Colcha de Retalhos · Scenarium Livros Artesanais

Colcha de Retalhos… O amor mora em Marte.

Apresento a vocês meu mais novo livro. É o sexto… Pode-se considerar mais um filho? Sim!! Dá pra considerar que é um trabalho? Colcha de Retalhos é uma história contada quadro a quadro… é o amor retratado em linhas… bordado, costurado, dentro da cultura japonesa, porque foi isso que moldou minha história.
Além de que em Colcha de Retalhos eu me desnudo, nua e crua, dentro do sentimento de amizade, amor, ternura e encanto.

Colcha de Retalhos é um ideograma traçado na pele e tatuado na palavra amor.

Criava a galáxia em origamis e melhorava a cada
dia. Aspirava vontade de viver.

Muitas vezes, diante de uma perda, a gente se refugia no luto… em Colcha de Retalhos, eu flutuei fora do luto porque já não era mais tempo de chorar…

A vida não escolhe os premiados em amar.
Simplesmente ama-se e ponto. Sem questionar os
porquês, ne? Porque isso é único e intransferível
.

Era como se a palavra amor 愛 estivesse tatuada
em nós, por dentro.

Com ilustrações lindas e amor… nada mais além do amor e saudades, ofereço à vocês quadrados de uma colcha feita com sentimentos únicos e verdadeiros. Com toda delicadeza do livro artesanal, com costura japonesa e a sabedoria de Lunna Guedes, na edição. O lançamento será dia 27/11/2021, às 19hs, de forma on line.

Você pode adquirir aqui ou na página da Scenarium Livros Artesanais

Mariana Gouveia
Colcha de Retalhos
Scenarium Livros Artesanais

Delírios Comunistas · Scenarium Livros Artesanais

Misfits

Começa a notar que as coisas se inverteram na ordem? Caminho por esta avenida sem calçadas. Carros, desde que se tornaram importantes, ocupam os jardins das casas. Moramos sob a laje. Entre grades. Nesta gaiola insana.

É verdade que alçarão a segunda e a terceira lua ao espaço? Até 2022, prometem… Baita economia de iluminação pública! Vai brilhar mais que a lua original!…

Vi uma estrela tão alta,/

Vi uma estrela tão fria…

Protestam os namorados e os lobisomens.

Nesta cidade, as coisas endividam pessoas. São descartáveis. Também as pessoas.

Ou então

Partimos numa viagem secreta. Há de ter algum grotão neste mundo. Ainda há. Com boa literatura.

A esperança

Não há lugar para pessimismo. A vida é una, indivisível, improrrogável. Ouço-o gritando enquanto corre em ziguezague por entre os carros.

Depois se recolhe em sua lata de lixo. O último fecha a tampa.

Adriana Aneli
Texto publicado no livro: Delírios Comunistas
Scenarium Livros Artesanais
Você pode adquirir o livro aqui

Delírios Comunistas · Scenarium Livros Artesanais

quem sobreviveria?

“com os olhos à deriva na janela, tentei me convencer de que não, corujas não voam para cima de telhados em plena manhã, não, nenhum presságio, talvez o ruído indevido da rua anuncie o final dos tempos sem direito a funeral, a mesma paisagem cínica, de máscara? nem isso. as horas são todas iguais, o oxímetro separa o pânico da pneumonia, é melhor trabalhar antes que eu morra, são tantas janelas, nenhuma é a minha, é necessário tomar sol, disseram, mas o ruído indevido da rua ensurdece o desejo de estar viva, não, normalidade não há mais, não há normal nem anormal, o nada é o horizonte que nunca decepciona. aqui, cinco mil trezentos e sessenta horas de conteúdo gratuito para o seu desenvolvimento pessoal durante a quarentena, disponíveis durante os próximos quinze dias, apresse-se, mas eu só queria estar vazia. entende? o nada é o horizonte que nunca decepciona. o nada nasce bom. a espera o corrompe. entende o que eu quero dizer? talvez o cheiro da comida empurre vida num corpo morto que se bate contra as paredes. mas como, um corpo morto de rosto rosado e mãos quentes? talvez um creme na cara. hora de gritar na janela. fora, genocida! fora, eu não quero morrer de vírus! mas, no fundo, sei que estou condenada. foi antes, bem antes de algum prenúncio do apocalipse. foi na época das eleições. não, eu não leio nenhum livro sagrado. orações não me interessam. estou já condenada, eu sei, para o inferno com essa fé de barganha! tento me convencer que fé e esperança são defeitos distintos. em mim, talvez nem uma, nem outra sobreviveram aos naufrágios sucessivos. quem sobreviveria?

mas hoje você me chamou pelo nome como se chama algo
perigosamente próximo
do coração”.

Anna Clara de Vitto
Texto publicado no livro: Delírios Comunistas
Scenarium Livros Artesanais

Você pode adquirir o livro aqui

Delírios Comunistas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

A teoria dos dois demônios

Eu nem estava por aqui quando o país enfrentou a grave ameaça comunista obrigando seus Militares — homens de bem, trajando fardas bem lustradas, com os peitos estufados, salários pontualmente pagos e armas toscas em punho — se viram obrigados a defender a Pátria… espanando a pobre Democracia, que convenhamos, por aqui, nunca foi lá uma de.mo.cra.cia.

Não sei se sabem, mas a tal da Proclamação da República — um ato não tão bem encenado do passado — foi um feito Militar ou como eles não gostam de afirmar: um Golpe contra o Império, que nesse caso não foi capaz de contra-atacar.

O fato é que naqueles tempos o exército brasileiro se considerava uma força política capaz de confrontar a aristocracia do Império tupiniquim e o fez. Mas não demonstrem surpresa ao saberem que uma mentira foi o estopim para tudo acontecer.

Essa mania que a história dos homens tem de se repetir… é tão monótona. Mas, acontece. Não há dados que nos posicione a respeito. De quanto em quanto tempo isso acontece. Nem a moça do tempo é capaz de aferir uma previsão a respeito. Duvido que algum cientista conceituado tenha se dado ao trabalho de investigar tal fenômeno.

Mas vamos lá… um fato que não se confirma, mas que eu desconfio é de que todo brasileiro é meio ditador. Adora apontar o dedo na direção do outro ou passar adiante a culpa. Responsabilizar o outro faz bem… principalmente à tal Elite brasileira — esse fenômeno quase impossível de identificar. Foco no quase! — por aqui, pobres pensam, classe média pensa… que é Elite! Se ganhar bem e realizar o tal sonho da casa própria, que pode — e acontece com frequência — virar um terrível pesadelo, pronto… é Elite e saí por aí com o nariz empinado no ar, com o rabinho a abanar. Porque o importante é sair sacudindo o molho de chaves e riscar o quadradinho do imóvel próprio na hora de fazer um cadastro em algum lugar. Se tem um carro — financiado em eternas prestações e juros absurdos — é o Senhor da rua e ouve na sua cabeça a marcha imperial. Convertido em Darth Vader, a criatura passa no sinal fechado, ao estacionar não deixa espaço para o outro. Não liga se a vaga é preferencial. Grita alucinado com o outro motorista e buzina com o pedestre que está sempre errado. O Cara é proprietário de uma máquina… abram caminho que ele está passando — cada vez menos, já que o preço do combustível, o desemprego, a inflação. Muita informação para um único dia em que pode terminar com ele instalando o aplicativo da Uber no celular para poder pagar as suas contas no final do mês.

E se o sujeito mora bem… ah é o Cara! Chega em casa com meia dúzia de cervas bem geladas, um pedaço de carne e vamos de churras na varanda, onde pode acender um cigarro e contribuir com o ar da cidade, cada vez mais seco e poluído. Tem aquele papo de aquecimento global — que chatice! É nessa hora que o cidadão — imita os milicos, estufando bem o peito — e do alto de sua santa estupidez, diz bem alto para os vizinhos

escutarem e fazerem coro com toda a raiva acumulada na vida: “isso é coisa de comunista”. E pronto… vai dormir satisfeito porque a sua bandeira jamais será vermelha e ele precisa acordar cedo pela manhã para manter as engrenagens do sistema funcionando.

Ano que vem tem eleição e ele já tem discurso pronto: nesse diabo que está aí eu não voto mais. E muito menos naquele outro, o barbudinho bandido de nove dedos que acabou com o meu Brasil.

Bom mesmo era no tempo dos Militares, que salvaram o país dos comunas — lembra que eu mencionei que o Império caiu graças a uma mentira? Pois é, a Democracia também.

Mas naquele tempo era bom… não se falava em corrupção, assalto, roubo. A gente saía às ruas numa boa. Ninguém ouvia falar em mulher que apanhava, criança estuprada. Não tinha esse mi mi mi de preto-gay e esse papo de gênero isso, gênero aquilo. Criança se educava no tapa e todo mundo crescia sem frescura. Existia limite. Filho tinha medo do pai. Mulher tinha medo do marido. Naquele tempo as coisas funcionavam… e tudo estava no seu devido lugar. Nunca existiu ditadura no meu país. Foi um momento militar e foi muito bom para todos nós. Um verdadeiro milagre brasileiro!

E lá vai o homem da zelite dormir seu sonho feliz de Brasil do passado… ops!

Tecla verde e confirma… quem sabe tudo volta! Mas sabe como é sonho, sempre pode virar pesadelo. Já pensou se o botão fica vermelho? Que diabos!

Lunna Guedes
Texto publicado no livro Delírios Comunistas
Scenarium Livros Artesanais

Das palavras das cartas · Projeto52 · Scenarium Livros Artesanais

 — O silêncio aumentou tanto que o relógio parou.

É agora – na pura ausência das coisas
e a madrugada por abrir.
Um palco a lua.
Eu observada de fora da janela.
 Ana Luísa Amaral

Bambina mia,

Queria te contar que de repente, no meio da noite, surgiu um grito mudo dentro de mim… vim aqui, como se os últimos dias tivessem sido invenção minha, mesmo porque não combina comigo essa angústia em demasia. Confesso que até permiti que o silêncio dominasse a casa.

O silêncio aumentou tanto que o relógio parou… Não liguei o rádio, nem ouvi as canções que eu gosto… De barulho aqui, só o som do vento das folhas do ipê no quintal ou vez e outra, o latido dos cães no quintal. Até eles parece que entenderam que o quente dentro da pele era mais do que uma febre sutil. O relógio, coitado, perdeu sua função de marcar as horas quando descarregou. Foi retirado da parede e permanece quieto sobre o móvel da sala.

Mas, hoje, abri as cortinas e deixei o sol entrar. Arrastei os móveis do lugar, limpei a poeira e molhei as plantas. Depois, suspirei e enfrentei o dia sem missa, sem notícias lidas e tratei apenas de ver a receita do pão recheado que fiz. Foi quase uma alquimia combinar a massa com o recheio e o cheiro do alho a invadir a cozinha… no canto, sobre a mesa, as roupas por passar.

Não foram dias fáceis, mas deixei outubro para trás, com seu luto, suas lutas, suas dores e a lágrima seca por trás dos olhos… Perdi prazos – eu sei – e textos deixaram de ser escritos. Às vezes, fico pensando em como cheguei até aqui, nessa encruzilhada como quem esqueceu o endereço. Mas, a monotonia cedeu e avancei no equilíbrio das horas que o relógio não marca.

Choveu e trovejou e foi nesse momento que pensei em te escrever e dizer que apesar de tatear as paredes no escuro, buscando a porta de saída do quarto para não acordar ninguém, eu estou bem… acho que descobri que sou forte – ou pelo menos finjo que a coragem veio aos poucos e o medo que me atingia evaporou-se…

A vida é essa sombra no espelho, é esse azul desbotado no céu antes da chuva, é o arco-íris quase apagado entre um relâmpago e outro e eu sou essa espera de tempos em tempos que se atreveu a chorar… mas que hoje já respira sorrisos.

Grazie por seu abraço e mão estendida… Grazie por ter estado sempre aqui.

Bacio,

Mariana Gouveia
Projeto 52
Scenarium Livros Artesanais

O lado de dentro · Scenarium Livros Artesanais

O livro da minha vida…

Atendendo a blogagem coletiva venho falar sobre o livro da minha vida. Claro que eu poderia vir aqui e falar de diversos livros que fizeram parte de minha vida como leitora, mas, como escritora e sendo o livro considerado filho por quem escreve, o livro da minha vida é meu primeiro livro publicado: O lado de dentro.

Em 2015, pela Scenarium Livros Artesanais – na época, Scenarium Plural – dentro de da série Exemplos, nascia O Lado de Dentro sob o olhar e edição de Lunna Guedes. Meu primeiro livro e com a emoção de quem escreve, o livro da minha vida, porque com ele a poesia que rondava a minha vida ganhou asas e voou. Com a capa acima, ele chegou a terceira edição.

Então, em 2017, resolvemos relançar o livro com outra capa e acrescentar uma carta e mais um poema inédito e o sucesso foi o mesmo. Com a nova capa com uma fotografia minha chegamos na terceira edição do livro.

Mas como para minha editora Lunna Guedes, uma só roupa de festa não vale, para celebrarmos o quinto ano de lançamento, em 2020 surgiu a ideia da capa atual dele. Como se fosse um envelope e com o vermelho que amo. Mais do que entregar a você a poesia que O Lado de Dentro descreve, eu entrego meu primeiro livro feito com emoção e carinho.

Desenhou estradas para a viagem dela.
Tomou cuidado ao espalhar paisagens.
Alguém falava da vida, de sopro.
Ela pensou que algumas viagens são mais partidas do que chegadas.
Colocou um riso disfarçada de trevo na primeira sorte.
Foi quando os olhos viram além do físico.
Da alma. Dali, viajante, tinha distanciamento das coisas.
A viagem era para distrair letras. Rever romances onde se perdia dentro dos dela.
Cidades, trocas. Solidão dentro do nada. Montanhas.
Ar rarefeito dentro do peito. Olhares se cruzam, se desviam.
Vozes e palavras perdidas no meio do nada. Parada.
Quando a cidade termina começa um nada.
Nessa hora, o cenário muda.
Dimensões do desenho dentro dela.
Floriu. Pela mão de alguém que desenhou a viagem, floriu.
Ficou ali entre o desenho e a miragem sendo.
Poderia ouvir jazz – ou rock, bebê ! –
e não tocava nada.
Quando percebeu já nem era chegada nem partida.
Era apenas voo nos olhos dela.

Se você quiser adquirir um para chamar de seu, clica aqui… Mais do que te mostrar o meu lado de dentro, você verá o outro lado dentro das poesias.

Mariana Gouveia
Scenarium Livros Artesanais
Blogagem Coletiva

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Nasceu vida no quintal. 

O retrato é o relicário na parede vazia. Na mesma rua as histórias se encontram. Era o abraço da sorte no trevo da rua de cima. A essência das roupas no varal… chovia quando o dia se encerrava nas rotinas. Os pássaros de papel voavam além das janelas. Às vezes, é preciso aceitar o fim. Tudo é temporário no receituário. A moça de branco mudou a cor das roupas.

Nem faz mais o silêncio costumeiro de sempre. Esqueço o nome dela todo dia. Esqueço meu nome toda hora. O vento é esse menino que carrega a fragrância do cheiro da chuva nos arredores. A tarde azul recolhe asas no varal. A profundidade da dor se misturando aos desenhos opacos feitos nos muros.
Lembrei-me dela e de que adora quebrar regras e eu de as cumpri-las… tudo é o oposto no instante das horas. Falava da solidão dos dias curtos, de frio intenso e eu de dias imensos, sufocantes e solares. Às vezes, o amor não consegue atravessar o oceano. Nem a nado, nem voando.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais

Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Feitiços

Desde menina fui criada com rituais, com rezas, benzeduras e feitiços… Às vezes, a palavra feitiço tinha outro contexto dentro de nossa realidade. Minha mãe, e sua descendência indígena, com seus rituais para a natureza me fez respeitar a força curativa da terra, água, ar e fogo e minha bá era bruxa, assim designada pelas pessoas, que muitas vezes necessitava dos cuidados dela e meu pai era benzedor – já não benze mais – e tentou me passar o “ofício” de curar as pessoas.

Com seus ramos de lavanda, arruda ou alecrim, ele pronunciava palavras de orações e repetia o sinal da cruz algumas vezes, com os ramos verdes na mão e o feitiço estava feito. Lembro-me de que várias vezes as pessoas voltavam para agradecer a cura.

Até tentei seguir seus passos e passei a conhecer o poder das ervas que curam, que “sugam” a energia ruim, mas confesso que meu progresso foi só um pouco além da arca caída e do quebrante de algumas crianças da vizinhança… e na mudança para a cidade grande, a oração se tornou só minha e as benzeduras apenas restritas ao meu quintal.

Passei a usar os astros e a sentir que o universo complementava o conhecimento da terra e de sua força ancestral e que os feitiços iam muito mais além do que as palavras repetidas enquanto fazia o sinal da cruz. O universo era infinito e juntamente com a força curadora da natureza, me trazia a paz. E junto com as rezas do meu pai e os rituais de minha mãe, eu crescia forte dentro da misticidade que vive em mim.

Aprendi a força da lua e o quanto ela influenciava as coisas ao meu redor. O dia de plantar e colher, as fases e os aspectos sobre as águas, o vento, a terra e o ar. Meu pai dizia que qualquer pedido/feitiço/oração feito dependendo da lua tinha efeito rápido e certeiro.

Porém, nada melhor que o tempo e suas nuances para a duração dos feitiços/reza/ritos e bênçãos. O tempo é o curador de tudo – meu pai dizia – e só ele trará certeza das escolhas feitas quando se pede ao universo… O tempo é precioso e o que fazemos com ele determina nosso futuro – minha mãe dizia.

O fato é que as orações/feitiço/bruxarias/benzeduras/mandingas nos acompanham desde sempre e acreditar ou não só depende de você. Para isso, lembro que toda ação tem sua reação e o universo sempre atua a seu favor e de sua fé. Cuidado com seus pedidos e desejos, com os feitiços e contra – feitiços, porque a velha máxima ainda atrai sua verdadeira intenção e não esqueça de que o feitiço sempre vira contra o feiticeiro.

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais

Lunna GuedesObdúlio Ortega

Scenarium Livros Artesanais · Sete Luas

Do dia em que ela eclipsou

Os cheiros do céu cuidam da semente na terra. A racionalidade do sol e a emoção da lua influi na paciência da espera. Era ali, a estação da alma. Dentro dela o cheiro dos cravos chineses e a borboleta encantando o mar enquanto o rio se desenha além dos muros. Dentro dela, eclipse. 

Mariana Gouveia
Ser de flor
Texto publicado no livro Sete Luas
Scenarium Plural Editora

Scenarium Livros Artesanais · Sete Luas

Dos dias em que amou.

Morria de medo de amar. Amou.
Cantava a sorte de um amor tranquilo na vitrola vintage que ganhou do pai e os discos de vinis trazia o fado – sempre via dentro do olhar que ela nunca viu – que em noite de lua embalava o sonho de eclipsar a vontade do beijo dela. Não era a dança sob a lua no quintal, nem a maresia que invadia o quintal dela… Não era nada disso que alimentava as noites de luar prateado. Não era o mar e sua rota torta, inquilino dentro do peito que fazia ela viver…  era a vida feita e refeita dentro do amor que o nome dela trazia poeira estelar quando cantado. Era essa espera no cais. Outra vez.

Mariana Gouveia
Ser de Flor
Texto publicado no livro Sete Luas
Scenarium Livros Artesanais