das coisas breves

O que é um coração sozinho

Era noite quando a solidão invadiu o quintal… O coração palpitava em qualquer canto… Na rua de cima, o moço da reciclagem soube o que era um coração sozinho depois que seu amor se foi e repetiu mil vezes a mesma canção.
Às vezes, a vida tem a trilha sonora de filme.

Mariana Gouveia

infinitamente

Quando o amor acontece

Quando o amor atravessou o quintal, ele era quase alado
Dava pulos no peito e voava para além das árvores.
Depois, com o tempo – e só o tempo compreende essas nuances – ele foi esparramando raízes, com suas gavinhas, como se fosse abraço e hoje, já mora aqui… De vez. Acho que para sempre.
Em alguns dias, como o de hoje, ele muda o nome para paixão, só para mudar a rotina dos batimentos dentro do peito.

Mariana Gouveia

das coisas breves

Cabia a incerteza nas certezas das coisas

Qual é esse tempo flagrado no momento do agora? Ainda ontem, eram só partidas. A vida esmiuçada como se buscasse um tesouro. Depois disso, as chegadas mostraram a rota de fuga. A lenda, revivida nos cantos do quintal. Cabia a incerteza nas certezas das coisas – eu sei que é contraditório – e algumas ilusões vem de quem nunca imaginou que podia fazer e fez.

Mariana Gouveia
Alguns retratos imaginados na estante.

Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

*Lilases

Ph; Tumblr

Na cadência dos teus abraços
Sou uma marionete dos Desejos

E me perco — mais de uma vez —
em teus Labirintos!

Uma peregrina
em tua pele branca

 A boca repete em idioma estrangeiro
quero-te… enquanto me despe.
Te encaro dentro da minha conjectura
— ilusão provocada
pela alta temperatura que vaporiza o teu corpo quando tento tocá-lo…

Mariana Gouveia
In, Liláses – o estado da pele
Scenarium Livros Artesanais


das coisas breves · infinitamente

dos lutos

No dia em que uma aldeia chorou as perdas, o quintal emudeceu.
Já era noite quando eu cheguei e abri os braços em oferenda do meu abraço.
Lembrei -me do avô, tão guerreiro – tão frágil diante da dor.
Lembrei -me da fragilidade da avó – tão menina – a se oferecer em troca para que os dela não sofressem.
No dia em que o quintal ficou em silêncio, até às flores e o sino dos ventos ficaram em silêncio em respeito à aldeia que chorava saudades.

Mariana Gouveia

Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Me And You

Porque eu escreveria qualquer conto onde você fosse o personagem principal da minha vida.

Ele sempre chegava primeiro e escolhia o melhor lugar – em qualquer lugar que estivéssemos – me esperava. E sempre me indicava o melhor ângulo, a melhor história, o melhor filme, o melhor amor.

Quando a vida nos uniu, éramos jovens e desde quando o vi pela primeira vez, já sabia que o seria o único e para sempre. Me mostrava sempre o imprevisível das coisas e o que podia ser melhor, mesmo dentro dos erros. E quando me chamaram de louca – por infinitas vezes – enlouqueceu comigo e em qualquer homenagem que eu tivesse, estava ali, aplaudindo sempre. A me guiar e me ajudando a manter minhas memórias, ser meu norte nas estações.

Era o ombro certo do meu amparo e a acolhida em cada chegada. Como se estivesse sempre ali. Às vezes, ele me dizia: você é o sol e mesmo quando em alguns momentos eu me sentisse lua, acreditava… porque era ele quem dizia.

E no espaço sem tempo, era minha morada. O gerador do vento. O amor mais antigo que vibra em mim quando eu contava os dias e meses e anos.

Quando percebi, ele era o humano preferido dos meus dogs – ou eu dos dele – e a mãe de seus filhos. Dos que não nasceram e do que ainda é nosso, nesse tempo e espaço.

Dito isso, aceito não possuir mais nada além dessa leveza de riso, de sopro, de mãos estendidas e de embarcar em meu mundo. O mundo que é meu e dele.

Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6 – Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes – Claudia Leonardi – Obdulio Nuñes Ortega
Roseli Pedroso – Silvana Lopes

Colcha de Retalhos · Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

Colcha de Retalhos

A primeira vez que vi os olhos dela… foi através da cortina da casa de Kaori. Um vento balançou a renda lilás e o vulto surgiu através da janela basculante. Eram da cor de avelã… ingrediente mais usado nas suas receitas. Reparei que acontecia um pedido de socorro dentro deles. E senti que ao socorrê-la… me afogaria…

Mariana Gouveia
Colcha de Retalhos – Scenarium Livros Artesanais
Você pode pedir o seu aqui

das coisas breves

Onde fica o lugar onde seu coração se esconde?

Havia um tempo em que o moço da reciclagem cantava nas madrugadas serenas enquanto a lua acompanhava a roda da carrocinha.
As aves ficavam mudas diante do canto que falava de amor e as borboletas apenas faziam acontecer o ritmo enquanto beijavam as flores.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Dos meninos

O menino da rua de cima quis conhecer a ave de todo dia.
Falou do passarinho como se fala de Deus. Nos olhos dele havia a fé.
Não pude falar do dia triste de ontem, nem da incerteza de hoje… Fiquei ali, a beber a fé no olho do menino que nas tardes serenas empina pipa na minha rua. Já o espiei várias vezes pelo canto do muro, em algumas tardes… O olho fixado no céu, a mão a dominar a linha contra o vento… Ele nem sabe disso, mas foi ali que descobri que Deus brinca de passarinho no meu quintal.

Mariana Gouveia

das coisas breves

 irrepetível música que ressoa

Um menino disse que as vitrolas cantam canções de amor… Tipo disco de vinil, fotos analógicas… Frases sem lógica… Enquanto ali, no canto do quintal, as borboletas ganham seu prazo final…

E o menino vira riso e acha que o paraíso é onde ele marca um gol… No sonho que sonhou…

Mariana Gouveia