Afetos · Das palavras das cartas

BEDA – Um céu cheio de pipas

Bambina mia,

Escrevo para você em uma tarde de inverno, mas a palavra da estação está longe de fazer sentido aqui. Nos noticiários, o que mais ouço é que estamos com a secura do deserto. E o calor – esse normal aqui – parece de verão.

Já é agosto e desde o fim de junho que essa secura predomina aqui, na fala da moça do tempo, no vento que desfolha as árvores e na secura que a pele sente. Já são mais 70 dias sem chuvas e no céu não tem nenhuma nuvem. O que vejo daqui, na quadratura do meu muro é um céu cheio de pipas – de todos os tamanhos e cores – e a rua está uma algazarra só… aqui, os homens se transformam em meninos e os meninos correm rua acima atrás de uma ou outra que perdeu a batalha para o ‘rival’.

Ainda estamos vivendo esse ‘novo normal’ que tanto falam e na rua, com os gritos das crianças atrás de suas pipas voadoras, parece que não há um vírus a ameaçar. Todo mundo age como se estivesse de férias – ou é domingo – enquanto eu vago os olhos pelo céu em busca de uma foto melhor para te enviar. O vento agita o papel e ele se enrosca em volteios e perdi mais um foco.

Já está escurecendo e as estrelas começam a brilharem no céu. Aqui, parece que elas estão mais perto, de tanto que brilham. Enquanto molho as plantas e analiso o crescimento das suculentas em seus caixotes vermelhos – cor que escolhi – revisito a solidão de uma pipa, que ficou só no céu, a disputar espaço com as estrelas. E pelo vão do portão, vejo um menino solitário a mexer com seus braços com atenção toda voltada para a linha… é tão simples o momento… a rua só dele, e no céu sua pipa. Era como se ele esperasse durante o dia todo para ter aquele instante só seu. Foi ali, que resolvi te escrever e abri agosto com essa leveza de alma, embora, no ar, a secura dos dias de deserto.

Bacio,

Mariana Gouveia

*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.

17 comentários em “BEDA – Um céu cheio de pipas

  1. Adorava soltar pipas, nós mesmos as fazíamos, escolhíamos o melhor bambu, transávamos as varinhas e com a linha íamos amarrando a armadura, morávamos em fazenda e usávamos jornal e fazíamos a própria cola, por último o rabo e um detalhe, não poderia ter nenhum furinho, senão ela não voava e nem empinava. Por fim a liberdade de correr com ela, no início próximo a o dedo e ia soltando devagarinho para ir soltando, empinando até ir adquirindo autonomia para subir e ganhar o Céu, como foi maravilhoso nossa infância. ❤️

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  2. Boa noite, cara mia…
    Dia de sábado que se esvai e eu fiz pouco. Fiquei na varanda a apreciar as mudanças desse hoje (agosto). A pensar os dias e seus movimentos humanos. Ando sem paciência com algumas palavras: menino é uma delas. A sensação que tenho é que os homens já não sabem mais crescer e recorrem aos seus meninos, como enfeites de si, desculpas para serem menores. Agem sem responsabilidade porque não são adultos.
    Obdulio falou em meninos no outro dia. Na brincadeira da bola… já reparou que temos cada vez menos homens? São sempre os meninos livres para serem irresponsáveis.
    Ser menino era aquela coisa saudável, de brincar na rua e levar bronca da mãe, que gritava a hora das refeições, do banho, roupa limpa e cama. Me lembro que eu os espiava, conscientes de que cresceriam. Não sei o que deu errado. Mas, quando vejo homens sem ciência alguma de suas responsabilidades, me aborreço. Respiro fundo e vou ler meus homens. Eliot e Baudelaire. Borges e Lacan…
    A menina que eu fui cruza os braços a frente do corpo e acena. Nos espiamos (na condição de janela uma da outra) e ela me conta que, em seu tempo (o ontem) ela preferia os meninos às meninas. Eles eram mais legais. As brincadeiras melhores e não havia limites. Pois… eu cresci no meio deles, mas fui conhecendo meninas iguais a mim e fui me misturando a elas e me afastando dos meninos. Gosto do homem com quem convivo e que fala do menino que foi, consciente de que foi uma fase… uma das boas, que ajudou a molda-lo enquanto Adulto consciente de seus gestos todos-inteiros. Quando ele ri, sei que o menino ri também e quando faz Arte e se diverte partilhando de suas diabruras, sei que o menino que foi, acena satisfeito. Mas o Adulto sabe das distâncias que valem. rs

    bacio

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    1. e justo em sua missiva eu escrevo a palavra Menino? Nem vou justificar, porque na verdade, a carta surgiu por causa da pipa.
      Espero que ignorando a palavra menino, tenha gostado.
      Bacio

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  3. Ainda verificarei quatro acontecimentos, a partir daqui, aonde resido: pipas serem empinadas na ventania durante a chuva; pipas com led’s acesos, voando à noite; pipas serem usadas como elemento protagonista em defesa e tese acadêmicas; e algum/a adolescente, então tornado/a adulto/a, tornar-se piloto/a comercial de aviões.

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  4. Quando criança, gostava imensamente de soltar pipa. Morava em uma chácara e ia ao pasto do vizinho – Era desastrada e não levava jeito para a brincadeira, mas me agradava tentar e tentar… Depois, desistia, deixava o neto do vizinho empinando pipa e sentava sob a sombra com um livro nas mãos, perdida entre a história e a observação da paisagem ao redor,

    Abraços!

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