Scenarium Livros Artesanais

 ®existir | Mariana Gouveia

Querida Maria,

O tempo é esse voo rasante na soleira dos dias onde o horóscopo assombra o decanato dentro do ascendente que cruzava o dia em que meu país errou feio perante o mundo afora – e eu que até simpatizava com astrologia – desencantei – me.

Como vai? E a leveza de tua liberdade te leva livre, com o riso no rosto pelos caminhos que você percorre? Quero saber de você e de como você ignora a tarja exposta sobre meu país… mas hoje, prefiro não perguntar sobre o tempo… O tempo é esse menino fujão e que nos rouba a razão.

Se eu te contar que vi no cartum do jornal do dia a sua primeira pergunta depois de um longo tempo:

–  Você votou em quem?

e a minha resposta te espantou e o porquê foi cercado de mais perguntas. Logo você que possuía todas as probabilidades de ser a mais afetada pelos gestos de um futuro governo inconsequente.

Falei sobre o que acredito e na liberdade que grita em minha pele e que vejo nos olhos de amigos que sofrem todos os dias na rua a indiferença, a intolerância e o desrespeito.

Se eu te contar que minha posição é ideológica vou estar mentindo. A ideologia estampou minhas camisetas em uma adolescência que não vivi e cantava com meu jeans rasgados  no Karaokê: Ideologia, eu quero uma pra viver. E você queria me ver ideológica aos 40, depois aos 50… ela se quebrou diante dos mitos falsos, feitos de falsa fé.

Não, Maria! A ideologia é apenas cartaz exposto nas estações ou nos muros pichados nas ruas da cidade. Deixou de ser a frase de camisetas de pessoas rebeldes, como eu era, lá antigamente.

Não pude fazer grande coisa e o medo tornou – se real e a afronta é diária.

Mas hoje, meu medo tornou – se aliado ao existir e com isso (r)einvento uma cidadã que achei não resistir mais. Sou a própria resistência e indecência. Descobri que sou a própria (r)existência dentro do sistema e é como se eu tivesse pegado um trem e ele me renovasse em cada parada ou obstáculo que surgir. Não luto por mim e nem vou às reuniões no meio da noite pela minha paz. Mas, pela paz de quem amo.

A tua visão de cidadã do mundo podia ser pragmática diante do que a imprensa de meu país espalha e justo eu que adoro as notícias me vejo boicotando-as ou duvidando de tudo que leio.

Portanto, Maria, a mudança está acontecendo aqui, do meu lado, e logo mais adiante, em um bairro distante ou noutra rua e mais outra casa. e embora, talvez eu não seja tão afetada com o governo no qual não votei, mas sei que alguma pessoa que eu gosto será e por isso cumpro meu estado de (r) Existir…

e é isso que me faz ser forte e seguir adiante.

Beijo,

Mariana Gouveia
#ninguémsoltaamãodeninguém

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