Afetos · Das palavras das cartas · Literatura · Lunna Guedes

Os Envelopes de Setembro e o Sorriso Aquarelável

Setembro se despede na folha do calendário deixando na boca o gosto bom das colheitas maduras. Olhar para as trinta páginas escritas ao longo deste mês é compreender que o tempo não corre em vão quando escolhemos deixar as palavras soltas para além dos envelopes coloridos. Ouço o balanço final sobre os dias que ganharam corda rápida demais, sobre o carinho que cruzou o oceano e sobre o modo como convertemos os nossos diálogos em envelopes de afetos, e imediatamente sinto o coração pulsar na mesma frequência mansa de quem sabe que ganhou um abraço, mesmo que de longe.

Nossa literatura partilhou da mesma mesa durante estas quatro semanas de Primavera Literária. A estação e seu equinócio transformaram as palavras em brotos de flores por aí, abrindo caminhos de claridade enquanto estendíamos pontes que atravessaram estados e fusos horários. Dividir o sal com os mestres, resgatar o erotismo esquecido de Gilka ou inventar missivas fictícias para as personagens que nos habitam a derme foram rituais que reavivaram os meus próprios ontens e me devolveram à verdade do meu chão. Abri um sorriso aqui ao imaginar o seu sorriso aquarelável. Uma brisa suave soprou pelo quintal.

Quando os pássaros organizam os seus últimos sobrevoos deste mês e o relógio da sala dita o compasso calmo das horas, fecho este ciclo com a certeza mansa de quem soube ser árvore. Grazie, bambina, por partilhar o mar nada calmo da sua escrita com o meu quintal. O mês termina, os ponteiros se acertam, mas os laços que costuramos com o fio do afeto continuam intactos, pulsando no centro de cada linha que ainda vamos inventar. É logo ali. Outubro já é amanhã.

Mariana Gouveia

Um comentário em “Os Envelopes de Setembro e o Sorriso Aquarelável”

Deixe um comentário