Afetos · das coisas breves · Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Outono

Inaugurava em mim o outono e a voracidade dos dias. Mora dentro de mim as tuas digitais e os caminhos que percorro em tua pele. A folha que cai enquanto o corpo treme. É preciso sobre(viver) dentro das estações.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Scenarium Livros Artesanais

das coisas breves

* há muito que a tua falta é somente a minha falta  iluminada pela tua

Na falta de água bebe das lembranças de outrora. Lembra do dragão que comia na palma da mão dela e da menina que descobriu as asas assim que lhe deram outro coração.
Pensou na noite passada e da ventania que veio do sudoeste.
Riu das lembranças se apagando e desejou que os espinhos do cacto seja a maior dor depois que ela se foi… Em algumas noites, o efeito é alucinógeno para quem tem sede e não tem água para beber.

Mariana Gouveia
*título retirado do poema de Rui Nunes lá no Primeiramente

das coisas breves · Das palavras das cartas

Renasceremos em outra cachoeira?

Ivens,

Eu o conheci através do rádio e juntos dizemos ao mesmo tempo a frase – a vida é tão curta, curta! – e rimos juntos sem conhecer direito um ao outro. Eu não sabia seu nome, mas sabia que era um dos responsáveis por cuidar da minha mãe. Já o havia visto algumas vezes no corredor do hospital e quando falei sobre isso a dureza da dor de ter perdido ela – à época – se transformou em leveza quando me contou sobre o quanto ela sentia sua poesia misturada às minhas.

Eu era uma menina de tranças, olhos sonhadores e palavras simples. Eu era a Lurdinha da Rádio A Voz do Oeste e você já era o Ivens, poeta, médico, cuidador, natureza e Cuiabano. falamos das formigas, das mangas, dos cajus e dos quintais. Das ruas e das estradinhas e de repente, você me fez igual ao olho do homem que vê a natureza tão única.

Fiz tantas perguntaiadas ao longo de outros encontros e como sempre esquecemos de registrar os momentos, mesmo depois do advento dos celulares. Entre uma exposição e outra, um lançamento e outro, uma realidade ou fantasia.

Seu riso largo abraçava antes do abraço e seu olhar nos desnudava diante de sua poesia. E lá estava eu, admirava te vendo imortal… lembro-me de que em meio ao abraço perguntei se imortal não morria e seu riso alcançou minha alma: vive para sempre em suas obras.

A cada encontro eu te perguntava e perguntava e você sempre entre risos dizia: que perguntaiada é essa? E hoje sou eu quem pergunto: quem consolará a solidão de sua ausência?

Sei que você sempre responde entre risos, mesmo que seja para além dos ventos, das asas dos pássaros e dos quintais: a poesia.

Que você seja sempre a poesia viva, moço, seu doutor! Obrigada por tanto ensinamento!

Abraço,
Mariana Gouveia

das coisas breves

Das coisas miúdas que conto por aí

Escrevi no diário de ontem sobre a dor de uma mulher.
Em silêncio, estendi minha mão para amparo. Ela pediu que eu contasse sobre coisas leves, de como o quintal amanheceu ontem. Falei sobre as flores que nascem ao acaso e de como a vida miúda se encaixa na história.
Ela – tão miúda diante da vida – sorriu e ajustou o ombro e colocou a armadura de quem quer viver.

Mariana Gouveia

das coisas breves

O que é um coração sozinho

Era noite quando a solidão invadiu o quintal… O coração palpitava em qualquer canto… Na rua de cima, o moço da reciclagem soube o que era um coração sozinho depois que seu amor se foi e repetiu mil vezes a mesma canção.
Às vezes, a vida tem a trilha sonora de filme.

Mariana Gouveia

das coisas breves

Cabia a incerteza nas certezas das coisas

Qual é esse tempo flagrado no momento do agora? Ainda ontem, eram só partidas. A vida esmiuçada como se buscasse um tesouro. Depois disso, as chegadas mostraram a rota de fuga. A lenda, revivida nos cantos do quintal. Cabia a incerteza nas certezas das coisas – eu sei que é contraditório – e algumas ilusões vem de quem nunca imaginou que podia fazer e fez.

Mariana Gouveia
Alguns retratos imaginados na estante.

das coisas breves · infinitamente

dos lutos

No dia em que uma aldeia chorou as perdas, o quintal emudeceu.
Já era noite quando eu cheguei e abri os braços em oferenda do meu abraço.
Lembrei -me do avô, tão guerreiro – tão frágil diante da dor.
Lembrei -me da fragilidade da avó – tão menina – a se oferecer em troca para que os dela não sofressem.
No dia em que o quintal ficou em silêncio, até às flores e o sino dos ventos ficaram em silêncio em respeito à aldeia que chorava saudades.

Mariana Gouveia

das coisas breves

Onde fica o lugar onde seu coração se esconde?

Havia um tempo em que o moço da reciclagem cantava nas madrugadas serenas enquanto a lua acompanhava a roda da carrocinha.
As aves ficavam mudas diante do canto que falava de amor e as borboletas apenas faziam acontecer o ritmo enquanto beijavam as flores.

Mariana Gouveia

das coisas breves

 irrepetível música que ressoa

Um menino disse que as vitrolas cantam canções de amor… Tipo disco de vinil, fotos analógicas… Frases sem lógica… Enquanto ali, no canto do quintal, as borboletas ganham seu prazo final…

E o menino vira riso e acha que o paraíso é onde ele marca um gol… No sonho que sonhou…

Mariana Gouveia

das coisas breves · Das palavras das cartas

Meus dedos verdes…

Luci,

eu era essa pessoa do dedo verde, mas tive alguém muito melhor que eu nesse quesito de plantar e tudo brotar… O meu irmão que voou há um mês e meio. Ele era tão quieto, mas tão quieto que o silencio fazia mais barulho que ele e ao mesmo tempo tão barulhento que o vento ecoava sopros por ele.

Enquanto a gente falava de partida definitiva, ele falava de vida, de flores, de brotas, de rebento – fosse de capim, de flores, de samambaias ou de gente – rebento é rebento – ele dizia. É vida!

Ele parecia um duende, um dos smurfs – só não era azul – era colorido. Ele não nasceu pra semente, porque era semente, Luci. A magia dele parecia que surgia da brisa, que se elevava em vento e de repente, ele era temporal… daqueles temporais que você queria estar dentro, Luci e em alguns momentos era chuva miúda… tipo garoa, que traz calma e você se aconchega na janela e pensa em uma xícara de chocolate ou chá.

Luci, já contei que ele era meu guardião? Um guardião que tinha medo de bruxa, da minha bá, de palavras que podiam ter diferentes significados, mas ele era tão valente, que enfrentou a morte… porque ele tinha o dedo verde para tudo que é coisa.

sabe o Midas, Luci que tudo que tocava virava ouro? Pois bem, meu Manoel em tudo que tocava ficava verde. A samambaia, as flores simples do quintal, a lantana e o pé de jurubeba… esse, floriu tanto no dia que ele morreu, que fiz conserva e tudo.

O meu irmão, Luci, era igual seu avô. Bobinho em situações inusitadas e muito sábio em outras. Das sementes dele que ficaram tem a Ju e o Felipe. Uma lindeza de família, de cães e uma amada que rega cada planta do quintal que ele limpava as ervas daninhas.

Hoje, meus dedos verdes, que se esbarram na flor que nasceu da semente que ele me deu tem a delicadeza do amor e do encanto. Essas vidinhas simples que me trazem ele todos os dias, nas mudas das flores que ele plantou no quintal da casa dele.

Talvez a mágica estivesse na vida dele, Luci, que é vida e para além de todas as ervas daninhas que o levaram, ainda deixou sementes aqui que vão brotar sempre, e mantê-lo vivo.

Grata por isso!
Beijo meu,

Mariana Gouveia