Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

Mulher de nuvem

Um dia,
decidiu que não levaria consigo
de herança das outras
as tantas que queriam
indicá-lhes caminhos
podar as vontades…

queria apenas ser….

Tal qual a nuvem
que passeia com ritmo
e a velocidade do vento
na atmosfera.

Saiu de tudo isso
como se tivesse travado
uma batalha.
alguém lhe falou
dos ideais,
da bravura
e mais uma vez,
da submissão.

Mariana Gouveia
In Mulher de nuvem
Projeto Coletivo
Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Borda-se a pele com fios e letras soltas · Scenarium Livros Artesanais

Azul em qualquer céu

O sol desenhou no lago
… A invasão do eclipse
– dentro dele.

Suspensa em minha mão…
A saudade.

O sol levou minha mão
pelo labirinto do céu
… e suas nuances de azul.

Mariana Gouveia
Borda-se a pele com fios e letras soltas
@scenariumlivros

Afetos

Dos voos da manhã, vibrei com os pousos.

Rezei contando as gotas das teias da aranha amarela que tece rosários no quintal.
A vida tem a delicadeza das coisas extraordinárias em algumas manhãs.
O pássaro laranja que voltou e fez lugar no galho do pé de ipê. A imagem cabe na intensidade do dia.

Mariana Gouveia

Afetos · Scenarium Livros Artesanais

e a semana só tem segundas-feiras

Conheci o homem do campo. Não tinha nome comum como os outros nomes. Tinha sonhos e carregava eles nos braços como se fosse colher o que plantou.
Não gosta da noite – disse – … é quando o cansaço bate forte e ele chega vestido de esperança – e na alma, o coração vadio ri de qualquer coisa. Leu para mim cartas que chegou em suas mãos, com letras que eu o ensinei a ler – quando ele era um moço sem sonhos – e começou a escrever poesias depois disso… Contou-me sobre o rio e suas curvas como se fossem serpentes a desenhar o formato entre a floresta e do bicho que louva a Deus e se molda ao ambiente. Acolhe a noite com seus cansaços tênues contrário ao sono que nem vem porque ele sonha em ser bicho e viver.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

doida de pedra

Guardou a mão para o vento da tarde. A carícia rondava a alma, a pele.
O elemento água me pertencia com jeito de mar. Naufragou nas esquinas todas. Doida de pedra mergulhou em um rio rasante. Engoliu a mudança das marés. Cavou com a própria mão a areia e sentiu-a dentro da pele, couro rasgando sendo tocado. Maresia a saber na boca e o eco das ondas a bater no muro. O rio é esse abismo de mar e o peixe a voar para além das muralhas… as conchas contando histórias dos búzios que vieram pelo correio e trouxe o cheiro de mar e nunca mais deixou de ser marítima. A anatomia na pele de vida marinha. Quase ser úmida de tanto amar. Soubesse nadar, voaria.

Mariana Gouveia

Scenarium Livros Artesanais

Estendeu as mãos perdidas nas flores…

Ph: Kiyo Murakami

Desvendou o caminho da floresta na volta para casa. Namorou verdadeiramente a lua.  Cabia onde, aquele verbo que voava? Continha onde, a asa num grito? Os medos bobos foram jogados pelos caminhos. Alguém leu a notícia da sorte em um livro. Buscou o bilhete do realejo que tirou na infância.
O trevo marcava o coração dos bichos…
Pulou sete ondas imaginárias. Desejou a sorte de um amor tranquilo. Viveu até onde a vida respirou saudade.

Mariana Gouveia
Agenda 2025
Sceanrium Livros Artesanais

O Mapa de Vênus · Scenarium Livros Artesanais

quando era a vez do desencanto

Ph: Alisa Verner

A noite se entrega no gesto. Acolhe a geometria das horas e o signo em ascendente. Desenha histórias vividas e eu busco vontades que nunca experimentei. Alguém me diz sobre fatos que nunca imaginei. Era lua em algum lugar. Ninguém sabia os caminhos das rotas. Os retornos voltam sempre para o mesmo lugar.

Às vezes, tudo é o mesmo lugar no mapa e você fica a desenhar atalhos – e embora esses passam a ser a melhor parte da viagem – e a rotatória não muda… Ciclos.

Seu nome repetido em gestos em parentes, amigas, sonhos… Onde seu nome quando?
Qual flor o jardim canta? Que solidão a minha se une com a tua?

Em qual idioma eu criei asas e perdi o encanto? Em qual encanto você se perdeu de mim?

O precipício é logo além do que os olhos veem. E a certeza é de que só vale a beleza do caminho ou da essência em que nossa alma aspira.

Mariana Gouveia
Projeto Coletivo O Mapa de Vênus
Scenarium Livros Artesanais

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Ensaio

Haveria voz para calar – me
quando o beijo não chega
E a janela oscila entre a cortina
e o enredo?

Ensaiei mil passos
Desenhei rotas de fuga
para ouvir o meu nome
ressoar em teus lábios

Mariana Gouveia
In – Projeto Coletivo
Scenarium Livros Artesanais
*fotografia: Antonie de La Roquelle

Scenarium Livros Artesanais

Onde foi que meu olhar achou o teu?

foi na esquina da tua rua
entre a espera e o namoro.
Tu brincavas com minha liberdade poética
e eu com meu exagero exageradamente conhecido.

os meus olhos ao cruzarem com os teus
perceberam que um sentimento envolvia
e certeza tem a ver com as palavras
que o momento por certo me dizia

você falava da paixão pelo ar,
pela música, eu, pelo rádio
 falava da paixão de falar, de histórias que  eu ia musicar…


eu nunca te toquei mas te sentia
pela brisa que a esquina me trazia
pelos olhares do olhar que mais profundo
e através do teu olhar, eu via o mundo
 

Mariana Gouveia
Ph: Tumblr

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Prazer, estranha

Na autonomia do dia as cores parecem estranhas. Miudezas agigantam no quintal. Recebo a visita do toque. A rotina não é a mesma da espera. Ontem o tempo mudou. A imunidade caiu. A moça de azul pediu cuidados. Desenhei seu nome mil vezes. Pintei corações no muro. Dizem que é o delírio da febre. A voz não sai mesmo na tentativa da canção.
O meu silêncio dedico ao toque. Faço mímicas. Ninguém compreende os sinais de saudades. É falta em tudo que é canto. Vontade de pouso em tua mão. O chá amargo avalia o dia. A estranha sou eu.

Mariana Gouveia