A ausência descrita na palma da mão. Foi ali, que aprendi a voar – a descobri novos horizontes – e concluí que o céu era o limite. O muro era o detalhe para aprender barreiras e superá-las.
Divago sobre o tempo e suas previsões loucas… o guarda-sorte na rotina dos dias… Uma parede descreve poemas tortos… grafite louco de quem é lúcido por amar. O livro aberto tem o perfume além dos mapas. O oceano é imenso em suas lonjuras no meu quintal. A maresia não conhece a asa da joaninha que baila aqui.
O milagre é aquilo que não é natural e era quase dizer que eu estava aqui enquanto você chorava. A cal molhada escondia seu nome onde escrevi poemas… tudo era torto enquanto as tvs liam retratos perdidos na vida.
Alguém dizia que a sorte era adivinhada no primeiro sinal e eu não entendia o idioma de quem não conhecia a palavra amar. Feliz no jogo… feliz onde você quiser ser.
como moradia leve… um toque. O coração sendo trocado, de leve, por outro – uma válvula – que afinará as melodias em manhãs de pássaros nas árvores secas do quintal do vizinho.
Que além das batidas insanas causará ruídos nas janelas abertas pelo vento. Que fará com que eu esqueça o amor que não deu certo, as perguntas inconvenientes, a mesmice plantada no olhar do homem da esquina.
Um coração que viverá de noite, como se dia fosse e que tocará a alma do outro como única, no verbo amar. Costuro a palavra habitar e bordarei poesias soltas nos murais dos pontos de ônibus e sairei cantando o amor como rotina e esvaziarei o peito e dentro da mão, o voar virando pouso, mesmo que imaginário na solidão dos corredores de quem espera viver.
Cuiabá vai além das palavras quando amanheço… Suas rotinas entre as ruas que atravessou… O pão, em algumas janelas – ainda – leva meu pensamento para a minha meninice. O jornaleiro que agora usa uma moto cresceu. – virou homem, o menino. As árvores se eternizam nos quintais. Outras, perdem espaço para o novo. Cuiabá incendeia os dias em seu calor habitual ao mesmo tempo que aconchega aos que aqui chegam. É ponto de partida e de chegada. É novo e velho junto, mostrando uma senhora que teve de se adaptar ao tempo. O moderno se aliando ao antigo… Um precisando do outro para se encontrar. Cuiabá me viu feliz, me viu chorosa, me viu sonhar. Me acolheu em suas ruas onde a poesia caminha ao meu lado. A cidade me dá a magia dos seus amanheceres… me oferece colo em suas paisagens que se renovam a cada dia. Tudo é novo todo dia. Tudo é o que já era dentro do que posso explicar. Em seus 305 anos, Cuiabá é esse braço aberto para te abraçar.
Virou personagem dentro da história. O olho a transparecer a vida – transparente – ali. O homem a arrastar o saco onde continha lições de cada dia. Tão visível o medo ligado à coragem no vulto da esquina. Repete o mantra de ontem mais por obrigação do que por vontade. As palavras revividas, translúcidas as asas que esqueci em casa. O excesso sentido lá atrás… Renasce na página seguinte do poema que leu. O jardim suspenso, dentro da asa… translúcida.
A transparência era a palavra líquida do dia. Transformava em água – ou lágrimas – a ausência… Rabiscava o nome em letras feitas no ar, que se apagavam na inconveniência das horas. Contou com a sorte do dia no horóscopo das flores. Algumas sementes não germinam ao acaso. Contou sua história como exemplo de amor. Virou vilã dentro da própria dor.
chove mais uma vez a infância é um pássaro aceso nos ramos das árvores um território de meteoros incendiados numa bacia de plástico com água da chuva José Carlos Barros
Bambina mia,
mais uma vez trago notícias da chuva que, ultimamente, tem caído todas as tardes no meu lugar. Engraçado, é que nunca reparei nas cores dela e o tema desse 6 de abril me fez reparar nesses instantes aquosos e deparei com minha cidade cinza ao longe… Ela, que sempre foi conhecida como cidade verde, vista da escada que dá para o telhado se apresenta, ainda que verde – pelas copas das mangueiras dos quintais vizinhos – me trouxe as nuances dos telhados antigos e predominou o cinza, essa cor tão natural para mim.
Sabe, bambina, acho que esse ângulo é o que você mais conhece de minhas chuvas. O bebedouro do meu pássaro de todo dia e o pé de ipê ao fundo, com seus verdes em diferentes tons. É daqui que eu te mostro os raios e gravo os ecos dos trovões para te enviar.
E por falar em pássaro de todo dia, acho que ele gosta mais das chuvas do que eu… quase não consigo registrar o banho dele sob a água. Me divirto vendo ele em um bailado dançante entre o varal de roupa e seu bebedouro. O verde-musgo de suas penas molhadas se misturam com o ipê ao fundo. Isso só é possível com a chuva espaçando.
Mas, sabe, bambina? As cores me encantam quando a chuva deixa seus rastros em meu quintal, nas flores que bebem da água e se misturam com ela. É possível ver a gota “engolir” as flores e parece até que a chuva deixou diamantes no meu lugar. Seja no fim da tarde, ou no sopro novo das manhãs, a chuva nos une e sempre grito seu nome por aqui. E curiosamente, sinto que a chuva sempre me traz um pouco de mar.
Você sabe que meu lugar é a cidade do sol, mas esse outono mudou os dias por aqui. As ipomeias que duram o tempo de um dia, com a chuva, desfilam suas cores em gotas e permanecem intactas até o anoitecer. Mas você sabe também que eu adoro o cheiro da chuva, logo assim que cai, na terra seca. O petricor é o perfume da chuva – já falamos disso – e ao te escrever imagino de que cor seria esse cheiro da terra recebendo as gotas da chuva… delírio meu, bambina… releve!
Pego o guarda-chuva e mudo os insetos de lugar sempre que chove, apesar de achá-los lindos com as gotículas sobre a carapaça. Mas, como a natureza é sábia, acho que eles mesmo sabem onde buscar abrigo nos lugares que já deixo preparados para eles. E muitas vezes, nem uso o guarda-chuvas não… adoro me banhar na chuva que cai em gotas dimensionais. Isso sempre me arranca sorrisos e me deixa colorida na alma e é assim que encerro minha missiva para você, para nesse fim de tarde, onde o ontem foi um tempo entre aspas me colorir nas cores da chuva.
Na última hora cheia… vivi intensidades. Um menino que precisava de atendimento foi notícia nos atos terroristas. Nunca imaginei presenciar em meu lugar. Fiquei sabendo da partida de uma cachorra. Preferi ignorar a tutora que a abandonou nos últimos meses. Eu fui colo para ela nos últimos momentos.
A vida, às vezes, tem roteiros que parecem novelas.
Como vai chover a qualquer hora se o céu mostra Marte imensa pros lados do sul?
As sombras do quintal me salvam. Um ninho se fez na árvore que plantei. Às vezes, é assim, um tempo compensa o tempo do outro.
Os bilhetes esperam pela hora de amanhã.
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Caiu um raio nos arredores da hora anterior. Ressoou por toda parte. Agora há clarões por trás dos prédios. As janelas estão acesas e a hora cheia me faz pensarem preparar uma xícara de chá. Eu ainda não desisti do cappuccino. O olhar vez ou outra corre a paisagem lá fora. Assusto-me com a declaração de fim de ano piscando em algumas janelas. Não me acostumo com as festas de inverno em dias tão quentes. É como se estivessem se enganando – trocando as coisas de lugar. Eu não sou uma pessoa de Natal – mas experimentei a data. Uma colega da Faculdade quis que eu fosse passar a data com a família dela. Foi estranho. Permaneci muda na maior parte do tempo. Ouvi palavras sonoras… frases inteiras. Mas não estava presente. Estava sentada perto da lareiras, era quase meia-noite. Faltava pouco quando me dei conta dos vazios que colecionava dentro.
Um pesadelo do qual não pude acordar. Fazia frio! Mas eu precisava escapar daquilo e ir lá para fora… caminhar calçadas.
Ficar longe… de mim.
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Você me fez pensar na infância… quando eu tinha vizinhos e escrevia histórias a respeito de cada um deles. Convivo com estranhos nessa hora cheia. Às vezes, esbarro neles no corredor ou no elevador.
Não sei as histórias e nem me interesso por elas.
Na semana passada… uma mulher do outro lado da rua – no prédio da frente, em sua janela acenou sorridente e mandou beijos. Não sei como lidar com isso. Parece um fantasma a morar na janela da frente. Eu os prefiro morando numa parede…
Nos quartos de hora, ao sair na varanda, meu olhar corre ligeiro até a janela de número oito – assegurando-me dos vazios que aprecio. E se não avisto a estranha criatura, respiro aliviada. A outra janela – a que gostava de espiar… está fechada há tempos. Não há movimentos por lá. Não sei para onde foi a menina que gostava de se despir para olhares curiosos.
A chuva continua e os relâmpagos e os trovões.
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É sempre nessa hora que recorro às minhas trilhas sonoras. Apaixonei-me por algumas canções coreanas e elas se misturam as outras que já me salvaram da solidão em fins de tarde. Coloco no repeat para não ouvir o funk estrondoso que vem da vizinha da frente. Um verdadeiro inferno – deusmelivre – e nem se compara ao de Dante.
Teve de tudo nesse céu do meu lugar: nuvens grossas, esparsas, velozes – levadas pelo vento. E uma chuva fina que trouxe o cheiro petricor para perfumar o meu quintal. O azul predomina enquanto a noite vem se aproximando e o pássaro de todo dia se mistura nas cores das folhas do pé de ipê.
Daqui a pouco, quando o moço da reciclagem passar com sua cantoria será a hora de ligar as luzes porque a noite chegou.
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Escrevo-te nessa hora última. Explodiu um trovão ao longe e eu sorri para todos os ontens que trago na memória. as nuvens foram se avolumando. O dia acabou pouco antes das três. A chuva caiu sonora, lavando o asfalto da Alameda, quando eu ainda estava a escolher uma lembrança para degustar – como num jogo onde se move uma peça.
Escutei dentro…o badalar do sino da Catedral – um eco dos dias vividos em pequenas aldeias. As mulheres rezavam as seis em ponto… e as contas do rosário passeavam entre os dedos enrugados das mãos.
eu silenciava a minha voz e pensava na jogada seguinte, qual peça moveria: o bispo ou apenas um dos peões.
Por dentro, repetia versos malditos riscados na parede do meu corpo e me sentia feliz por pensar no inferno de Dante.
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