Afetos · Das palavras das cartas

A Colecionadora de Ontens e o voo de despedida

Mãe,

Mãe,

Hoje completam-se quarenta e quatro anos desde o dia em que você decidiu virar passarinho e migrar para além do horizonte. Setembro sempre me devolve a essa contagem mansa de tempo, uma matemática de ausência que aprendi a domesticar através da caligrafia do afeto. Ouço os relatos sobre as pessoas que acumulam casas por cinquenta anos e empilham objetos em gavetas, e imediatamente olho para as minhas próprias mãos: não herdei a capacidade de acumular moedas ou selos, mas guardo um sem-fim de palavras e um baú repleto de ontens que divido com o silêncio do meu lugar.

Ao caminhar pelas ruas, às vezes me pego repetindo aquele velho costume de conferir se as silhuetas antigas continuam onde deveriam estar. Dá uma angústia perceber que passei com você em diversas ruas e até o hospital onde você buscava a cura também foi o último lugar onde seu passo alçou voo. Mas quando fecho os olhos, as paredes do nosso território na fazenda reaparecem inteiras. Lembro-me da alquimia do tacho de cobre e da fumaça mansa que subia do fogão a lenha. Você não deixou heranças de alvenaria ou caixas pesadas para os herdeiros limparem; deixou em mim essa mania bonita de conversar com as coisas do mato e de buscar a poesia que nos salva das dores do mundo.

Há quem colecione fracassos ou amores impossíveis, suspendendo lamentos pelas esquinas dos dias. Eu escolhi colecionar a sua permanência em tudo o que escrevo. O seu voo, mãe, não me deixou vazia; converteu o meu próprio corpo em casa de memória. Cada ciclo que se renova no quintal, cada flor que desabrocha e cumpre o seu compromisso com a terra, traz um sopro da sua energia. Sigo sem me importar com o tempo dos homens e com as suas medidas exatas. Prefiro a maior precisão dos crepúsculos, quando la luz muda de tom e me avisa que nunca estamos sós enquanto houver escrita para vigiar o horizonte.

Preparo o meu chá neste amanhecer lento, enquanto os pássaros organizam os seus primeiros cantos e o sol ensaia rasgar a poeira do dia. Minha escrita atravessa a distância de mais um ano para te dizer que o chão onde finquei os meus pés continua lavado de céu. Corto o excesso das frases, limpo as frestas invisíveis da saudade e permaneço aqui, de pés descalços, honrando a árvore da qual sou galho. Que o seu voo continue alto, mãe, e que o seu rastro de luz permaneça alimentando as minhas consoantes e vogais.

Com o amor de sempre,
Mariana Gouveia

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