infinitamente

Ao ocaso de uma noite que amarelou a dor.

O ponto de partida foi transformar tudo num quadrado redondo e dali escapar,
pelo tecto.
Talvez um dia, o estado das coisas revele outras formas, sem fronteiras ou equívocos, cumprida na distinta fragilidade de viver.

acp

Francisca,

Eu nunca imaginei que você me pediria uma carta. Uma carta diferente das tantas outras sob encomenda que fiz para você. Nem como presenciaria a fragilidade da vida em seus olhos. Mas, antes de escrever qualquer outra palavra eu sou puro agradecer.

Não te escrevi ontem porque foi uma noite de vento entrando pelas frestas da janela e dentro de mim as memórias tem sido constantes. É quase como se um filme passasse na cabeça. Então, fiquei repetindo: amanhã eu escrevo-te e seu olho pedindo urgência… E só hoje resolvi te falar da palavras cheias de inteirezas – frase tua – e de como a gente quer que os dias durem como se fossem domingos. Desses que não passam nunca e a gente fica pedindo só mais uns minutos para que as palavras ganhem a ordem de viver para dentro.

Com você, eu pude viver tantas coisas que parecem cena de filmes… Frases que trocávamos e que eu escrevia em cartas para sua mãe. E acho que foi assim que te conheci. Quando mudei para sua rua, alguém havia dito que eu escrevia cartas… e ouvi seu sotaque a me chamar no meu portão: mulher, quero que tu escrevas uma carta para mainha. A carta era sempre escrita no último dia de cada mês. Mainha – a tua – morava no Crateus e era em um lugar chamado Saudade que ela recebia suas palavras escritas com minhas letras. E hoje, o último dia de agosto, cá estou eu a te escrever… misturando erros que só a gente sabe o que significa.

Posso dizer que me apaixonei primeiro pelo seu sotaque… depois, pela agilidade do abraço. Seus braços eram como se fossem garras que nos prendiam e protegiam. Já estive muitas vezes segura dentro deles.

Depois, nossos filhos se tornaram amigos, cresceram juntos e foram tantas cartas tuas para alguém que tu amava e eu me sentia a Fernanda Montenegro, no filme Central do Brasil… Depois vieram as miçangas, o crochê… as tardes regadas com suas risadas em meu quintal.

Tu lembra das tempestades que assistimos juntas, na varanda da tua casa? Do bolo de mandioca no lanche da tarde? Dos desenhos que pintamos no muro do seu quintal? E de repente, tu muda de bairro e as coisas diárias se tornam semanais, depois, mensais… Mas as cartas para tua mainha ainda eram escritas, onde você retratava sua rotina e as dos seus filhos… e de como a palavra saudade era repetida diversas vezes… A minha letra escrevia seu amor de filha e os rasgos na memória de quem lembrava do sertão onde viveu… até o dia em que sua mainha se foi…

Depois disso, apenas as memórias na bagagem como quem carrega sua dor e as dores de outras pessoas. E quando você volta, é como se nunca tivesse partido. Habituamos instantaneamente com as mesmas rotinas de antes, os mesmos risos e os olhares cúmplices. A casa 37 da rua de cima era meu refúgio. O lugar onde eu podia chorar livremente ou rir até doer a barriga.

Hoje, seu endereço nem cabe na minha alma. As cortinas que bordei balançando em sua janela ainda borrada da última pintura, que prometemos consertar e nunca tivemos tempo para isso, as flores do quiabo na pequena horta lembrando que ainda falta fazer a receita preferida e o amarelo desbotando quando chega o fim do dia, fazendo nascer um pequeno fruto… Cada vez que me despeço de ti é essa carta continuada que prometo ler amanhã… o som da música que tu gosta vem comigo rua afora… o chão sendo testemunha de nossa história contada nas pedrinhas que piso.

Ainda faltam algumas coisas para fazermos juntas enquanto seu filho não chega. Ainda não te contei o final do livro que escrevi e nem de como vai terminar a história do que estou escrevendo. As coisas nunca mais serão as mesmas depois que você se for, e amanhã, prometo te levar meu melhor sorriso e te dizer alguma frase antiga que surtia efeito… como é que era? Aquela que se multiplicava quase sempre no mesmo diálogo e te arrancava gargalhadas e tu dizia: eita, mulher… só tu mesmo!
Amanhã, leio essa carta para ler em seus olhos a sorte que tenho de estar assim com você, nesse fio de esperança de que a sua partida seja feita de levezas e inteirezas.

Te amo muito,

Mariana Gouveia
Agosto é o mês de Beda e se encerra hoje.
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega  – Mãe Literatura – 
Suzana Martins – Roseli Pedroso

Afetos · infinitamente

Beda – Para além dos dias de afeto

Filha,

será que consigo te escrever? Será que as palavras que tanto amo saberão descrever o que sinto por você?

Eu te gestei no coração… e os nove meses de espera para ver seu rosto me fizeram sua ‘outra’ mãe. Eu te vi bem antes dela. Cantei seu nome ainda no berçário e te peguei nos braços tão franzina que o medo de te machucar me fez te devolver para a enfermeira em seguida. Ensaiei seu nome várias vezes. Mas, para mim, só aparecia a palavra filha. A menina que não nasceu de mim, mas que eu amo como se tivesse te dado a vida. A menina de sorriso largo e que enchia meu coração de amor.

Depois, fui seguindo seus dias. Seus primeiros passos, e o tiiia – quase sua primeira palavra – me fez chorar. Depois chorei com os nascimentos de seus filhos e acho que tenho feito isso a vida toda. A cada dor, eu sofro junto… a cada alegria, rio junto.

Por sua causa, agosto é todo ano para mim. Seu dia me chama no calendário como se nesse dia eu ganhasse um presente todo ano. Não se nasce atoa em agosto… em agosto nascem os guerreiros. Os que vencem qualquer batalha. Os fortes – mesmo quando se sentem fracos – e os escolhidos.

Sabia que quando falo de você meus olhos sorriem junto das palavras? E quando falo de sua família, mas do que genética, meu coração se enche de orgulho do quanto você costurou seus dias dentro da doçura do amor.

Em letras enormes eu digo que você ADOÇA a vida das pessoas ao seu redor e que te envolvo no meu amor por você.

Te amo para além de aniversários e vida afora e te desejo que a vida seja sempre adocicada.

Beijo,
Mariana Gouveia
Agosto é o mês dela e de Beda.
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega  – Mãe Literatura – 
Suzana Martins – Roseli Pedroso

Das rotinas · infinitamente

eu era um quase… uma parte

Foi no dia que te bordei
que a arte fez-se em mim

os pontos – quase toque – cerzidos com a linha de cetim

sua pele – tão alva – ponto cheio

tecendo flores em cada respiro
voos de borboletas
– feito asas –
a linha se desgrudou da agulha e uniu-se a mim

um nó feito
– na véspera do voo –
eu era pouso em ti.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês da arte e de Beda.
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega  – Mãe Literatura – 
Suzana Martins – Roseli Pedroso
arte: José de La Barra 

Das palavras das cartas · infinitamente

Beda – Carta à viagem ao meu lugar.

Cuiabá,

Não sei se minhas lembranças podem evocar o que vivi nesses 40 anos. Posso retratar em fotografia – ou em diários – o que cada dia ficou em memória, como um negativo esquecido na câmera… e de repente, mostrar meu lugar.

O caminhão com a mudança, os irmãos com olhos de curiosidade – o calor sufocante – a rua morna, de calçadas altas para compensar o terreno baixo.

Lembro-me das palmeiras imperiais – que fui descobrir o nome tempos depois – que circuncidavam a avenida principal. Vi um cinema… com seus folhetos e filmes – Annie – e o sol… quase angustiante a brilhar. E um mês depois, exatamente um mês depois, minha mãe se vai e você me acolhe. Aceita meu choro, minhas dores, meu desassossego em suas ruas e me guia nas madrugadas insones.

Você sabe que me abraçou como cidade e como se eu fizesse parte sempre – dos daqui – me mostra as ruas e seus ipês, o riso do moço do cemitério, os colos dos imigrantes japoneses, a rua de terra a me acarinhar os pés enquanto tantas vezes fui choro. Você foi só acolhida. Foi mãe.

Fui crescendo e acumulando dores – esquecendo aqui e ali – e descobrindo vocações. Realizando sonhos – deixando sementes – e retrocedendo… em outros momentos, avançando. Relembrando passagens… resgatando memórias. Sendo guiada pelos seus.

Descobri o quanto você é acolhedora… o quanto você é calorosa – na extensão suprema da palavra – e de quantos os seus moradores te representam. A vida retratada em tantos lugares que fui para chegar até aqui.

Quando aqui cheguei eu era a menina que sonhava com a família unida e que aquele sol que ardia na pele, pudesse acalentar a alma da menina que perdia a mãe. O tchá com bolo… espiá lá! – o sotaque estranho e bonito – os doces, os santos e a voz que o rádio levava rumo afora – o sonho da mãe refletido nas ondas médias em algum zyk 964, indicando a posição geográfica do seu lugar. As cartas ganhando forma vida afora.

O calendário me lembra os quarenta anos. Eu os vivi em tanta intensidade, em tantas fugas, em tantos reencontros e é como se sempre eu fizesse a viagem pela primeira vez. O relógio da matriz a ecoar as horas… os dias e esse vento quente que traduz seu nome.

Hoje, o seu céu tornou-se meu céu… as nuvens – tão minhas e de ninguém… em uma liberdade de ser. Eu andei por aí, e nos becos, descobri que tua força não tem mais a ingenuidade de menina. Você cresceu. Tomou proporção de gigante e  seu tamanho é efêmero porque ainda guarda a singeleza do teu linguajar, se tornou maior do que podia aguentar e ainda assim permanece intacta na simplicidade.

Quando meu olhar, do alto, te alcança inteira me vejo tão pequena… miúda diante de tua grandeza. É como se seu abraço me envolvesse e minha gratidão ecoasse para além das letras.

Obrigada por tanto amor – e tantas dores que me fizeram ser quem sou – sempre!

Mariana Gouveia
Das palavras das cartas
Agosto é o mês dos 40 anos que cheguei em Cuiabá e de Beda.
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega  – Mãe Literatura – 
Suzana Martins – Roseli Pedroso

Das palavras das cartas · infinitamente

Beda – do meu pai ao pai do meu filho

Pai,

Como se corre contra o tempo? Se eu fosse contar os dias me perderia no calendário nos agostos todos em que me vi sua filha… quantas sementes você colocou em minhas mãos para que eu semeasse muito mais do que palavras.

Meu olho de filha segue os caminhos que você traçou para mim, muito mais do que os ensinamentos básicos, eu aprendi sobre a natureza das coisas. Sobre reconhecer os sinais do céu… de como a lua influencia nas marés e de como a colheita tem de ser feitas em madrugadas amenas – antes que chovesse no dia seguinte – para a perda não ser maior.

Acho que uso a data – meramente capitalista – para aprofundar meu amor nas cartas que te escrevo… e lembro-me das vezes em que me falava sobre escolhas. De como eu escolheria alguém para seguir comigo no caminho que eu trilhasse. E eu soube escolher bem, pai…

Um dia, o meu olho cruzou o dele em uma avenida e eu já sabia que se havia alguém que pudesse ser o pai do meu filho seria ele. Até hoje, não sei porque e a amiga que me acompanhava ouviu que eu disse: é ele. Se existe alguém nesse mundo que pudesse ser o pai de um filho meu, seria ele. E foi!

Li em alguns textos e comentários sobre o marido ser parecido com o pai. Durante anos, acreditei nisso… Depois, pensando melhor sobre os pais de nossa família, entendi que o olho da filha sobre o pai é que designa essa teoria. Talvez, a forma em que vejo meu pai tenha trazido para mim o melhor pai para meu filho. Não é cientifico e nem posso provar. Mas posso dizer que minha escolha – ou a do destino – foi certa.

O que posso dizer é que não poderia ter pai melhor… dias atrás, entre suas palavras, afetadas pelo avc meu pai ria com o olhar. Reconheceu tão antes de mim, o homem que me acompanha vida afora na palavra amor.

E assim, dias atrás, o pai do meu filho me guiou com as mãos como se ele fosse o sortudo de ter sido escolhido por mim.

O Universo me presenteia com os melhores. Sempre. Os que riem comigo nos momentos engraçados e os que riem comigo, mesmo em momentos doloridos. Os que silenciam comigo nas coisas absurdas que se apresentam na vida e os que falam comigo sobre bobagens… Os que se tornaram pais por mim-comigo. O meu pai e o pai do meu filho.

Já vi tantos modelos de pais. Já vi tantas mães que são pais também e em tantos momentos que vivi como filha e mãe sou a pessoa mais sortuda. Sou pura gratidão.

Poderia ter escrito duas cartas, mas dentro de mim, um complementa o outro. O pai que me guiou até eu entender os caminhos da estrada e o pai que me ajudou a ensinar ao meu filho como se descobre os caminhos.

Amo vocês!
Feliz Dia dos Pais!

Mariana Gouveia
Agosto é o mês dos pais e de Beda
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – 
Suzana Martins – Roseli Pedroso

Das palavras das cartas · infinitamente

Carta para Antônio.

Antônio, meu amor,

Muitas vezes, eu quis chamar você assim e mentalmente já fiz inúmeras vezes. Queria que soubesse que quando descobri que você crescia dentro de mim, a minha vida mudou completamente. Descobri que eu não seria mais sozinha e mais tarde descobri que eu estava enganada. A solidão de ser mãe é muito mais doída do qualquer outra.
Os meses foram passando e você antecipou sua vinda… Tudo foi tão rápido e ao mesmo tempo, tudo tão lento. Eu ouvi seu choro ecoar na sala de operação e logo depois, o silêncio.

Hoje seria seu aniversário e também é registrado em um documento como o dia de sua partida. Você viveu poucas horas fora de mim e deixou meu coração faltando uma parte. Como eu conto esses 38 anos de ausência? Como eu falo desses anos que não te vivi?

Sai do hospital sem você, com meus braços vazios e apenas com a lembrança de seu rosto na memória. Conheci outras mães que viveram a mesma situação que a minha e isso me trouxe consolo em alguns momentos. Eu era mãe de um filho que não veio para casa

Sabe, meu filho, de vez em quando me pego pensando com que você pareceria e o que estaria fazendo. Olho na rua para algumas pessoas e penso que poderia ser você. Que time você torceria, qual música te tocaria no coração e como seria você apaixonado… Essas coisas me fazem sentir você perto e assim sigo meu sentimento de mãe.

Queria que soubesse que você foi muito amado e aguardado e mesmo não tendo podido viver muito, as poucas horas que tive você em meus braços me fez especial, no sentido de ser mãe.

Hoje, eu quis falar com você e dizer que de uma maneira ou de outra fizemos diferença na vida um do outro. Não sei quanto tempo é possível essa espera, mas sei que um dia irei te abraçar e completar essa parte do meu coração que está com você.

Te amo infinitamente,

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · infinitamente

Das horas em que a vida me sorri.

“Não havíamos marcado hora, não havíamos marcado lugar. E, na infinita possibilidade de lugares, na infinita possibilidade de tempos, nossos tempos e nossos lugares coincidiram. E deu-se o encontro.”
Rubem Alves

amor,

mesmo depois de tantos anos juntos ainda me perco nas palavras para falar com você. Seria tão simples escrever as palavras de amor que conheço e estaria falando de você… mas, ainda assim, isso seria tão pouco. Das coisas que vivemos – e foram tantas – as que ficam na memória são aqueles instantes mais simples. Seu olho traz o brilho que aquece meu coração.

Seu riso quando chega de algum lugar, as brincadeiras banais onde sempre tenta arrancar um sorriso meu, além de tantas outras coisas que vivemos no dia a dia. A cumplicidade nos aproxima e faz com que minha admiração e respeito só aumente. Conheço o barulho de seus passos quando chega e muitas vezes, sem falar, já sei o que está pensando. Não somos um casal comum. Essa palavra não cabe em nosso dicionário, porque o comum não existe e nunca existiu nesses anos todos juntos.

Se eu fosse dizer uma só palavra que te traduzisse seria segurança… você é o chão onde piso descalça, a brisa que me acalenta em momentos difíceis e a mão estendida sempre. A liberdade que grito e busco para além dos nossos momentos me faz acreditar que você estará sempre logo ali, ao meu alcance, caso me desequilibre e caia. E seu riso será o momento mais bonito das horas que vivo.

Te amo,
Mariana Gouveia