera vibrava na janela do seu quarto e eu vagava nos mundos que nos ligou. Nunca fui tão grata ao universo como aquele dia.

Tocava Try na sua playlist e havia janelas abertas na quadra vizinha. A gente ria de coisas aleatórias… o café servido pelo Marco, a Jane dog aos seus pés e eu guardei essa imagem na memória para lembrar em dia como hoje até chegar à próxima vez para criarmos mais lembranças desses mundos nossos tão diferentes e tão iguais.

Bacio
Mariana Gouveia
Missivas de Primavera
Estão junto comigo nesse projeto
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins

Das palavras das cartas · infinitamente

 Um dia destes. Dizem que é quando menos se espera.

Mãe,

foi no dia de hoje, há 40 anos atrás que a gente conversou pela última vez. Ainda me lembro das frases do diálogo e como aquela noite era um prenúncio de sua partida.

Dizem que o universo sempre nos envia recados, mas eu era menina ainda, e só sabia ler poesias e não entendia nada de sexto sentido. Ou até entendia. Mas, não queria saber.

Sabia que isso podia acontecer em qualquer dia. Um dia destes que a gente quer rasgar do calendário. Dizem que é quando a gente menos espera. Em uma noite, estávamos falando de lua, estrelas e mariposas e no outro, você já era estrela.

Naquela noite a gente ouviu Tristesse que era tema da novela Sétimo Sentido – que passava na época e você amava – em uma radiola antiga. A calçada alta fazia a rua parecer distante e falamos de sonhos – os meus – e de como você se orgulhou ao ouvir minha estreia no rádio. Eu, uma menina ainda nos meus quase 16 anos estreava um programa de rádio. Era seu maior sonho me ouvir através das ondas do rádio. Falamos dos meus irmãos… e você dizia como eu deveria cuidar de cada um. Falamos de silêncio, de como as palavras nos moldam, nos podam e de como eu deveria dizer no rádio para atingir os corações de quem me escutar.

Depois, veio a mariposa enorme e pousou em minhas mãos e você falou sobre acolhimentos, superação e coragem. No outro dia, eu era puro medo. Medo de seguir sem sua orientação. Medo de me perder nas escolhas e medo da sua falta.

As coisas nunca mais foram as mesmas, mãe… As coisas mudaram e mudam o tempo todo e de vez em quando a coragem me falta nesses vãos da vida. Mas, eu sigo firme aqui… e repito várias vezes as frases que dissemos naquela última noite sua nessa vida.

Você deixou poucas fotos e a gente quase nem tem registros de momentos juntas. A foto que ilustra essa carta tem você e seu vestido florido, em preto e branco – o primeiro, depois de um luto quase eterno desde a morte do meu avô – mas que me lembro das cores lilases das flores e que já costurei vários iguais, só para te sentir mais perto.

Sabe, mãe… eu agora crio histórias, e o rádio ficou apenas nas lembranças. Mas, eu vivi muitos anos dele. E conquistei pessoas que até hoje rondam minha vida. Você não ia acreditar que hoje, através da internet uma rádio pode ser ouvida em qualquer canto do mundo. As coisas não são mais as mesmas. Tantas coisas você deixou de viver e sentir.

Mas, sabe, mãe… de uma coisa você estava certa. As minhas mãos se tornaram pouso para muitas coisas. Aves, pessoas, insetos, borboletas… tudo que você pensar, pousam em minhas mãos. Basta tê-las estendidas.

Eu ainda deixo as portas abertas para o vento entrar. Eu ainda assovio para chamar o vento… eu ainda olho para o céu buscando imagens em nuvens e eu ainda falo com você em voz alta, como se estivesse aqui, por que sei que de alguma forma você sempre estará… e eu ainda sigo os ensinamentos seus para ser uma pessoa melhor.

Te amo infinitamente!
Mariana Gouveia

infinitamente

*Feliz primavera!

Andamos lado a lado enquanto eu ia em direção ao ponto de ônibus. Percebi como ele cresceu, e senti que ele queria falar e começou a dizer:
– Eu não entendo algumas coisas.
– Para te falar a verdade eu não entendo muita coisa também. – Tentei buscar uma explicação mais plausível para que a conversa fluísse normalmente – eu, por exemplo não entendia por que meu filho adorava ouvir Link Park. Hoje, eu entendo.
– Entende Link Park?
– Entendo a poesia através dos instantes que meu filho ouvia Link Park.
 – Não entendo poesia.
– Não é para entender. É para absorver.

Silêncio…

– Como se absorve poesias?
– Sei lá. Fecha os olhos, respira…inspira. Solta o ar e você acabou de comer poemas.
– Humm. Acho que sei como é.

Silêncio…

 – Esse silêncio é poesia?
– Pode ser. Depende da maneira que você vê.
– Então tudo que vejo pode ser poesia?
– Sim e não.
– Pode ser mais específica?
– Esse momento pra você é o que?
– Puxa, eu pergunto e tu me tascas pergunta pior? Quando converso com você minha alma fica leve. Vou embora mais sábio.

– Poesia. – Digo isso emocionada, mas não o deixo perceber – Isso é poesia. Só depende da maneira que você vê. Quando a menina da sua escola, passa por você e parece que o vento vai atrás dela e seu coração dispara quase ao ponto de sair da boca e você mal consegue disfarçar, isso é poesia.
– Isso é bruxaria. Te contei isso faz dois anos e tu lembra?
– Me lembro de muitas coisas que falamos e isso também é poesia.

– Sabe que dia é hoje?
– Sei e isso para mim também é poesia. O dia em que você nasceu e quando você nasceu nos meus braços e eu te mostrei pra sua mãe… eu disse a ela que você nasceu abençoado.
– Hum…
– É verdade! Você nasceu no dia em que se inicia a primavera… A estação mais linda… e por onde passar levará e espalhará sementes de bondades. E eu, fui a jardineira que ajudou você a nascer.
– Gosto quando você fala dela. As lembranças que mantenho vivas em mim são das coisas que me fala.
– Também trago muitas lembranças dela em mim. E a sinto mais viva nessa época. Você só precisa lembrar dela com carinho e viver teu caminho, cuidar do teu jardim… e isso é poesia.

Silêncio…emoção…

Entrego uma coletânea de Fernando Pessoa em um papel de presente. As palavras vagueiam entre nós com cumplicidade.

– Uma vez, eu ainda era menina. Nós fomos à beira de rio pescar e lá na beira do rio, eu comecei a construir uma casinha de areia porque nessa época eu nem sabia de castelos; construí aquela casinha com tanto primor e meus irmãos me diziam que eu era boba ao construir aquela casinha tão linda, ali de areia, se íamos embora no fim do dia e eu não poderia levar a casa comigo. Na hora, eu quase parei de fazer e ia desmanchar tudo, mas, eu retruquei e disse:

– Não vou poder levar ela comigo, mas vou poder dizer que fiz a casa de areia mais linda que pude e vou levar comigo o sentimento de ter feito e vivido esse momento.

– Seu ônibus tá vindo… mas antes, deixa eu te dizer que enquanto eu fizer anos e mesmo que tu fique velhinha eu vou me lembrar desse momento em que você me ensinou a viver poesia.

– Feliz primavera, menino! Viva tua estação lindamente. O mundo é teu jardim!
 

Entrei no ônibus e ainda pude avistá-lo com o sol colorindo o dia dele. Segui em direção ao dia com a sensação de ter ganhado o mundo…

Mariana Gouveia/Lucas Steffano

* Lucas nasceu em minhas mãos em 2004, em uma manhã de primavera. Sua mãe, Leonora foi uma presença linda em minha vida e se foi em 2012. Desde então, em todo início de primavera, eu e Lucas plantamos sementes em abraços e afeto.

infinitamente

Exorcizada

em sua melhor fase queriam exorcizá-la
colaram nuvens ao seu redor
criaram eclipses,
efeitos solares

em sua melhor noite
inverteram o céu – tão lunar ela era

apontaram-na como bruxa – um caso perdido
que só um ritual complexo poderia curá-la

quando cheia, ela cansou de tudo isso
lambeu os dedos 
e os queimou na fogueira que ardia dentro dela.

Mariana Gouveia
Das coisas breves
Ph: Tumblr

infinitamente

dos seus pássaros que voaram…

ficou aquele na mão, preso – a gaiola dependurada no peito – sem jeito de asa ou ninho. Contei nos dedos os séculos sem você e o relógio na parede, vazio de horas e em silêncio lembrou-me da vitrola quebrada sem os vinis. A dispensa abarrotada de lembranças e o céu rendado de tela não me permitiu te oferecer asas. Não posso ver daqui, pela janela fechada a alegria nos teus olhos pelo voo dos teus pássaros.

… que marítimos não atravessam para meu rio.

… que brigam com os meus

… que migratórios não atravessam o oceano.

… que os meus voam rasantes com medo do voo perto desse abismo.

… que é essa solidão…

que moram na árvore morta onde não podem fazer ninhos nem migrar para te oferecerem asas.
… que descobrem que a estação muda de acordo com o destino do quintal que não alcança a maresia que alimenta o jardim.

Mariana Gouveia