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eu não sabia que tinha um coração de porcelana,
eu de vassoura e pá a recolher os cacos,
eu a tentar não cortar os dedos e provar o meu sangue,
eu sentada no chão de azulejos da cozinha
no chão azulejos que não azulejam,
a chorar lágrimas azuis
Raquel Serejo Martins
Devia ser como o dia de hoje aquele dia que a minha memória ainda relembra. Era um dia febril, em que a terra também sentia o calor profundo do sol. E deve ter sido difícil também para você ver o azul do céu com as cores que mais gostava. Era mais ou menos igual a vários poemas lidos que cita essa dor no peito. Era em um dia como hoje – disso, eu me lembro – e de como o olhar ia se despedindo horas antes de ir.
Alguma coisa já antecipava esse gesto – e as solidões, nossas, juntas, tão iguais e desiguais – de adeus. Parecia ser apenas um até breve, a partida, já com data marcada, mas sem previsão de ida. Depois disso, foi só o céu visto das nuvens, o rio contornando a cidade. Lembrou-se da palavra do poema onde eu citei isso – você me disse depois, em um carta que nunca chegou. Viu o azul do céu lá do alto, o avião contornando algumas nuvens. Ainda podia sentir as mãos tremendo e relembrou das promessas feitas que sabia que não podia cumprir. Seu amor era bonito demais, alguém aconselhou em terapia que amor assim deve ficar só nas lembranças.
Alguém lhe disse também que o tempo curava tudo e acho que essa foi a última palavra que ouvi de você… e foi daí que tirei forças para atravessar os dias. Comecei a contar primeiro os dias sem notícias, depois, os dias em que vivemos o que de mais belo poderíamos ter vivido… depois, as contagens foram se misturando e eu já não sabia qual foi o dia em que a terra parou de existir. Nem qual foi o dia em que a emoção mudou de lugar com a saudade. Esse sentimento vago que ninguém fala que é bonito, mas que para mim, tem seu nome, como se fosse tatuagem na pele.
Mas, hoje, em uma data que a memória trouxe, sabe-se lá porque, recordei a data sem querer. E quase como em um ritual peguei as cartas do baú e refiz cada intenção de dor que o tempo ainda não curou…
Mariana Gouveia
* fotografia: Ines Kozic
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Ale Helga – Mãe Literatura – Darlene Regina
só porque hoje é 13 de abril

Putz… ” só porque hoje é 13 de abril” me acertou no estômago, ainda me recordo do último 13 de abril.
Parece até que te confidenciei minha história de 03 anos atrás, “a terra parou e não sabia que tinha um coração de porcelana”.
Texto denso e tão leve ao mesmo tempo, parabéns pela escrita.
Confesso que o tempo ainda não curou. ;~( ainda dói e muito.
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Ah, sua linda! Muito Obrigada! A gente nunca sabe o tempo que o tempo leva para a cura… Espero que logo.
O logo também é vago… mas que seja leve até a cura. Abraço carinhoso
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Eu tenho por mim que não se deve curar a dor, mas saboreá-la. É um jeito de transformá-la em íntima conexão com a nossa eternidade.
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Nesse caso, discordo… viver com dor é ruim… nem tenho roupa para isso. Mas como para todo mal há cura, sigamos! Abraço
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