Afetos · Lunna Guedes

O Chão que Reivindica o Pouso.

Ao longo deste mês, a convite da Scenarium Livros Artesanais, participo do projeto Primavera Literária Os textos publicados aqui serão travessias diárias; respostas sensíveis e diálogos de quintal com a escrita de Lunna Guedes.

O chão pronto para o pouso: Setembro inventado no giz e nas frestas.
O chão pronto para o pouso: Setembro inventado no giz e nas frestas.

Você pergunta onde pousa Setembro, enquanto eu ainda tento decifrar o mistério de como a terra sabe a hora exata de acordar. Olho para o calendário que você mencionou — esse arranjo gregoriano que empurrou o Septem para o nono lugar — e percebo que, embora os homens tenham bagunçado as gavetas do tempo, a natureza ignora a contagem dos Césares. Para o chão que pisamos, Setembro nunca deixou de ser o começo. De repente, me vem à memória você desenhando as letras a grafite no papel, rabiscando os contornos de ontem, enquanto tocava Pink no repeat. Parece que foi ontem, mas já se vão vários ontens dentro de hoje.

Septem: as linhas do tempo rabiscadas a grafite no papel.

Você fala da ventania que arrancou as flores dos ipês em Agosto, como se o inverno estivesse com pressa de recolher suas malas. Aqui no meu quintal, eu brinco de amarelinha com essas mesmas flores amarelas que caem; uma leveza tão bonita, que parece que elas têm medo de tocar o chão. A paisagem não muda num estalo de dedos; ela ensaia. Há um silêncio grávido nos galhos secos, uma teimosia secreta sob a terra que, mesmo quando a gente dá água para elas, parece fingir que nada foi feito. Ela guarda o segredo para si.

Se você ainda não abandonou Agosto e se agarra aos ponteiros da realidade, eu me pego observando as frestas. Há várias delas por todo canto. Uma telha fora do lugar abre um pequeno clarão de sol na cozinha, bem rente aonde a Lolla costumava se deitar. Parece-me, às vezes, que ela ainda está ali. Para não pisar na ausência, dou um salto no espaço e me lembro, de novo, da amarelinha que desenhei no chão em uma tarde morna, sem nada para fazer. Pisando descalça de casa em casa, do um ao oito. O giz acabou na oitava casa e não cheguei ao céu.

Escrever é um modo de cavar o tempo. Enquanto você finalizava seu romance no pulsar do cuore, eu espiava a linha certa do meu bordado. Todos os dias olho para o céu, procurando por nuvens que finalmente trarão as chuvas. A expectativa de ver a paisagem mudar é, no fundo, a expectativa de mudarmos nós mesmos. Queremos que a primavera nos justifique. Mas, muitas vezes, aqui no meu lugar é primavera todo dia; a terra desperta as flores que plantei alheia a qualquer estação.

Não sei se pulamos a amarelinha do tempo ou se caminhamos arrastando os pés na poeira dos meses passados. Mas sei que Setembro não espera estarmos prontas para pousar. Ele simplesmente brota. O despertar da terra é um chamado bruto e delicado: a vida exige passagem.

Vamos virar a página. O chão do quintal já está pronto para o seu pouso.

Mariana Gouveia

Afetos

Ar, terra, fogo e água

Para Carolina Cassia.

Ela gosta do mundo das algas
chora quando vê a fome de perto
e no mangue é mulher principal…
é inseto, é bicho, é gente

Busca na origem, a água e os quatro elementos regem dentro dela
É uma só e ao mesmo tempo uma multidão
É pedra na sombra
é sombra no vento
é a força que vem do nome e na voz que grita contra a escravidão.

No ar, estende a mão como se quisesse comer a poesia da vida
ama a arte na rua e em qualquer lugar
é ar, é broto em formação.

Fogosa, domina o mundo
Margem fértil, resistente tal qual o mandacaru
e suave, como sua própria flor

Raiz mestra de quem a cerca
e sem palavras diante da poesia que o manguezal recita

É contra luz, porta, janela
é gravura, captura
solidão…

e na rua é todo mundo junto
é abraço, acolhida
é musgo, cacto, casca e flor
é espinho e perfume

é caule, é elemento
para mim, além de tudo
ela é vida e amor.

Mariana Gouveia
Fotografia: Carolina Cassia

Das palavras das cartas · Projeto52 · Scenarium Livros Artesanais

 — O silêncio aumentou tanto que o relógio parou.

É agora – na pura ausência das coisas
e a madrugada por abrir.
Um palco a lua.
Eu observada de fora da janela.
 Ana Luísa Amaral

Bambina mia,

Queria te contar que de repente, no meio da noite, surgiu um grito mudo dentro de mim… vim aqui, como se os últimos dias tivessem sido invenção minha, mesmo porque não combina comigo essa angústia em demasia. Confesso que até permiti que o silêncio dominasse a casa.

O silêncio aumentou tanto que o relógio parou… Não liguei o rádio, nem ouvi as canções que eu gosto… De barulho aqui, só o som do vento das folhas do ipê no quintal ou vez e outra, o latido dos cães no quintal. Até eles parece que entenderam que o quente dentro da pele era mais do que uma febre sutil. O relógio, coitado, perdeu sua função de marcar as horas quando descarregou. Foi retirado da parede e permanece quieto sobre o móvel da sala.

Mas, hoje, abri as cortinas e deixei o sol entrar. Arrastei os móveis do lugar, limpei a poeira e molhei as plantas. Depois, suspirei e enfrentei o dia sem missa, sem notícias lidas e tratei apenas de ver a receita do pão recheado que fiz. Foi quase uma alquimia combinar a massa com o recheio e o cheiro do alho a invadir a cozinha… no canto, sobre a mesa, as roupas por passar.

Não foram dias fáceis, mas deixei outubro para trás, com seu luto, suas lutas, suas dores e a lágrima seca por trás dos olhos… Perdi prazos – eu sei – e textos deixaram de ser escritos. Às vezes, fico pensando em como cheguei até aqui, nessa encruzilhada como quem esqueceu o endereço. Mas, a monotonia cedeu e avancei no equilíbrio das horas que o relógio não marca.

Choveu e trovejou e foi nesse momento que pensei em te escrever e dizer que apesar de tatear as paredes no escuro, buscando a porta de saída do quarto para não acordar ninguém, eu estou bem… acho que descobri que sou forte – ou pelo menos finjo que a coragem veio aos poucos e o medo que me atingia evaporou-se…

A vida é essa sombra no espelho, é esse azul desbotado no céu antes da chuva, é o arco-íris quase apagado entre um relâmpago e outro e eu sou essa espera de tempos em tempos que se atreveu a chorar… mas que hoje já respira sorrisos.

Grazie por seu abraço e mão estendida… Grazie por ter estado sempre aqui.

Bacio,

Mariana Gouveia
Projeto 52
Scenarium Livros Artesanais

Meus Livros · Portas Abertas - Codinome Lucidez · Scenarium Livros Artesanais

Portas Abertas: Codinome Lucidez. Uma resenha.

Por Marcos de Farias

Conheci Mariana Gouveia num entremez, no hiato entre um e outro ato da ópera. Aconteceu quando me deu na telha começar a registrar o meu tédio na rede, ocasião em que pari um blogue. Bem, na verdade verdadinha veraz não conheci realmente à Mariana, somente à distância, enquanto lia seus escritos, de modo assim fantasmal, internético.
Mariana, a Gouveia, desde o começo gostei de pensar nela assim, cerimoniosamente, como se me dirigisse a uma castelã. Dona Mariana, dos Gouveias. De Goiás e Mato Grosso adentro.
Falava do que mesmo? Já se me esqueço. Não, relembro, quero escrever sobre. Homessa, nunca termino um período!
Bem, PORTAS ABERTAS: CODINOME LUCIDEZ, livro de Mariana Gouveia, que escreverei deste jeitinho, com as maiúsculas nos lugares errados, sapecando um itálico se o editor de texto suportar. Uma resenha, minha ambição. Mas queria muito mais, queria que não fosse a resenha laudatória habitual. Queria, quero mesmo, que seja uma conversa aqui do lado de fora sobre o que ocorreu no lado de dentro. Que seja este um texto que soe como um assobio despretensioso.
De Mariana, primeiro, conheci seu estro. Uma escrita sedosa, no seu blogue O OUTRO LADO (PORQUE O LADO MELHOR É O DE DENTRO). Depois os livros, como este Portas Abertas, com páginas atadas por fitas.
Portas Abertas é um daqueles livros na linha da declaração atribuída a Clarice Lispector, “gênero não me pega mais”. Não é confessional, mas é. Não há o narrador onisciente clássico. Mas é como se houvesse e a quem eu chamaria de comedido. Há fluxo de consciência, também comedido, quase a medo de ser desrespeitoso, toca aqui e toca ali, mas nunca se aprofunda. Há fluxo, mas o que informa, o que se nos dá a perceber são as pequenas coisas. Um teto, uma boneca, uma janela, um sofrimento, uma fotografia.
Um monólogo da personagem, Maria, um livro-razão de sentimentos. Liberta do manicômio, mas com ele dentro de si, se reconstruindo com as peças que tem à mão. Refazendo-se com pequenezas diversas, agregando silêncios.
Os americanos chamam de “Revelatory Plot” ao texto literário que aparentemente prescinde do enredo. “Kishōtenketsu” é o termo japonês para uma estrutura que não atende aos padrões ocidentais da escrita definida por suas tensões. Quem leu Yukio Mishima irá entender. Existe um centro, um fulcro e dele a escrita se irradia e, portanto, não começa e nem finda, mesmo quando há morte, mesmo quando se propõem finais. Assim também o “Portas” de Mariana, simples até a medula, como se toda a coisa pudesse ser reduzida a um momento íntimo, a um ato banal se irradiando em teia, como um cobertor definindo relevos.
Falei de Mishima e me vem à mente um seu conto no qual o motivo condutor é uma garrafa térmica que ao ser aberta produz um som que assusta a uma criança e partir disto levamos um tempo enorme de leitura para perceber que trata da história de um pai, exilado em um país estrangeiro onde encontra uma amante do passado. Ou uma frívola concubina imperial que corrompe um homem santo e no processo alcança a iluminação.
Aparentemente sem ponto de ancoragem, “Portas Abertas”. Só a voz de Maria e o enredo dos dias.
Portas Abertas: codinome lucidez é um livro que tem primeira página, depois outras e mais outras.
E, se você o encomendar, virá atado em fitas (uma ideia linda, um achado da editora, a Scenarium) e necessariamente você cogitará que alguém o montou, assim, despretensiosamente, com fitas unindo papéis diversos.
Acho que é tudo o que eu tinha a dizer sobre o livro e sobre Maria e sobre Mariana, a Gouveia, de Goiás e Mato Grosso adentro.