das coisas breves · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Domingo, 17 — *Os raios e trovões dialogavam com o vento como se estivessem discutindo.

Foi numa noite dessas que ouvi seu chamado.
Parecia assustador. Levantei e fui pé ante pé
para não acordar ninguém.
Apenas o cão mais novo seguiu comigo.
Você rugia como se algo estivesse em perigo.

O cão se aconchegou junto a mim enquanto as nuvens
escuras se agigantavam em cima do meu lugar.
Os raios e trovões dialogavam com você
como se estivessem discutindo.
A sua voz parecia gritar e pensei nos dias em que fico
assim, intolerante ao que me assusta.

O momento me fascinou – confesso – e abri os braço para
também fazer parte de tudo aquilo. Uma tempestade
que nem a moça da previsão do tempo conseguiu prever…
foi quando dançamos juntos eu e você,
sob a canção dos raios
e trovoadas em uma noite insana de abril.

Mariana Gouveia
Último dia, 7
In, Ao Vento de todo dia
Scenarium Livros Artesanais

das coisas breves · Scenarium Livros Artesanais · Sete Luas

as horas pálidas da vida

Quarava os lençóis bordados no sereno, geralmente, em noite de lua cheia com o cheiro de dicuada no ar.
A mãe que fazia o sabão, em seu tacho de ferro e moldava as bolas para o dia seguinte…
As ervas a ferver para a tintura dos lençóis de cambraia e que a mãe queria mudar de cor.
Os olhos, com ondas de mar vendo a correnteza a passar, levando a lua em cada maré.
O céu, ponto de apoio para a menina que desejava voar.

Mariana Gouveia
Coletivo Sete Luas
Scenarium Livros Artesanais

das coisas breves

Dos mistérios das coisas

Vi um céu sem estrelas no mesmo dia em que uma sonda seguiu viagem rumo aos anéis de Saturno. A flor tão pequena ficou gigante diante da vida miúda. E a noite alguém falou sobre o mistério das coisas. Arranquei as ervas daninhas do quintal e começou de novo o processo de plantar. Lembrei -me da colheita e de como as sementes fazem diferença para colher as flores.

Mariana Gouveia

das coisas breves

Houve um imprevisto na manhã desavisada de silêncios.

 Isso foi quando uma estação invadiu a outra como se tudo fosse um reencontro. Os cães se refugiaram no quarto e nem um pássaro cantou no quintal. A garoa beijava as folhas como se fossem íntimas e o vento trazia aromas de casas vizinhas. Na rua, apenas eu e a luz difusa do poste em um pisca e apaga sem fim.

Mariana Gouveia

das coisas breves · Scenarium Livros Artesanais

Dos bilhetes – 5

mariana gouveia

Na última hora cheia… vivi intensidades. Um menino que precisava de atendimento foi notícia nos atos terroristas. Nunca imaginei presenciar em meu lugar.
Fiquei sabendo da partida de uma cachorra. Preferi ignorar a tutora que a abandonou nos últimos meses. Eu fui colo para ela nos últimos momentos.

A vida, às vezes, tem roteiros
que parecem novelas.

Como vai chover a qualquer hora se o céu mostra Marte imensa pros lados do sul?

As sombras do quintal me salvam. Um ninho se fez na árvore que plantei.
Às vezes, é assim, um tempo compensa o tempo do outro.

Os bilhetes esperam pela hora de amanhã.

Dos bilhetes
Publicado no Projeto Coletivo A Sul de Nenhum Norte
Scenarium Livros Artesanais

fim.

das coisas breves · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Dos bilhetes – 4

lunna guedes

Caiu um raio nos arredores da hora anterior. Ressoou por toda parte. Agora há clarões por trás dos prédios. As janelas estão acesas e a hora cheia me faz pensarem preparar uma xícara de chá. Eu ainda não desisti do cappuccino.
O olhar vez ou outra corre a paisagem lá fora. Assusto-me com a declaração de fim de ano piscando em algumas janelas. Não me acostumo com as festas de inverno em dias tão quentes. É como se estivessem se enganando – trocando as coisas de lugar.
Eu não sou uma pessoa de Natal – mas experimentei a data. Uma colega da Faculdade quis que eu fosse passar a data com a família dela. Foi estranho. Permaneci muda na maior parte do tempo. Ouvi palavras sonoras… frases inteiras. Mas não estava presente. Estava sentada perto da lareiras, era quase meia-noite. Faltava pouco quando me dei conta dos vazios que colecionava dentro.

Um pesadelo do qual não pude acordar. Fazia frio! Mas eu precisava escapar daquilo e ir lá para fora… caminhar calçadas.

Ficar longe… de mim.

Dos bilhetes
Publicado no Projeto Coletivo A Sul de Nenhum Norte
Scenarium Livros Artesanais

Continua…

das coisas breves · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Dos bilhetes – 3

lunna guedes

Você me fez pensar na infância… quando eu tinha vizinhos e escrevia histórias a respeito de cada um deles. Convivo com estranhos nessa hora cheia. Às vezes, esbarro neles no corredor ou no elevador.

Não sei as histórias e nem me interesso por elas.

Na semana passada… uma mulher do outro lado da rua – no prédio da frente, em sua janela acenou sorridente e mandou beijos. Não sei como lidar com isso. Parece um fantasma a morar na janela da frente. Eu os prefiro morando numa parede…

Nos quartos de hora, ao sair na varanda, meu olhar corre ligeiro até a janela de número oito – assegurando-me dos vazios que aprecio. E se não avisto a estranha criatura, respiro aliviada.
A outra janela – a que gostava de espiar… está fechada há tempos. Não há movimentos por lá. Não sei para onde foi a menina que gostava de se despir para olhares curiosos.

A chuva continua e os relâmpagos e os trovões.

Dos bilhetes
Publicado no Projeto Coletivo A Sul de Nenhum Norte
Scenarium Livros Artesanais

Continua…

das coisas breves · Scenarium Livros Artesanais

Dos bilhetes – 2

mariana gouveia

É sempre nessa hora que recorro às minhas trilhas sonoras. Apaixonei-me por algumas canções coreanas e elas se misturam as outras que já me salvaram da solidão em fins de tarde. Coloco no repeat para não ouvir o funk estrondoso que vem da vizinha da frente. Um verdadeiro inferno – deusmelivre – e nem se compara ao de Dante.

Teve de tudo nesse céu do meu lugar: nuvens grossas, esparsas, velozes – levadas pelo vento. E uma chuva fina que trouxe o cheiro petricor para perfumar o meu quintal. O azul predomina enquanto a noite vem se aproximando e o pássaro de todo dia se mistura nas cores das folhas do pé de ipê.

Daqui a pouco, quando o moço da reciclagem passar com sua cantoria será a hora de ligar as luzes porque a noite chegou.

Dos bilhetes
Publicado no Projeto Coletivo A Sul de Nenhum Norte
Scenarium Livros Artesanais

Continua…

das coisas breves · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Dos bilhetes – 1

lunna guedes

Escrevo-te nessa hora última. Explodiu um trovão ao longe e eu sorri para todos os ontens que trago na memória.
as nuvens foram se avolumando. O dia acabou pouco antes das três. A chuva caiu sonora, lavando o asfalto da Alameda, quando eu ainda estava a escolher uma lembrança para degustar – como num jogo onde se move uma peça.

Escutei dentro…o badalar do sino da Catedral – um eco dos dias vividos em pequenas aldeias.
As mulheres rezavam as seis em ponto… e as contas do rosário passeavam entre os dedos enrugados das mãos.

eu silenciava a minha voz e pensava na jogada seguinte, qual peça moveria: o bispo ou apenas um dos peões.

Por dentro, repetia versos malditos riscados na parede do meu corpo e me sentia feliz por pensar no inferno de Dante.

Dos bilhetes
Publicado no Projeto Coletivo A Sul de Nenhum Norte
Scenarium Livros Artesanais

Continua…


Afetos · das coisas breves

Janelas tardias de tantas pétalas

retorno aos sonhos
de minha origem
quando ainda havia

janelas tardias de tantas pétalas

escorregadas,
tão vívidas de mato
quase num quase ardor

de ainda ser
inteira

Ana Paula Perissé