Havia papéis embolados na mesa. Rascunhos desfeitos, refeitos, rasgados. Algumas figuras em tentativas vãs de fazer coração. E a necessidade de gritar silêncio.
Lá fora, um rádio toca canções vazias. E uma criança chora na casa vizinha. O sol, como sempre, ardente. Solar. Um para cada habitante do lugar, com todo exagero preciso de minha alma. O céu transmite um azul vibrante. Desses que se for destacados em nomes, seria azul-celeste, azul-azul. Em outras partes dele, azul-bebê. A ave gorjeia no pé de goiaba seca do vizinho. Que sei lá por que, fincou um prego no tronco para que secasse. Não queria ele ser fornecedor de comida de sabiá. Eu quis. Tratei logo de plantar um pé de goiaba novinho para eles. Para o ano, já deve frutificar. Enquanto isso, espalho sementes variadas e frutas, aqui e ali, para ele não migrar para outro quintal. Gosto do som dos cantos deles por aqui e justifico sempre para um amigo que tem pássaro preso em gaiola, que tenho a melhor sinfonia matinal sem prender pássaro algum, eu aliás, é que sou presa por eles. Fico horas aqui, na varanda, observando os pulos, os voos, os rasantes, os cantos que ganham as esquinas e meu quintal. A manhã passa ligeira e a hora me antecede o dia. Finalizo mais uma carta sem escrever. O meio-dia marca minha hora de ir.
Os papéis voltam para seu lugar.
Mariana Gouveia *b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.
Eu já te contei das rotinas dos pássaros e de como eles repetem os gestos no meu quintal? Lembrei-me disso por causa dos seus gestos comigo… Do riso simples, da mão estendida e do olhar de acolhimento dentro dos dias. Poderia enumerar as vezes em que a gentileza do seu olho me abraçou dentro da minha solidão e como foi casa e acalanto nos dias difíceis. Sabe, muitas vezes, o seu silêncio companheiro foi presença enquanto eu brigava internamente com as coisas que não davam certo e você ali, feito olho do pássaro de todo dia como se dissesse: estou aqui – e estava – e bastava uma dúvida na sala ao lado e a presença era sentida e vivida. Às vezes, dentro da palavra repetida em saudade é preciso dizer do carinho para então manifestar o agradecer na alma pelo simples fato de ter sua mão para ser pouso.
Aproveitei a solidão da tarde de domingo para te escrever. As nuvens tomaram conta do céu em seu tom azulado escuro e o cheiro que a terra exalou me lembrou você.
Juro que pensei na singeleza dos seus passos sobre a areia branca da praia e do canto do seu mar, mas aqui, eu tenho além do voo do beija-flor, a chuva que começa a cair. O cheiro é a coisa mais surreal do mundo! Como pode a gente sentir vontade de repartir esse cheiro com alguém, Ana? Você pode responder?
Os cheiros fazem parte de mim… desde pequena, essa mania de sentir a presença de alguém, de reviver momentos são ritmados pelos cheiros.
O pão caseiro da vizinha e o cheiro a invadir os quintais é de suspirar e a vontade é atravessar o portão e ir lá ganhar um pedaço. A torta de banana da padaria da esquina é de enlouquecer, Ana! Não sou muito fã de torta de banana, mas o cheiro dela é emocionante. O cheiro da rapa do arroz de minha irmã é quase uma volta ao passado, lá na infância, quando minha mãe parecia alquimista na beira do fogão de lenha a assar os bolos para o chá.
O café, na madrugada a exalar seu cheiro enquanto me levanto. Chego a jurar que é na casa do senhor Wilson. Nunca bebi café lá, mas já sorvi todos os cheiros do café dele.
Agora, o que queria dividir com você é esse cheiro de grama molhada no quintal e a tarde mansa que descobre em mim a saudade.
Saudade tem cheiro, Ana? Ah, acredito que não, pois se tivesse teria o cheiro do seu perfume.
Beijo meu. Mariana Gouveia
*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.
Cecília entrou em minha vida quando eu ainda era criança, nos livros sem capas, doados por parentes que moravam na cidade grande e as caixas eram encaminhadas para a gente como presente e brinquedos. Confesso que os livros me encantavam mais do que as bonecas sem braços, ou as roupas que ficavam fora de tamanho e que minha mãe se esmerava em adaptar para quem servisse.
As caixas traziam livros variados e eu ficava horas a ler sob o olhar atento de minha mãe para não ler nada “proibido” para além da minha idade.
O poema acima era uma maneira do incentivo a escrever que minha mãe usava todas as vezes em que o caderno era oferecido para um texto – “que se pode escrever de tão claro?” – e dentro dessa certeza e da frase o que era escrito ganhava detalhes na voz dela. E assim, Cecília foi se entranhando em nossas vidas.
Antes de te escrever fui ali no quintal e colhi a erva cidreira e preparei o chá, já conversando com você, meu ritual em alguns dias – olha a lua! Trovoa, bolo, pão, café e chá – nas coisas que me lembram você.
Cantarolo Gadu, enquanto a água ferve e preparo papel e caneta. Já reparou como fica mais difícil escrever a mão? A tecnologia nos deu teclado e as letras parecem dançar na tela.
De chá pronto e com o cheiro invadindo o quintal começo as palavras da escritora e as palavras fluem. Acordo cedo, você sabe, bem cedo e me deito mais cedo ainda, independente dos dias que para mim parecem histórias contadas. Sei que lá fora está um caos. Talvez, aqui dentro dos muros que protegem meu quintal, eu esteja quase igual antes de todo o mundo se transformar. Não vejo a rua. Apenas ouço essa rua barulhenta e cheia de crianças com suas pipas, o casal de idoso que mora na casa em frente da minha, recebe tantas visitas que me assusta e na casa da esquina, um culto religioso com suas caixas de som estridentes me faz pensar que talvez tudo tenha passado e só eu fiquei presa nesse tempo de pandemia – me belisca… já pedi para o moço aqui de casa – enquanto um hino cantado pela vizinha sacode a janela.
Os pássaros de todo dia cantam e adoraram o comedouro que preparei para eles. Reparei que há mais pássaros e alguns de espécies diferentes que apareceram por aqui. O ipê floriu mês passado. Derramou suas flores amarelas pelo quintal e quase formou um tapete. Agosto chega ardente, ardendo. A fumaça rodeia o céu e fico à espera da nova estação que logo no mês que vem chegará, trazendo com ela a chuva e os lírios que plantei anteontem. O pé de jabuticaba pegou e cresce com meu zelo, embora os cães teimem em revolver a terra ao pé dela que tive de inventar uma proteção para ele.
Ah, o bolo de cenoura! Esse, não provei ainda, bambina…, mas os ingredientes já estão preparados para o bem-casado que farei assim que encerrar essa carta que te envio e nela meu abraço carinhoso.
Bacio Mariana Gouveia
*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.
“Quando acordei hoje de manhã, eu sabia quem eu era, mas acho que já mudei muitas vezes desde então”. In Alice no País das Maravilhas
Querida Alice,
É estranho falar com você assim, no meio do meu quintal, através de uma carta – se bem que você já deve ter vivido tantas coisas estranhas que isso seria só mais uma. O meu quintal tem um portão imaginário, que é onde atravesso agora e te escrevo. Tomara que eu não perca a saída quando tiver de ir. O risco é grande, já que é um mundo novo por onde caminho agora.
As borboletas vagueiam por aqui. Pousam em minha mão e buscam as flores da Maria-sem vergonha. Tiro o relógio, Alice, na ilusão das horas não passarem e caso você querer saber se será hora de ir, digo que ainda há tempo. Tempo é essa coisa doida que toma conta da vida e quando você percebe já é tarde demais.
Te conheci ainda criança… quase menina-moça. Ganhei o livro do padrinho que só aparecia em datas especiais, tipo Natal, dia das crianças, aniversários e essas coisas que o mundo mudou com o tempo. Tínhamos a festa da colheita e o pedido era para minha mãe fazer um vestido para mim igual ao seu que vi no livro. Hoje, recordando, lembro que o livro e o vestido se perderam no tempo. Mas, aquele dia em que vesti o “seu” vestido está vivo na memória e posso desenhá-lo a você.
Foram dias de costura… minha mãe se preocupava com cada detalhe e eu, em minha ansiedade de filha ao pé da máquina, a observar o trabalho sendo feito, com mil perguntas sobre os sonhos, enquanto ela ficava a responder quase em sussurros conversava com a máquina que respondia com seu pedal rangendo. Pregava as fitas, fazia o plissado da saia… olhava o livro. Pedia para eu ler e explicava para mim que a ansiedade era normal na minha idade. Eu achava estranho a ansiedade ser normal, mas ela dizia que quando a gente é criança a tendência é achar tudo estranho mesmo.
O azul do tecido parecia esse céu de agora. A maciez do pano me enternecia. E quando vesti, me senti a menina mais linda do mundo. Por alguns instantes, eu fui, Alice! Vestida de você eu fui a rainha da festa e me senti maravilhosa. Os olhos de minha mãe brilhavam e me seguiam a cada direção que eu fosse. Dias depois, ela se foi. Deve estar em algum país no infinito que ainda não sabemos o nome. Virou estrela nesse céu, da cor do seu vestido.
Eu cresci e o vestido se perdeu em algumas dessas mudanças que meu pai fazia. Só que continuei a sonhar com seu mundo e com toda a leveza que as palavras me traziam.
Hoje, vivo a magia da maravilha de viver. Também criei meu mundo de maravilhas no meu quintal, onde os animais têm hora e vez, as borboletas nascem aos montes sempre… e meu pé de hibiscus mutabilis faz a transformação das flores – pura magia. As flores nascem brancas pela manhã e ao meio-dia ganham o tom de rosa mais lindo que há.
O pé de algodão dá flores amarelas e, assim que murcham, preparam seu capucho tão branquinho, que parece as nuvens do céu.
O tempo anda a correr, Alice… tudo passa tão depressa agora, que contando isso para você, parece um século. O tempo voa! Até o meu relógio que fica num tique-taque incessante numa frequência absurda. Ao menos tudo fica meio calmo nas manhãs pouco antes de eu entrar com minha senha do seu mundo para o mundo real. As manhãs é a melhor parte, porque é quando meu beija-flor vem… e pousa no meu colo enquanto converso com meu amor. Vou dizendo sobre o movimento das nuvens e até mostro o laranja a se desenhar no céu. O relógio, por vezes me assusta e, quando percebo, tenho de sair em desabalada carreira porque é hora, e ela não espera. Disso você entende muito bem. Mas quando a hora não antecede os instantes, Alice, é mesmo uma maravilha! O sol percorre o firmamento com seus raios, desenhando cores no amanhecer e muitas vezes ele se encontra com a lua numa explosão cósmica de amor. É a coisa mais linda.
Ah, esse tempo maluco, Alice. Às vezes, nem parece passar… veja você e seus magníficos 150 anos e a leveza de menina ainda.
Suas aventuras são lidas e há sempre uma menina a desejar ser você… e é essa a magia que seu nome traz. É essa a magia de se pertencer ao País das Maravilhas.
Preciso ir, Alice… o caminho se abre diante dos olhos e guardo você dentro do seu mundo enquanto o mundo real me chama. A vida é esse momento repetindo instantes. O resto, é conto de fadas. Então vamos lá vivê-la.
beijos,
Mariana Gouveia *imagem: Pinterest Carta publicada na Revista Plural 1900 – Scenarium Plural Editora *b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.
em um dia de sol e de melodias no vizinho. De pássaros no céu em bandos como se tivessem rindo enquanto me lembro do provérbio popular sobre as andorinhas. O verão se foi, com gosto e jeito de inverno. Chovia. Quase nem dava de ver o dia da janela do trabalho. Fiquei lá, por horas, a olhar a chuva e imaginar palavras de cartas.
Pensei que as cartas chegariam em pleno verão, com o sol batendo nas cortinas e roupas quarando no varal. Mas não…elas chegarão no outono e pode ser que até lá, as folhas da árvore da esquina ainda não tenham conhecido o chão. E acho que a mesma chuva de fim de verão ronde por aqui de novo. No outono, quando minhas manhãs ganham tons lilases quando o sol nasce, a minha espera tem sabor de herança. Daquelas que a vida trata de encaminhar. De servir de relicário a vida inteira. Quando as cartas chegarem, e as palavras de poesia encherem o ar do outono, as colocarei em molduras, banhadas nas cores da estação. Me escreva uma carta, meu amor.
Mariana Gouveia
*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.
“Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir. Sentir tudo de todas as maneiras”. Álvaro de Campos
Devo confessar que mudo sempre de lado quando viajo e nem sempre é permitido abrir as janelas. Entre as ruas, enquanto o coletivo se desloca, a paisagem muda completamente. Dos bosques do meu lugar – cada vez mais raros – aos modernos edifícios, as ruas e seus viadutos. As casas antigas e suas vielas.
Lá fora, tudo é barulho. O silêncio acontece internamente. Avisto o cão com seu humano a atravessar a rua. As pombas na praça à espera das migalhas que sobram da barraca de lanches.
É o caminho por onde levo vocês.
Nessa viagem que fiz com vocês, dentro de Coletivo diversificado eu abri cada janela e me deparei na docilidade do Medo de Aden. Perdi-me – perco-me sempre com ela – nos Caminhos de Adriana.
Respirei pelos poros de encanto com Pele de Caetano e juntei os Pedaços de Chris. Ingrid me deixou em Silêncio – mesmo – e de um fôlego só, nem suspirei. Cada palavra me abraçou e passou a fazer parte da minha bagagem.
A viagem é essa troca de perceber lugares, se descobrir no olho do outro e foi isso que aconteceu com Gestos de Marcelo. Já Maria Vitória, para mim é aquela pessoa que embarca, e você não para de olhar. Não cansa de olhar. Quer ouvir a voz, saber nome, endereço e seu lugar no mundo. As Memórias dessa menina se uniram às minhas. E quando essa pessoa desce, você quer descer junto e pedir o número do telefone, a cor preferida, e a viagem passa a ser mais sem graça sem ela.
Os lugares do caminho me deixaram sem voz e a minha Boca abre em espanto. A Tristeza de Obdulio me fez refletir sobre o outro que senta ao meu lado e em silêncio carrega sua dor-confusão-guerra interna e revi cada rosto que conheci nesses caminhos.
Virginia me fez movimentar sete vezes em seu Dilúvio de poesias. Quase pequei por desejar eu ter escrito as palavras dela.
Embarcamos em travessias diferentes, estações opostas, mas ligadas entre si e quando todo mundo se encontra o Coletivo ganha de fato, o sentido da palavra embarcar. A viagem se adere aos detalhes do caminho percorrido, atravessa por atalhos não programados e que acaba sendo a melhor parte da viagem. Passamos a fazer a cidade desperta, insone, comum, original, diferente, como nunca visto e em cada um o gesto novo e com o objetivo é alcançado.
Asfalto e poeira. Poema e poesia. Tempo dos grandes espaços urbanos, das casinhas pequenas nas vilas quase cobertas pelos prédios e pelas suas alturas. O desenho da palavra do lado de fora e dentro, cada um, em seu lugar, caminhantes, tantas vezes de solidão, com suas rotas próprias e o mapa feito da palavra sonhar.
Olho lá para fora e descubro o ponto de chegada – que é o continuar constante de outra viagem – entre o azul intenso do céu e a cidade cinzenta ganhando vida pela janela. A mesma janela que me traz um pequeno raio de sol e agradeço por fazer parte desse Coletivo cuja pretensão é levar até vocês o roteiro. A perceber que o Coletivo é o todo dentro do embarque e que quando chegamos no ponto final já se agigantava dentro da gente uma nova pessoa.
Grata pela companhia de cada um. Que venham as próximas viagens!
Mariana Gouveia Carta publicada na Revista Plural Trezentos e Sessenta – Scenarium Plural Editora *b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.
O dia amanheceu amarelo. O sol, logo pela manhã, rompeu a barreira da névoa e veio radiante. Lembrei-me da moça do tempo com sua simpatia dizendo que os paulistanos viram o sol e citou até os minutos que o sol deu as caras aí. Confesso que achei engraçado e logo pensei em tu – tão cheia de sol – que nem precisa dele para se sentir plena. Mas, estávamos falando de amarelo. Dourou tudo aqui. Precisava ver! As gérberas do meu quintal anteciparam a primavera por aqui e quando chovi sobre elas, com meu regador, me trouxeram um frescor de alma. Na avenida principal, os ipês derramaram suas pétalas de ouro pela calçada. Cedi a tentação de me deitar sobre as flores. Em cada esquina lembrei-me de Van Gogh – dizem que adorava o amarelo – e de uma carta/poema que fiz para minha mãe, onde a vida dourava nossa existência dentro da cor.
Agosto sempre me traz ela com seu vestido amarelo de florzinhas miúdas. Ela irradiava cor. O chapéu feito – por ela – com capim dourado fazia com que ela parecesse um personagem desses de fotonovelas, que ela adorava. Enquanto anotava mentalmente essa missiva pensando em você, e já no fim do dia, a cor desenha a vitrine da esquina francesa por onde volto para casa. Uma escada toda com frases em francês – que julgo ser um poema – e que prometo fotografar, amarelava no meu fim de tarde. A vitrine onde a torre se ergue minúscula, mas imponente e os detalhes desde o manequim às garrafas coloridas me ofereciam a cor. Em casa, o amarelo rompe os aposentos com envelopes amarelos que chegaram do lado de lá do oceano. Trouxeram-me esperança de carinho sentido na pele e sob a luz amarela da luz difusa te abraço e agradeço a pluralidade que me oferece todos os dias. Amo mais!
Grazie!
Mariana Gouveia *b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.
Quando resolvi te escrever, imediatamente pensei na Revolução dos Bichos – que li lá na minha infância. Aqui no meu quintal, a revolução acontece de forma, às vezes, pacífica entre os “moradores” do meu lugar. Todo mundo tem o seu lugar.
Embora, tenha aqui dois caninos – Lolla e Yoshi – que quase mandam na casa. Assumem os sofás, camas e cadeiras e aceleram na correria quando veem bichos que voam. Mas, quem manda aqui é Chiquinho – meu beija – flor – que se acha quase humano, acredite. Ele ataca qualquer intruso que ousa chegar perto de seu bebedouro ou de mim… apesar de que, os cambacicas – os intrusinhos, nome que dei – rompem essa guarda e conseguem saborear o néctar preparado para ele. Até mesmo nas flores de hibiscos e lantanas ele faz revoar as borboletas e implica com o Louva – Deus que mora logo ali, no pé de boldo. O poder aqui, é dele.
Aqui, tenho a leveza das joaninhas – de várias espécies e cores – e que travam guerra com os pulgões, que insistem em querer comer as folhas do pé de jurubeba e as do algodão. Com ela, minha guerra é com os tamanhos. São tão pequenas, que preciso vistoriar o lugar onde me sento, piso, ando. Até a horta… cercada para que os cães não estraguem viram espaços para elas ou outros insetos oportunistas.
Meu caro George, é dentro desse muro onde resguardo meu lugar que preservo minha lucidez. O sonho de poder aqui dentro é de tranquilidade. Lá fora, a persuasão e manipulação continua tão atuante ou até mais de quando seu livro foi escrito.
“Todos os animais são iguais. Mas alguns são mais animais do que os outros.” – George Orwell in, A revolução dos bichos
A verdade, é que, mesmo com tantos erros não aprendemos e continuamos a errar nas escolhas. Os tempos só mudaram nos dias. Seu livro é tão atual que parece que foi escrito agora.
O fato é que ainda vivemos a indefinição e talvez, isso seja o ponto principal de seu livro:
“Fechai os ouvidos quando vos disserem que o Homem e os animais têm interesses comuns, que a prosperidade de um é a prosperidade dos outros. É tudo mentira.”
Aqui, no meu quintal, o interesse será sempre deles.
Abraço,
Mariana Gouveia Carta publicada na Revista Plural (F.451) – Scenarium Plural Editora *b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.
“Não aguento mais ser chamado de pau rodado Já tomo licor de pequi, já danço o Siriri Como bagre ensopado Sou devoto de São Benedito Até já danço o rasqueado Sou devoto de São Benedito Até já danço o rasqueado
Adoro banho de rio, vou direto pra Chapada Na noite cuiabana tomo todas bem gelada Sou viciado no bozó, pescaria e cururu Tomo pinga com amargo Como cabeça de pau
Eá, Eá, Eá, só não nasci em Cuiabá Mas no que eu cresci Meu bom Jesus mandou buscar”. (Pescuma e Pineto)
Não nasci aqui, mas de fato talvez tenha nascido. Ou nasci lá… O nascer verdadeiro foi em outro Estado, e talvez possa ter inventado – eu explico – essa miragem do lugar da minha infância. Mas, quando cheguei aqui e me deparei com ruas circundadas pelas palmeiras já centenárias e ipês floridos… duvidei do que via – e passei a “inventar” minha cidade de morar. O cheiro do quintal e suas mangueiras a cantar frutos para o vento… Os pés de cajus a servir de comida para os pássaros pareciam desenhados na minha memória. O pomar era no fundo da casa da vizinha… no meu próprio quintal e calçada afora, dentro do espaço por onde passava. O linguajar do povo em sua melodiosa prece… as igrejas a desejar a fé nos infinitos terços nos dias da semana. O rio que dá o nome à cidade… a abraça até avançar rumo ao Pantanal. Circunda os bairros e dá alimento aos moradores. As ruas antigas contrastam com o moderno. Ali, onde cato poesia, descubro o avesso desse lugar que amo… Adoro essa rotina radiante de dia de sol e seu calor abundante que colore meu quintal… minha rua – meu lugar. Mas, amar essa cidade gera conflito… porque ela mudou tanto, e ainda assim, continua igual. Antigamente, era tranquilo descrever meu amor por ela… na calçada onde as famílias sentavam para contar seus velhos causos. Meus olhos avistavam a vida na leveza do vento que batia nas folhas da mangueira, que me traziam sombra e aconchego. Eu não entendo mais esse lugar como antes…e, talvez, você perceba que é isso o que me encanta. Já não há mais cadeiras nas calçadas e nem a criançada a brincar de pipa, bolinha de gude e pique-esconde. Tudo se tornou tão distante das vilas, e os prédios multiplicaram aos meus olhos. Sinto falta dos lugares feitos para mim… onde me encontrava em poesia e rabiscava nos muros os meus primeiros poemas de amor… falava da cor que diversificava em vários tons da cidade verde… do fruto doce – que como presente nasce no meu quintal. Do sol abrasador que me aquecia… e de que eu, insatisfeita, sempre reclamava. Eu sempre amei esse pedaço de chão e, ao mesmo tempo, tive raiva… quando as ruas se abriram para mim, me envolvendo com as folhagens das palmeiras que ladeava os caminhos por onde eu passava. E eu, menina, corria solta pela vida… sonhando com a cidade sendo notícia no mundo – senhora de si – com suas cores redesenhando o amor que eu sentia. Vestia de chita, enchia de poesias as vielas. Serenava nas madrugadas frias… umedecia nas tardes de calor. Reclamava, reclamava e, mesmo assim, longe daqui, queria existir nela…porque sempre amei desbravar rotas novas, desvendar os lugares secretos. Comer e beber da fonte do rio… na essência pura de alma cuiabana que tenho. Eu sei que tudo isso está aqui ainda, mas aquela menina… que aprendeu a desvendar o amor que sentia pela sua cidade, cresceu. E o amor… infinito, cresceu junto comigo, na mesma intensidade do sol que abrasa – e torna especial e único – meu lugar. Com o tempo, me transformei em arrogante, pelo simples fato de poder possuir as ruas, e dançar sob os ipês coloridos dos parques, porque queria o melhor lugar para viver. Mostrar ao mundo a beleza que cada canto continha. Eu andei por aí e, nos becos, descobri que a força da cidade não é mais a ingenuidade de menina. A cidade cresceu também e tomou proporção de gigante. Seu tamanho é efêmero, porque guarda a singeleza do seu linguajar. Ela se tornou maior do que podia aguentar e, ainda assim, permanece intacta na simplicidade. Já fui para outros lugares, outros amores… sempre voltei, por vezes insatisfeita, mas com a sensação de que só aqui poderia chamar de lar… Porto seguro. Ali, entre a ponte que dividia lugares… que guarda meus desejos mais secretos e que, para ninguém descobrir, o vento levou. Aqui, debaixo das árvores que cede a sombra fresca durante o calor… e nas calçadas onde cresci, sentindo o aroma doce do cerrado… Busco justificativas para tudo o que eu sinto… Ainda me encanta a diversidade… os mil jeitos. A mansidão com que me abraça, mas eu odeio a falta de regras, a desigualdade, a falta de respeito, de solidariedade que existe. Pode ser que eu me engane ao ver nascer uma flor debaixo de tanto concreto… onde as escadarias me leva aos lugares de fé, ao acreditar ser possível que esse lugar continue o mesmo… e mude. Que os encantos aconteçam nas manhãs em que vejo pássaros tão variados voando no céu cinzento, e pense que ainda é a menina simples que me encantou.
Mariana Gouveia Carta publicada na Revista Plural Avesso – Scenarium Plural Editora *b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.