Afetos · Das palavras das cartas

BEDA – Carta ao meu pai aos cuidados de Agosto

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Sabe, pai, amanhã é seu dia. Embora eu não ligue muito para esse negócio de dia, escrever-te virou rotina no segundo domingo de agosto. Faz com que esse laço se reforce ainda mais. Enquanto te escrevo, eu ouço o rádio e isso me lembra que foi você quem me fez apaixonar pelo rádio.

Logo cedo, acordávamos ao som de Zé Bétio chamando todo mundo para levantar. E ali, diante daquele aparelho, cresci ouvindo músicas da melhor qualidade. Ouvindo histórias que emocionavam. Ouvindo e aprendendo a torcer pelo Brasil. Naquele tempo, o rádio era o único contato com o mundo externo e veja você, que a gente sabia até o que acontecia no exterior. Continuo ouvindo rádio e hoje, faço parte dele.

A gente fala de antigamente e tudo parece que foi ontem e o seu riso continua igual quando eu era menina. Os seus cabelos branquearam com o tempo e você parece um personagem das histórias que eu lia nos livros. Sabe, pai, tudo que eu sou tem sua mão – minha fé, minha conduta e meu jeito diante do mundo – tem parte daquilo que me ensinou.

Você sempre carrega no olho a esperança e é essa mesma esperança que criou semente em mim. E alguém pode até perguntar: esperança em que? E eu digo que é a esperança na vida. De que tudo pode e deve ser para o bem e pelo bem. Dias atrás, quando te vi, reparei que essa mesma esperança ainda mora li, no seu olho. Fiquei sentada algumas horas em silêncio, perto de você e ali, passou-se toda nossa vida, pai. Até sua mania de não querer tirar fotos continua igual.

E seu jeito de elevar o olho pro céu quando fala em Deus. A maneira de olhar para a gente como se ainda fôssemos crianças e como se estivesse sempre nos benzendo. Queria tocar em tanto assunto, mas o medo de você emocionar me podou. E foi em silêncio que a gente mais falou. Não precisava dizer nada.

Aprendi a benzer com você, pai e quando me perguntou sobre isso, vi que esperava que eu dissesse que continuava seu ofício. E continuo, pai…eu benzo as pessoas que cruzo na rua. As crianças que me tocam com o olhar, nos ônibus. Você riu diante da modernidade das bênçãos de hoje. Te explicar que hoje em dia, já não se cuida mais de arca caída como antigamente, nem de quebrante, é o mais difícil. Porque você no seu mundo limitado pela cadeira de rodas, acredita que tudo continua igual e que o rádio ainda tem os mesmos programas e que apesar de já ser mãe, ainda sou sua criança.

Sabe, pai, o dia dos pais pela simbologia do dia é para presentear e agora, descubro o quão abençoada sou. Você me deu uma riqueza de presente. Gosto do que vejo em mim. Gosto desse reflexo que me tornei de você. E gosto imensamente de ser sua filha.

Não vou poder te abraçar amanhã, fisicamente. Mas, te abraço todos os dias em pensamento e quando me preparo para a oração, minha referência é você e diante de minha fé eu renovo a tua. Apesar de sua limitação, descobrimos que a gente pode voar e agora, pai, estou em pleno voo na exata direção do seu colo.
Benção, pai!

Beijo
Mariana Gouveia
*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

BEDA – Carta para Al Berto

Fala-me tu do Amor…
e dessa coisa esquisita que é o tempo com quatro dedos de distância entre o
ardor das línguas e a asfixia dos corpos.
Fala-me tu do Amor e desse desejo que arrasta a proximidade que anula todos os intervalos em pequenas existências que de tão insignificantes
desaparecem numa doçura e amargura.

Conta-me do constante faz e refaz, de ressuscitar e morrer, de adormecer e sonhar, do conforto da luz dos dias na realidade que nos mata. Porque do Amor também se morre e também se vive, como alimentação programada às calorias necessárias para respondermos.
Al Berto

Caro Al berto,

Aqui trovoa e Cássia Eller canta e recanta ECT no celular… eu poderia endereçar essa carta para além-mar e dizer que era ali, diante das telas, que suas poesias reverberam em minha pele. Onde você era voz quando eu queria gritar de amor? Onde quando você era escrita e eu arrepios? Quando os poemas que você escreveu há tanto tempo poderia causar o caos em meu interior e assim fazer minha alma flutuar nas memórias de amor?

Aqui chove e eu penso que o infinito devia ser feito de tardes de chuvas. O cheiro da terra a invadir os quartos e as cortinas dançam ao som do vento. Você adoraria conhecer o vento que mora no meu quintal e é bem ali, na curva do muro que o ipê solta o dourado de suas folhas. Daria bem um poema seu, meu caro…

Queria compreender todos os oceanos e dizer-te que em minha casa as aves nascem nos vasos onde brotam as orquídeas e que há dias em que a solidão é mais cruel e você sabe do que falo.

Sabe, Al Berto… escrever-te é como acelerar o tempo do mundo e você é poesia dentro desse tempo… A louça por lavar e a chuva a invadir a sala com sua atemporalidade e eu a imaginar esse diálogo único… Já suspirei lendo o que escreveu há tempos atrás e é tão atual em mim. Já respirei na porta da cozinha enquanto o cheiro das ervas do meu quintal chama meu nome através da essência bruta de viver… é bem ali que quero morrer dentro de sua overdose de beleza.

Os homens que você citou em seus poemas são os que matam hoje em nome do amor e por isso, tantas vezes perdi o rumo de casa e fui ser alento em algumas esquinas levando o verbo para quem perdeu a fé e meu silêncio servia de moradia dentro da dor. Cheguei a declamar um poema seu para uma alma que apenas sentia a dor… e logo depois ela se acolheu em meu abraço como se eu fosse o próprio poema. Era você ali, sendo voz em mim para ajudar quem não acreditava mais em poesias.

A vida é esse vazio cheio no meio de tantas coisas que não têm a ver conosco e são tantos os olhos a nos  espreitar e descobrimos que isso é o viver na sociedade, mas sempre existe um olhar que sendo de outro é o seu…

Li dias desses que é a poesia que vai nos preparar para as lutas… então, que seja isso.
O mundo de hoje é feito dessas poesias que nos toca a alma como as suas.

Grata por ter deixado essa válvula de escape para que a gente pudesse enfrentar o mundo atual.

Mariana Gouveia
Carta publicada na Revista Plural 8 – Scenarium Plural Editora
*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.

Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

BEDA — Projeto Fotográfico 6 on 6 | a …gosto.

mãe,

A vida é esse desenho de escolhas que fazemos nos dias… “é esse gosto de viver” – você diria – e de repente, diante das palavras me pego pensando no que eu gosto. Não vou falar sobre os bichos, nem sobre as pessoas… Vou falar sobre a magia que você em tão pouco tempo introduziu em minha vida e carrego comigo através de coisas que gosto.

O rádio…
é mais do que gosto. Uma paixão que você fez nascer em mim. Tudo sobre o “mundo lá fora” nos chegava através do rádio, lembra? Aquele aparelho, colocado em um suporte, como se fosse um trono, os programas, as novelas, os jornais, e as cartas… foi ali, que desejei ser radialista. A semente plantada, cuidada e realizada anos depois. Aquele aparelho mágico que te encantava e passou a ser parte do meu mundo.

A máquina de costura… a suavidade da linha sobre o tecido é algo que gosto… e em cada corte, cerzido ou ziguezague impulsiona em mim o que você ensinou.
Ainda hoje o som dos pedais me trazem você na memória. As lembranças me levam pela mão e vejo as misturas do tecidos se transformando em arte. Isso, você me deixou como herança, porque a poesia dos dias plantados dentro de mim, na infância, é o que me faz ser hoje o que sou. Você conseguiu, mãe, dar os pontos, ligar as linhas e acho que você se orgulharia de mim.

O rio… aquele que banhou minha infância me dá a liberdade de pisar descalça e absorver a leveza da vida. Lembra-se, mãe, de que à beira do rio, na lavagem das roupas, você dizia que todos os rios se encontram quando viram mar? Assim, em cada rio que molho meus pés, eu reverencio aquele rio que vou reencontrar um dia quando chegar perto do mar.

As cartas… sabe, mãe… as cartas que a gente escrevia uma para a outra, dentro da distância que o tempo nos roubou ainda as tenho. Mas, depois disso, as cartas se transformaram em uma espécie de diálogo que traço com os que amo. Os envelopes de hoje são coloridos – eu prefiro os vermelho, você sabe – e os papéis de carta já não são como os nossos com os desenhos feitos por você…Recebo cada lindeza em forma de quarto que dá vontade de emoldurar.

Meus livros, mãe… lembra-se de quando você dizia que um dia, alguém iria ler minhas histórias em um livro… e hoje, muita gente em todo mundo lê as minhas histórias. Com isso, além de realizar meu sonho, trago o seu junto impresso nesse trabalho lindo que minha editora faz. É a arte que você gostava misturada com a poesia que você me guiou.

Os ipês… ah, os ipês que tão bem desenham agosto dentro de mim, nas canções da minha infância, nas cores que parecem feitas a mão… Hoje, eu os tenho no meu quintal e cada flor que brota eu reverencio você, nesse mês tão louco, mas tão dentro de nossa história. Os buquês se formam e os tapetes se misturam em meu quintal tão variado de vida.
A vida, é esse instante vago, mãe e a gente, às vezes, nem percebe que na singeleza das coisas o Universo é essa magia de um bem maior e essa carta foi uma maneira de chegar mais perto de você.

Beijo,

Mariana Gouveia
Carta publicada na Revista Plural O mundo de Alice – Scenarium Plural Editora
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Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

BEDA – ‘o que o café te faz lembrar?’

Meu cafezal em flor, quanta flor meu cafezal
Ai menina, meu amor, minha flor do cafezal
Ai menina, meu amor, branca flor do cafezal
Era florada, lindo véu de branca renda
Se estendeu sobre a fazenda,
igual a um manto nupcial
E de mãos dadas fomos juntos pela estrada

Toda branca e perfumada, pela flor do cafezal
Meu cafezal em flor, quanta flor do cafezal
(Cascatinha e Inhana)

Bambina mia,

Desde que chegou até a mim sua pergunta as lembranças vieram desfilar em minha mente. Primeiro, me lembro das flores brancas a enfeitarem os pés de café e em noite de lua cheia, da janela com as cortinas esvoaçantes era a coisa mais linda de ver. Depois, a memória me leva para a tua cidade e capto ali, o que o sabor busca dentro de gente: alma. A fazenda ficava ao pé de uma colina e havia dois tipos de roça – a de toco ( feita depois de uma queimada programada, em uma parte do terreno, onde plantávamos milho, feijão, quiabo, abóboras e legumes variados) e a do terreno preparado para a plantação de café. Quando a florada acontecia, meu pai suspirava e dizia que aquilo parecia um buquê de noiva com cheiro e tudo. Os olhos dele refletiam a singeleza e a magnitude da beleza que a gente via.

Era um dia comum e em uma noite qualquer. E como mágica, a flor acontecia e o café era abençoado por ele, que tirava o chapéu da cabeça e em reverência ao céu curvava à terra. Dias depois, o fruto verde começava a se desenhar, para logo em seguida o vermelho tomar conta de tudo.

Na frente da casa… o terreiro era preparado para a acolhida e a secagem. Passávamos horas a rastelar os grãos para a secagem completa.

– Agora vamos embalar, acolher os grãos para seu destino – dizia ele, feliz com a cor esparramada no quintal – e com isso, o saco de aniagem era o ninho dos grãos separados por grupos.

Dentro da simplicidade dele, sabia e conhecia a especificidade de cada grão e em seu toque de mão acariciava o café, levava ao nariz, aspirava o cheiro e com um gesto de separação costurava o saco. Os especiais, eram escolhidos para as sementes de futuras plantações e outros saiam dali direto para o torrador e depois disso, o moinho e o cheiro exalavam em toda a casa. Hoje, as lembranças me abraçam dentro da palavra amor. Era isso que meu pai gostava de fazer. As canções que falavam de café cabiam em sua boca como declaração de amor genuíno. Muitas vezes, repetia que os pés plantados ali em 10 hectares era o ouro verde/vermelho e negro e que a simbologia daquilo tudo era nossa vida.

Tudo era parte de um ritual que começou lá, numa fazenda do interior de Goiás… na escolha da semente até chegar no líquido fumegante na xícara esmaltada verde com florzinhas vermelhas. O bule fazia parte do jogo que pertencia a mãe de alguém desde não sei quantas gerações.

Talvez, essa mesma lembrança se junta às que eu vivi em tua casa. O ristreto exalando corredores inteiros, o barulho da cafeteira e a xícara servida a mim para dividir algo tão teu e de tuo menino: seu lugar. A mesa na cozinha, o cão a rodear minhas pernas e o aconchego de colo que parecia que eu já havia vivido isso antes.

A cidade ainda dormia – ou estava mais acordada do que nunca – e os títulos dos teus livros me levaram para a fazenda de meu pai e o cheiro do café a evocar lembranças.

Tudo isso se mistura em mim como um gole saboroso de café, servido na cozinha da casa de pau a pique, na fazenda ao pé da colina e o sabor do café feito por você e entregue em mãos com olho de acolhida.

Grazie por tantas lembranças! Grazie por existir em minha vida.

Bacio,

Mariana Gouveia
Carta publicada na Revista Plural Que tal um café? – Scenarium Plural Editora
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Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

BEDA – Carta à Alice, no País das Maravilhas

Alice: Quanto tempo dura o eterno?
Coelho: Às vezes apenas um segundo.
(Alice no País das Maravilhas)

Lewis Carroll

Querida Alice, embora eu viva no seu mundo, você quase não conhece o meu. Com exceção de uma rainha de copas que anda rondando minha vida, em mim quase tudo é maravilha.
E devo isso a você.

O seu sonho adentrou dentro do meu sonho e ganhou asas. O tempo, esse tão curto que o Coelho avisou, passou ligeiro por aqui. – nem vi meu filho crescer. Hoje, olho do lado e vejo um homem naquele menino que ensinei as primeiras palavras – nem percebi o som da fala, o bigode desenhado. Eu sempre vi ali, um menino. O meu menino. Que ganha asas e voa pelo mundo, independente de mim. As paredes me apertam aqui, Alice. E sufocam meus pensamentos na ligeireza dos dias. E beber o líquido da vida me faz tão pequena. No mundo falta água. E vejo aqui, onde moro, o desperdício dessa bebida tão essencial. Um dia aprenderemos? – sei lá! Tenho medo! –
Acho que não.

Mas ainda assim, no dedilhar dos meus dias maravilhas me alcançam onde passo. O riso solto de uma criança. O voo do meu beija-flor Chiquinho que me visita todos os dias de manhã, como se despejasse em mim no seu cantar a maravilha de viver.

Os animais me perseguem como a ti, Alice. Tenho aqui no meu quintal libélulas dançantes no varal onde minhas roupas dançam para secar. Borboletas pousam entre o aconchego de minhas mãos e na delícia dos dias vejo uma maravilha de gente na vida. Vejo-me nas metamorfoses das rotinas e sou invariavelmente rompedora de casulos de sonhos, de vontades e de desejos.

Dentro dos meus sentidos, Alice, percebo as coisas que acontecem ao redor como se eu fosse uma personagem viva dessa história. Converso comigo mesmo e isso acontece com frequência, o que causa uma certa estranheza no meu cachorrinho que procura por pessoas invisíveis e abana o rabo como se me considerasse louca. Por falar em louca, me vem à cabeça a rainha de copas que vive rondando minha vida. Mas como o próprio Coelho amigo seu disse: “os poços da fantasia acabam sempre por secar e o contador de histórias, cansado tentou escapar como podia: o resto amanhã…Já é amanhã!”

Então, vamos lá, Alice…Viver a vida esperando que o resto seja hoje porque o eterno dura apenas esse breve instante de viver.

Mariana Gouveia
Carta publicada na Revista Plural O mundo de Alice – Scenarium Plural Editora
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Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

BEDA – A viagem que não acaba nunca

“Antes eu não sabia
porque é que se deve
– dia após dia –
andar sempre em frente
como se diz até 
o corpo aguentar. 
Agora sei. 
Se vieres comigo 
digo-te”. 

José Agustín Goytisolo

Bambina mia,

Espalho na mesa as fotos e lembranças que trouxe das viagens que fiz. Os roteiros e bilhetes – alguns amarelados pelo tempo – outros, tão recentes que ainda tenho na ponta do dedo a textura da presença, do lugar…
Muitas vezes, a viagem foi logo ali, depois da ponte – a bordo da linha 55… mergulhava dentro de outra cidade – e nessa cidade. Na casa de uma pessoa viajava pelo mundo através de suas histórias. Embarcava rumo aos sabores e perfumes de ruas desconhecidas, desenhadas apenas para mim. Era como se tivesse cruzado o oceano e mergulhado nas ruas de Paris. Até que em uma dessas viagens, nos perdemos em um aeroporto qualquer. Foi bom para o aprendizado de alma e de que o caminho se faz caminhando.
Algumas das vivências foram em aldeias indígenas levada pela mão dentro do olho do pajé ou cacique. Encantei-me com as crenças, a cultura e um mundo novo. A natureza fazendo um país no peito. O respeito pelo outro e o ensinamento de que tudo tem uma razão definida e disso não podemos fugir. Haverá sempre um trem chamado destino e que tem passagem certa entre nós. Estaremos prontos para embarcar e a aproveitar a viagem?
Viajei também pelo amor… esqueci as palavras e fiquei com o som das gotas de chuva e dos trovões, que me fizeram chamar por seu nome. Senti o calor dos raios de sol que rasgam intensamente as nuvens e imaginei a pele a sentir o toque.
Abri os braços… abracei o vento… fiz castelos na areia… mergulhei no mar e no campo, senti o cheiro das flores dentro da estação…
Passei noites a espiar a lua e vivi as loucuras da noite. Através das ondas do rádio viajei pelo mundo inteiro. Fui peregrina da fé… adentrei em igrejas e castelos. Sobrevivi aos corredores das dores e saí dali cheia… de poesia.
Viajei até você também… e a bordo da palavra sonho: toquei a realidade. Da sua sacada… eu vi a noite de sua cidade e mergulhei madrugada nas suas calçadas. Senti o frio da garoa e te abracei em sua rua. Ouvi as canções que você cantarolava e com seu menino aspirei o aroma do café servido na xícara que tinha um coração.
Mas há uma viagem que me chama… que me obriga a fazer as malas… e mapas que trago na memória – feito tatuagem. Trago na pele o arder de um sol diferente do meu e o vento me espera para tocar folhas altas. Sou passageira dessa nave e o embarque se aproxima. Em breve parto para essa viagem… a que eu ainda não fiz…

Vamos?

Mariana Gouveia
Carta publicada na Revista Plural Wild Nights – Scenarium Plural Editora
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Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

BEDA – Carta ao amor

Querida minha,


O dia acontece sem demora. A chuva antecipa a vagareza nos gestos. O guarda-chuva quebra e o vento leva o pedaço rumo ao muro gigante da rua de cima. E eu me lembro de você sempre que alguém assovia uma canção conhecida – que liga tua vida à minha e faz com que o som pareça ecoar dentro de nossa história.
O acaso, é essa fotografia que vejo dependurada na parede e tem suas iniciais gravadas no peito, enquanto a trovoada acontece lá fora… As gotas, trovões e um pedaço do céu a alaranjar no Oeste – são gritos de sua alma na minha.
Ainda sinto o tatear de suas mãos a tocar-me com o desejo nos gestos. Vejo vestígios de um sapato na enxurrada e teu sotaque e relembrar uma curva do mar em que os calçados continham liberdade de alguém. Bebo a chuva na palma da mão. A madrugada tem o dom de perdurar dentro das manhãs sonolentas. O sabor agridoce na boca dos teus sabores em mim. A leveza da pele úmida de vontades e ainda o encontro que não veio – e eu apenas o imagino…

Na volta, a chuva já se foi e o dia tem aspecto de inverno. Apenas a palavra da estação vibra em mim e penso nos instantes mágicos madrugadores que a gente viveu. Na memória, sua pele trouxe a leve ironia das manchinhas nas costas. Nem era de Deus essa pele com pintas, onde desenhei nas pontas dos dedos o mapa imaginário do teu lugar.  Sinto que estou em você, e pensando nisso me aninho em teu colo como miolo de flor.

Me coloquei dentro das histórias de um outro país que você já visitou. Não era seu perfume que exalava… era a rua de alguma cidade estranha e suas lâmpadas a iluminar as sombras nas calçadas; sou levada dentro da história e respiro a canção… 
Lembrei-me da dedicatória de um poema seu. O vulto das suas letras em carvão quase desenhando corações nas rotinas do dia. Fui me desmanchando nas suas poesias como líquido que escorre afoito feito rio que deságua no mar…
Era pouco, tão pouco ali o mar – tão imenso em seu alcance com o céu – a beijar o sol com suas rotinas de aves e gaivotas. Era pouco – e era tanto e quanto aquele rio pedinte de toque, de encontro. E no pulsar das margens que o ladeiam, o suspiro, e era tanto – um mar de saudade – um rio de água doce de vontade nos gestos dos dias. O avesso do mundo é essa lonjura nos mapas que vi nos livros de histórias onde te invento uma história com final feliz para nós duas.

Beijo

Mariana Gouveia
*imagem: Ines Rehberger
Carta publicada na Revista Plural Erótica – Scenarium Plural Editora
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Afetos · Das palavras das cartas

BEDA – Um céu cheio de pipas

Bambina mia,

Escrevo para você em uma tarde de inverno, mas a palavra da estação está longe de fazer sentido aqui. Nos noticiários, o que mais ouço é que estamos com a secura do deserto. E o calor – esse normal aqui – parece de verão.

Já é agosto e desde o fim de junho que essa secura predomina aqui, na fala da moça do tempo, no vento que desfolha as árvores e na secura que a pele sente. Já são mais 70 dias sem chuvas e no céu não tem nenhuma nuvem. O que vejo daqui, na quadratura do meu muro é um céu cheio de pipas – de todos os tamanhos e cores – e a rua está uma algazarra só… aqui, os homens se transformam em meninos e os meninos correm rua acima atrás de uma ou outra que perdeu a batalha para o ‘rival’.

Ainda estamos vivendo esse ‘novo normal’ que tanto falam e na rua, com os gritos das crianças atrás de suas pipas voadoras, parece que não há um vírus a ameaçar. Todo mundo age como se estivesse de férias – ou é domingo – enquanto eu vago os olhos pelo céu em busca de uma foto melhor para te enviar. O vento agita o papel e ele se enrosca em volteios e perdi mais um foco.

Já está escurecendo e as estrelas começam a brilharem no céu. Aqui, parece que elas estão mais perto, de tanto que brilham. Enquanto molho as plantas e analiso o crescimento das suculentas em seus caixotes vermelhos – cor que escolhi – revisito a solidão de uma pipa, que ficou só no céu, a disputar espaço com as estrelas. E pelo vão do portão, vejo um menino solitário a mexer com seus braços com atenção toda voltada para a linha… é tão simples o momento… a rua só dele, e no céu sua pipa. Era como se ele esperasse durante o dia todo para ter aquele instante só seu. Foi ali, que resolvi te escrever e abri agosto com essa leveza de alma, embora, no ar, a secura dos dias de deserto.

Bacio,

Mariana Gouveia

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Divã

Tudo aconteceu no tempo do abraço.

Tudo aconteceu no tempo do abraço.

Era ali, onde eu morava. Meu país era o aconchego dos braços dela.
Mesmo quando não havia presença era ali que eu me aninhava e estava segura. Feliz. Em paz.
Mas, em guerra, o peito dela não abriga mais minha cidade. Transformou em ruínas o que era meu lugar.
Virei peregrina desse deserto intenso. Endoideci.
Vaguei incessante em terras alheias buscando abrigos.
Nenhum lugar me pertence.
É comum em noites banais desenhar ela, seu nome, suas lembranças em meu corpo todo.
É comum ela estar em mim.
Enquanto vagueio, meu olhar de louca procura sinais de uma reconstrução que não tem mais.

Mariana Gouveia – do Divã
*imagem: Ali Perrault

Projeto Diário das quatro estações

Há um pássaro dourado voando em minha mão…

E era feito de escamas – quase peixe – um tsuru desenhado na mente. Era de lata, a ave, que cantava em silêncio, tal qual a menina muda que conheci dias atrás. Há um pássaro preto, preso em minha mão, era feito de laços – um coração em presente – com suas asas negras a soltar penas com seu canto a ecoar memórias. Palavras que encontrei em um caderno velho onde escrevia histórias de amor.
Há um pássaro sem cor na minha mão. Era sem asas e sem pena – não cantava dentro da noite… Mas quando amanhecia e o vento sacudia as folhas das árvores do quintal, ele voava e se tornava um beija-flor e era colorido com seu canto amanhecido de sol.

Mariana Gouveia
No bico do beija-flor beija a flor
*texto que fará parte do Projeto Diário das Quatro Estações 2020 pela Editora Scenarium Plural