Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Ações-emoções-falas-gestos se oferecem em reprises, como um filme. 

Bambina mia,

Aceitei um convite seu de agora a pouco para aumentar o som e foi o que fiz… Pink agora ecoa no meu quintal enquanto te escrevo e lembro-me que a primeira vez que ouvi Try foi aí no seu lugar. Você estava a beira da mesa tecendo fitas de cetim unindo minhas palavras de Cadeados Abertos. Em pé, na porta, guardei aquela imagem e salvei na memória o refrão para quando voltasse ao meu quintal. Desde então, a canção faz parte da minha playlist que tem seu nome. Essa playlist é a trilha sonora de minhas tardes-noites de todos os dias onde acrescentei algumas canções coreanas que tocaram meu coração nos últimos meses.

Mas, eu queria te falar da manhã que surgiu aqui, sem o frio intenso que já arrastava há alguns dias… Busquei no canto norte – ah, o Norte – do muro os primeiros raios do sol que falamos tanto e revisitei nosso diálogo de ontem – as últimas palavras antes do sono me consumir – e do quanto elas me acalentaram depois de um dia triste e tenso. Me aninhei no seu abraço e vaguei pelo espaço do meu lugar.

Depois dos afagos nos cães e de coar o café, a primeira coisa que faço pela manhã é caminhar no quintal, com a xícara nas mãos… verifico os casulos, as joaninhas no pé de algodão – que pasme! nasceu de novo e já está grande, depois do último que foi arrancado em uma tempestade – e vou aguar as plantas. Mas, hoje, meus olhos pousaram no Encontro – esse pássaro que ganhou ninho por aqui, com sua asa de filete laranja – e fiquei horas a ouvir o trinado dele que você já ouviu em alguns dos meus áudios, no varal. Somos sim essas observadoras de pássaros e tudo isso se transforma em momentos nossos.

Já te contei que chorei com sua missiva e de como comecei a manhã igual você descreve nela… Mas juro que só vi sua missiva depois das palavras iniciadas em meu caderno de florzinhas rosas no começo da tarde e fiquei a imaginar como o universo nos liga mesmo que através da escrita em momentos – quase – iguais onde me aconchego dentro do abraço que sempre me oferece. Já te disse que é o melhor lugar do mundo para mim?

Aqui, encostadas no pé de ipê estão as cadeiras – não tenho poltronas – de fios onde suspiro em alguns momentos do dia. É onde disputo os voos dos pássaros que voam por cá e muitas vezes com Yoshi que quer a cadeira preferida e seu inseparável travesseiro. É aqui que te acolho em tantos momentos e onde meu riso te alcança nas conversas bobas e variadas.

É onde também te grito quando os trovões ecoam por aqui. Maio já se precipita dentro dos dias e eles só aconteceram por aqui uma vez… Por enquanto, o som que ecoa aqui é Try – que está no modo repeat enquanto as imagens invadem minhas mente como se fosse reprise, como um filme. 

Bacio,

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Até que um pássaro me saia da garganta

“Horas, horas, sem fim,
pesadas, fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.

(…)

Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça.”

Eugénio de Andrade

Eu esperei muito antes de escrever, mas descobri que só colocando as palavras para fora essa solidão dolorida caiba em algum canto. Já te disse que desde ontem eu estou me sentindo estranha e que mesmo que busque dentro de mim o motivo ele foge como se fosse ágil demais para essa letargia que sinto.

Foram poucas vezes que senti essa imensa vontade de chorar. Você sabe que as emoções, pra mim, sempre vem em camadas e que na maioria das vezes consigo atravessá-las sem maiores danos… mas ainda não vou chorar hoje… O dia afinal, será amanhã… Amanhã vou chorar até que um pássaro me saia da garganta, tal qual o poema do Eugénio… hoje, serei apenas essa vontade desavisada de que posso esperar mais um dia… o dia em que estarei só e ninguém poderá perguntar o motivo.

Por hoje apenas espero a lua caminhar no céu enquanto o cheiro de ervas exalam no quintal e brisa suave invade a noite… Por enquanto, hoje apenas repito seu nome como quem canta uma canção.

Mariana Gouveia
fotografia: Pinterest

Corredores, Codinome Locura

Na geografia das coisas

Há o abandono nato das asas que voa.

O pássaro não veio. Ela não quer falar. O cansaço das horas vazias.
A esperas das horas em que não veio.
A solidão é dentro da gente.

Tanta intensidade até na palavra vazio. O vento empurra o meio do nada.
Às vezes, é preciso entender os silêncios…

Mariana Gouveia

Revista Plural · Scenarium Livros Artesanais

Lembranças

O doce branco do açúcar
a ativar o café torrado…
o bule antigo, com florzinhas
decoradas, cor verde-oliva.
Alguém… na carta disse
que o azul das pétalas lembrava
a cor do céu e que não mudava
o sabor e nem o aroma
do café a espalhar essências
pelos quartos e acordar o dia
na canção.

A mãe teimava que azul era o céu
quando o relógio dava
meio-dia.

Alguém saboreava histórias escritas
mas o livro do sebo não tinha
as dez páginas finais…
E teve de recriar a história
com os irmãos. Depois se descobriu
que a irmã tirou de propósito
as folhas…

O riso do irmão mais novo
era afago… um dia seria palhaço de
circo e viveria a desafiar
o globo da morte.

Não foi…

Mas os filhos acabaram
dentro do globo
da morte-vida

No quarto ao lado,
o baú, na casa antiga
da infância… descobriu
o sentimento que sentia
todas as vezes que alguém
falava de saudade:

Era amor!

Mariana Gouveia
Texto publicado na Revista Plural Inéditos & Dispersos
Scenarium Livros Artesanais

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Pelas pequenas alegrias da vida adulta…

Eu vou pro fronte como guerreiro
Nem que seja pra enfrentar o planeta inteiro

Emicida

foi ouvindo a música…

Menina Samara.

Quando li a frase acima no seu story achei que cabia uma carta, dessas que costumo escrever para quem cabe no meu coração. Eu adoro escrever e amo muito mais escrever cartas… às vezes, eu escrevo para ninguém, ou em muitos momentos escrevo para coisas, tipo o vento – já escrevi uma carta para ele e virou parte de um documentário – ou para meu beija-flor.

Tenho escrito para minha mãe – que já se foi há 40 anos, para meu pai e meu filho, que é o elo que nos une. Enfim, escrever cartas me acalma e me coloca em diálogo com quem eu gosto. O destinatário delas é escolhido pelo coração e dessa vez você foi a escolhida.

Li a frase da música de Emicida e pensei nessas pequenas alegrias da vida adulta. As minhas são fáceis de perceber. Fotografar meu quintal, meu lugar, brincar com os cães, cantarolar e tantas outras coisas bobas, mas que fazem com que os dias fiquem mais leves. Torcer para meu time ganhar e se perder, que não seja de tanto que me faça ser a chacota da sala de fisioterapia… e as suas? Onde cabe essas pequenas alegrias em seu peito?

Já vi que tocou a primavera com as mãos, que adora noites de lua, dias de praia e os animais. Seria esse o motivo da frase que a canção repete: “é pra você, amor?” Atuar, cantar, dançar e rir. Ver seu time ganhar… poder falar em nome dele. Ser madrinha da bola… talvez, eu tenha acertado pelo menos uma…

Sabe, muitas vezes não damos valor para essas coisas pequenas e também esquecemos que são elas que transformam as rotinas todas. Um riso para alguém desconhecido na rua, ceder um lugar no ônibus, ajudar alguém a se levantar depois de um escorregão… ouvir um amigo durante um desabafo. São coisas que talvez nem nos toque, mas muda o dia de alguém, porque a gente gosta de se sentir tocado seja por uma mão amiga, um olhar de cumplicidade ou até mesmo caminhar em silêncio. A vida precisa dessa sintonia toda com o universo.

Que você tenha sempre alguém para ouvir: “é pra você, amor… e que as pequenas alegrias da vida adulta te leve para os caminhos do bem e que você tenha a sorte de um planeta inteiro – ou pelo menos toda a torcida do Flamengo – torcendo por você. Eu estarei na linha de chegada com bandeiras e flâmulas vibrando por você.

Abraço carinhoso
Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Era amarelo…

Era amarelo. Era todo amarelo o quintal da casa onde cresci. Era amarelo e havia um pé de flores amarelas. Me lembro de mim, desde sempre, correndo sobre o ouro do quintal.

Amarelo-dourado era o sol, a espernear sobre as pedras, quarando lençóis. As minhas quedas bruscas eram também amarelas. E a baba do cachorro doido, do qual eu sempre devia fugir. De vez em quando eu o via, para lá do meu quintal. Parecia sempre o mesmo, mas havia muitos. Cachorros endoidando no redemoinho amarelo.

Ata, fruta-do-conde, manga – amarela em suas nuances de cor, depois do verde – O verde é o fruto da terra e o amarelo é o fruto do sol. Pintávamos de amarelo as descobertas. Nós, os sóis.

O amarelo é uma cor que não passa como as outras cores passam. Enquanto as outras cores desbotam, o amarelo, com o tempo… Amarela. Do amarelo se fez o rio onde desaguam lembranças, o sol dourando as margens, em um campo amarelo. Pinto este amarelo e revivo do quintal com gotas de memória. Pingo essência dourada e desenho na areia os contornos deste jogo de amarelinha. Meu quintal era o céu, todo feito de nuvens amarelas.

Lembro-me disso e de minha mãe que pintava minha vida. Em cada manhã de colo sagrado e olho terno. Ela se tingia de um amarelo intenso. No meu quintal, mesmo os dias sem sol eram dourados O quintal não havia descoberto a noite.

Só descobriu a noite quando minha mãe se foi. Hoje, além de se comemorar o dia das mães minha mãe faria 78 anos e deixou em mim o amarelo da saudade. A sua mãe também pode ser colorida, se você assim a enxergar. Ela pode tingir sua vida da cor que você quiser e você será o papel onde ela desenhará a vida.

E se você é mãe, pode pintar a vida de seu filho. E quando ele crescer, ele terá um colorido diferente e especial. E um dia, quando você se tornar saudade, terá seu filho ou filha lembrando suas cores. E se ela também se foi, tente imaginar a cor que ela te deixou, seja em uma palavra, um ensinamento ou a dedicação.

Através desse texto quero apenas agradecer minha mãe por cada instante que ela colocou poesia em minha vida e me fez enxergar um mundo colorido, hoje um pouco sem cor, sem ela.

Quem tiver sua mãe por perto, dê um abraço, que é ele o que falta para repor tintas na vida dela. Você, de alguma forma, é a cor da vida dela.

Faça com que, em cada instante de sua vida valha a pena ser filha(o).

Mariana Gouveia.

Projeto Fotográfico 6 on 6

6 on 6 – Crepúsculo

Não contei as horas do dia
porque imaginei que os poemas nasciam no ocaso
no poente
onde o crepúsculo me trazia
sua voz mil vezes ou mais
entre o gradiente das cores
e a canção que eu ouvia.
Mariana Gouveia

Aumente o som

O crepúsculo acontecia sempre dentro de mim antes do sol adormecer lá fora. Eu ficava horas a esperar por ele e em muitos momentos eu dancei com as nuances de cores no céu. Você pode estranhar o fato de sempre eu falar de dança, mas sou movida a música e de alguma maneira, meu corpo sempre responde a canção.

Quando ele acontece é a hora que a minha cidade fica mais bonita, feito moça se aprontando para a festa. As nuvens parecem o veludo da fita que prende o cabelo e as silhuetas me levam para lugares guardados na memória.

Do meu quintal, alcanço apenas um pequeno rasgo do céu entre a árvore seca no quintal do vizinho e torre de alta tensão da rua de cima, bem diferente de quando o sol nasce pela manhã atravessando o telhado da vizinha da esquerda.

Mas quando consigo ir até o campo, logo depois da curva, onde antes havia um bosque eu me derreto com as coisas e reverencio o universo. Respiro as cores que me atinge e é ali que busco forças para continuar seguindo.

Me sinto tão pequena, às vezes, diante da beleza e das formas que as nuvens criam em um céu tão meu… No meu lugar.

Depois disso, a cidade se prepara a a noite, mas durante algumas horas, o crepúsculo ainda dura aqui, dentro do meu coração.

Mariana Gouveia
Projeto fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Isabelle BrumRoseli Pedroso

Scenarium Livros Artesanais

Tentação ou tentador – Conto Erótico

Um passo depois do outro… apressados como os ponteiros das horas e cheguei à esquina. Enquanto esperava o sinal abrir, acusei cansaço e quase me arrependi de ter aproveitado cada segundo para fazer compras. Tentei trocar as sacolas de mãos, mas não resolveu.

— Deixe-me ajudá-la.

Reconheci a voz que chegou acompanhada de mãos, recolhendo as minhas sacolas… fazendo trepidar o coração dentro do peito. Era o homem em quem eu esbarrava nos corredores da Faculdade. O lendário filho da Santa, que não se importou com a minha falsa recusa.

— Não é necessário…

Quando dei por mim, seu passo avançava por cima da faixa de segurança, como se adivinhasse o meu destino. Precisei apressar o passo para juntar a ele e a cada nova tentativa de pegar de volta as minhas sacolas, ele reagia, erguendo-as numa altura impossível para mim. Percebi que ele se divertia e reagi magoada, feito menina que perde um balão.

Não sei quem seguia quem pelas calçadas, mas sempre que possível, espiava o corpo dele e sentia vontade de me benzer, ao me lembrar da história que corria de boca em boca. A mãe, com dificuldades na hora do parto, entregou a criança nas mãos da Santa. Pensei em milhões de possibilidades. Uma imagem num altar improvisado no quarto ou a Padroeira na cidade, sendo carregada em procissão. E não pude deixar de pensar na infância do menino, na condição de filho da Santa. E agora, feito homem e tão bonito e com um sorriso tão largo, que me fazia passar mal.

Ao chegar no portão de casa, me atrapalhei com a bolsa e não conseguia encontrar as chaves. E quanto mais revirava, mais nervosa ficava e olhava para aquela calma inabalável e me sentia a pior das devotas. Fechei os olhos e pedi ajuda para a minha Santa protetora. E pronto: a chave apareceu, como por milagre. E a mão dele — tão forte e firme — esbarrou nas minhas ao tocarmos juntos a maçaneta.

Agradeci, esperando que ele me devolvesse as sacolas e fosse embora. Mas ele ficou lá parado à espera de um convite que eu não pude deixar de fazer. E quando dei por mim, lá estava o homem colocando as sacolas de compras feitas no supermercado, ficando com as minhas calcinhas em suas mãos. Quase desfaleci — minha nossa senhora das crises. Claro que ele não tinha como saber que eu havia passado na loja de lingeries e comprado algumas peças. Mas por que razão ficou justamente com aquela pequena sacola de papel em mãos?

Respirei fundo e agi… fui e voltei do quarto, onde deixei minhas calcinhas novas e ao voltar, achei melhor oferecer um café. Era o que me restava a fazer, depois de tudo. Liguei a cafeteira sob o olhar atento e matreiro do Filho da Santa. E confesso que não sei se foi ele quem disse “sem açúcar” ou se fui eu quem fez a pergunta enquanto decidia entre o ristretto e o rome.

Xícaras em mãos e eu a fugir do olho dele. Havia alguma coisa no ar — podia sentir e era forte. Eu nunca fui tímida, mas estava insegura, trêmula e toda errática. Dizia as coisas mais impróprias, absurdas e ele se divertia com os meus desacertos. Um verdadeiro desastre e eu quase recorri à minha Santa. Desisti da ideia ao pensar que talvez fosse a mãe dele. O pensamento me fez arregalar os olhos… e ele sorriu, como se adivinhasse o meu pensamento.

— Que tal você cozinhar para mim, hoje à noite? Eu chego às sete, está bom para você?

Eu não me lembro de ter concordado… A única lembrança que permaneceu em mim pelo resto do dia foi do seu último gesto: fechando o portão e deixando um aceno no ar… E pelas horas seguintes, o meu coração acelerou descompassadamente. E piorava quando eu pensava nele…e vinha a bendita imagem da minha Santa — que talvez fosse a mãe dele —, em mente. Como eu queria me libertar daquela história. Esquecê-la. Não sabê-la.

Sentia uma espécie de taquicardia que começava no meio do peito e se espalhava por todos os cantos do corpo. E eu ainda tinha que preparar um jantar. Fui para a cozinha e depois de tentar pensar um cardápio — sem sucesso — me lembrei do que dizia a minha avó enquanto picava as ervas para a massa que ela mesmo havia feito e deixado descansar sobre a toalha enfarinhada: “Cozinha primeiro no coração porque cozinhar é como fazer amor… É preciso sentir prazer”.

Decidi repetir a receita da minha avó. Eu já tinha feito aquele prato milhões de vezes e o molho pesto era uma das minhas especialidades. Colher o manjericão a poucos minutos do preparo era o segredo e quando ele suspirou depois da primeira garfada… percebi que havia acertado.

O Sauvignon Blanc que ele trouxe combinou perfeitamente e me fez mais leve depois da segunda taça. Fomos para o sofá da sala e quando ele se aproximou de mim, não recuei…

As mãos dele alcançaram o meu pescoço, ele se inclinou e o beijo que tanto imaginei… aconteceu. Pareceu interminável e eu quase perdi a consciência. A boca caiu sobre o meu pescoço, na fenda da blusa, alcançando os seios, provocando uma espécie de devaneio…  

Ele revirava a minha pele, descobria lugares inexistentes até então… e antes que eu me perdesse de vez, ele me conduziu pela mão até o quarto e caímos juntos na cama. Lembro de ouvir o riso dele tocando a minha tatuagem de dente de leão como se fosse um sopro e depois disso, ouvi o meu próprio riso ou grito, não sei.

Acordei e lá estava ele… ao lado e fiquei a admirar seu corpo escultural e me lembrei da lenda que o envolvia. Vasculhei seu corpo em busca de respostas, tentando imaginar qual santa o havia criado. Enumerei muitos nomes em minha mente e só consegui pensar: bendito seja o teu fruto. Mas tinha dito em voz alta e ele, recém despertado e fui obrigada a falar a respeito da história que corria de boca em boca havia anos e mencionei Shakespeare — “o tentador ou o tentado, quem peca mais? ”  E a gargalhada dele ecoou pela casa inteira e até hoje mora nas esquinas do meu corpo por onde andou o filho da Santa.

Mariana Gouveia
Conto erótico publicado no livro:
Na esquina com o filho da Santa
Scenarium Livros Artesanais

Corredores, Codinome Locura

A garota de scarpin vermelho

“na outra margem da noite
o amor é possível
leva-me
leva-me entre as doces substâncias
que morrem a cada dia em tua memória”
Alejandra Pizarnik

Trazia a delicadeza na pele. Cheirava a algum perfume novo que não consegui desvendar.
Os olhos me acompanhavam por onde eu ia. Entre as prateleiras dos livros, entre um exemplar e outro, estávamos frente a frente. Passou de leve por mim e senti a curiosidade de olhar as mãos. O anel acentuava ainda mais o esmalte vermelho. Paramos no caixa, ela em minha frente e eu ali, a espiar a nuca, onde os cabelos caiam discretos em ondas.
Enquanto pagava sua compra olhou para mim e sorriu:
– Não, as palavras não fazem amor. Fazem ausência. Se digo água, beberei? Se digo pão, comerei? Busquei pela memória onde já tinha ouvido essas mesmas palavras e sorri de volta:
– Alejandra Pizarnik?
Concordou com os olhos e perguntou se eu gostava dela.
– Ah, muito! Adoro o estilo!
-Tenho sede quando leio. – riu de suas próprias palavras.
Na minha vez de pagar, meus olhos a acompanhava e ela rapidamente saiu porta afora.

Não vi nenhum sinal dela na rua. Pensei nos olhos, no perfume e senti uma leve saudade bater o peito. Não sei nada sobre ela. Apenas que sente sede quando lê Pizarnik.

Sentei em um banco da praça e folheei o livro recém comprado. Os olhos enxergavam sonhos nas letras quando senti um movimento leve nas minhas costas e duas mãos tapavam meus olhos. Na memória, no toque das mãos que acariciavam meus olhos, não consegui reconhecer a dona delas.
– Adivinha quem é? – nem a voz me parecia conhecida – Tenho sede quando leio.
Acho que te segui, tive curiosidade em conhecer quem lê Alejandra, como eu.

Sentou ao meu lado, com uma intimidade que não tínhamos. Falou-me sobre sua vida, seus desejos e seu riso encheu minha tarde de improviso.
Falei pouco. O que não é normal, no meu caso, e a hora começou a me cobrar urgência no dia. Era para o riso dela ter o nome de alguém e ter a mesma alegria que os olhos dela tem. Falei de ir, já me levantando.

-Ah, não! Mas, já? Nem falou sobre você e nem respondeu sobre o pic-nic de amanhã…
-Pic nic? Que pic nic?
– O que faremos amanhã, ali, naquele canto da praça e pode deixar que venho com meu scarpin vermelho! Me faz sentir mais chic.
Saiu em disparada sem deixar eu dizer nada. Mas deixou comigo a certeza de que adorarei ver ela amanhã de scarpin vermelho.

Mariana Gouveia

Caderno de Notas

Desde que o mundo começou a ser mundo.

“Tomaste o caminho do vento e por lá te demoras”
–  Isabel Mendes Ferreira-

Havia pouco tempo que eu morava ali. Mudamos dias depois que minha mãe morreu. Não sei se para meu pai ficar livre das lembranças e do cheiro dela na casa, nas coisas. O fato é que a casa nova tinha mais coisas dela do que a antiga. Ao arrumar os móveis, tudo era dela e tinha o seu jeito. Tudo foi arrumado, até inconscientemente, da maneira como ela gostava e o jardim, no fundo da casa, parecia haver sido plantado por ela.

Casa nova, novos vizinhos e foi ali, duas casas depois da nossa, para onde elas também haviam mudado recentemente. Um dia depois de nós. E pelo mesmo motivo. A perda da mãe. Elas eram Ana e Cristina. Gostei logo de Ana – tipo amor à primeira vista. Mas, foi Cristina quem ocupou espaço em minha vida. Era tipo aventureira, corajosa e nos empurrava para as experiências dela.

A casa delas tinha um sobrado com um quarto, mas que permanecia trancado desde que se mudaram. Na divisão da herança, elas ficaram com a casa, em que o tio havia morado a vida toda. A chave permanecia debaixo do tapete, antes da escada. E Cris, na sua impetuosidade, obrigou-nos a abrir a porta. Além da poeira em todos os móveis, que um dia retratarei com mais detalhes, havia um baú enorme e é claro que abrimos.

Entre roupas, pequenos bibelôs e livros, havia ali um diário, que as meninas interessadas em tesouro nem deram atenção. Logo começaram a dividir os objetos e, em meio a eles, um sapato de verniz roxo, que Ana calçou como se fosse uma princesa e, então, colocaram o diário em minha mão como presente. Foi ali que desejei ser escritora. Foi ali que desejei conhecer o amor que surgia à minha frente com uma história emocionante de Anna Lee e que retrato agora, em pequenas nuances, em um relato diário de amor:

1º de abril de 1958 – o dia amanheceu nublado e frio. Nas ruas quase não havia ninguém. Foi quando ele surgiu não sei de onde. Vinha cabisbaixo como que procurando algo. Eu havia ido à janela abrir a cortina. Nossos olhares se encontraram e meu corpo reagiu ao encontro. Não sei o que senti, mas sei que foi algo que não poderia escrever sobre. O vento cantava a melodia das folhas das árvores e meu coração cantou junto. Desde que o mundo começou a ser mundo eu já te amava e te conhecia antes mesmo de ver-te. Ele seguiu rua abaixo olhando para trás de vez em quando, abraçando o próprio corpo, como para se aquecer. Aquele gesto mexeu comigo. Meus olhos seguiram e no buscar ele aonde a rua sumia, bati a cabeça na janela. Ele riu. Pude ver isso. Foi a maior certeza que tive em toda a vida. Eu já o amava.

2 de abril de 1958 – Ouvi um barulho na janela, como se fosse uma pedra. Não sabia o que era. Mas, já tinha a sensação plena dele correndo em meu sangue. O coração acelerado, e as mãos suavam, apesar do frio. Quando cheguei à janela, lá estava ele… O sorriso que eu imaginara no dia anterior agora tomava seu rosto e os olhos me desenhavam um horizonte em que eu queria morar a vida inteira. Se possível, morrer dentro deles”.

O diário relatou aos meus olhos uma história de amor. Que descrevi e que vai virar livro. Ana e Cristina foram frutos desse amor. Embora só tivessem descoberto mais tarde. E nós descobrimos um tesouro. A vida nos distanciou nas lembranças, nas histórias livres de cada uma. Ana se tornou enfermeira, profissão que a mãe teria, se não fosse tudo que aconteceu pelos dias dela. Cristina cumpriu a sina de aventureira e perseguiu seu sonho de conquistar o vento.

Quando me chegou o tema do Caderno de Notas desta quarta edição, tive a certeza de que teria de falar sobre isso. Porque o assunto era exatamente o tema do diário escrito por uma mão que já amava alguém antes de o mundo ser mundo.

Mariana Gouveia
*Este post é parte integrante do projeto “Caderno de Notas – Quarta Edição”
Scenarium Livros Artesanais