Andamos lado a lado enquanto eu ia em direção ao ponto de ônibus. Percebi como ele cresceu, e senti que ele queria falar e começou a dizer:
– Eu não entendo algumas coisas.
– Para te falar a verdade eu não entendo muita coisa também. – Tentei buscar uma explicação mais plausível para que a conversa fluísse normalmente – eu, por exemplo não entendia por que meu filho adorava ouvir Link Park. Hoje, eu entendo.
– Entende Link Park?
– Entendo a poesia através dos instantes que meu filho ouvia Link Park.
– Não entendo poesia.
– Não é para entender. É para absorver.
Silêncio…
– Como se absorve poesias?
– Sei lá. Fecha os olhos, respira…inspira. Solta o ar e você acabou de comer poemas.
– Humm. Acho que sei como é.
Silêncio…
– Esse silêncio é poesia?
– Pode ser. Depende da maneira que você vê.
– Então tudo que vejo pode ser poesia?
– Sim e não.
– Pode ser mais específica?
– Esse momento pra você é o que?
– Puxa, eu pergunto e tu me tascas pergunta pior? Quando converso com você minha alma fica leve. Vou embora mais sábio.
– Poesia. – Digo isso emocionada, mas não o deixo perceber – Isso é poesia. Só depende da maneira que você vê. Quando a menina da sua escola, passa por você e parece que o vento vai atrás dela e seu coração dispara quase ao ponto de sair da boca e você mal consegue disfarçar, isso é poesia.
– Isso é bruxaria. Te contei isso faz dois anos e tu lembra?
– Me lembro de muitas coisas que falamos e isso também é poesia.
– Sabe que dia é hoje?
– Sei e isso para mim também é poesia. O dia em que você nasceu e quando você nasceu nos meus braços e eu te mostrei pra sua mãe… eu disse a ela que você nasceu abençoado.
– Hum…
– É verdade! Você nasceu no dia em que se inicia a primavera… A estação mais linda… e por onde passar levará e espalhará sementes de bondades. E eu, fui a jardineira que ajudou você a nascer.
– Gosto quando você fala dela. As lembranças que mantenho vivas em mim são das coisas que me fala.
– Também trago muitas lembranças dela em mim. E a sinto mais viva nessa época. Você só precisa lembrar dela com carinho e viver teu caminho, cuidar do teu jardim… e isso é poesia.
Silêncio…emoção…
Entrego uma coletânea de Fernando Pessoa em um papel de presente. As palavras vagueiam entre nós com cumplicidade.
– Uma vez, eu ainda era menina. Nós fomos à beira de rio pescar e lá na beira do rio, eu comecei a construir uma casinha de areia porque nessa época eu nem sabia de castelos; construí aquela casinha com tanto primor e meus irmãos me diziam que eu era boba ao construir aquela casinha tão linda, ali de areia, se íamos embora no fim do dia e eu não poderia levar a casa comigo. Na hora, eu quase parei de fazer e ia desmanchar tudo, mas, eu retruquei e disse:
– Não vou poder levar ela comigo, mas vou poder dizer que fiz a casa de areia mais linda que pude e vou levar comigo o sentimento de ter feito e vivido esse momento.
– Seu ônibus tá vindo… mas antes, deixa eu te dizer que enquanto eu fizer anos e mesmo que tu fique velhinha eu vou me lembrar desse momento em que você me ensinou a viver poesia.
– Feliz primavera, menino! Viva tua estação lindamente. O mundo é teu jardim!
Entrei no ônibus e ainda pude avistá-lo com o sol colorindo o dia dele. Segui em direção ao dia com a sensação de ter ganhado o mundo…
Mariana Gouveia/Lucas Steffano
* Lucas nasceu em minhas mãos em 2004, em uma manhã de primavera. Sua mãe, Leonora foi uma presença linda em minha vida e se foi em 2012. Desde então, em todo início de primavera, eu e Lucas plantamos sementes em abraços e afeto.

Que lindeza! Me emocionei 🤍
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Grata, Ana! Abraço ❤
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