Projeto Fotográfico 6 on 6 · Revista Plural · Scenarium Livros Artesanais

Projeto Fotográfico 6 on 6 — meus ingredientes!

“Minha mãe cozinhava exatamente:
Arroz, feijão roxinho, molho de batatinhas.
Mas cantava”.
Adélia Prado

 

Minha mãe dizia que a casa começa com as xícaras e o coador de café. Foi dela que herdei esse amor pelo grão que nós mesmos colhíamos e que meu pai torrava, para depois moer e coar. Falar disso é como abrir a janela e respirar o tempero da memória. É como estender a toalha de mesa e espalhar, bem aqui, os meus ingredientes.

— O alimento é a poesia para o corpo! — minha mãe dizia, enquanto ao redor do fogão a lenha preparava os ingredientes para fazer os biscoitos. Aquilo se tornava um ritual, quase uma festa.
Depois da massa pronta, eu e meus irmãos passávamos a enrolar e fazer figuras, enquanto ela fritava. Lembro-me de que havia cavalos, estrelas e letras com as iniciais de cada um dos nomes dos filhos.

O polvilho, nós mesmos fazíamos logo depois da colheita da mandioca. Tudo era marcado por rituais para não desandar a massa e para não azedar o pão. Era preciso ficar na memória o rito da mandioca sendo ralada, lavada e espremida. Daquela água branca, da cor de leite, assentava no fundo das bacias o pó claro que serviria para fazer quase tudo nos próximos meses. Desde o pão de queijo ao mingau. O jirau montado no quintal para secar o polvilho. O tempo certo para o polvilho doce e o azedo.

Repetir a receita e, com o chá de erva-doce, merendar em volta dela. Descrever isso é como voltar no tempo: preparar os ingredientes, sovar a massa…

A memória se volta para o passado e o tempero principal se chama saudade.


Não tínhamos fogão a gás e preparar o forno de barro apenas para assar um bolo era desperdício de tempo e de lenha. Minha mãe colocava a massa em uma panela e a tampava com um prato cheio de brasas por cima.

O tempo de cozimento era o mesmo de um forno convencional, e o cheiro era a fragrância do amor a exalar pela cozinha toda.

Das coisas de que me lembro, vejo minha mãe de cócoras — talvez para chegar à altura da minha irmã caçula — comendo com as mãos. A cozinha rescendia a especiarias das mais diversas ou às ervas frescas que ela colhia na “hortinha” próxima da janela.

A memória busca as lembranças dentro da cozinha. Os temperos traduzem a saudade. Minha mãe sempre foi a figura central daquele espaço. A mesa era sempre larga e grande para caberem os sete filhos e a turma do trabalho da fazenda. Tenho isso tudo vivo em mim, e com certeza foram esses instantes que me fizeram ser o que sou hoje.

O momento da partilha dos pães, o fogo a crepitar no fogão… O cheiro do leite a ferver enquanto queimamos os dedos na ânsia de não deixá-lo derramar sobre a chapa quente. A lembrança fica presa nas coisas, o aroma invade as recordações e a saudade continua a ecoar seus ingredientes.


Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural – 2019
Participam também desse projeto: Lunna Guedes  – Obdúlio Ortega 

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Projeto 6 missivas — uma carta a um amigo

O Homem cansa-se;
o espírito não.
O Homem rende-se;
o espírito nunca.
O Homem arrasta-se;
o espírito voa.
O espírito vive
quando o Homem morre.

 

O Homem parece;
o espírito é.
O Homem sonha;
o espírito vive

O Homem está amarrado;
o espírito é livre.

O que o espírito é…

o Homem pode ser
Mike Scot
(Waterboys)

Já faz tempo que não falo com você e hoje, quando passei na rua que tem seu nome fiquei imaginando como se sentiria sabendo que você tem uma rua toda sua.
Lembrei-me do dia em que colocaram a primeira placa e de como seu irmão segurou minha mão bem forte.

– Cara, ele agora é dono de uma rua inteira! A rua em que ele soltou pipa e brincou de bola de gude. A rua em que ele caiu e ralou todo o joelho e namorou com a menina mais linda da cidade naquele canto.

A gente riu e chorou e mais uma vez repeti como te conheci e como fomos parceiros no rádio uma vida inteira. Uma vida que durou o tempo de uma curva e um sopro te levou. Os intervalos eram tão caros para o cliente e tão baratos para nós e você conseguia o meio termo. A roupa da loja de tecido, o tênis que você desejou a vida toda… o cartão transporte gratuito – infiniiiito para uma vida toda – e seu grito ecoava nos corredores.

Ali, não tinha um que não tivesse uma história com você e depois que tudo passou fiquei eu, só, na sua rua. Relembrei cada instante dourado de nossas vidas. O dia em que sua mão me ofereceu parceria e nem meu nome você sabia. A marmita com ovo frito e a parte maior oferecida sua para mim com ombro de amigo.

Isso foi bem antes de você ganhar uma rua com seu nome…

O ônibus que pego passa todos os dias por ela e nas madrugadas as placas com seu nome escrito me levam para além do rádio – nossa paixão – e como nossa parceria era divertida. E de como a vida ficou vazia sem você.

A compota de laranja que o pote escondia e você dividia na delicadeza do abraço. O microfone dividido, as canções escolhidas e o riso que era seu companheiro rotineiro. E a reciclagem que você fazia no caminho a pé com as latinhas – e que virou seu apelido. E se pudesse te chamaria a vida toda de Divisão. Você era pura divisão de amor.

Nunca te vi triste e essa leveza você carregava e fazia leve quem te tocava.

O rádio nos ligou e quantas vezes dessas janelas – da foto – a gente ria de qualquer bobagem. Dávamos apelidos para quem passava lá embaixo, na calçada.
Eu, a menina caipira que escrevia as coragens que você narrava e você o menino do girassol e dos cabelos ao vento que trazia a magia na voz. Uma voz que ecoava estado afora.

Um vento te levou para além das ondas do rádio e hoje você foi saudade no meu coração. Te senti de leve quando meus olhos avistaram seu nome na placa de rua.

Moço, moço!

Mais do que duas janelas você tem uma rua que é só sua.

Saudades!

Beijo molhado de carinho (frase nossa ao terminar o programa Todo sábado é de festa – Radio A Voz do Oeste)

*minha homenagem ao meu amigo de um infiniiito inteiro Edson Luís da Silva. Radialista que foi soprado pelo vento em um acidente de carro ocasionado por um motorista embriagado.  A rua com nome dele citada fica na avenida principal do bairro Tijucal, Cuiabá – MT

Mariana Gouveia
Projeto Uma Carta por mês –
Editora Scenarium Plural Editora — uma carta a um amigo
Participam: Lunna Guedes |  Maria Vitória | Adriana Aneli | Obdulio Nunes Ortega

Projeto Fotográfico 6 on 6 · Revista Plural · Scenarium Livros Artesanais

Projeto Fotográfico 6 on 6 – Nós dois

Procura-se…. Pessoa feita triste por verbos pretéritos e palavras ouvidas.
Alguém que seja capaz de se surpreender com gestos incompletos e actos falhados.
Pede-se o favor de responder através de um sorriso vago que possa ser tudo.
Nuno Camarneiro  


Parecia tão distante a palavra nós dois. Eu, tão acostumada a ser só e resolver tudo só, de repente, vejo uma mão estendida me indicando caminhos.

Em alguns horizontes você me mostrava a direção. Era como se ali, tão cúmplice e parceiro estava o amor.
Tão sombra e tão presente. Nós dois! Quase um em meio a tantos.

A realidade sendo constante na sonoridade dos dias. A imagem registrada, era você e sua amizade mais atuante junto ao amor.

Com o passar dos anos, os olhos complacentes diante de minhas aventuras e de como os poemas faziam parte do espaço onde existimos… o poema é sempre sua mão estendida e seu ombro de amparo.

Basta saber de você ali… onde seu riso é parte principal de minhas rotinas.

Esvazia os meus dias da solidão dos poetas e é silêncio quando minha alma grita nas solidões tantas.
Não é só de amizade que falo, nem de companheirismo – esse tanto de espelho refletido no peito – onde o jardineiro do jardim cuida dos arredores dos quintais. Onde o dedo aponta o céu e os passos me seguem para além das cartas e de outros amores.

Mais do que as infinitas possibilidades nós dois somos o amor.

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural – 2019 Participam também desse projeto: Lunna Guedes  – Obdúlio Ortega  Maria Vitória

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Projeto 6 missivas — uma carta para seu autor favorito

“Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo”.
Manoel de Barros

 

Fico imaginando como começo essa carta e escrevo mil vezes – dentro do meu exagero conhecido – bom dia, mestre! Ou seria boa tarde? Também tentei o Querido Manoel, Caríssimo e achei que ficou um tanto quanto comum. Como se começam as cartas para quem a gente se dobra e reverencia sem ser muito igual?

Vi que Drummond em uma das cartas que te escreveu usou simplesmente seu nome e me encoraja apenas a dizer:
Manoel,

Hoje venta muito no meu quintal e desde cedo penso nas palavras que quero te dizer. Talvez você gostaria de saber que aquela menina que chorou ao te entrevistar, cresceu. Ganhou poesias vida afora e abre os braços para dançar com o vento.
Ah, é, eu falava do vento no meu quintal e a leveza das folhas correm para um canto do muro. Olhando de perto não tem tanta folha seca no pé de algodão. Mas como cai!!

Quero te contar dos calangos que vivem aqui, entre meu muro e a parede da casa vizinha… já vi muitos e até fotografei eles e seus olhinhos assustados. Sempre os salvo dos cães que por vezes, são mais rápidos do que eles. Cada vez que vejo um, lembro de você e de seu poema que fala da lagartixa. Tem até a Rabicó, que perdeu parte de seu rabo em uma dessas fugas desastradas da Lolla e Yoshi.

Aqui, a vida me parece ensaiada dentro de poemas seus. Quando as borboletas enfeitam meu pé de Maria Sem Vergonha e cismam de brincarem nas minhas mãos, quando a nuvem chacoalham dentro da bacia de água e a lua banha dentro do balde e arranca meu riso, quando os insetos vem morar no meu pé de boldo – hoje surgiu a lagartinha que mede os centímetros – e eu carrego a ilusão de que seus poemas foram desenhados aqui… bem no meu quintal.

Tenho sorte de ter olho para o encanto. De ver imagens nos estuques das paredes do muro. De ver o portal que dá lugar para minhas emoções esparramadas na grama verde e de poder viver o lambeijo dos meus cães quando deito no chão. De enxergar coração em tudo que é coisa.

Tenho sorte porque lá fora, para além dos instantes de encanto, o mundo está de ponta cabeça e não sei se você gostaria de vê-lo como se apresenta hoje. Talvez, aqui, no meu lugar seja um daqueles achadouros que você criava em seu mundo.

O meu quintal é desabitado de realidade e levo ele na bolsa sempre que saio calçadas afora para viver o mundo real e lá, quando o baque vem em grau maior eu retiro um pequeno bocado para sobreviver.

O mundo está moderno demais e atravessado. Então, eu busco como escape essa inteireza de criança que meu pai ainda acha que sou e com isso tento dar verbo às coisas que me rodeiam e bem ali, no cantinho do espaço imaginário, perto das lanternas chinesas eu te abraço e agradeço pela inspiração que me ofereceu diante da palavra e tentando entender a cor dos pássaros faço o verbo esperançar renascer cada vez mais dentro de mim.

Um abraço,

Mariana Gouveia
Projeto Uma Carta por mês –
Publicada na Revista Plural Trezentos e Sessenta
Editora Scenarium Plural Editora — uma carta para seu autor favorito
Participam: Lunna Guedes |  Maria Vitória | Adriana Aneli | Obdulio Nunes Ortega

Corredores, Codinome Locura

Inquilina

Inquilina
Foi me visitar,
como se fosse casa…
asa,
foi em mim: voar como
se árvore fosse,
moradia
Foi como se eu fosse chuva.
Água.

E como se eu fosse sede
me bebeu…
– e na imensidão do mundo, eu,
peregrina


Foi me visitar,
como se eu fosse jardim
aí, de mim!

Uma inquilina mora em mim.

Mariana Gouveia

Revista Plural · Scenarium Livros Artesanais

Post Coletivo de Janeiro / Meu Livro Proibido Favorito

“Qualquer forma de amor que encontre…
Viva – o”
Anais Nin

 

Quando Delta de Vênus chegou na fazenda, no ano de 1979, enviado juntamente com outros livros pela minha avó materna percebi que minha mãe ao folhear mudou o semblante e o colocou na parte mais alta da prateleira, onde nenhum de nós alcançaria.

Sabendo que aquilo atiçaria ainda mais a nossa curiosidade disse que era um livro proibido para menores e que havia sido enviado por engano para a gente. Era visível o constrangimento dela, que ainda nos achava pequenos demais para falar de sexo e falou isso tudo meio cifrado. Ainda não era a hora e ai de quem ousasse pegar o livro sem autorização dela.

Aquele livro virou o centro das atenções todas as vezes que sentávamos para ler, e distraidamente um dia, minha mãe o deixou em cima da mesa enquanto procurava o livro certo para cada um e meus olhos passou ligeiramente na primeira página.

“Ele as levava tão alto, fazia – as girar tão depressa em sua série de encantamentos, que em sua partida era como se houvesse algo semelhante a um voo”.

Busquei entender o que havia de estranho na história que seria proibido para a gente além de uma história de amor. Fui reprimida por questionar e o livro foi levado quarto adentro e ali, onde não sei, foi esquecido.

Só fui ler Delta de Vênus quase 16 anos depois. Não sei se movida pela curiosidade do filme que era comentado entre os colegas de faculdade e que não vi. Talvez ainda sentisse na pele a reprimenda de minha mãe ao ler os contos e pensei que ela comparou com as histórias das moças da Rua do Meio da cidade e que movia o nosso imaginário nas conversas dela com as comadres.

Delta de Vênus foge do romantismo que julguei lá ainda na minha meninice, só por causa de uma frase e embora compreenda que a exigência do patrocinador fosse isso, o erotismo carnal, em seus diversos modos foge do tradicional e vagueia em suas nuances diversas com base na sexualidade.

E se você gosta de sexo sem pudores e de literatura de qualidade que foge do convencional, originados na mente de uma mulher excepcional à frente de seu tempo, arrisque-se neste Delta de Vênus.

Este post faz parte da postagem coletiva e participam deste projeto os escritores: Lunna Guedes –  Ale Helga – Fernanda Akemi  – Gustavo Barberá – Roseli Pedroso – Obdúlio Nunes – Fernanda Akemi –  Maria Vitória

Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

Projeto Fotográfico 6 on 6 – Urban art (arte urbana)

“Porque amar é uma arte e nem todo mundo é artista”.
Renato Russo

Querida A,


Já te contei que minhas ruas possuem o encanto dos artistas de rua? Quando passo em frente a uma obra penso em como você decifraria a história da peça, do quadro, dos muros pintados ao longo de avenidas.

Às vezes, as ruas contam lindas histórias de amor. As declarações são repetidas ao longo de uma avenida, uma parede mal conservada e ali, o artista expõe sua arte e inspiração.
Muitas vezes, fico imaginando se fez o efeito esperado quando a pessoa se “vê” na frase, nas imagens e no desenho.

Saberia o Fred que Tati Ribeiro o ama tanto? Ah, minha cara, eu adoraria saber e por vezes, ao passar nessa rua me vejo tentada a dizer o que teria acontecido com eles. Chego até a criar a história e um final felizes para eles.

A moça da janela da rua de cima parece que está sempre à espera de alguém e logo duas casas acima, os corações colorem um muro inteiro. Devo confessar que já desenhei com os dedos no ar seu nome dentro de um deles.

Mas, o amor é assim, minha querida. Nos leva por caminhos diferentes e faz com que a gente embarque nas histórias que vemos por aí.

A arte tem essa leveza de explicar com mensagens, o que na verdade trazemos dentro de nós.
Beijo,

Mariana Gouveia

Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural – 2019
Participam também desse projeto:
 Lunna Guedes  – Obdúlio Ortega 
Maria Vitória

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Projeto 6 missivas — uma carta a um desconhecido

Embora não saiba seu nome eu a vejo todos os dias. Meu horário combina com seus rituais de abrir as portas do seu lugar de trabalho.

Há sempre um cão a te acompanhar e seu olho vasculha o ponto de ônibus onde estou. Não chego a ouvir tua voz – o que me faz pensar em como você se dirige ao cão que te atende ao primeiro chamado.

Há tantos anos sua maneira de abrir as cortinas já é conhecida. O cabelo esvoaçante e as portas de correr sobre tuas mãos. Pudesse eu atravessar, atravessaria a faixa de pedestres e te daria o abraço que às vezes, sinto que você procura.

Moça, você desenha unhas, pele e embeleza a alma. Te vejo leve nas manhãs e nas tardes, quando volto, sua figura aparece para mim como um vulto. Às vezes, a sinto cansada. Em outras, você é pura alegria – chega a arrancar um riso aqui também – parece que dança enquanto manipula a tesoura, o secador, as agulhas.

Já desejei saber teu nome para te ligar e dizer que sei de sua luta diária.
Sou apenas aquela que te espia e de longe te admira diante da leveza com que carrega a coragem de todo dia.

Mariana Gouveia
Projeto Uma Carta por mês –
Editora Scenarium Plural Editora – uma carta a um desconhecido
Participam: Lunna Guedes |  Maria Vitória | Adriana Aneli | Obdulio Nunes Ortega

Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

Projeto Fotográfico 6 on 6 – Preto & Branco

 

“Era preto e branco,
Mas meu coração sorriu”.
Wanderly Frota

Contava o tempo dentro das horas. O jardim acontecia nos olhos de quem não via, mas podia tocar e sentir no toque a maciez da pétala. Nunca havia visto um coração, assim de tocar de perto ou atingiu o âmago de um. Podia sentir na boca o gosto de um sabor agridoce.  Quando ouvia a palavra coração podia sentir na pele a magia da mão dela. Quando ouvia falar de cor, só conseguia entender as nuances em preto e branco.

 

Havia escutado em algum quintal que a chuva não tinha cor… com isso, imaginava sempre que as levezas das gotas pertenciam a alguma ave que percorria o céu na dimensão do seu lugar. Podia tocar se quisesse o beijo que tocava a flor e que tinha o nome tatuado nas costas, como se com isso pudesse eternizar momentos.
Descobriu que podia.

Desde pequena conhecia a lenda das linguagens das mãos. Tocava em tudo que é bicho. Conhecia o princípio e o fim dos toques. O dedo a ser pouso e indicação: Siga por ali… o caminho é o meio. E a vida, às vezes, é feita em preto e branco e o que é lenda – a mãe dizia – nunca tem cor. 

Não conhecia o caminho do mar e nem nunca pisara na areia para que a maresia banhasse a pele dela… Sabia que era marítima! Isso sabia. Bastava fechar os olhos e os ouvidos a enganava.  Podiam até enganar o olfato, o tato e quase todos os sentidos… mas a audição não possuía cor. Era preto e branco quando os pés se arriscavam na queda leve da correnteza do rio… era com isso, o sempre ritual do encontro dela com o mar.
E para isso, bastava apenas tocar as estrelas. Do mar.

A ausência da cor gesticulada na mudez das aves. Ninguém explica o azul celeste – é o céu – e a garoa fina que atravessa a janela e cai em meu colo como se fosse uma novela em 3D. A estante ampara as coisas que leu em um livro aqui, outro ali… tudo sem cor, escondido em gestos.  A mãe entendia o sorriso leve quando fechava os olhos e tocava o vento no verbo amar.

Contava o tempo dentro das horas. Sabia definir o caminho e as rotas sem perigo no quintal. Bastava seguir os tecidos fiados nas teias do caminho. Era bem ali, no quadrante leste que a cor começava a fluir. A tábua sem cor, na passadeira entre o rio e a cerca – o arame farpado sem cor – na travessia da floresta. Era o nome um abandono completo de pele e a bússola a decifrar rotinas no mapa. Sabia a direção que podia tomar para a direção das cores… fazia meia volta e em sinal de fé, buscava a vida em preto e branco.

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural
Participam desse projeto:
Ana Claudia – Anália Boss – Claudia Leonardi – Fernanda Akemi – Luana de Sousa – Lunna Guedes – Mari de Castro – – Obdúlio Ortega 
Maria Vitória

Scenarium Livros Artesanais

 ®existir | Mariana Gouveia

Querida Maria,

O tempo é esse voo rasante na soleira dos dias onde o horóscopo assombra o decanato dentro do ascendente que cruzava o dia em que meu país errou feio perante o mundo afora – e eu que até simpatizava com astrologia – desencantei – me.

Como vai? E a leveza de tua liberdade te leva livre, com o riso no rosto pelos caminhos que você percorre? Quero saber de você e de como você ignora a tarja exposta sobre meu país… mas hoje, prefiro não perguntar sobre o tempo… O tempo é esse menino fujão e que nos rouba a razão.

Se eu te contar que vi no cartum do jornal do dia a sua primeira pergunta depois de um longo tempo:

–  Você votou em quem?

e a minha resposta te espantou e o porquê foi cercado de mais perguntas. Logo você que possuía todas as probabilidades de ser a mais afetada pelos gestos de um futuro governo inconsequente.

Falei sobre o que acredito e na liberdade que grita em minha pele e que vejo nos olhos de amigos que sofrem todos os dias na rua a indiferença, a intolerância e o desrespeito.

Se eu te contar que minha posição é ideológica vou estar mentindo. A ideologia estampou minhas camisetas em uma adolescência que não vivi e cantava com meu jeans rasgados  no Karaokê: Ideologia, eu quero uma pra viver. E você queria me ver ideológica aos 40, depois aos 50… ela se quebrou diante dos mitos falsos, feitos de falsa fé.

Não, Maria! A ideologia é apenas cartaz exposto nas estações ou nos muros pichados nas ruas da cidade. Deixou de ser a frase de camisetas de pessoas rebeldes, como eu era, lá antigamente.

Não pude fazer grande coisa e o medo tornou – se real e a afronta é diária.

Mas hoje, meu medo tornou – se aliado ao existir e com isso (r)einvento uma cidadã que achei não resistir mais. Sou a própria resistência e indecência. Descobri que sou a própria (r)existência dentro do sistema e é como se eu tivesse pegado um trem e ele me renovasse em cada parada ou obstáculo que surgir. Não luto por mim e nem vou às reuniões no meio da noite pela minha paz. Mas, pela paz de quem amo.

A tua visão de cidadã do mundo podia ser pragmática diante do que a imprensa de meu país espalha e justo eu que adoro as notícias me vejo boicotando-as ou duvidando de tudo que leio.

Portanto, Maria, a mudança está acontecendo aqui, do meu lado, e logo mais adiante, em um bairro distante ou noutra rua e mais outra casa. e embora, talvez eu não seja tão afetada com o governo no qual não votei, mas sei que alguma pessoa que eu gosto será e por isso cumpro meu estado de (r) Existir…

e é isso que me faz ser forte e seguir adiante.

Beijo,

Mariana Gouveia
#ninguémsoltaamãodeninguém