das coisas breves

fechei a palavra chave que havia aberto o mural do jardim através do silêncio.

Ph; Tumblr

Entre as nuvens e as estrelas… Clareia a pele com o efeito da dor. Os cabelos ralos, diante do espelho cria ondas em reflexos onde não me reconheço. Sou como a mulher da noite – que vagueia – de janela em janela, o riso molhado na loucura exposta – e a pele – a declamar ausência. Na penumbra a ecoar o silêncio que só as flores lilases conhecem.
Alguém disse um dia que a loucura é lilás e desbota na lucidez da dor.
As mãos a desenhar presença nas sombras da parede – monstros – que me atacam e acionam a alavanca do medo. O último pássaro a ecoar dentro da noite e o universo parecia definir cantata para a solidão. E ainda tenho a caneta lilás com a qual desenho as flores e a língua muda que não consigo traduzir enquanto fechei a palavra chave que havia aberto o mural do jardim através do silêncio. 

Mariana Gouveia

das coisas breves

Todo dia é um instante de loucura dentro da lucidez.

Ph; Pinterest

Mudou a rotina dos dias… abraçou a menina que pedia colo na madrugada. Alguém perdeu a alegria logo ali, entre a esquina de baixo e a caixa d’água. A estrela gigante se ampliou no riso dela e o afago apenas foi automático. Cantou as canções que lembrava da infância. Simulou esperança nas folhas e captou a ternura no olho de amor. As coisas miúdas criam fases de encantamentos. Buscou histórias infinitas vividas nos dias. Desenhou nas mãos a minuta do sonho. Às vezes, a vida tem coisas estranhas que escapam do normal
Todo dia é um instante de loucura dentro da lucidez.

Mariana Gouveia

das coisas breves

dos dias em que o cão de alguém se vai

fico me perguntando se o céu dos cachorros tem sol – às vezes.

Pensou na trovoada de ontem. Fez a oração para o cão que partiu. A menina da esquina passará a ver com os olhos do coração. No horóscopo do dia o imprevisto pode mudar a rotina. Janeiro ecoa nos calendários das mesas. O silêncio hoje é opção de escolha. Logo ali, mora dentro do sol a esperança.

Mariana Gouveia

das coisas breves

é inequívoca a data da saudade

Busquei o roteiro nas pequenas coisas e quando percebi o caminho já estava traçado. De um lado, para além dos muros os cães ladram.
Por outro, para além da paredes sem reboco a vida espreita na fragilidade do dia.
Soube histórias que ninguém me contou. Apenas ouvi, quase invasiva a fala de quem chora de saudade.

Mariana Gouveia

das coisas breves

Pediu que eu decifrasse a flor.

Pediu que eu decifrasse a flor.

Pediu que eu decifrasse a flor.
– passiflora – eu falei
e detalhei as cores na leveza do dia.

Não enxergo o movimento das cores…
– ela disse –
Enxerga com a alma as tonalidades da paixão de viver.

Eu peguei as mãos dela e desenhei estrelas.
Guiei-a nas linhas finas lilases, que como tentáculos, saem em círculos em volta da flor e a brancura esconde o perfume que suavemente exala.
Eu, dou riso aqui, pela simplicidade dela entender a paleta que desenho.
Ela, ri lá… por captar a essência que a paixão causa na alma

Mariana Gouveia

das coisas breves · Das palavras das cartas · infinitamente

Dos dias breves

Eudes,

A manhã estava vazia de pássaros e o céu apareceu lindo como no dia em que você partiu. Quantos anos fazem hoje?
Às vezes, parece uma eternidade que não te tenho aqui… Às vezes, parece que foi ontem.
Ainda me lembro de sua gargalhada ganhando as ruas ou seu silêncio dentro das minhas falas.
Penso que em algum momento, você usa a linguagem do céu para conversar comigo e nesse instante, tenho todas as respostas que você deixou sem responder.

Te amo muito, até além.

Mariana Gouveia

das coisas breves · Das palavras das cartas

Então, é dezembro

a eternidade pode durar um ano
ou um instante

Mestre,

Hoje, caminhando rumo ao trabalho senti o cheiro de dezembro. Era como se as mangas maduras do quintal do vizinho quisessem me chamar. Senti o cheiro das damas da noites plantadas para além dos muros… Depois, ouvi canto dos pássaros – ou foi antes? – na escada que alcança as nuvens do céu o camabacica se fazer de dono do bebedouro do Chiquinho. Ali, Espreita atento, antes do voo.

Dezembro chegou antes que a gente percebesse. Antes que as músicas de Natal tocassem nas propagandas que ainda falam de Black Friday… antes que as bolinhas coloridas ficassem penduradas nas janelas, num pisca-pisca fusco. Então, é dezembro nessa estação improvisada de calor intenso.

Choveu – na tarde que se insinuou para os que reclamavam do calor absurdo dos últimos dias. Antes disso tudo, um sábio se foi. Não sei como se denomina o pai do mestre. Só sei que senti das tantas vezes que podia ter aprendido mais e só o vi para além da grade de ferro, com olho de gigante e alma de criança. O jeito inquieto de sabedoria interna… um dia, ele me convidou para entrar… eu recusei, na pressa do dia a dia. Hoje, daria tudo para voltar àquele dia. O convite para o café ficou para uma dimensão desconhecida.

Teria pego em suas mãos e apreciado seu sorriso e sorvido as histórias que ele trazia no olhar. Mas era um mês desses que nem lembro qual e hoje, fiquei pensando no olho no relógio, as horas marcando limites entre abraços e a digital no relógio do ponto.

Hoje, um sábio se foi… E quando esses sábios se vão ficam rastros, seguidores ou cópia exclusiva de quem vai seguir a rotina. De quem conhece as histórias e faz parte delas. O olho miúdo no quadrante do céu. A irmã de abraço que mais acolhe do que é acolhida. O afago da sua alma gêmea que é mais cuidadora do que é cuidada. Eu agradeço a sorte de fazer parte disso. Mesmo distante.

Hoje, mestre, eu sou apenas sopro em seu ouvido para que os ventos das serras nobrenses ecoem para você o som do agradecimento do tanto de aprendizado que você viveu através do seu sábio. E eu aprendo com você. Dia a dia.

Estou com vocês.
abraço meu,
Mariana Gouveia

das coisas breves · Scenarium Livros Artesanais

11 – Pretérito imperfeito oblíquo de um caos que nunca chega ao fim

Os caos se instalou por aqui hoje. Na alma, no quintal e nos arredores… ainda dorme em algum canto do muro.

Morreu uma estrela ontem. O dia começa com horário atrasado dentro do tempo. Era às vezes asas no quintal. Um menino que voa vem dar o bom dia e de noite quer colo de asa. A morte da estrela não afeta o voo da ave que beija e nem causa efeito no afeto que ele busca em minha mão. Quando ele foge do vento no quintal e não encontra árvores no lugar – que o vento levou – cabe na mão dentro do abraço. O menino é um ser de asas em mim. O menino é um ser de voo na sala. E quando um dia se torna intrigante, doído e fora da lógica ele é um sopro de amor mesmo com estrelas morrendo no céu.

Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins

das coisas breves

Tem noite que a alma queima feito vulcão.

Há alerta laranja ecoando no quintal
a leveza, em dias como esse não sobra aqui.
O vento, finge que passeia e o pássaro de todo dia
busca a sombra dentro da varanda.
Nas miudezas, o jardim é apenas esse vácuo na solidão…
A estação cria ilusão de que a primavera só existe no nome.
Tem noite que a alma queima feito vulcão.

Mariana Gouveia

das coisas breves

E ali, nasceu pela segunda vez.

Os dias passavam como nos filmes
E a imensidão do mundo ganhou caos em seus olhos…
Um dia, não se sabe a razão, quis viver a fama de louca

Rasgou as roupas que lhe impuseram…
Não podia imaginar que era tão bonito morrer
E nasceu pela segunda vez.

Mariana Gouveia
Das coisas breves