Rezei contando as gotas das teias da aranha amarela que tece rosários no quintal. A vida tem a delicadeza das coisas extraordinárias em algumas manhãs. O pássaro laranja que voltou e fez lugar no galho do pé de ipê. A imagem cabe na intensidade do dia.
Conheci o homem do campo. Não tinha nome comum como os outros nomes. Tinha sonhos e carregava eles nos braços como se fosse colher o que plantou. Não gosta da noite – disse – … é quando o cansaço bate forte e ele chega vestido de esperança – e na alma, o coração vadio ri de qualquer coisa. Leu para mim cartas que chegou em suas mãos, com letras que eu o ensinei a ler – quando ele era um moço sem sonhos – e começou a escrever poesias depois disso… Contou-me sobre o rio e suas curvas como se fossem serpentes a desenhar o formato entre a floresta e do bicho que louva a Deus e se molda ao ambiente. Acolhe a noite com seus cansaços tênues contrário ao sono que nem vem porque ele sonha em ser bicho e viver.
Guardou a mão para o vento da tarde. A carícia rondava a alma, a pele. O elemento água me pertencia com jeito de mar. Naufragou nas esquinas todas. Doida de pedra mergulhou em um rio rasante. Engoliu a mudança das marés. Cavou com a própria mão a areia e sentiu-a dentro da pele, couro rasgando sendo tocado. Maresia a saber na boca e o eco das ondas a bater no muro. O rio é esse abismo de mar e o peixe a voar para além das muralhas… as conchas contando histórias dos búzios que vieram pelo correio e trouxe o cheiro de mar e nunca mais deixou de ser marítima. A anatomia na pele de vida marinha. Quase ser úmida de tanto amar. Soubesse nadar, voaria.
Desvendou o caminho da floresta na volta para casa. Namorou verdadeiramente a lua. Cabia onde, aquele verbo que voava? Continha onde, a asa num grito? Os medos bobos foram jogados pelos caminhos. Alguém leu a notícia da sorte em um livro. Buscou o bilhete do realejo que tirou na infância. O trevo marcava o coração dos bichos… Pulou sete ondas imaginárias. Desejou a sorte de um amor tranquilo. Viveu até onde a vida respirou saudade.
A noite se entrega no gesto. Acolhe a geometria das horas e o signo em ascendente. Desenha histórias vividas e eu busco vontades que nunca experimentei. Alguém me diz sobre fatos que nunca imaginei. Era lua em algum lugar. Ninguém sabia os caminhos das rotas. Os retornos voltam sempre para o mesmo lugar.
Às vezes, tudo é o mesmo lugar no mapa e você fica a desenhar atalhos – e embora esses passam a ser a melhor parte da viagem – e a rotatória não muda… Ciclos.
Seu nome repetido em gestos em parentes, amigas, sonhos… Onde seu nome quando? Qual flor o jardim canta? Que solidão a minha se une com a tua?
Em qual idioma eu criei asas e perdi o encanto? Em qual encanto você se perdeu de mim?
O precipício é logo além do que os olhos veem. E a certeza é de que só vale a beleza do caminho ou da essência em que nossa alma aspira.
Mariana Gouveia Projeto Coletivo O Mapa de Vênus Scenarium Livros Artesanais
Na autonomia do dia as cores parecem estranhas. Miudezas agigantam no quintal. Recebo a visita do toque. A rotina não é a mesma da espera. Ontem o tempo mudou. A imunidade caiu. A moça de azul pediu cuidados. Desenhei seu nome mil vezes. Pintei corações no muro. Dizem que é o delírio da febre. A voz não sai mesmo na tentativa da canção. O meu silêncio dedico ao toque. Faço mímicas. Ninguém compreende os sinais de saudades. É falta em tudo que é canto. Vontade de pouso em tua mão. O chá amargo avalia o dia. A estranha sou eu.