Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

E a noite branca que se esvai com as luzes

Pai,

Devo te contar que eu ainda sigo vivenciando os rituais dos dias grandes. talvez, mais movida para relembrar alguns momentos nossos do que propriamente pela fé. Repito algumas das orações, alguns gestos e parece que um filme passa na minha cabeça.

Desse dia, eu me lembro de quase tudo. Confesso que algumas memórias esbarram-se nas outras e nunca sei se o ano era o mesmo ou se já é apenas fragmentos de uma mesma noite. O que eu mais gostava era que a quaresma chegaria ao seu final e as restrições das coisas que poderia fazer também.

De tudo que me recordo parece que a gente vivia nesse dia uma peça onde as palavras eram proferidas com o máximo de respeito. Os vizinhos todos, na sala, ao redor da mesa grande e o baralho sendo cortado. A espera da meia noite para que a farofa do frango fosse servida. Depois disso, já era apenas a trama para o sábado de aleluia e as brincadeiras de Judas.

Você se lembra de quando minha mãe ficou muito brava quando o nosso banco de madeira perto da janela foi parar lá no meio do curral? Sorrio de imaginar que ela nunca descobriu quem fez isso.

Desse dia, também lembro-me de sua carta escrita em um pedaço de papelão. Era o único papel que você tinha em mãos, em um ano que pareceu nunca ter existido. Ainda me recordo de suas palavras sobre a solidão desses dias  e de como contava o tempo marcando com carvão atrás da porta da cozinha para não esquecer. Me fez entender que o luto nos faz mais fortes depois que o tempo passa e que a gente deve aproveitar cada minuto que puder – porque depois que a gente morre, aquele dia fica sendo sempre sexta feira da paixão para quem ficou – e que todo instante é sagrado para louvar o amor. Seja o da fé, seja o do coração.

Pai, algumas coisas mudam. Outras, são repetidas como se existisse um manual. Lembro-me da frase logo ao amanhecer de que seria um dia quente – toda sexta-feira da Paixão é assim – não há uma nuvem no céu…

Esse ano foi diferente. Seria um prenúncio de romper os ritos, que penso ser a única dos seus filhos que ainda segue? Aqui, amanheceu chovendo, depois teve a garoa – como se fosse inverno – e as nuvens ganharam contornos de cores no decorrer da tarde. Até senti frio…

E agora, pai, a noite branca se esvai com as luzes… a cidade continua na sua rotina de feriado e eu aspiro o perfume das flores do Orai pro Nóbis que já me dá uma previsão de que a varanda amanhecerá colorida. De uma das coisas que não mudou foi a lua, sempre cheia em seu rito no céu. E assim, mais um ano as memórias me levam para dentro do seu colo e suas histórias que não consigo esquecer.

Bença!

Mariana Gouveia
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
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só porque é sexta-feira da Paixão

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