Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Das cartas que não escrevi…

Leonor,

Diz-me que me amas, diz só uma vez.
Mesmo que seja mentira, diz-me. 
Só para eu guardar o som da tua voz a dizer essa palavra.
 

Inês Pedrosa

Sabe, aqui a vida ainda possui a mesma rotina e os calendários atrapalham os meus dias. Nunca sei quando é essa data – aquela em que você partiu – e sempre parece que é hoje o aniversário que não gosto de relembrar. Havia nuvens de chuva e logo depois o voo ganhou os contornos de distante, longe, muito longe até a aeronave sumir no infinito… depois disso, tudo pareceu apenas sonho.

Perdi a conta de quantas vezes refiz o mesmo caminho até o hangar de onde partiu e de quantas vezes chamei seu nome nas noites escuras, nas noites sem lua, nas noites com lua e nas madrugadas confusas. Aquele barulho estranho no quarto ao lado, milhares de vezes confundi com seus passos. O chiado da chaleira parecia que ofuscava sua voz em algum canto em algum canto da casa.

Eu já ensaiei várias vezes cartas para você, mas o que eu diria além da falta absurda de conversar contigo e falar de coisas bobas entre risos? O que eu escreveria que não fosse para dizer que já fiz e refiz muitas vezes o caminho até sua casa, do campo de papoulas via aplicativo do Google? E só por isso, logo que escrevo amasso o papel e jogo fora, antes que a vontade absurda de falar contigo me faça buscar seu número em algum lugar pois apaguei o da agenda.

Sabe, Nor, as sementes de papoulas que me enviou nunca germinaram… parece até que é desaforo diante dessa saudade enquanto vi em algum lugar seu campo todo vermelho da flor que me encantou. Até hoje guardo algumas em um saquinho de pano bordado junto com suas lembranças para não mais esquecer e quando a solidão invade minhas tardes eu te busco na canção que me lembra você.

Mariana Gouveia
– este post é parte integrante do projeto Caderno de Notas – Segunda Edição 
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega –  Ale Helga – Mãe Literatura 
Fotografia: Vlada Karpovich

só porque achei o livro de poesias de Maria Teresa Horta

3 comentários em “Das cartas que não escrevi…

  1. Hoje, enquanto caminhava lugares no bairro na companhia do moço que veio buscar livros, ensaiava no ar, uma missiva que ficou nas petalas de uma flor que me fez pensar em você e seu quintal. Olhei para o alto e fazia sol. Fotografei… a flor, no lugar da minha infância era usada para fazer algo. Tento lembrar para que servia, mas não me lembro. Nem mesmo sei se é a mesma flor ou se é outra parecida.
    A carta ficou no ar, cara mia… parte dela escreve-se agora, a outra acho que dependerá de solidão e xícara de chá.

    bacio

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    1. Dizem que a flor que tu viu é a planta arco-íris… que ela cumpre bem o dever de representar a natureza. quando eu conheci a flor – era branca… e vou escrever sobre isso amanhã, em uma missiva, porque assim ela merece. Eu já disse que te amo? Já aprendi falar sobre isso até em coreano… mas no bom italiano – que eu amo muito mais – Ti voglio bene…

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