Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Carta à bambina aos cuidados do amor

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Bambina mia,

Aqui o dia amanheceu nublado e esse tempo me faz lembrar você.
Na madrugada, trovejou. O céu parecia festa de ano novo. Os raios lembravam os rojões e os trovões, os fogos. Confesso que detesto fogos e rojões – por causa dos cães – mas, hoje, foi essa impressão que tive. E ocorreu-me o pensamento de que o céu fazia festa para você.
Pareceu Maio e seus trovões que você ama tanto e quando o dia clareou uma garoa fina cobria o quintal e minhas flores ficaram com aquelas gotículas que parece suor na pele.
Saí para caminhar um pouco e te levei comigo – sempre levo – mas hoje, foi especial.
Fui despejando em cada passo, palavras para que o universo ecoasse e levasse até você meu carinho.
Refiz nossas conversas e nossos silêncios – às vezes – e pude constatar mais uma vez o quanto sou abençoada. Sua presença em minha vida me torna melhor.
Cada vez que lembro de você é como se fosse uma continuação de um encontro que já houve antes mesmo de nos encontrarmos. Não queira explicações sobre isso. Não poderia explicar.
A sesnsação que tenho é de você na minha vida desde sempre e é com essa sensação plena de abraço que te envolvo no meu carinho, hoje, mais do que nunca.
Sorvo o chá enquanto penso em Jane Austen, autora que você adora e é com uma frase do livro Razão e sensibilidade que te abraço:
“Seus olhos erravam por aqui, por lá, por toda a parte, maravilhados. Ela viera para ser feliz, e já se sentia feliz..”

Che tu sia felice!
canterò per te la canzone che mi ricorda di te:

“Only you can hear my soul, only you can hear my soul

Luna tu
Quanti sono i canti che rissuonano
Desideri che attraverso i secoli
Han solcato il cielo per raggiungerti

Porto per poeti che non scrivono
E che il loro se non spesso perdono
Tu accogli i sospiri di chi spasima
E regali un sogno ad ogni anima
Luna che mi guardi adesso ascoltami”

baci mille

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Agreste

Agreste. Agreste

Meio agreste,
meio teste.
Calafrio, arrepio.]

De você só quero o toque,
me provoque
mate a sede de prazer.

Me domina, me ensina
e deduz que tenho medo
meu segredo]
alucina
eu, menina
entre seus dedos

E onde a luz brilhar
o seu olhar.
O meu sertão é você
Um deserto de paixão

escondendo o coração
só pra saber.

Faço pose, entro em close
pra mostrar que quero mais
me perdendo em pensamentos
é você que no momento
me traz paz.

Mariana Gouveia.

Corredores, Codinome Locura

O necessário é voar

A tarde chegou ligeira.
Era proibido esperar.
Ficava ali avisando o voo do pássaro e repetindo gestos do passado.
Amanhã ela vem – dizia entre a angústia da espera e a certeza de que erraria – de novo.
Ontem esperou o gesto da fruta. Respirou a gota que não choveu. Bradou junto com os trovões a fisiologia da falta.
Gritou o nome dela de novo.
Era preciso vigiar o voo…quem sabe, amanhã o destino muda.
O mês é outro e há expectativa da lua.
Um decanato inteiro propício à asas.
Revolta-se no amor que enviou. Feito envelope com fitas. Tudo da cor que ela gostava. Até de azul pintou o céu. Esparramou tempestade no sopro.
Alguém avisa que já é hora de ir.
Muita confusão no fuso do dia.
Já foi essa mesma hora em outro lugar.
Abriu um portal na dimensão do agora.
O necessário é voar.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Bi_polar

Bi_polar

O meu amor tem o ocaso do dia e o amanhecer vibrante

em mim.

Tem a delicia plena de menina e é tão senhora de mim.

O meu amor duplica em mim as maneiras de amar.

Ora terna,suave.Outras,selvagem,ânsia…furacão.

O meu amor desperta em mim a loucura dos vendavais e a mansidão da brisa.

O meu amor é espera e ao mesmo tempo chegada.

É anúncio de primavera e encantadora como o outono.

Traz calmaria e tempestade.

Meu amor é bipolar.

Frio,calor.

ternura e desejo ardente.

Volúpia e a doce tentação de entrega.

O meu amor é pleno,é tempo,é hora e ao mesmo tempo,

segundos.

O meu amor é por quem todo dia eu morro…

ah,e por quem eu vivo a cada instante.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Esboço do 6º sentidos

Esboço do 6º sentidos

Quando te toco
a textura da pele
as digitais
o arrepio

Linguagem

Quando te provo
minha língua sente teu sabor
e a sensação de fome amplia

Vontade

Te ouço e a melodia se faz em tua voz
e não há mais nenhum som tão perfeito que eu queria ouvir

Sintonia

Antes mesmo de chegar
já sinto teu cheiro
Suor, corpo
desejo

Sabor

Te vejo nas molduras dos retratos
nas palavras escritas nas paredes
declarações de amor

Eterno

Esboça em mim o 6º sentidos
As misturas de tudo quando penso em você.

Ler uma  palavra e sentir o gosto de um beijo que ela representa,
ou escrever uma letra e relacioná-la com teu nome ou a cor de seus olhos.
Sinestesia de tudo que se relaciona em você.

Paixão

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Carta à bambina com aromas de café

Carta à bambina com aromas de café.

Hoje, o dia amanheceu normal. Se bem que comigo nunca nada é normal. O bem-te-vi pousa na árvore e eu canto sempre a canção que me lembra a ave.
Repito com ele o “bem-te-vi-eu-que-te-vi e o dia ganha a normalidade na rotina.

Ainda antes era agosto e a fumaça cobria meu céu e a ansiedade banhava meu coração e daí o abraço se deu e a alma que antes já sabia o sabor, ganhou cheiro de cartas abertas, cadernos lidos, livros apreciados.

Você, bambina, que já era de cuore, se transformou raiar de paixão. Pele sentida e encoberta pelos braços e o riso no sotaque mais paulistano italiano que já vi.
Fecho os olhos e posso estender a mão e te toco. É você ali, ao alcance do paladar e dos sentidos. História costurada na minha.

O mês era outro e parece que foi há um ano. Sinto aqui em mim ainda, o precipitar do cheiro de sua cozinha e não era café. Era pão e chá. A delícia do cão molhado a esfregar em mim. As histórias contadas quase em alta rotação, porque o relógio me avisava a hora.
Setembro foi folha caída, doída, rasgada e tirei ele do calendário. Sabemos porque.

A vida deve ser saboreada assim, na beleza e no sabor majestoso do café. E escrevendo-te na memória do ritual que sigo. O meu coador é de pano – ainda – contrariando minha amiga barista e deixo ferver a água em borbulhas e ela quase morre. Diz que o ponto é antes da fervura.
Depois, só depois é que bebo. Beber não, pois é quase um absorver o cheiro e gosto em um só lugar. Você sente o líquido invadindo teu corpo e produzindo as sensações prazerosas na alma.
E é assim que desejo que tua vida seja. Saboreada ao máximo diante da xícara diária que te é oferecida.
Meu pai sempre me dizia que café “bão” é o café puro.O nosso, ele mesmo colhia, torrava, moía e fazia. Usava o coador de pano e a xícara esmaltada verde abacate com desenhos de florzinha. Um dia, o apresentei o café com creme.

Luxuosamente servido numa xícara branca que eu tinha. Ele se maravilhou! Quis repetir. E durante alguns dias, meu desafio era criar novos tipos de cafés pra ele. Desde o capuccino ao macchiato. Mas, a paixão dele foi o írish coffee, feito com um uísque comum que eu tinha na época. A cada descoberta de uma nova receita ele se empolgava e o mais impressionante é que mesmo empacotado à vácuo ele sabia que tipo de café era aquele – a terra roxa proporcionava um sabor inigualável ao café – ele dizia.
O Arábica tinha essa ou aquela particularidade. O Robusta melhor era o produzido em Minas Gerais.
Quando por fim, ele retornou pra sua casa, um dia antes, no arrumar das malas, empacotando o moinho e o torrador, ele me disse: Durante anos eu havia sorvido os melhores cafés da vida. Aqueles que eu mesmo plantava, colhia, escolhia e preparava como artesão para beber. Achava que era assim e pronto. Mas, experimentando outros tipos descobri que a vida deve ser vivida igual ao café. Com novos experimentos, com novos sabores, com outras atitudes. O café para ser apreciado e soltar seu sabor passa por etapas diversas antes de chegar a nós. E por último, a fervura faz com ele exale teu aroma e com isso, convida todo mundo que é captado pelo cheiro a tomar um café. A nossa vida, é igual ao café, minha filha. Passamos por tantas coisas, enfrentamos tantos desafios. Somos torrados, moídos, catados, escolhidos e quando a “fervura” nos pega o que deve sair de nós é o aroma de nossa alma convidando a todos que percebam para saborear a nossa vitória.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Carta à minha mãe aos cuidados das lembranças.

Carta à minha mãe aos cuidados das lembranças.

Sabe, mãe. Os dias voam tal qual as asas das borboletas e como as nuvens em dia de primavera aceleram e vão se tornando semanas, meses e anos.Você se lembra de quando eu perguntava qual dia era hoje e você sempre me dava motivo para aquele dia ser especial? O dia tinha o nome do santo, a estação vigente dentro dele e um ensinamento que vinha com a frase de alguma coisa que você leu em um livro ou em uma fotonovela.

Você guardava as datas como jóias. Eu sigo igual.
Conto os dias com a intensidades deles. Mas, o dia de hoje, eu preferia esquecer. Marca a sua partida daqui. Eu, ainda menina, vivendo dentro de uma adolescência e você se foi.
Tenho raiva da data – você sabe – e muitas vezes, me vi rasgando o mês inteiro da folhinha.

Dias desses, abrindo meu baú de lembranças achei a última carta que enviou para nós. Tenho ela guardada ao acaso. O cartão de aniversário desejando dias felizes e junto, a carta que ia enviar para a rádio solicitando a música que você sempre dedicava ao meu pai e que não sei por que, veio junto no envelope.

Foi de você que peguei essa mania de cartas. Você ia gostar de saber que até hoje, eu ainda continuo a escrevê-las. Espalho as palavras mundo afora e com isso cultivo amigos que são alento para mim em dias difícies e companhias adoradas nos dias bons.

Já são 33 anos. E todo ano eu te escrevo pelo menos duas vezes no ano. Nos outros dias, eu converso com você através das coisas que faço.
Sua família cresceu, mãe e seus netos, alguns que você nem conheceu já são pais e mãe,
Acho que você iria gostar de ver seu jeito em cada um deles.

Você permanece viva nas lembranças e quando falamos de você fica um pedaço em branco daquilo que você não viveu, mas também fica uma presença enorme do amor que você nos dedicou.

A vida é hoje – lembro-me que dizia assim – e se cochilarmos amanhã já não será amanhã. Continuo seguindo seus ensinamentos. Me vejo repetindo gestos que você fazia, frases que você dizia e como resposta, vejo meu filho responder as mesmas coisas que eu te respondia.
Será a vida este eterno reinicio, mãe?

Acho que iria gostar do que me tornei. Agarrei-me a arte como meio de te fazer viver dentro das poesias, das histórias de amor que você gostava de ler. Do artesanato que você magistralmente criava e dos sonhos que tantas vezes revelou. Aprendi de verdade os pontos que me ensinou e crio colchas de retalhos que já atravessaram o oceano. Bordo esperança em orações que viajaram para outros estados.

Ainda me encanto pela magia dos contos que você criava e de como nos fazia sentir dentro de um na rotina dura de ser mãe de sete filhos.

Busco equilíbrio na fé. Na mesma que você repetia e tenho a mesma mania das suas superstições. Talvez nem acredite tanto nelas mais, porém, falando delas é como se prolongasse os instantes teus em nós.

E como você um dia disse que minhas poesias – tão infantis na época – estariam em um livro, venho te contar que já estão.

Talvez eu seja a mesma sonhadora que você foi. Talvez eu pense da mesma forma que você pensou – de que só a arte possa salvar as pessoas e de que através da arte a gente possa chegar no coração delas – e é assim que sigo meus dias, mãe.
Levando ao outro o sentimento do amor.
Dividindo instantes que acho mágico através das imagens que confesso, às vezes, penso ser você que me envia tanta beleza nos momentos que vivo.

Hoje, doo de mim, as palavras, mãe e você que precisou tanto de uma doação e se foi antes que pudesse ter tido a chance de mais dias.

Termino essa carta em oração para que mais pessoas possam doar rins – que foi o que você precisou – sangue e que outras mães não precisem ir embora tão cedo.
E que eu possa, nas palavras de amor que espalho estar cada vez mais perto de você.

à benção, mãe!
Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Mania do destino de escolher dias longos para doer mais

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Um homem toma posse de nada. A vida amanhece plena de saudade. Era domingo, os dias iguais sem ela. Quebra a caixa, destrói as sementes todas – lembranças perfumadas. Vidas plantadas – que ela deixou. Não há vestígios de vida no jardim. Só gritos internos que habitam o silêncio de mim.
Pétala por pétala exposta em cheiro na mesa. A mesma mesa dos desejos todos. Da fome de existir dentro dela. Esqueceu de brotar na folha do canto. A flor preferida não resistiu ao calor. O inverno aqui é quente, seco, sem umidade que precede raiz. O doce, no canto, apenas faz figura da palavra perdida. Era doce a vida. Era. Por desacato a flor avisa mudanças. O halo de cheiro invadindo quintais. A música toca. O pássaro canta. Parece que ri. Mania do destino escolher dias longos para a saudade doer mais.
Histórias iguais a sua contada em poesia. Era ali, no livro marcado no poema que ela leu que mais doia existir.

Mariana Gouveia

Cadeados Abertos · Projeto Diário das quatro estações

Colhe-se leveza nos caminhos percorridos.

Uma brancura se estende e o infinito é logo ali…
me surpreende a vida do lugar… a maciez do toque, as cores misturadas e um horizonte todo para percorrer – onde o olho alcança há colheita ou plantação…
O dia, ao nascer, reserva sementes para logo se tornarem frutos, e os frutos, logo serão matéria-prima de algo para se construir... e assim, construo pontes rumo à minha história.

Mariana Gouveia
In Cadeados Abertos – Diário das Quatro Estações
Editora Scenarium Plural
pág. 15
*Campo de algodão depois da colheita – Interior de Mato Grosso

Corredores, Codinome Locura

Sob o signo da borboleta

sob o signo da borboleta

A neblina avisa os rumores do dia. Há estações de flores no quintal da vizinha.
No horóscopo o signo oscila entre o voar e o pouso.
Sente falta da flor. Busca abrigo de pele nas lembranças. Sofre influência sob o signo da borboleta. A lua em Sagitário possibilita essa viagem vazia. O acúmulo de emoções me entorpece.
Rabisca os mapas que sempre me leva de encontro a ela. Saqueia todas as vontades do peito. Hoje, o sol, pareceu a lua pela manhã. Cantos matinais parecem mantras. Repete a canção e repete.
Faz chover sobre o jardim criado. O cheiro das folhas do tomateiro se banham de fragrância.
De novo, quase sofro uma recaída. Retomo as vontades da sede. Esvazio a saudade nas lembranças.
Pego a roupa esquecida e falo com ela como se estivesse aqui.
E está. Dentro. De mim.

Mariana Gouveia