Das palavras das cartas · Revista Plural · Scenarium Livros Artesanais

A minha rotina clandestina

Sabe amor,
essa carta foi escrita antes do século virar. Os dias de ontem para trás foram confundidos um a um com a dor. Os corredores intensos-grandes fizeram as noites maiores. As paredes trazem recordações e fotografias recortadas onde minhas palavras vasculham a segurança do teu sono no quarto ao lado.
Na mesa da cozinha, rabisco as vontades dentro de um poema. Recordo os outros dias dentro desse mês que dizem ser o mesmo dos namorados e amanhã, justo amanhã, o dia principal. Que coisa estranha, amor! Ter um dia especial para celebrar o que é vivido todo dia. A Antônia da esquina me encomendou um poema para dedicar ao namorado e sei que você não compreende como alguém pode fazer um poema de amor para outra pessoa que nem conhece.
Quem escreve exala sentimentos na pele. Daí escrevo uma coisa, logo sai outra coisa e quando mostro para você, percebo que seu olho desvenda minha alma. Por isso, nem preciso dizer, já o sabe, que todo sentimento é igual, a solidão é a maior companhia de quem escreve e que as rotinas minhas vagueiam pelo quintal.
Da janela, vejo a rua inteira e se dobrar o pescoço colho a lua no quintal, com exceção de quando ela fica nova. Podia até pescá-la nessa fase. Vira isca, amor, no quadrante do pé de algodão.
Você sabe onde colho inspiração, ou melhor, em quais horas a rotina me abraça. Como pode uma noite roubar a rotina assim, de quem escreve? As horas avançam enquanto as estrelas se confundem umas com as outras quando choro… e finjo uma cantiga estranha no banheiro para que a desculpa do sabonete no olho não mostre para você que quem escreve o amor, mesmo sendo amada, chora…
Não é tristeza de pessoa, nem de amar… é a solidão que bate nas coisas mais vagas que a mão toca, seja um inseto pequeno na roseira que ganhei da amiga que enfrenta a morte, ou a borboleta – de todo dia – que me toca como se me benzesse.
Eu devia te falar das benzedeiras… as deusas que me ajudam na procura do que acredito. A força é logo ali, ao pé da cachoeira, onde te vejo dominando o lugar. É uma imensidão de coisas vinda de fora e onde me transformo em criança e suspiro em seu olhar.
Talvez eu te conte amanhã o que vivi ontem e depois de amanhã. Outra história onde desenho finais de tardes com você e com isso, vou narrando vivências e me juntando nas rotinas de outros amores porque escrever para mim… é isso: se misturar nas rotinas dos outros dentro das histórias de amor e vida. Pode até ser ficção, romance, tragédia…
E quando em silêncio, o vento sussurra e você me olha… parece quase amanhã. Esse seu jeito é a poesia que você diz não conhecer, mas que me oferece todo dia com abraço, força, fé e amor.
Te amo infinito dentro das histórias de amor que invento!

Mariana Gouveia
Texto publicado na Coluna Plural – Scenarium Livros Artesanais
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega –  Ale Helga – Mãe Literatura 

só porque hoje a borboleta apareceu por aqui de novo

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Das cartas que não escrevi…

Leonor,

Diz-me que me amas, diz só uma vez.
Mesmo que seja mentira, diz-me. 
Só para eu guardar o som da tua voz a dizer essa palavra.
 

Inês Pedrosa

Sabe, aqui a vida ainda possui a mesma rotina e os calendários atrapalham os meus dias. Nunca sei quando é essa data – aquela em que você partiu – e sempre parece que é hoje o aniversário que não gosto de relembrar. Havia nuvens de chuva e logo depois o voo ganhou os contornos de distante, longe, muito longe até a aeronave sumir no infinito… depois disso, tudo pareceu apenas sonho.

Perdi a conta de quantas vezes refiz o mesmo caminho até o hangar de onde partiu e de quantas vezes chamei seu nome nas noites escuras, nas noites sem lua, nas noites com lua e nas madrugadas confusas. Aquele barulho estranho no quarto ao lado, milhares de vezes confundi com seus passos. O chiado da chaleira parecia que ofuscava sua voz em algum canto em algum canto da casa.

Eu já ensaiei várias vezes cartas para você, mas o que eu diria além da falta absurda de conversar contigo e falar de coisas bobas entre risos? O que eu escreveria que não fosse para dizer que já fiz e refiz muitas vezes o caminho até sua casa, do campo de papoulas via aplicativo do Google? E só por isso, logo que escrevo amasso o papel e jogo fora, antes que a vontade absurda de falar contigo me faça buscar seu número em algum lugar pois apaguei o da agenda.

Sabe, Nor, as sementes de papoulas que me enviou nunca germinaram… parece até que é desaforo diante dessa saudade enquanto vi em algum lugar seu campo todo vermelho da flor que me encantou. Até hoje guardo algumas em um saquinho de pano bordado junto com suas lembranças para não mais esquecer e quando a solidão invade minhas tardes eu te busco na canção que me lembra você.

Mariana Gouveia
– este post é parte integrante do projeto Caderno de Notas – Segunda Edição 
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega –  Ale Helga – Mãe Literatura 
Fotografia: Vlada Karpovich

só porque achei o livro de poesias de Maria Teresa Horta

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Das cartas que recebi…

Caríssima,

… quando sua missiva chegou, eu estava com os livros de Cecília – que tenho comigo – em mãos. São três. Gosto imenso quando ela diz: tenho fases como a lua, fases de andar escondida, fases de vir para a rua – é como se a poeta-mulher falasse comigo enquanto ando pelos cômodos da casa. Somos um par…

Gosto da correspondência da escritora, que durante muito tempo – por pudor ou algo que se assemelhe a isso – me recusei a ler. Sentia-me uma intrusa… uma daquelas damas inglesas – falsamente educadas – a fazer uso do vapor da chaleira, para abrir envelopes e descobrir possíveis segredos.

Hoje, minha cara… ao sentar aqui para escrever-te , tenho consciência de que os meus correspondentes ajudaram a forçar a escritora que sou. Foi através das muitas folhas tingidas com grafite que mantive o exercício da escrita e quão prazeroso era dizer-me em linhas as outras pessoas, meus primeiros – e essenciais – leitores. Era um tempo de espera… os correios nunca foram ágeis. Curioso que nesse tempo em que tudo é tão ágil e é possível dizer-se tão depressa, pouco ou nada se diz.

Eu gostava imenso daqueles dias, em que era surpreendida com envelope na caixinha de correspondência, trazendo notícias de um mundo-outro. Conheci lugares-pessoas-vidas-realidades sentadas no canto do sofá-verde-musgo da sala – era o meu bilhete de embarque.

Lembro-me que em um dos diálogos com uma correspondente – ela me disse, num sem fôlego, ao reescrever -me de canto de mundo-vida… acho a palavra “carta” tão extraordinária. E eu lhe respondi dias depois em meio a um sorriso cheio… prefiro missiva porque tem cor-som-aroma – todos os ingredientes necessários para estimular o meu imaginário. Ela aceitou a palavra e respondeu… se parece com um pombo que leva um envelope a alguém (treinado-adestrado que foi para esse fim).
Falamos da palavra durante dias… até que ela respondeu com sorrisos – não os desenhou, tampouco os escreveu, mas estavam lá nas entrelinhas – eu gosto e prefiro porque é poético e me fez pensar em outras palavras: ‘miss you’ .

Eu entendi o sentido… e era engraçado como dizia muito de nós duas – figuras estrangeiras a viver em mundos alheios. Longe de casa e a dialogar uma com a outra: figuras tão impróprias. Durante anos nos correspondemos – quase que diariamente. Sem envelopes-selos-folhas-de-papel. Apenas palavras na tela – essa comunicação moderna. Não passava um dia sem que ela chegasse com seus desenhos de mar-céu. Me lembro que lhe falei dos aviões que cortavam os céus do novo bairro para onde havia me mudado. Tudo era novidade. os dias transcorriam repletos de descobertas.

certa vez lhe contei – hoje fomos à feira. Os três. Descobri a moça dos ovos, com quem conversar por alguns segundos, enquanto escolhe os melhores ovos pra as minhas não-receitas. Me fez sentir saudades dos dias de sábado… esse lugar detido em alguns ontens que coleciono. E ela me respondeu – há tempos não deixo o meu casulo. Frágil casulo que rompo a cada dois ventos.
O que são esses ventos? Um deles é você… que me levou à feira. Coisa comum na minha outra vida. E agora, sento-me com você à sua mesa, e aprecio os seus movimentos de mulher forjada num desses ontens. Gostei da maneira como usa essa palavra. Irei imitá-la. espero que não se importe…

Ela me falava da filha a medida que crescia. Da saudade que estranhava sentir do seu passado… com o qual se recusava a lidar. e da tentativa de lidar com a idade, os medos e ser alguém para os que amava. Eu gostava de sabê-la minha… de saber que eu havia provocado risos em seus lábios ou que tinha lhe arrancado de um momento de dor. Amava como enxergava as palavras que usava para descrever… poucas pessoas compreendiam as minhas frases e rituais.

Certa vez lhe disse – hoje eu precisei de um guarda-chuva vermelho para sobreviver a multidão dos pretos – e ela, respondeu apressada, numa nota breve apenas para que soubesse que estava ali e sabia do que ia dentro de mim naquele instante – enfrente a multidão dos pretos com a pele-carne-matéria, com tudo que tem. Use a sua ilusão de alguém.

Mas, de repente, não houve mis respostas-diálogos. Apenas o silêncio de um dia azul. Percebi que ela tinha razão… miss you é tão sonoro quanto missiva… porque traduz o que se sente quando o dia seguinte – e todos os dias imediatamente após ele – acontece sem notícias. Demorou, mas eu me acostumei ao silêncio e hoje ao me lembrar desses dias, gosto do penso-sinto… e dos versos de Cecília que me servem de suspiro e é com ela que me despeço e vago-viajo até você nesse dia quente, sem ventos ou nuvens.

au revoir


Perguntei: “Que me vale ter casa, parentes, vida?
Sou a terra que estremece? ou a multidão que avança?
Ó solidão minha, ó limites da criatura!
Meu nome está em mim? no passado ou no futuro?
Ninguém responde. E o fogo avança para meu pequeno enigma”.
Apenas um anjo negro entreabriu seus lábios,
verdadeiramente como um botão de rosa.
“Death”
DEATH?
Por que me falas nesse idioma? perguntei-lhe, sonhando.
Em qualquer língua se entende essa palavra.
Sem qualquer língua.
O sangue sabe-o.


Lunna Guedes
Carta publicada em Catarina voltou a escrever
Scenarium Livros Artesanais
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Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega –  Ale Helga – Mãe Literatura 

só porque hoje abri os envelopes laranja

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

E a noite branca que se esvai com as luzes

Pai,

Devo te contar que eu ainda sigo vivenciando os rituais dos dias grandes. talvez, mais movida para relembrar alguns momentos nossos do que propriamente pela fé. Repito algumas das orações, alguns gestos e parece que um filme passa na minha cabeça.

Desse dia, eu me lembro de quase tudo. Confesso que algumas memórias esbarram-se nas outras e nunca sei se o ano era o mesmo ou se já é apenas fragmentos de uma mesma noite. O que eu mais gostava era que a quaresma chegaria ao seu final e as restrições das coisas que poderia fazer também.

De tudo que me recordo parece que a gente vivia nesse dia uma peça onde as palavras eram proferidas com o máximo de respeito. Os vizinhos todos, na sala, ao redor da mesa grande e o baralho sendo cortado. A espera da meia noite para que a farofa do frango fosse servida. Depois disso, já era apenas a trama para o sábado de aleluia e as brincadeiras de Judas.

Você se lembra de quando minha mãe ficou muito brava quando o nosso banco de madeira perto da janela foi parar lá no meio do curral? Sorrio de imaginar que ela nunca descobriu quem fez isso.

Desse dia, também lembro-me de sua carta escrita em um pedaço de papelão. Era o único papel que você tinha em mãos, em um ano que pareceu nunca ter existido. Ainda me recordo de suas palavras sobre a solidão desses dias  e de como contava o tempo marcando com carvão atrás da porta da cozinha para não esquecer. Me fez entender que o luto nos faz mais fortes depois que o tempo passa e que a gente deve aproveitar cada minuto que puder – porque depois que a gente morre, aquele dia fica sendo sempre sexta feira da paixão para quem ficou – e que todo instante é sagrado para louvar o amor. Seja o da fé, seja o do coração.

Pai, algumas coisas mudam. Outras, são repetidas como se existisse um manual. Lembro-me da frase logo ao amanhecer de que seria um dia quente – toda sexta-feira da Paixão é assim – não há uma nuvem no céu…

Esse ano foi diferente. Seria um prenúncio de romper os ritos, que penso ser a única dos seus filhos que ainda segue? Aqui, amanheceu chovendo, depois teve a garoa – como se fosse inverno – e as nuvens ganharam contornos de cores no decorrer da tarde. Até senti frio…

E agora, pai, a noite branca se esvai com as luzes… a cidade continua na sua rotina de feriado e eu aspiro o perfume das flores do Orai pro Nóbis que já me dá uma previsão de que a varanda amanhecerá colorida. De uma das coisas que não mudou foi a lua, sempre cheia em seu rito no céu. E assim, mais um ano as memórias me levam para dentro do seu colo e suas histórias que não consigo esquecer.

Bença!

Mariana Gouveia
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Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega –  Ale Helga – Mãe Literatura – Darlene Regina

só porque é sexta-feira da Paixão

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

e o dia em suspenso lá fora…

Donnant plus de blé
Qu’un meilleur avril
Et quand vient le soir
Pour qu’un ciel flamboie

Edith Piaf

MInha querida Sandra,

Alguns dias, mesmo os mais difíceis – seja por quais motivos – podem se transformar em instantes suspensos de alegria e carinho. Piaf canta e chove lá fora. Daqui a pouco vai escurecer e o relógio já marcou o fim da espera.

Suas cartas chegaram até mim nesse dia estranho de abril. Amanheceu frio, depois de uma noite de chuva, como se fosse inverno… depois, o sol de todo dia abriu as portas do céu e exibiu seu melhor sorriso… e agora, as nuvens começaram a passar rápido pelo quintal com cores surreais. Parecia Le Nuages, de Monet, e a chuva chegou bravia, com ventos que sacudiram minhas árvores no quintal.

De repente, França chegou em meu mundo, em envelopes brancos, com suas cartas me abraçando, dando colo e o dia amenizou por aqui. Não sei como agradecer o carinho e nem como dizer o quanto suas palavras me acalentaram. Como você mesma disse: tem coisas que nem as palavras conseguem descreveré como cheiro de chuva na terra, que descobri recentemente que se chama petricor – você apenas absorve e sente. Foi assim com cada carta e as delicadezas que vieram junto. Enquanto chove e eu te escrevo acolho os cães ao meu lado.

Lolla não gosta de chuva… se recolhe no sofá, igual a tua Toundra… e como se parecem. Já Yoshi, se refugia no quarto, no travesseiro do pai. Coloco no repeat a canção e cantarolo baixinho enquanto o vento balança as folhas para lá e para cá. Chiquinho ama essa chuva e volta e meia seu canto atravessa a porta da sala.

Ainda preciso absorver direito as suas palavras e rabiscar no papel as respostas… ainda preciso cheirar mais sua arte e delirar, talvez, na poesia que inconscientemente você envia junto. preciso absorver você para que a promessa se cumpra de que dure para sempre a correspondência entre nós.

Por enquanto, sou só acalanto e gratidão.
Bisous,
Mariana Gouveia
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só porque talvez ela volte a escrever poesias

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

O dia em que a terra parou.


eu não sabia que tinha um coração de porcelana,
eu de vassoura e pá a recolher os cacos,
eu a tentar não cortar os dedos e provar o meu sangue,
eu sentada no chão de azulejos da cozinha
no chão azulejos que não azulejam,
a chorar lágrimas azuis

Raquel Serejo Martins

Devia ser como o dia de hoje aquele dia que a minha memória ainda relembra. Era um dia febril, em que a terra também sentia o calor profundo do sol. E deve ter sido difícil também para você ver o azul do céu com as cores que mais gostava. Era mais ou menos igual a vários poemas lidos que cita essa dor no peito. Era em um dia como hoje – disso, eu me lembro – e de como o olhar ia se despedindo horas antes de ir.

Alguma coisa já antecipava esse gesto – e as solidões, nossas, juntas, tão iguais e desiguais – de adeus. Parecia ser apenas um até breve, a partida, já com data marcada, mas sem previsão de ida. Depois disso, foi só o céu visto das nuvens, o rio contornando a cidade. Lembrou-se da palavra do poema onde eu citei isso – você me disse depois, em um carta que nunca chegou. Viu o azul do céu lá do alto, o avião contornando algumas nuvens. Ainda podia sentir as mãos tremendo e relembrou das promessas feitas que sabia que não podia cumprir. Seu amor era bonito demais, alguém aconselhou em terapia que amor assim deve ficar só nas lembranças.

Alguém lhe disse também que o tempo curava tudo e acho que essa foi a última palavra que ouvi de você… e foi daí que tirei forças para atravessar os dias. Comecei a contar primeiro os dias sem notícias, depois, os dias em que vivemos o que de mais belo poderíamos ter vivido… depois, as contagens foram se misturando e eu já não sabia qual foi o dia em que a terra parou de existir. Nem qual foi o dia em que a emoção mudou de lugar com a saudade. Esse sentimento vago que ninguém fala que é bonito, mas que para mim, tem seu nome, como se fosse tatuagem na pele.

Mas, hoje, em uma data que a memória trouxe, sabe-se lá porque, recordei a data sem querer. E quase como em um ritual peguei as cartas do baú e refiz cada intenção de dor que o tempo ainda não curou…

Mariana Gouveia
* fotografia: Ines Kozic
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só porque hoje é 13 de abril

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Das cartas que não enviei…

“Foi preciso eu partir para saberes o quanto me querias… Mas olha em teu redor…
Podes ver nestas paredes como eu estava quando daqui saí…
O teu abandono começou muito antes de eu fechar esta porta a última vez…”

Élia Carvalho.

Mais uma vez você diz adeus. E mais uma vez, da mesma forma suave de quando partiu. Não sei bem dizer se é adeus mesmo, ou um ponto final estranho na história que escrevíamos juntas.
É quase como um livro que estava a ler e as folhas foram arrancadas na despedida sem respostas.
E de novo, vejo o mesmo vestígio de coisas que não foram vividas.
Sinto inveja das coisas que não vivi com você. De quantos pores-do-sol que você presenciou e eu não estava e já começo a enumerar quantos de novo verei, sem você aqui. E das manhãs dentro das minhas rotinas e do bom dia açucarado com café e da vontade bruta nas tardes em ouvir tua voz.
Tateio na minha saudade já sentida de tudo que não verei e conto as horas do dia olhando o relógio barulhento da memória e suporto mais uma vez esse peso.
Isso sim, me pesa diante das possibilidades de não sentir mais a presença perto.
Por que é assim que será. Tuas impressões afastadas diante do que vejo, para que então eu perceba de fato, que a leveza da vida era quando você estava aqui. E quando ler o poema preferido sentirá que de fato, era eu quem te pesava tanto.

Mariana Gouveia
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Lunna Guedes  Obdúlio Nunes Ortega –  Ale Helga – Mãe Literatura – Darlene Regina

só porque hoje não fui aos correios

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Guardei meu amor, bem guardadinho…

A,

Escondi no meu baú a palavra doce. Guardei-a como as meninas de antigamente guardavam os anéis.
Guardei a aliança de prata também. E os dias vividos com você no meu quintal. Dentro do baú antigo, onde guardo minhas memórias guardei a vida. Deixo lá com todos os instantes de riso que vivemos. Das palavras que precisavam de traduções.
Guardei as fotos que você tirou. Não é bom ver fotografia de flor com essa fome constante de flor. Os poemas escritos com seu nome. As cartas que nunca tive coragem de enviar. Tudo isso faz companhia para a minha solidão.
Lá, tem um papel de bala dado um nó, desses que se você quisesse um abraço mais forte, teria de apertar mais. Também tem junto, dentro do baú, o riso de minha mãe, que ecoou no meu coração em uma noite fria quando senti vontade de comer flor.
Já era bem de antes essa vontade contida. Lembro-me que ela riu quando eu disse: um dia, planto uma flor vermelha só para comer.

Guardei no baú tantas lembranças para quando eu me perder das memórias, possa abrir e ver esse sentimento que invento para você. O sentimento da espera.
Todo dia, pego o baú nos braços, passeio com ele pelo quintal e pela milésima vez faço a promessa de só abri-lo quando puder te tocar outra vez. Ou ouvir sua voz, que coloquei ali, num cantinho, para evocar a canção monocórdica que cantou para mim.
Guardei dentro dele as sementes da flor. Plantei uma apenas e converso com ela na delicadeza dos raminhos que crescem e brota a cada dia uma nova folha. Logo, terei uma papoula vermelha na intensidade da fome.
Os vizinhos dizem que estou louca. Os loucos, me chamam de sã e na minha lucidez desvairada, eu, só chamo você.

Mariana Gouveia
* fotografia: Raquel Pellicano
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só porque os baús guardam as lembranças

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Caminho… E atrás de mim caminham as estrelas até seu próximo amanhã…

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas.
Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X.
Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia.
Comeu em meus livros de prosa as citações em verso.
Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
João Cabral de Melo Neto.

Querida M.

Hoje, somente hoje, eu resolvi cumprir aquela promessa antiga de te escrever pelo menos uma vez a cada mês…

Devo dizer que aquela canção que você gostava toca em alguma casa por perto e a sensação de cheiro de cravo invade meu lugar… tudo parece tão igual e tudo está diferente – essa era uma frase que dizíamos entre risos e gargalhadas – igual nós, você diria…

Você deve se perguntar por que só agora resolvi escrever e sei que também vai dizer as mesmas coisas de sempre – “ainda bem que escreveu… Podia ser nunca. Hum”! – e vai beijar o envelope colorido muitas vezes…
Talvez seja essa mudança interna que avança em mim… talvez antes não tenha sido o tempo. Talvez tenhamos falado demais nesses últimos dias… o fato é que a promessa está sendo cumprida e ponto.

Nesses dias de ajuste de alma passei a relembrar nossas vidas, nossos encontros e toda alegria que levávamos vida afora. Lembra-se daquele tempo em que saíamos na rua a tocar campainhas e descíamos a ladeira da Rua dos Cravos, entre risadas ofegantes e sentávamos na calçada alta onde chupávamos o picolé colorido da D. Lídia? Vi um picolezeiro hoje e não há mais aquele picolé multicolorido… ele riu da minha indagação e tive de contar nossa pequena história e de como o sabor era diferente dos de hoje.

Contei das gargalhadas que espalhávamos pelas ruas do bairro e de como fomos obrigadas a ajudar o moço árabe a cuidar do jardim dele por alguns meses e alguns deles por puro amor ensinado.
Já revivi aquele dia que sempre me pareceu surreal umas mil vezes. Você descia a rua em direção ao centro e chegava sempre no lugar marcado com um cravo chinês na mão. Fazia reverência à palavra “chinês” como se a flor não tivesse sido furtada do jardim imenso do “seu” Abdo até o dia em que foi pega e para não te deixar ir só, arrastada pelo braço até a delegacia do bairro assumi ser a ladra dos cravos… como odiei aquela flor, ali, quase murcha em sua mão e seu olho de súplica até meu pai chegar e nos tirar daquela encrenca perante os “olhos raivosos” do árabe, que ria disfarçadamente quando nos perguntaram  para que roubávamos os cravos e entre dentes eu disse: para comer… A gente comia tudo… “Já comeu o amarelo das flores? Faz com que a gente nunca envelheça…”

E depois da bronca fingida do meu pai ficamos de castigo e tivemos de ajudá-lo a cuidar do jardim durante longos meses e o incorporamos em nossas risadas, depois de dias intensos de aula de jardinagem. Talvez daí tenha surgido minha paixão pela terra, pelas sementes e pelos árabes.

Como a vida era simples no seu gargalhar e como era lindo sua ida, já tarde, depois do jantar para sua casa. Você levava luz por onde andava. Eu ficava na ponta dos pés, na calçada alta, vendo-a virar a esquina da Rua dos Vaga-lumes… você deixava seu rastro dentro dos meus caminhos e hoje ainda sinto tua presença por onde ando.
O caminho que faço tem a mesma leveza de antes… e atrás de mim caminham as estrelas até seu próximo amanhã…

Beijo meu


Mariana Gouveia
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só porque hoje foi dia de cumprir promessas

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Recaída

Tem dias em que acontecem recaídas – acho que falei sobre isso – mas tudo acontece na sala de espera. Há um atraso no tempo, ou eu, no adiantado da hora. Essa mania minha de precipitações.
Eu poderia desenhar essa sala quinhentas vezes e ainda assim ficaria algum detalhe por dizer. Ou prestar atenção.
As cortinas não são abertas totalmente, porque as janelas, nessa hora ganham o sol em pleno peito. As frestas e os fios de luz tentam romper a barreira do tecido sei lá que cor desbotado pelo tempo. Um quadro de Kandinsky dá cor ao ambiente. Rouba a cena, eu acho.
Na outra parede os alvarás, diplomas e essas coisas necessárias, sei lá porque.
No vaso à direita do sofá cor de esponja, uma palmeira mirim que juro ser de plástico. E a secretária na mesa do canto com ar de “coitada, ela é louca” me avisa para eu entrar.
Lá dentro, fico em espécie de bolha. Me falta o ar. Corro para a janela. Meu lugar de decisões. Ela anota.
Me perguntou sobre o baú. Tiro da bolsa o pequeno móvel que me pesa mais nas lembranças do que propriamente no peso.
Primeiro sinto o cheiro. Essa coisa estranha de vidro de perfume vazio. A camiseta com o poema de Ekelöf, dobrada, selos de cartas que não vieram e as fotografias. Registradas em momentos de risos, onde o vento agitava meu cabelo e a subida do morro me deixava com olhar feliz.
Uma, me fez lembrar do dia em que cai da escada. Antes de acontecer, lá está eu, fotografada em risos e no impressionante descuido do seu olhar.
Não preciso dizer mais nada. Ela anota meus silêncios.
Era para ser o desfazer das coisas, mas o grito que eu calo me faz fechar o baú e despedir com o olhar.
Quem sabe amanhã consigo.
Desfazer das coisas é quase um bloqueio de alma.
Falo da canção que escuto lá fora. E ela começa a falar de poesias.

Mariana Gouveia
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só porque hoje é dia de terapia