Cuiabá, sob o peso manso da manhã…
Bambina mia,
A sua carta chegou como o vento de primavera que levanta a cortina, espalha o cheiro do café pelo quintal e revolve as folhas e as sementes de ipê que rodopiam pelo ar. Ler sobre o seu cansaço antigo, sobre aquela dúzia de envelopes despejados de uma só vez no lixo da cozinha, fez o meu próprio silêncio ecoar por aqui. Há momentos em que ausentar-se das coisas do mundo não é um ato de desamor; é a única linha de defesa que nos resta quando o corpo cansa de carregar diálogos que já não encontram eco.
Você se pergunta o que sentiram as pessoas do outro lado quando você interrompeu a conversa. Eu arrisco um palpite, bambina: talvez tenham sentido o mesmo frio que dá na pele quando a agulha de metal para no meio do bordado e o fio fica solto, esperando um nó que nunca vem. Mas a literatura, assim como algumas plantas do meu quintal, sabe sobreviver à estiagem. Os envelopes amarrados com fita no fundo do seu baú estão apenas esperando o Kairós exato — o tempo da maturação, aquele que não tem pressa.
Eu fiquei aqui pensando se a expressão Mi manchi se aninha em seu peito quando você pensa no mar. Eu estive apenas uma vez vendo as ondas quebrarem na praia e a saudade dele me rasga inteira. Assim como sei o quanto a palavra Mi manchi te engole quando conversa com tuo menino, mesmo que através de cartas. Lembrei-me de que nunca escrevi para ele. O signore gentil a quem devo tanto. Às vezes, converso com ele… Dias desses, em plena tempestade, eu o chamei pelo nome. Um trovão ecoou e juro que quase ouvi a resposta dele às minhas perguntas. Mas esse é um papo de amigos sobre baús, cartas e uma certa bambina. Se você o escolheu para ser o correspondente-primeiro desse retorno, eu me sento na outra ponta desse banco invisível, aceitando o avesso das suas ausências. Afinal, quem escreve cartas sabe que a distância é apenas um detalhe quando as almas partilham o mesmo alfabeto.
Que bom que você voltou a riscar o papel, mesmo que o grafite às vezes rasure a realidade in vitro da ficção. Saiba que o cais do meu quintal continua firme, exalando o perfume das ervas frescas e sendo um porto seguro para você sempre, dentro dos dias e das manhãs ligeiras.
Bacio,
Mariana Gouveia

Fui lendo entre pequenos goles de café, com o sol insitindo em raios pela janela e eu ainda com a imagem da xícara e sua fumaça perfumada. Fui lendo-te e o sorriso escapou e quando percebi não era apenas meu o riso, era do menino, ressoando gostoso pelo quintal. Braços cruzados a frente do corpo e aquela expressão caprichosa pedindo por café. A senhora vem?
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