O riso solto e gargalhado da filha da vizinha. O céu todo cheio de nuvens.
A cor da flor que nasceu no meu quintal.
Não fui eu quem plantei – penso – mas acho que veio pelo bico de um pássaro que também faz parte das importâncias aqui.
Comecei a ignorar rotinas. A ler histórias para a senhora da rua de baixo, que não pode andar e fica com um riso de orelha a orelha quando me despeço dela.
Comecei a dar importância para os sons.
Agitos da natureza no meu lugar.
Um pássaro peregrino que senta no telhado e fica ali a espiar os cães. Uma ave moradora daqui que sabe que se voar baixo corre riscos.
Os cães que sempre me olham quando veem um pássaro no quintal.
Eles sabem a importância que dou à asas.
Aprendi a dar importância na vida.
Essa que respira e me toca sempre quando a manhã me abraça e a noite me conforta da saudade maior que meu coração sente.
Comecei a ser importante.
Choveu essa noite, pai. E enquanto assistia a chuva a cair, o cheiro de terra molhada me carregou para a infância. Virou quase abril esse dia que antecede junho.
É seu aniversário amanhã, pai, e a chuva benze o dia para que seja abençoado também. Sabe aquele cheiro que exalava quando as primeiras gotas caiam e a roça de toco ganhava o respirar para acolher sementes? Senti o mesmo cheiro aqui. Deve ser o céu a te brindar mais um ano. Perdi a conta dos dias que não chovia, talvez por isso, o barulho das gotas no telhado tenham me levado para dentro das lembranças. Quase me envolvi no paletó de flanela com florzinhas miúdas. A sensação é plena, pai, e, embora já tenha passado tanto tempo, eu ainda sinto tão forte os instantes vividos, que é como se fosse um filme a desenhar as lembranças diante dos meus olhos
O fogão a lenha a crepitar ardência e o cheiro do café coado na hora acordada nossa fome e todos os sentidos. Hoje os cabelos brancos emolduram seu rosto e distância não me permite o abraço de perto. Ligo o rádio e ele toca suas músicas, enquanto as gotas suavizam e um céu alaranjado anuncia mais uma vez essa coisa insistente de quebrar as previsões.
A canção me traz o encanto da terra e, nessa hora meu coração te abraça. Posso dizer que o tempo não parou, pai, e o seu radinho de pilha intocável, a nos contar histórias e nos ligar ao mundo. Lá fora, o dia pinta diante de mim a cena que revivo e quase chego a sentir o cheiro de relva molhada, enquanto os animais se preparam para o dia que vem chegando.
Engraçado que a gente não manda nas lembranças e a vida acontece dentro delas. Sempre quando chove me lembro do cheiro da horta, onde colhíamos os legumes fresquinhos. Essa sensação é tão estranha que é como se eu estivesse com um livro aberto e as imagens aparecessem em minha frente.
Meu encanto pelos cavalos, as borboletas e aves é como se fosse um presente seu, em seu amor pela natureza e sua força diante do trabalho. Como nesse dia deixar de te escrever e dizer do meu amor, embora saiba disso sempre. Estamos marcados pela sua força e vontade de viver. A vida te deu momentos difíceis, mas a maneira de ainda cultivar a fé e levantar os olhos ao céu em agradecimento, é o mesmo sempre; e é com esse gesto que dedico minha oração a Deus.
Feliz Aniversário,
Daqui, de onde as lembranças me abraçam, te beijo
Mariana Gouveia In Cadeados Abertos – Diário das Quatro Estações pág. 171 Editora Scenarium Plural
nasceram para desenhar em tua pele minhas digitais…
Os meus dedos,
para aninhar em teus dedos
como se parte deles fosse
o meu toque.
Vasculha você mesmo sem presença,
porque assim sou eu em você.
Leitura de quem não vê
mas entende.
Teu toque em mim
desperta superfície plena
de supremo desejo e prazer
Você,minha leitura cega
que leio e saboreio fome e prazer.
Minha mãe dizia que o vento era leve – como paina que vira travesseiro para os sonhos – e que carregava os medos e os sonhos maus. Era coisa para se apaixonar esse tal de vento. Um dia, eu quis aprisioná-lo. Só para mim…Leveza era bom ter guardada para as horas difíceis. Peguei uma garrafa e coloquei no meu quintal – no meu quintal, tinha um pé de vento – e fiquei horas ali a esperar que o vento entrasse garrafa adentro. Foi quando minha mãe percebeu minha intenção e disse que vento era para ser livre. Tinha de percorrer lugares, levantar saias das meninas e só assim o vento tinha razão de ser. Minha mãe, em seu estado de fé, me disse que o vento era o Espírito Santo e quando eu quisesse que ele aparecesse, bastava assoviar. Era uma mandinga para fazer ventar. E ainda por cima, cultivar a fé na leveza da alma. Tem sido assim meus dias. Todos os dias, quando acordo, a primeira coisa que faço é ir ao meu pé de vento. Assovio e o dia ganha a magia da leveza, por mais que as coisas aconteçam contrário ao que tenho vontade, quando vejo as folhas dançando ao som do vento, percebo ali uma força maior. Que ganha imensidão, viaja e chega até a mim como cisco voador Nas janelas, os mensageiros do vento diz que é impossível controlar o que é livre e se um dia quiser controlar a liberdade vá ao centro do quintal, assovie e achará o caminho do paraíso.
“No cotidiano sou nuvens Às vezes, choro N’outras, eu chovo” Elke Lubitz.
Ah, bambina! Fevereiro chega como previ e detalhei para você mais cedo. As trovoadas trazem você aqui para o meu quintal. Já choveu tanto e agora, entre o espaçar das nuvens vejo o sol brigar com as gotas que caem. Parece até que eu estava te esperando e você veio. Desde ontem você anda rondando meus pensamentos. A tempestade me trouxe seu nome quando cantei a canção que lembra você. Busquei alguns temas que enviou e passei a andar por eles, descalça, para que a magia aconteça aqui dentro. As aves festejam que só, esse tempo. Cantam, me espiam e ficam ali, a sentir a chuva enquanto eu me encanto. Com esse tempo, meu quintal ganhou mais presença. De cores, de amor e de flores. Há plantas novas a enfeitar a parede lateral. Jasmins pequenos que durante a noite exalam o perfume – exótico – de uma noiva. Explico. As flores nascem em forma de buquê e toda vez que olho para elas, me lembro do buquê da noiva. Bobagem minha. Os trevos estão que é flores só. E a Maria-sem-vergonha não para de florir. O jardim está em plena pompa. Pronto para a festa diária que faço aqui. Como posso considerar verão se o mês que passou foi todo primavera? Bambina, as novidades abraçam meu coração em uma forma doce de amor. A vida me trouxe maresia de presente e vivo lendas mitológicas no meu quintal. Sou que é chuva em dia de sol, como agora. Até pareço personagem de uma história e se existe um estado de felicidade, estou dentro dele. Fevereiro chega e eu já quero antecipar os dias. Talvez eu seja uma das poucas que pularia – olha que contradição – esses dias de Momo. Me dá preguiça. Atravesso a rotina do dia. E já vivo Alice plena. E você sabe do que falo. E com isso, te abraço no doce agradecer por você na minha vida. A leve impressão de estar aí, seja no voar de uma farfalla ou em uma joaninha na roupa do teu menino me dá a certeza de que longe não existe entre nós.
É quase um absurdo amar e apaixonar – me dizia meu professor de teatro – cometo esse absurdo duas vezes. Amo Thereza e sou apaixonado por Ana.
Estávamos ensaiando um monólogo – A menina do tapete e o menino do girassol, onde eu lia algumas cartas no palco no desenrolar da peça.
Apenas no dia da estreia é que descobri que as duas era a mesma pessoa. Ana Thereza e que a peça foi uma declaração de amor para ela. Era um amor especial.
Eu sempre repetia a ele que queria um dia um amor daqueles para mim, porque havia uma magia quase transcendental entre os dois. Presenciei dias seguidos a química que havia ali.
O tempo nos levou para caminhos diferentes e o teatro ficou só no sonho mesmo, apesar do sucesso da peça. E de Theodora, a personagem, ficar gravada em mim, desde então.
E hoje, eles vieram em minhas lembranças pelo simples motivo de sentir aquela mesma magia e venho declarar a você meu maior absurdamente amor explicito.
Primeiro você me trouxe o encanto em buquês de poesia e coração. E a sensação de amplitude foi tomando meus espaços todos e quando percebi já era você por inteira. Em palavra, corpo, alma e desejos.
Com você eu dancei na chuva. Pulei ondas. Em um corredor esplêndido, fez meu rio virar mar e me deixou plena de maresia.
Saí pela noite a desenhar estrelas em seu corpo e vez por outra embriagar de paixão. Absurdamente.
Embriagada, eu conheci a felicidade em teu riso molhado dos meus beijos. A boca estava ali, ao alcance do toque. Bastava fechar os olhos e sentir.
Embriagada, eu sentia tuas mãos a me buscar e nesse momento, o prazer era dos mais extraordinários que vivi. A palavra é essa, querida. Extraordinário amor.
Com você conheci caminhos nunca antes percorridos e neles me perco para me achar de novo dentro de você nesse desalinho mágico de viver o amor, onde descubro que tudo que vivi até hoje, foi para respirar esse momento pleno.
As minhas manhãs ganham o encanto do seu nome e minha tarde enrola na saudade sentida, até cair de novo em seus braços em fim de tardes ensolaradas e noites de chuvas.
As estações vivem todas aqui, dentro de mim. Quente, frio, calor, desejos, flores e cores deslumbrantes com as quais você me pinta. E há um canto nascente dentro da minha alma onde pinta estrelas no meu céu. Esse mesmo céu onde voo para pousar em sua boca e seu corpo, meu amor.
E por onde passo derrama corações sobre meus pés.
É infinito esse sentir e não é de agora. Já era desde sempre e será. Porque o o extraordinário foi feito para ser sempre.
E assim, te amo todos os dias na delicadeza dos instantes. Na borboleta que faz amor com a flor e se encanta pelo cheiro. Te amo na chuva que cai, no sol e no mar onde me envolve no mais doce viver.
Se isso se chama felicidade então eu a vivo plena todos os dias.
Eu te amo em todos os idiomas existentes e até naqueles que eu inventar.
Eu não te amo nem mais nem menos
do que o muito variado intento
te amo aqui, além do pensamento
e muito mais do que o coração
cabe em cada vácuo dele, em cada solidão
te amo mais do que eu deveria
de te pensar em delírios todo dia
e te querer a todo custo agora
passear por onde você mora
te amo, assim, a mais do que cabia
na alegria de te amar eu deveria
te amar assim, na solidão das horas
Do eu quero, penso e te possuo
nos pensamentos ardentes, fugazes
de cores desvairadas, escritas em cartazes
eu te amo, assim, beirando a loucura
e ao mesmo tempo em cada ternura
eu te amo e vou te amar cada vez mais.
Ah,eu faria tudo de novo.
Nesse ano que passou,eu me envolvi.
Me envolvi por olhos, por palavras, por mãos, por coração.
Me envolvi por desejo, por beijo, por paixão
Eu chorei, eu ri, eu amei…
eu amaria de novo o mesmo amor
eu sofreria a mesma dor
eu sentiria a mesma falta
cantaria a mesma música, e declamaria o mesmo poema.
Eu envolvi-me em palavras
eu mergulhei nelas.Tive perdas, tive ganhos, errei, acertei
mas amei…amei intensamente
daqueles amores que ficam gravados,cravados e você pensa como viveu sem ele até então.
e emocionei e amei…e amo
faria tudo diferente, de novo.
Falaria as palavras certas, e erraria de novo
e escreveria seu nome mais vezes e gritaria mais vezes que te amo.
E já é novo ano.
e tudo se repete e tudo se renova
e tudo é esperança e tudo é equilíbrio
e tudo é. E não é.
Talvez chore de tristeza, talvez chore de alegria
talvez me desnude, me cubra
me solte.
Mas de uma coisa tenho certeza em toda intensidade
de qualquer forma serei eu.
Com defeitos (esqueça-os)
com qualidades (enalteça-as)
com todo amor que meu coração absorve por você, por ela, por ele, por tudo, pela vida.
Que seja a hora de repetir ou de refazer e a hora de criar.
Que seja a hora de ser feliz.
Fazia colchas de retalhos que, normalmente iriam pro lixo. Daqueles pedacinhos de pano saiam mantas que quase parecia as páginas do livro que quero um dia escrever, de tão bonitas que eram. Eu ficava horas ao lado dela vendo-a emendar os retalhos e eles se transformarem em figuras feito retrato costurado. Lembro-me que ela dizia que costurar era como fazer amor com a máquina. Isso a preenchia…minha mãe vivia plena de tudo, quase tudo a preenchia. Ouvi muitas vezes ela dizer isso ao costurar, ao cozinhar, ao bordar, ao cuidar da horta…
Pegava um pano simples e bordava ali, sonhos… Para mim, um dos momentos mais lindos era a hora de colocar óleo nos pedais. Ela calava a máquina do choro de ranger correias besuntando as dobradiças que haviam e a máquina se calava…
Enquanto costurava ela cantava. Era quase um mantra a canção na boca dela. Eu, do meu cantinho de filha ficava desenhando na mente aquele momento para que durasse feito retrato. Nem respirava.
Quando ela não estava costurando estava sendo plena de qualquer outra coisa. Sendo mãe. A máquina, ficava ali, parecendo sentir saudades do amor que fazia com ela, com seus pedais quietos que parecia gritar. Com seus apetrechos descansando em cima, a tesoura, o ferro de passar cheirando a carvão e a canção de ser plena em qualquer lugar.