Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

É seu, o lápis de cor!

“A vida tem a cor que você pinta”.

Mário Bonatti

Bambina mia,

Inauguro minha manhã nos primeiros raios de sol que chegam. Ontem, choveu. Pareceu-me que trovejou também. Ouvi o céu fazer seus rumores. Mas, hoje não. Hoje, o céu desenha nuvens sem segredos. Como se abrisse sua caixa de lápis de cor e com ela, tal qual uma criança danada que rabisca as paredes recém-pintadas, nuvens brincam com as nuances das cores.
Nesse momento eu penso em você e de como as palavras me conquistaram. Não! Minto. Foi o silêncio mesmo. Era uma menina do sótão, que através de histórias me levava a passear por entre as dela. O cão, o menino, C, o amor da vida dela. Outono, missivas.
Fiquei na janela como a espreitar um livro, que eu folheava docemente querendo fazer parte de tudo. Cada história me cabia. Cada personagem, era eu, fingindo-me tão conhecida que chegava a cumprimentar.
Confesso que o que me chamou atenção foi o Caderno Vermelho. Ali, eu me envolvia como se fizesse parte do que ela (d) escrevia… A cortina que o vento balançava quase me jogava dentro das tintas e das letras.
Era Outubro quando ela surgiu misteriosa aos meus olhos em um ano qualquer. Primavera nas folhinhas que designava as estações enquanto ela gritava que preferia o outono.
Consegui acompanhar seus passos pela cidade. Mostrava-me o inusitado do tempo, a umidade ou a secura do dia. Ela deu-me a chave que abria a porta para as possibilidades. Para o sonhar e ao mesmo tempo, despertava-me na ansiedade dos dias. O dia, que para ela sempre começa depois que o meio dele se foi.
– Ah, não me queira tão cedo, menina. Sou da tarde, depois da xícara do café fumegante e de ler e reler os e-mails. De viver o aconchego do cão. Da foto do aplicativo que mostra que acordei. Dos caminhos até o café, onde pessoas de ontem passam por você e seus olhos não guardam o que você viu. Ou por que a cidade é urgente demais e hoje, o que era ontem, não é mais.
Sem estar pronta, ela está toda preparada. De riso solto e de braço que nesse instante, eu ia querer abraçar. Ou apenas calar diante de tua presença.
Então, guardo minha caixa de lápis de cores e reabro quando o sol já colore a tarde e vagueia na imensidão do céu.
Vejo o calendário. Já não é mais o dia que ela falou em poesia. Já é outro e desponta com a celeridade peculiar do astro solar e quando você percebe já não é mais esse dia. O calendário muda na velocidade das horas e nesse momento, dou-te a arte. Essa que se desenha nos momentos que viveu.
Dou-te a emoção do silêncio. Esse, que grita em tuas paredes e que revolve os lençóis brancos jogados sobre os móveis e que quaram sobre tuas lembranças. Dou-te a orientação sobre os caminhos que te levam ao encontro da esquina.
São olhos que você nunca havia visto, mas que, te mostram onde caminhar. Ou apenas silenciam ao teu passar.
Toma. É seu o lápis de cor que pinta esse céu com as tempestades que a meteorologia adivinhou em você. Pinta tua vida com o riso dos encantos e que só a magia dos poetas conseguem descrever. Não precisa estar pronta. Nem é necessário que esteja. Te refaz perante meus olhos ávidos, o sonhar. Redesenha nas paredes dos seus sonhos a vontade do viver enquanto eu escrevo o que ainda conheço, mas imagino entre meus dedos na melodia de aquecer a alma o que aspiro conhecer.

É seu, esse lápis que te dou e que diariamente com ele, você descreve  o amor e pinta dia de sol com cores renovadas. E nas levezas do artesanato, encaderna sonhos e os espalha como semente em um jardim.

É seu, o lápis de cor.

Mariana Gouveia
Texto publicado no caderno de Notas – Terceira Edição
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só porque eu ouvia Èra Già Tutto Previsto

Das palavras das cartas · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Arte de rua

Meu caro M,

Bem, era um destes dias ou lugares talvez…

Roubei essa frase acima de você só para te contar que daqui a dois dias Cuiabá completará 303 anos e eu me vi caminhando pelas ruas e decidi, aproveitando o projeto fotográfico 6 on 6, te mostrar um pouco do que vi-vejo pelas ruas do meu lugar. Já faz um tempo que não falo com você e confesso que sinto falta… Aliás, sinto falta de saber mais de você e de contar coisas minhas também e de perguntar se é mesmo verdade que é avoador… Essas coisas bobas que amigos conversam-perguntam e riem juntos.

Eu apanhei um artista no instante em que ele criava sua arte. Parece a poesia quando sai da alma do poeta e ganha vida nas letras, nos cadernos, nos livros. A arte de rua ainda é considerada uma afronta a sociedade e eu poderia escrever muito sobre isso, mas eu perderia o foco de te levar comigo, quase de mãos dadas apontando aqui e ali a Cuiabá dos muros e paredes…

O artista que fez a pintura é o mesmo que tatuou as borboletas nas minhas costas… também passaria horas falando de como ele enfrenta o mundo das ruas com a arte e de como seu grito de luta às vezes é calado com repreensão… mas isso, é uma outra história. Eu só quero mesmo te passar a arte e sua essência de voz ecoando pelas ruas.

Sabe, Cuiabá possui seu nicho de artistas e com isso, os viadutos ganharam vida através das pinturas que retrata a cultura e o cotidiano de um povo de beira de rio, de viola de cocho, de Pantanal… Fica mais fácil atravessar as ruas e ver algumas paredes velhas contando arte e histórias… mas, nesse mundo tão corrido tem gente que passa e nem vê.

Sempre quando eu passo em frente a essa casa – um casarão histórico, abandonado pelas autoridades, prestes a cair, feito de adobo – parece falar comigo. Não nego o riso ao responder: o que você quer? Parece que a alma do casarão ainda está ali, à espreita de que alguém o acuda. É triste, mas é poético, eu diria.

Também tem casa que parece toda feliz… embora, eu conheça essa casa e as nuances da tristeza dela… Mas, sinto, que ela todos os dias luta para que as pessoas que cruze suas esquinas leve com elas um riso de cores na memória.

Sei que seis fotos não pode traduzir uma cidade nem a arte que habita em suas ruas… Mas, sei que caminhar com você foi só um pouco da metade do caminho… ainda iremos caminhar por florestas, por estradas e até mesmo por cartas, como essa que leva até você meu carinho e agradecer.
Você sabe porquê.

Mariana Gouveia
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só porque a arte e as cartas se misturam

Colcha de Retalhos · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

*Testamento

“Deixo para Maryann a lua bordada, feita em ponto cruz por mim. Foi bordada nas noites em que a solidão varria a alma, mas o céu tinha domínio sobre a presença. Nunca vi uma noite mais linda. Nem a que passávamos juntas no quintal de Kaori

Deixo o pé de cerejeira do quintal. Ainda não deu uma flor sequer. Talvez precise escrever para Kaori e perguntar como proceder. Talvez seja o clima daqui. De qualquer forma é cerejeira. E servirá de morada para passarinho.

O quadro de ideogramas do quarto. Comprei em Paris e era para você. O dono da loja garantiu ter pertencido a algum samurai. O que não acredito. Mas, tem a delicadeza que te pertence e acho que nunca tive coragem de entregar

A toalha bordada que você fez e nunca usei. Mas, dormia todas as noites com ela.

E as pequenas coisas que podem te servir. O macacão amarelo que você gosta. O vestido de listas lilases. Os livros. Os discos. E meu riso ecoando em Marte.

E por fim, deixo-te meu diário. Com o baú. Onde estão guardadas pequenas coisas que fizemos. O papel de bala, os origamis multicoloridos e alguns bilhetes e cartas trocadas. No diário, em alguns dias não tem datas. Porque para mim, o tempo parava além de nós.

Lá estão as canções que cantávamos e grande parte das cicatrizes que o tempo curou. Guardei elas lá, como memória do que fui e do quão me tornei leve com você”.

Mariana Gouveia
*Texto publicado no meu livro Colcha de Retalhos
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só porque livro é lindo e você pode adquirir aqui

Caderno de Notas · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Com uma esferográfica cravada no coração.

 A ansiedade chegava antes das cartas. Por causa do lugar, atrasavam uns 15 dias, Era tão difícil compreender as datas, o tempo, restava apenas o lugar de origem da escrita e a pena por trás dela.

As palavras vinham adoçadas. Recheadas de saudades. – “ontem fez frio”. “anteontem choveu”. ” hoje amanheceu nublado”. “sonhei com você” ” queria ser eu a estar em suas mãos”.

Descrevia em cada letra tudo que vivia para que fosse possível participar do exato instante em que as letras caíram da caneta… para ganhar vivacidade na boca que lia.
Quando o carteiro virava a estradinha, que fazia a curva perto do velho ipê, saía em disparada e com o coração nas mãos.

Apreciava cada pequeno detalhe do envelope, aberto com um cuidado ímpar. Quase sem fôlego… aspirava o perfume que só mais tarde descobriu ser de ervas verdes, com um nome estranho-estrangeiro. Uma palavra nova para constar de seu vocabulário mutante.

A carta ganhava vida em sua boca… tão cheia de diálogos. Deitava-se sobre a grama molhada, lia e relia para que as palavras ganhassem vida. A carta era um corpo que se oferecia ao toque, a carícia… e ao encontro com os lábios num beijo carinhoso-único.

No dia em que as palavras deixaram o papel… foi mágico! Por um momento ficaram em silêncio, admirando-se. Sentiram cócegas na ponta dos dedos. Escreviam-se por dentro. Alguém disse a primeira palavra e depois outra e mais outra… muitas palavras depois, a pequena aldeia fazia festa porque o primeiro amor aconteceu.

Deram-se as mãos e caminharam pelos caminhos de terra percebendo a narrativa, que falava do cheiro da terra, da mão que cobria os olhos para afastar a luz do sol e da festa dos pássaros nos voos de árvore em árvore.

O carteiro passou, acenou e avisou que não tinha carta naquele dia. Pensou que enxergaria tristeza. Mas se lembrou de suas pesquisas de moleque. A palavra destinatário vinha do latim Destinatus… o destino de uma carta seria outra pessoa. E a partir daquele dia passou a prestar mais atenção nos envelopes que entregava…

E foi o carteiro o primeiro a reparar que as cartas pararam de vir para casa depois da curva. Só entregava as apostilas do Instituto Universal Brasileiro. Alguém naquela casa aprendia corte e costura, pintura artística….

O primeiro amor se foi – lamentava o carteiro sempre que passava por lá, sem envelopes para entregar.

Mariana Gouveia
Texto publicado no livro Caderno de Notas e Nem Sempre a Lápis
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Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Carta à menina sagitariana mais meio do céu em gêmeos…

Malena,

Essa é a primeira carta que te escrevo e confesso que já desejava te escrever desde que nasceu. Lá naquele 11 de dezembro de 2016. Eu estava tão longe e de alguma maneira fiquei pertinho do seu pai na antessala do hospital enquanto você nascia.

Seu pai é o que eu chamava de menino primavera, por causa da delicadeza dele com os amigos. Uma noite, atrasei meu trabalho e mesmo sem necessidade ele fingiu estar trabalhando só para não me deixar só no escritório e ainda me acompanhou até o ponto de ônibus e só seguiu depois que o ônibus chegou.

Lembro-me bem daquela noite em que o maaassa dele ficou guardado no coração. Quando eu o encontrava, mesmo depois de já não trabalharmos mais juntos ele era acolhida e o abraço era puro aconchego.

Já sua mãe, foi paixão a primeira vista… O sorriso largo dela ganhou meu coração logo de cara e fiquei pensando: como não conheci ela antes? A minha admiração por ela só crescia quando a gente se encontrava. Sua mãe é a pessoa mais corajosa que conheço. Mas não pude aproveitar muito a presença dela, logo depois, eles foram para Portugal. E daí, passei a acompanhá-los pela internet. E assim, vibrei com a notícia de que você chegava.

Sabe, Malena, temos uma diferença de fuso horário daqui para aí… e era um fim de tarde aqui e noite aí quando você deu os primeiros sinais de que viria ao mundo. Eu nunca quis tanto estar em algum lugar como naquela noite desejei estar ao lado do seu pai e chorei de alegria quando recebi sua primeira foto.

Depois daquele dia, passei a te acompanhar e torcer para mais uma pessoinha, além dos dois. E que bom que a internet me permitiu saber de você e de como você cresce tão linda. Você tem a arte no sangue e tem como exemplo dois artistas maravilhosos de quem eu sou muito fã.

Roubei a frase de sua mãe sobre você ser a sagitariana mais meio do céu em gêmeos que ela conhece… achei tão lindo isso que resolvi cumprir a promessa da carta. Sei que tudo que você fizer será de muito sucesso e adorei cada uma de suas pinturas. Que você se descubra todos os dias dentro das cores, nas danças, nos ritmos e nos ciclos que sempre surgirão.

Mesmo sem te conhecer pessoalmente, eu já gosto imensamente de você e te abençoo dentro dos dias e que durante a vida seja muito feliz!

Abraço carinhoso,
Mariana Gouveia
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só porque hoje é domingo

  • Vocês podem conhecer a arte da Malena aqui
Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Quando a ausência de mim é presença em você…

Edi,

Eu queria te contar que hoje, apesar de um frio atípico, aqui teve um momento de sol e eis que uma nuvem surgiu e vi a letra E como se o céu tivesse sido pintado. Durou pouco esse momento, mas lembrei-me de sua mãe.

Desde que ela se foi, os meus sábados ficaram vazios – acho até que eu já disse isso para você – da presença dela e cheio de lembranças. Não há um sábado que eu não me pego fazendo planos de atravessar a ponte para logo lembrar que já não faço isso há um bom tempo.

Converso muito com ela, sabe… e falo que de tão especial ela deixou me deixou mais um amigo e eu sou grata por isso. Com ela, eu conversava coisas que nunca falei para ninguém e sei que com ela também era assim. Tenho na memórias alguns momentos tão nossos e já me peguei várias vezes discando o número para ligar e saber a opinião sobre determinada coisa que somente ela me diria o que fazer.

Ela me deixou muito solitária nos dias normais, mas o vazio imenso dos sábados me deixa sensação de que há alguma coisa que não fiz. Para amenizar isso, recorro às receitas que ela criava para mim, principalmente com quiabo – que eu adoro – e que ela tão bem inventava pratos diferentes para me agradar. Era a maneira dela dizer que me amava.

Ainda ecoa no meu coração a risada dela, ainda tenho a sensação do abraço e a voz me dando bronca por alguma coisa… E já me peguei buscando o rosto dela em outras pessoas na rua…

Peço desculpas se te trago lembranças que doem, mas eu queria compartilhar com você essa foto e te escrever foi a maneira de fazer com que nossas saudades se misturem. Cuida bem de você e viva feliz em memória dela e por ela.

Abraço carinhoso,

Mariana Gouveia
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só porque hoje é sábado

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

beda – As mentiras que esquecemos de contar.

Minha querida,

Se não posso
dar-te mais,
me ofereço hoje
– em traje de gala –
coberta apenas
de luminosas
notas musicais

Maria Borges

Escrevo-te ouvindo minha música de momento que já pode ser outra quando você estiver lendo essa carta, porque você sabe bem que sou esse rompante musical… Misturo-me as letras e assim, apaixono-me pela canção. Talvez, você dirá que sou volúvel, mas sou assim com as músicas. Gosto de tantas e amo muitas.

Sabe, parece que esse ano o inverno resolveu ser intruso dentro dos dias de outono e a temperatura caiu. Você sabe que não gosto de frio e me refugio na quietude do meu quarto enquanto limpo mais uma vez as gavetas e eis que encontro as cartas todas. As suas se misturaram as que recebi de amigas de outros cantos. As palavras ali, no papel já amarelando pelo tempo, parecem escritas em outro tempo… esse mesmo que recorro e digo que parece que foi ontem.

Não está escrito nelas as mentiras que esquecemos de contar… acho que nem passou isso por nossas cabeças quando minha curva esbarrou em seu mar. Parecia que tudo já havia sido vivido em séculos e séculos atrás… e hoje, entre os vãos das conversas há a estranha sensação de que tudo foi só uma estação fora das estações. Mentimos que era para sempre, mentimos que a emoção seria sempre a mesma e mentimos que não sofreríamos. Tudo mentira para quem não mente. Nomes sobrepostos entre um lugar tão longe que parece não existir. Tudo em códigos simplificados para além do que poderíamos entender.

Mas, como a canção que eu ouço repete mas eu vou sentir sua falta e assim vou somando as palavras, guardando os envelopes, ouvindo as canções que já cantamos juntas e lendo os mesmos poemas até que os séculos se tornem dias comuns e a gente possa enfim dar as mãos.

Mariana Gouveia
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Lunna GuedesObdúlio Nunes Ortega

só porque hoje é o dia da mentira

Das palavras das cartas · Projeto52

São dias de olhar pelo buraco da fechadura.

o meu amor ensinou-me a chegar
sedento de ternura
sarou as minhas feridas
e pôs-me a salvo para além da loucura

Jorge Palma

Amor,

Esse ano, escrevo para você na véspera porque as datas vão se posicionando no calendário, na previsão e nos baús e amanhã o dia já pede urgência por aqui… Hoje, como em outros anos, relembro o dia marcado como nosso – o 28 de março – em já são 35 anos assim.

É uma vida inteira – alguém diria – e realmente, somando todas as expectativas os 35 anos contam a história de nossas vidas. O nosso quintal antecipa também a data e os voos e pousos de borboletas que tanto me encantam chega até você. Como se a natureza e o universo nos oferecesse de presente o instante.

Os dias que vivemos, olhados pelo buraco da fechadura teve como principio o amor, uma pitada de cumplicidade e amizade. Sempre nos perguntam sobre o segredo de tanto tempo juntos em uma época tão difícil e a gente sempre diz: gostamos de estar juntos um com o outro. De rir, de falar de futebol, de ver filmes, de olhar o céu, de caminhar pela natureza… gostamos muito da companhia um do outro e isso nos fez/faz mais forte em momentos difíceis.

A gente sabe que nem tudo foi flores nessa jornada mas sabemos que se somarmos os dias dentro desses 35 anos o nosso jardim foi criado, as sementes semeadas e colhemos muitos frutos e flores. Eu te amo além da medida… você me aceita com toda a liberdade que sinto e sei que sou amada nos gestos que trocamos… Permite os meus voos, apoia os meus sonhos e me faz feliz.

E assim quero viver até o fim dos meus dias com você!

Mariana Gouveia
Projeto 52
Scenarium Livros Artesanais
Participam desse projeto: Lunna GuedesObdúlio Nunes Ortega

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · O Mapa de Vênus · Scenarium Livros Artesanais

Coletivo o Mapa de Vênus

Chove e as hortênsias — em seus buquês —
parecem a tempestade alagadiça que pediu…

Os trovões ecoaram como se fossem derrubar o céu
— ouvi alguém dizer: “parece que o céu vai cair”
E eu pensei em nuvens vindo ao chão.

Mariana Gouveia

O Mapa de Vênus é um projeto coletivo, produzido pela Scenarium Livros Artesanais, sendo poemas em resposta a missiva enviada pela coordenadora do projeto Lunna Guedes… Cada autora criou uma narrativa em forma de versos, sendo elas: Anna Clara de Vitto, Katia Casteñeda, Mariana Gouveia – euzinha-, Nirlei Oliveira e Suzana Martins.

E para comemorar o lançamento, estaremos em uma live na próxima sexta-feira, dia 18/03/2022, às 18hs – horário de Brasília – no ig da @scenariumlivros.

E se você quiser adquirir um para chamar de seu, clica aqui

Mariana Gouveia
O Mapa de Vênus,
Scenarium Livros Artesanais
Fotografias e Arte de Lunna Guedes

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Os sutis movimentos do cuore que nos salvam.

Bambina mia,

Li algumas de suas missivas para meu pai nos dias em que o visitei… e ali, tão perto do fogão a lenha e das coisas banais da casa expliquei a ele sobre Rubem. Ele disse que por sua narrativa eu seria um Rubem de saia e a gente riu.

Confesso que a comparação me lisonjeia e nego ela, claro… Rubem está além dos meus textos e lembro-me de que já falamos sobre isso. Mas vim aqui para a gente falar sobre o outro tempo – o seu – ou seria o meu, nesse diálogo onde nossas histórias se misturam?

É como se eu te oferecesse meu quintal, minhas histórias e recebesse de volta suas janelas, o cheiro de pão de sua cozinha e assim, nos conectamos. Hoje é o dia da mulher e estou indo de volta para o meu quintal, e ansiosa pelas lambidas dos cães e os cantos dos pássaros. Já reparou que até isso nos liga de alguma maneira?

Você chegou até mim pela poesia. Lembro-me do cuidado que teve com ela em O Lado de Dentro – meu primeiro livro – e ela também nos aproxima entre fitas de cetim e páginas… e olha só, isso é coisa sua e não minha…

Aas árvores aqui já pressentem o outono chegando e já começam a deixar sus folhas morarem no chão. Fecho os olhos enquanto vou ouvindo a melodia delas quando piso…nesse momento apenas te abraço e essa é a melhor poesia que posso te dedicar.

Grazie por tanto!

Mariana Gouveia