Afetos · Scenarium Livros Artesanais

Os meus cadernos

Eu sempre adorei cadernos. Mas só fui ter acesso a eles depois dos meus doze anos. Os primeiros eram feitos de papel de pão ou de qualquer outro tipo de papel que chegava na fazenda e costurados na velha máquina Singer pela minha mãe.

Na primeira vez em que entrei em uma papelaria foi como se tivesse entrado em um mundo encantado. A papelaria/livraria/mercearia — a única na cidade — tinha uma prateleira destinada aos livros de faroeste, lápis, canetas e para os cadernos.

As capas traziam fotos de carros ou escudo de times de futebol. Meu pai tinha que comprar sete — o número dos filhos — e os escolhidos eram os mais simples.

O meu tinha na capa uma moça em uma faixa de pedestre que deixava o material escolar cair, um guarda a ajudava enquanto o carro freava. Ao fundo, uma cidade desconhecida com prédios modernos. Mas eu estava tão encantada com as folhas em branco, pronta para serem escritas que a capa era apenas um detalhe. Cada página tinha um valor estimado.

Naquela noite, o caderno-novo foi aconchego debaixo do travesseiro e nos dias seguintes os primeiros poemas – escritos nos cadernos improvisados — foram transportados para ele.

Cada vez que o meu pai ia para a cidade, gerava uma expectativa de qual seria o outro caderno que ele traria. Meus irmãos sempre pediam doces, ou outras coisas. E eu pedia outro caderno novo.

Gostava mais dos de capa dura, encapados com restos de tecidos que sobravam das costuras de minha mãe. Gostava de colar as figurinhas do Amar é… que o seu Tonico, o dono da papelaria, mandava para mim. Foi em um caderno de capa dura que iniciei meu primeiro diário… Mas isso, é uma outra história.

Mariana Gouveia
Texto publicado no Projeto Coletivo O tempo perfeito
Scenarium Livros Artesanais

Corredores, Codinome Locura

Das horas

As horas não passam no sentido das coisas.
Ela anota meus desafios diários.
A cortina não combina com meu estado de espírito. Permanecem fechadas e isso foi ontem.
Hoje eu falo calada. Eu olho o relógio. Ela olha o relógio. Anota.
Deve ser essa pressa de ir embora que me move.
– Pra onde?
– De nada para lugar nenhum.
Eu tive de desenhar um mapa.
Falando em mapa tive de fazer o mapa astral dela.
Falei de horóscopo. Ela riu.
Eu tinha síndrome de fuga.
Diagnóstico conhecido e exemplificado em palavras confusas
que eu precisaria de um dicionário para entender.
– Não quero fugir. Nunca quis. – falei entre um sussurro que acho que só eu ouvi.
Ela anotou.
O relógio na parede.
Tic-tac só não era maior do meu suspiro.
O tempo mudou de repente.
Não quis dizer que não acredito em meteorologia.
Seria considerado fuga do tempo
e esse, para mim, seria como diz a música:
um dos deuses mais lindo.
E ela disparou a falar de canções.
Dancei.

Mariana Gouveia – Divã

Afetos · Das palavras das cartas

para além das variáveis do outono.

Uma vez um homem encontrou duas folhas e entrou em casa segurando-as com os braços esticados dizendo aos pais que era uma árvore.  Ao que eles disseram então vai para o pátio e não cresças na sala  pois as tuas raízes podem estragar a carpete. Ele disse eu estava a brincar não sou uma árvore e deixou cair as folhas. Mas os pais disseram olha é outono.
Russell Edson

Querida Perla,

em um dia desses, uma poeta, em conversa com uma bambina se confundiu com o dia que o calendário marca na folhinha a chegada do outono. Imagine você que a poeta sou e te explico a confusão.

O meu quintal havia amanhecido com as folhas a dançar no chão… era um balé bonito de se ver, com as folhas num vruumm, vrumm, crááás, crááás… e os galhos todos pelados, como se tivessem mesmo despidos. Era 20 de fevereiro e não fiquei atenta ao outono mesmo… só me encantei com a delícia do som das folhas a se espalharem no quintal.

Mas, conversando com nossa bambina percebi que a natureza ultrapassa as linhas invisíveis das estações. A primavera atravessa os desvios aqui em pleno verão, e os manacá da serra daí exalam suas belezas fora do tempo. Talvez, pelo meu lado poético eu diria que o tempo endoidou e o calendário já não segue mais certinho os equinócios e suas mudanças . É definido aqui, nos astros e terminologia que rege em meu lugar que o outono , o meu outono antecipou suas variáveis e o ipê desfolhou todinho… ainda em um ontem recente estava com suas flores temporãs amarelas a dourar o chão.

Então, deve ser por isso, que ao atravessar o quintal daí, onde nascem jabuticabas, pitangas, maracujás e helicônias, suculentas e flor de maio – que floresce em outros meses além do maio – que a amoreira esteja recebendo os ares do outono. Ele está bem aí, batendo a porta…

Vamos abrir a porta para ele?
Abraço carinhoso.

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Meus Livros · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Lombada de livros

Há coisas bonitas nesta vida; como café e livro, ou como a chuva, por exemplo…
(Páginas Vivas)

Bambina mia,

Quando vejo na TV, alguém sendo entrevistado, e ao fundo prateleiras com livros, fico curiosa e meus olhos se voltam para as lombadas dos livros para saber o nome dos livros. Acho até que já falamos sobre isso e sei que você também faz o mesmo.

O tema lombada de livros me pegou de jeito. Tenho cerca de 300 livros, mas os quais em sua maioria são os livros artesanais da Scenarium, que não possuem a famosa lombada, por ser um projeto artesanal.

Por isso, recorri-me aos poucos livros com suas lombadas e claro, atrevi-me também a ignorar as lombadas em algumas fotos. Já peço desculpas antecipadamente, porque ainda são 17:03 aqui.

Chove nessa tarde ligeira e ouço trovões logo ali, para além da rua de cima e os relâmpagos rasgam o céu. Fiz um chá azul e sei que você também gosta. Há um certo clima vintage aqui, não sei bem porque.

tenho uma estante preparada para os livros da Scenarium e os outros livros, deixo-os ao longo dos caixotes onde espalho minhas quinquilharias. Acho que já te mostrei isso também em alguma chamada de vídeo.

Assustei-me logo cedo quando falamos sobre o 6 on 6… já é março, bambina e os dias rompem ligeiros como se corressem para chegar a algum lugar. Logo será o outono – sua estação preferida – e eu confundi que era agora. Acho que até meu quintal se confundiu. As folhas do ipê estão caindo e as da fadinha azul também.

Foi aqui, bambina, que abusei da tal lombada… espalhei alguns dos livros no chão da varanda, porque na estante deles os nomes não apareceriam. Às vezes, eu faço isso para separá-los por ordem… mas, você sabe que a gente sempre deixa um aqui e ali…

A noite chegou mais cedo e os trovões parecem concerto de rock… o céu está bravio e a notificação da defesa civil me assusta mais uma vez. Yoshi se afunda na almofada dele enquanto tomo mais um gole do chá. Aceita?

Bacio,

Grazie!
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:  Lunna Guedes, Claudia Leonardi – Silvana Lopes Obdúlio Numes Ortega

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – road trip urbano

Bambina mia,

E estamos cá para mais um 6 on 6 e ao pensar no tema, cruzando algumas avenidas do meu lugar, para além da rua de cima percebi que há várias nuances dentro desse road trip urbano. Poderia te mostrar os casarões da rua do meio, se decompondo aos poucos diante da passividade dos donos/justiça/poder público, etc… Poderia também mostrar as igrejas antigas – e igrejas não faltam aqui.

Mas, como Cuiabá tem essa fama de mato mesmo e grande parte do povo de fora pensa que aqui se encontra onça andando na rua e logo na avenida principal do meu bairro, me deparo com essa cena… resolvi te mostrar o lado animal das minhas ruas.

Não temos onça, mas temos jacaré e ele tem nome. Se chama Celso e atravessa na faixa. Pena que não consegui pegar essa parte. Ele mora em um parque dentro da cidade, que era só dele, mas resolveram criar no lugar um parque que se chama Parque das Águas, que era só dele e os humanos agora querem tirar ele de lá.

E sabe aquelas capivarinhas simpáticas de pelúcia? Tenho aqui, ao vivo, em pelo real, uma família todinha… uma não! Várias famílias, que também atravessam na faixa de pedestres, mas não consegui fotografar isso. Atravessam avenidas, param o trânsito e isso em uma área central e bairros luxuosos.

Bambina, bambina… eu me encantei com esse mocinho aí… foi se transformando aos meus olhos e até desci do carro para vê-lo de mais perto… e correu para dentro do bosque.

e dentro da normalidade para minha cidade, eis que os periquitos invadiram a cidade. Não vou falar aqui sobre como o homem invadiu o espaço deles tirando o meio de sobrevivência e os trouxeram para o espaço urbano.

E o que antes era só visto nas florestas, fazendas e meio do mato, agora se tornou comum nas cidades. Animais das mais variadas espécies fazem parte da rotina diária. O que aos meus olhos era comum no lugar onde nasci vejo aves e seus ninhos, famílias inteiras de animais silvestres. A gente já sabe de quem é a culpa e nem vou me ater ao convencional para esse passeio que te apresento. Espero que goste.

Bacio,

Grazie!
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:  Lunna GuedesClaudia Leonardi – Silvana Lopes Obdúlio Numes Ortega

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Vertigem do meio dia emoldurada em vertigens.

Janeiro chegou ao seu final e me perguntei várias vezes se ele voou ou se foi como a maioria diz que o mês durou um ano… Mas, ele foi generoso comigo, até certo ponto. Te trouxe em notas diárias e a gente se deu as mãos nas manhãs mornas ou frias, secas ou chuvosas.

Estive com você nos passeios com o cão, nas ruas com nomes de flores e até mesmo na sua solidão. Você compreendeu minhas dores, minha surdez e até mesmo o meu silêncio. Muita gente acha que compartilhar momentos é estar juntos, ao toque das mãos. A gente fez isso de maneira diferente nesses 31 dias. Tomamos chás, cuidamos das plantas em uma situação muito de dona de casa… sei que você vai rir disso… e até andamos pelo quintal.

Eu falei de sol, você falou de chuva e vice e versa. Ouvi no mesmo repeat suas canções… coisas nossas que só a gente entende e isso basta.

Foi um passeio interessante, foi um janeiro carinhoso e agora trovoa aqui… Você disse sobre começo e fim… eu digo sobre continuação para além dos dias que não serão feitos de notas diárias, pelo menos desse lado aqui.

Grazie!

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Todos os países e todas as pessoas giram dentro de mim.

Já faz tempo que sei de sua paixão por casarios antigos e tenho um certo fascínio por eles também. O centro histórico de minha cidade está cheio deles, que contam histórias fascinantes, com seus personagens históricos, em sua maioria, com nome de rua.

A maioria está em situação de abandono e cada vez que passo por ali, fico como você, imaginando os mistérios que estão grudados em suas paredes – quase todas de adobo – e telhados antigos… Em suas fachadas, em algumas casas há iniciais que indicam os nomes dos proprietários e datas de construção.

Grande parte dos imóveis em estado de deterioração são privados e estão em inventário, outros sequer têm a documentação necessária. E, por fim, cabe aos donos a restauração, essa sim, seguindo os critérios de intervenção do Iphan.

Cada vez que passo por ali é uma casa a menos que vejo, seja porque choveu e a estrutura não resistiu ou um novo prédio – assim como aí – surge imponente em meio à história. Há casas construídas no século 18 e 19. Poucos foram restaurados e abrigam casas culturais e arte.

Conheço algumas histórias de pessoas que viveram ali e infelizmente, hoje são apenas pedaços da história cultural e social da cidade e os telhados vermelhos fazem parte apenas das fotografias.

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Todas as auroras raiam no mesmo lugar

Hoje ao amanhecer, durante o passeio com o cão fui ao descampado onde vejo o sol nascer antes de todo mundo. Há sempre uma árvore solitária à espera. Um avião passa, um galo canta ao longe e o cão puxa a guia pedindo para voltar.

A manhã acontece ligeira no meu quintal enquanto termino algumas encomendas. Ainda há resquícios da chuva de ontem aqui, apesar do sol já ultrapassar o quadrante do muro. Há flores e folhas com as gotas ainda dependuradas esperando um balanço de vento para se dissipar. Um dia, li num livro que o oceano começa por uma gota e esse pensamento me atravessa…

Quando li seu texto busquei nas memórias quais livros estiveram comigo nesse janeiro – que já mostra seu ocaso – e percebi que estive a bordo de três livros da Scenarium Livros Artesanais. Projetos coletivos com coletâneas de autoras que admiro demais. Plural Alice, que marca o ano 10 da Scenarium, Caderno de desaforos – um luxo de desaforos – e Linhas e rabiscos em borrões de azul. Esse último ainda não conclui. Dá licença que vou ali fazer isso.

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Virou todos os dias todas as esquinas de todas as ruas.

Ph: Raquel Pellicano

Seu texto me fez lembrar de alguns ontens e mais uma vez me vejo repetitiva aqui quando nossas esquinas se cruzam. Na época em que eu trabalhava no rádio, durante dois anos, fui a responsável para editar coluna de astrologia tanto do rádio quanto do jornal. A astróloga fazia as previsões e eu editava e não se espante… era a maior audiência nas manhãs, em um tempo em que o mercúrio retrógrado não era tão falado, pelo menos não nas previsões dela.

Tarô, runas e até baralho cigano era com ela. Um dia, tive de ir até sua casa pegar as previsões e como toda aura de misticidade me encantava entrei na tenda. Mesmo sem ler nenhuma carta ou qualquer outra coisa, ela me disse que eu teria sete filhos. A previsão não se confirmou. Tive três filhos, dos quais dois faleceram no parto. E as outras coisas que ela reafirmou várias vezes ser um aviso nunca se concretizou. Eu seria mãe de sete filhas. Os meus eram meninos.

As pessoas a adoravam e a rádio recebia várias cartas endereçadas à ela. Mas, o rádio sofreu mudanças, e o programa acabou, assim como as edições para o jornal… Nunca mais havia visto ou ouvido falar dela, até que, na última ida ao centro da cidade para comprar materiais a vi… de princípio, não a conheci e acredito que ela também não se lembrou de mim, porque fez um psiu… e estendeu a mão para mim.

Vestida com roupas coloridas e saia longa parecia uma cigana. Lembrei-me das que eu conheci na minha infância… Recusei apressadamente. Foi quando nossos olhos se cruzaram. Houve um resquício de conhecimento, mas ela fingiu que não e eu não me atrevi a relembrar.

Segui rumo a rua do meio, para a loja dos aviamentos e senti o olhar dela algumas vezes. O futuro que ela viu para mim tornou-se obsoleto na memória… Prefiro meu presente com uma chuva deliciosa que cai nesse fim de tarde. O amanhã? Vamos aguardar.

Mariana Gouveia

Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

E a rota que deveria seguir estava escrita no ritmo.

Quando li seu texto, mais do que pensar nos aromas, lembrei-me de um poema de Adélia Prado:

“Minha mãe cozinhava exatamente:
Arroz, feijão roxinho, molho de batatinhas.
Mas cantava”.

E é exatamente o que me lembro… das cantorias de minha mãe enquanto manuseava as panelas ou colocava mais lenha no fogão e preparava as brasas para assar o bolo mané pelado.

(Aqui abro um parêntese para explicar o modo que minha mãe fazia. Não tínhamos o fogão a gás e preparar o forno de barro para assar um bolo era desperdício de tempo e de lenha. Minha mãe colocava a massa em uma panela e tampava com um prato cheio de brasas. O tempo de assadura era o mesmo do forno e o cheiro era a fragrância do amor a exalar na cozinha toda.)

– O alimento é a poesia para o corpo! – minha mãe dizia enquanto ao redor do fogão a lenha preparava os ingredientes para fazer os biscoitos – o que se tornava um ritual, quase festa. Depois da massa feita, passávamos eu e meus irmãos a enrolar e fazer figuras com a massa, enquanto ela fritava. Lembro-me que haviam cavalos, estrelas, letras com a iniciais de cada um dos nomes dos filhos.

O polvilho, nós mesmo fazíamos, logo depois da colheita da mandioca tudo marcado por rituais para não desandar a massa, para não azedar o pão, para ficar na memória o rito da mandioca sendo ralada, lavada, espremida e daquela água branca da cor de leite, ficava no fundo das bacias o pó branco que serviria para fazer quase tudo nos próximos meses.

Desde o pão de queijo ao mingau. O jirau montado no quintal para secar o polvilho. O tempo certo para o polvilho doce e o azedo. Repetir a receita e com o chá de erva doce merendar em volta dela.

Descrever isso é como voltar no tempo… preparar os ingredientes, sovar a massa. A memória se volta para o passado e o tempero se chama saudade.

A memória busca as lembranças dentro da cozinha. Os temperos a traduzir a saudade. Minha mãe sempre figura central da cozinha. A mesa sempre larga e grande para caber os sete filhos e a turma do trabalho da fazenda. Tenho isso tudo vivo em minha e com certeza foram esses instantes que me fizeram o que sou.

O momento da partilha dos pães, o fogo a crepitar no fogão. O cheiro do leite a ferver enquanto queima os dedos na ânsia de não deixar derramar o leite sobre a chapa quente.
A lembrança presa nas coisas. As xícaras de ágata verde com florzinhas miúdas, o bule a combinar com a toalha xadrez na mesa.
Minha mãe dizia que a casa começa com as xícaras e o coador de café. Foi dela que herdei esse amor pelo grão que nós mesmos colhíamos e o pai torrava para depois moer e coar.  Aquele era o tempo do queria.
Falar disso é como abrir a janela e respirar o tempero da memória.

Mariana Gouveia