Das palavras das cartas · Projeto52 · Scenarium Livros Artesanais

– Ocupar o silêncio da casa

Bambina mia,

Eu nunca consegui ocupar o silêncio de uma casa… pelo menos, não me lembro. Desde pequena, com seis irmãos, a algazarra era imensa e mesmo eu sendo a mais quieta entre eles, o silêncio não existia e fui deixando o barulho gritar em mim.

Dos barulhos que eu mais gostava era o dos trovões e mesmo com todos os espelhos tapados com lençóis e o medo de minha mãe dos raios que sempre acompanhava a fala do céu quando acontecia uma tempestade, para mim, o trovão era a voz do céu… rompia o silêncio ou abafava os gritos dos irmãos em correria pela casa e eu ficava em pé, na porta ou janela, maravilhada com o eco a estrondar enquanto meus irmãos se escondiam. Buscavam abrigo no colo ou ao lado da mãe.

Com o passar do tempo e a distância entre os meus irmãos, eu rompo o silêncio que em alguns momentos me ronda com música, o canto dos pássaros e o vento.

Hoje, meu dia foi quase igual ao seu e enquanto sua missiva ganhava minha emoção, trovejava aqui… e como se fosse sintonia, o toc toc da mensagem ecoou com seu nome sendo gritado no quintal.

Esteve quente o dia inteiro e antes que o aroma que nós duas amamos – o petricor – exalasse por aqui, trazendo a docilidade de suas letras, trovejou… e ao gritar seu nome lembrei-me que descobri sobre o nome petricor dias desses – que é nada mais que o cheiro do pingo da chuva na terra seca. Fluído etéreo. Sangue dos deuses – é quase poesia… já, imaginou, bambina, a poesia no nome das coisas? O aroma que a chuva provoca ao tocar o solo… é como se perfumar para encontrar alguém e juro que me lembrei de sua rinite e sorri quando descobri que esse cheiro é quase como o cheiro do seu abraço…

E veio o vento, trovões e chuva e meu quintal vibrou com o petricor a aromatizar o jardim enquanto chorei… Essa semana, foi de partidas e de nascimento. Alguém se foi, porque era o tempo de ir e um menino nasceu sob meus olhos. E sob seus olhos, um ninho se fez colo… Fico me perguntando onde as coincidências nos alcançam sempre?

Enquanto os relâmpagos cortam o céu eu encontro a resposta: é no silêncio que se ocupa de nós. O da sua casa e o da minha… nesse piar que ocupam sua varanda e o meu quintal. O silêncio que grita em nós.

Amo tu imenso!

Bacio,
Mariana Gouveia
Ph: Imagem: Pinterest
#projeto52
Scenarium Livros Artesanais

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Minhas coleções.

Eu tenho uma caixinha. (Que boba! Antes, deixe-me explicar.)
Ela não é grande, nem pequena…

é bordada por amor, trancada por causa do medo, feita com o tempo…
O que há dentro? Pessoas; mas somente as que souberam trapacear minha proteção.
Lembranças; algumas nem tão felizes, porém bonitas, resistentes. Necessárias.
Juliana Lohmann

Bambina mia,

Eu também tenho uma caixa, que antes era um baú e foi perdido por descuido de alguém que não vale a pena falar – acho até que já falei sobre isso – e nessa caixa tenho as minhas coleções… Desde pequena que me tornei colecionadora. De papéis de cartas, de canetas e lápis e diários.

Com o tempo passando, e já dona de casa, passei a colecionar imãs de geladeira. Eu tinha vários, de tantas lugares diferentes enviados por amigos que sabiam que eu gostava. Minha geladeira, teve uma época parecia um desses quadros de brinquedinhos de criança. Depois, com a troca da geladeira, vieram parar na caixa, aguardando outro lugar para ficarem.

Sabe, bambina, posso enumerar várias coleções que tive e que depois de um tempo perderam o significado inicial ou algum outro motivo especial como minha pequena coleção de pedras… isso mesmo, pedras de formatos diferentes que eu encontrava nos caminhos onde andava. Tinha uma que parecia um disco voador, caveira, osso, coração, bombons e por aí vai… essa, doei para uma menina que precisava mais dela do que eu… Hoje, uma que ganha minha atenção são as desses bonequinhos – não estão todos aqui e ainda me falta o Charlie Brown – que amo.

Não poderia faltar também a coleção de xícaras e adoro! Elas tem um lugar reservado na estante e ali, fazem a cada dia meu café mais delicioso…

A de carrinhos antigos, começou por causa de meu filho e aqui ficaram quando ele se mudou. São 50 carrinhos, de vários modelos e ainda faltam aqui o fusca e uma Kombi, que ainda não consegui comprar.

Mas, além de algumas outras como das revistas manequim ponto cruz completa – haja armários para caberem – e outras de receitas de crochê, a minha favorita é a coleção de conchas. De vários tamanhos e cores e não cabem na mesa para a foto. Não me canso de admirar e sempre ganho alguma nova, enviadas por amigos.

E para além das fotos e por fim, atualmente, coleciono suculentas. Talvez seja a coleção que mais cuido. Sou aquela menina que colecionava cartas, envelopes e sonhos e hoje, as flores dominaram meu quintal.

Bacio,

Mariana Gouveia
Blogagem Coletiva Interative-se
Scenarium Livros Artesanais
Participam desse Projeto:
Isabelle BrumLunna GuedesObdúlio Ortega

Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Germinei

Desenhei os defeitos dela na prateleira mais alta e gravei em letras garrafais: SÓ USAR EM CASO EXTREMO DE FALTA DE SENTIDO.
Tatuei no jardim a pétala que a mão dela me tocou. Havia tudo que é flor possível no pólen.
Germinei.

Mariana Gouveia
Ser de flor
Cadeados Abertos, in Diário das Quatro Estações
Scenarium Plural Editora

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Os dias no calendário sendo arrancados.

Os verbos indefinidos conjugam o tempo no passado. Era ainda ontem, a vida. Era ontem aquele desejo – lembra? – a vontade de ser mais na vida de alguém. As regras sendo mudadas dentro do diagnóstico. Os corredores lentos e frios. A casa sendo indicadora da rua de cima. De lá, o quintal é esse vão de janelas invisíveis. O vento sendo mensageiro de boas novas. Nasceu a vida, ali, no quintal.
A única regra da manhã é a ternura instalada nos ramos de maracujás silvestres.
Escrevia as rotinas sentindo a fragrância da flor. A rota da fuga sendo espaço onde atravesso a solidão em meio ao jardim. A flor já é oferenda do tempo. Nunca é permitido os pés descalços na relva seca. As respostas surgem secas nas folhas em branco enquanto o vento arranca mais um dia da folhinha na parede.

Mariana Gouveia
Ser de flor
Desvios para atravessar quintais
Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Havia um riso estranho no homem da esquina.

…ele perguntou meu nome duas vezes
E quis saber das horas.
Recolhi as folhas que caíram do outono
passado e molhei as flores na estação delas.
Preparei o chá de frutas amargas
para aliviar a tensão.
Alguém na casa do lado… canta uma canção
em alto e bom som. E a dor desafina
em La Maior.
Ouço uma voz entalada no grito
enquanto eu recordo das promessas.
…um corpo branco onde eu brincaria texturas
e registraria minhas digitais.
…uma boca em meus lábios
para descer rio-pele adentro,
Ser flor em mim.

…na febre teria o abraço como conforto
Me amaria nas manhãs mornas
e me traria a chuva.
…uma praia de espuma onde só há rio
– foi o que cantou nos versos de poemas –
… e uma polaroid para fotos noturnas.

Me deu a lua todas as noites
E o sol todos os dias.
Depois os tomou de volta.
Disse num-voz-sereno que traria de novo
…quando a maresia acontecesse por lá.

Para reavivar minhas lembranças mandou-me o mar
…derramado em conchas
E quando não havia mais nada para prometer,
…falou de amor nas palavras escritas de sempre.
Entrelinhas, foi o que disse.

Eu a vi dentro de um brinquedo a dirigir com um riso
…e não era eu atrás da polaroid – que não veio.
O negativo em preto e branco derramou Flor.

Nem era primavera ainda… mas o sol árido lá fora
desaba folhas no meu quintal. E quando eu já nem pensava mais nela
…me deu um ‘quase fado’ e eu morri no nosso jardim.

Mariana Gouveia
Ser de flor
Desvios para Atravessar Quintais
Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais

Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – vistas

O que eu avisto quando o olho alcança o quintal? Para onde meus olhos antecede o encanto até mesmo dentro do meu muro? Ou para além da rua de cima onde aponta minha bússola imaginária? Não vejo a arquitetura de uma cidade que cresce – às vezes, de forma desordenada – com suas invasões e desmatamento nos arredores.
O que vejo, é a densidade de uma natureza que luta para viver… seja no meu quintal, ou nos cantos por onde ando.

O cerrado é logo ali, rente as casas em um lugar onde o sol mora… e o algodãozinho do cerrado brota como se pudesse morar aqui para sempre.

E o cerrado se faz vivo mais do que nunca dentro do meu quintal e na rua de cima… é ele que amarela as tardes por aqui e faz com que os insetos briguem em um constante zuum zuumm…

E nem só de amarelo vive o quintal, e nem de sol… A primavera, ainda com ares de quem acaba de nascer se ostenta para lua enquanto o meu olho enxerga o céu e suas nuances…

É como se as nuvens estivessem vestidas para a festa… e o contorno da casa vizinha fosse o palco.

Mas, há dias em que a lua em suas diferentes fases quer apenas se encostar na folha, espiar os frutos que nasceram por aqui…

ou simplesmente se dar ao luxo de ficar de quina para as flores…
A pandemia me deixou reclusa… e para além de onde enxergo dentro ou fora dos muros tento que minhas vistas sejam de esperança de dias melhores e esse meu desejo chega até você.

Mariana Gouveia
Projeto Scenarium 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam desse projeto: Lunna GuedesRoseli PedrosoObdúlio Ortega

Scenarium Livros Artesanais

*Traços

Só a rajada de vento
dá o som lírico
às pás do moinho.
Somente as coisas tocadas
pelo amor das outras
têm voz.


Fiama Hasse Pais Brandão

Dobrei os tsurus como a minha mãe havia me ensinado e lembrei – me dos dedos dela a fazer as dobraduras como se tivesse feito aquilo a vida toda. Tinha habilidade com as mãos, sabia disso desde cedo quando a via nas costuras… a tesoura a cortar os quadrados para a colcha de retalho, o tecido a ganhar contornos de roupas. Mas o que mais me encantava era a maneira que ela criava os desenhos para os bordados.

Ela nunca fizera nenhum curso de desenho e conseguia com suas mãos delicadas – as mesmas que revolvia a terra, no preparo da horta – criar a borboleta pousada na flor no papel vegetal ou em um saco de pão e conseguia transformar o desenho em um bordado. As mãos contornavam o papel com a ponta do lápis e surgiam aves, flores, jardins, castelos e paisagens.

Era uma mulher forte e ao mesmo tempo suave. Os olhos conheciam um a um dos sete filhos com suas diferenças e jeitos. Conseguia arrancar de cada um de nós o seu melhor. Em cada canto da casa seu traço estava explícito. Nas prateleiras dispostas na parede da cozinha de frente para a porta, onde as panelas de alumínio reluziam sobre as tolhas bordadas, feita por ela mesma.

Colhia as flores de lavanda e na água do enxague o cheiro rescendia na casa toda, enquanto os lençóis quaravam ao sol. O rio a margear a tábua de bater a roupa e a pedra, moldada pela correnteza, onde no fim do dia, sentava-se e cantava para espantar o mau agouro. Tinha fé nas coisas simples, seja ela uma pena que ganhava força com o vento ou na ave colorida que roubava os coquinhos na palmeira do quintal.

Os cabelos imensos, ora em tranças, – ou esvoaçante no vento, enquanto secava – ou em um coque perfeito, tal como a canção que falava sobre uma índia: “índia seus cabelos nos ombros caídos negros como a noite que não tem luar “ – que é o que ela era – e traçava os sentidos em nós da alegria de ser… O pai deve ter apaixonado por aqueles cabelos que chegavam abaixo do meio das costas, como uma cascata negra – pensava sempre nisso. Sua presença trazia cores e sons pela casa. A máquina de costura a bordar, as panelas a cozinhar alguma guloseima e a canção antiga na beira do rio, até hoje, traz os traços dela:

“Mandei caia meu sobrado, caiei, caiei, caiei.
Pintei de azul e branco, caiei, caiei, caiei.
Eu pintei de azul e branco, caiei, caiei, caiei.

Mandei pintar na varanda, mandei, mandei, mandei.
Eu pintei de roxo e amarela, caiei, caiei, caiei.
Eu pintei de roxo e amarela, caiei, caiei, caiei.

Mandei pintar na janela, mandei, mandei, mandei.
Eu pintei de verde e cinza, caiei, caiei, caiei.
Eu pintei de verde e cinza, caiei, caiei, caiei.

Mandei pintar meu luar, mandei, mandei, mandei.
Com as cores do arco-íris, caiei, caiei, caiei.
Com as cores do arco-íris, caiei, caiei, caiei.”

Ela era literal – e não há como escrever sobre ela senão literalmente – gostava das dobras… em tecidos ou em papel e de traçar os próprios riscos na bordadura. Conhecia o barulho da máquina e dos ventos. Sabia quando o vento trazia a chuva logo para além da porteira e quando falava da vida, era de poesia que falava. Quando abro os braços e chamo o vento, é nela que penso em sua filosofia de que o vento é o Espírito Santo.

Não dá para saber como as dobraduras de uma arte secular do outro lado do mundo chegou até ela. Imagino que fosse pelos livros – os milhares que ocupavam um baú de mogno moldado pelo pai – com os desenhos feitos por ela eram reverenciados como oração. Acreditava que eles possuíam o poder de não envelhecer e ela não envelheceu.

O movimento de ida foi rápido e desenhado dias antes da partida. O vento era seco e uma mariposa gigante pousou no colo dela. O olho grande, ganhou contornos de conformismo e ela pediu apenas que a arte fosse parte da vida da gente.

“É ela quem dá fôlego quando o ar falta de diversas maneiras. E quando, porventura, faltar apoio nas lutas.”

Não sei de qual luta ela falava. Traçou tantas em tão pouco tempo. Fez diferença em tantas outras vidas como a dela. Ensinou traços a muitas “filhas avulsas “do mundo e virou traço além, em algum lugar em que acredito.

De vez em quando, em um fim de dia, quando o céu expande formas e cores eu me lembro de seus traços e nesse momento faço um tsuru como maneira de seguir a arte que ela tanto amou.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês de Tsurus e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi Obdúlio Ortega Lunna GuedesRoseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina
*Texto publicado na Revista Plural Traços
Scenarium Livros Artesanais

Das palavras das cartas · Projeto52 · Scenarium Livros Artesanais

*Não sei se irá chover ou não…

Se eu pudesse dar somente um conselho pra Savana de ontem, eu diria:
“Acolha seu passado,
se preocupe menos com o futuro
e renasça quantas vezes for preciso no presente.
Isso é muito poderoso!”
Savana Leão

Querida Savana,

O dia amanheceu mais fresco porque ontem choveu aqui… não aquela chuva que a gente gostaria que caísse, a tal chuva da manga e do caju mas senti o cheiro de terra molhada – um dos cheiros mais deliciosos que senti na vida – foi passageiro, e os pingos deixaram sua presença no quintal.

Sorri quando descobri que era seu dia e logo a caneta ganhou forma no papel e vim aqui te abraçar. Roubei a sua frase e iniciei a carta com ela. Lembrei-me de quando ouvi seu nome pela primeira vez. Havia um matéria em um blog, com um texto belíssimo e ali, me apaixonei por você… a menina que costurava roupas para bonecas e que ama a magia da costura.

Lembrei-me da mulher corajosa, que renasce a cada dia, mesmo com todas as perdas e adversidades. Lembrei-me da mulher que escolhe as cores, que traça moldes e cria mais do que uma peça que veste o corpo… cria roupas que abraçam a alma.

Durante anos, fiquei a te acompanhar de longe. Eu, a menina dos retalhos, patchwork, bordados e crochê, encantada com a menina da costura, tecidos e criatividade. Até o primeiro abraço, até o primeiro vestido, até o primeiro riso – tímido seu – e estava ali, em minha frente a mulher que desbrava as retas, tesouras e linhas. E eu descobri que você era a mesma que criava as saias de tule e possuía de fato, a alma de leão.

Sei que esse ano foi difícil, mas assim, como a frase sua lá em cima, você renasce na dor e se fortalece na família… e a poesia ronda tuas mãos no doce ato de costurar a vida. E que bom que minhas poesias conseguiram te ajudar, em algum momento.

Nesse seu dia, há previsão de chuva… não sei se irá chover ou não… a previsão, às vezes, falha… mas o que não pode falhar é a sua fé em dias melhores… é a sua coragem diante da dor… o que não pode falhar são os traços feitos dentro dos dias para que você seja feliz.

Dias felizes para você, além de aniversários e vida afora.

Beijo,

Mariana Gouveia
Agosto é o mês de Savana e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi – Obdúlio Ortega Lunna Guedes Roseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina
*Essa carta também faz parte do Projeto 52 Missivas – Scenarium Plural Livros Artesanais.

Revista Plural · Scenarium Livros Artesanais

A rota em direção ao meu Norte.

Não tinha endereço na plaqueta da rua nem número em casa nenhuma. A casinha quase a tocar as árvores ao longo da rua, que era estrada… A direção se dava pelos cheiros. As flores do jardim reacendiam na alma a rota do abraço e a lembrança da chaleira sobre o fogão de lenha já alertava meus sentidos para o chá.
Não saberia nomear o sentido das coisas. Algumas, o universo me dá sem ter nome… Outras, me caem como presente divino.
As ervas que vim buscar estavam a secar em um balcão improvisado a espalhar aromas que eu conheço bem.
Ela riu como da última vez que a vi. Eu coube bem dentro do abraço. Depois de levar a bronca por ter faltado ao último São Cosme e São Damião. Fez mil perguntas buscando dentro do meu olhar as respostas reticentes que eu dava. Desconfiava das minhas desculpas…Ria do meu embaraço a falar do tempo. Lia meu olhar como uma carta aberta letra por letra.
Ela conhecia bem meus silêncios e dentro deles muitas vezes foi benção e voz.
A casa tinha seu cheiro de amor em cada retrato de santo na parede e o ramo de arruda na mão a benzer meu olhar. Tomei um banho de chuva. As ervas a envolver minha pele como se dela fizesse parte. A busca pelo meu canto de sempre. O respirar para dentro num ritual que eu já havia vivido e sentido.
Muitas vezes, ali, debaixo do pé de maracujá, eu descobri minha rota de fuga. Mas também descobri o meu norte e mais uma vez busco refúgio dentro do olhar dela. Ela repete gestos em orações e silêncios. A mão toca minha testa como se pudesse com a mão tirar o que me afligia. As horas ali, parecem não pertencer ao mundo dela. O tempo para dentro do tempo.
O rádio de todo dia toca uma canção antiga. Ela se recorda pela milésima vez quando me conheceu e daquele momento em diante eu virei filha – com ar de brava reclama da filha desnaturada que some de vez em quando – e de como derrama seu amor por mim. Eu respiro carinho em cada canto dessa casa que também é meu lar.
O chá fumega espalhando a essência de cura pelo ar. Os biscoitos de nata desmancham na boca e naquele momento eu percebo o quanto sou abençoada e de que preciso repetir mais vezes esses instantes.
Estendo o braço para a simplicidade do toque. Mão leve que toca e pronuncia as palavras certas. Ri de minhas histórias…canta a canção que aprendeu pelo rádio. Pego as ervas depois do abraço carinhoso e vou rumo à cidade.
Ainda posso ouvir a voz dela a ganhar eco na projeção das árvores. As orientações ainda a ecoar na mente e no coração.
Ainda a vejo no portãozinho de madeira a acenar tchaus com gestos de beijos. Ela é toda inspiração de fé e coragem. Ela é a dona dos cabelos brancos mais brancos ainda e jeito gostoso de vó.
Volto energizada, benzida e curada. A vida sempre me dando atalhos com direção certa e eu apenas a dizer sim ao Universo.

Amém!
Amem…
Mariana Gouveia
Agosto é o mês de abraços e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia Leonardi – Obdúlio Ortega – Lunna Guedes – Roseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina
*Texto publicado na Revista Plural North and South pela Scenarium Livros Artesanais

Scenarium Livros Artesanais

Eu te benzo…

“Deus é o verbo,
E o verbo é Deus,
Se (nome da pessoa) tiver mau olhado, benze-a, Deus.
Dois olhos olharam mal
E três estão para olhar bem, que é o Deus Pai, o Deus Filho e o Espírito Santo.
Amém. ”

Caminho e por onde vou as ruas me levam a imaginar o passado. Não que o passado viva presente em mim sempre, mas é que até as ruas parecem saídas de histórias que eu li. E nessas ruas eu vivi grande parte de minha vida. Na beira da rua há um córrego e lembro-me de que tantas vezes tive de atravessá-lo molhando os pés. Hoje, isso não é mais possível. Uma ponte de concreto foi construída e o córrego virou recebedor dos esgotos da região. Minha mente segue o endereço de cor e a casinha branca, em um bairro quase central parece surreal no meio da paisagem. É como se eu atravessasse um portal imaginário e o mundo fosse outro, de repente.

Como sempre, ela me espera no portão. Com o riso solto, o abraço aconchegante, a bênção dada e ofertada no carinho de quem me conhece de tanto tempo. Parece que me tornei parte da família e eu sempre a busco nos momentos complicados em mim. Seja de saúde, de cansaço, de busca do meu equilíbrio e ela sempre me acolhe nesses momentos como se fosse um refúgio para minha alma que às vezes, desequilibra e grita por benzedura.

Às vezes, venho em dia de festa também. Quando ela comemora a vida e os santos que a ajudam. Ali, em meio ao jardim, no fundo da casa, de onde brota todos os tipos de flores, ervas, árvores e paz, com um raminho na mão ela segura minhas mãos e suas palavras me enchem de emoção. Sempre choro nesses momentos. Um choro bom, de alma sendo curada.
Meu filho a chamava de vó e com isso eu passei a chamá-la também. Mas para todos, seu nome é Maria, embora, no registro é Deolinda. Alguém uma vez disse Maria e ficou Maria. Para alguns, benzedeira. Para mim, acalanto.

As ruas ao redor da casa dela parecem ter parado no tempo. É como se eu estivesse entrando em uma fazenda. Cerquinhas de madeiras contornam quintais e até o maracujá serve como caramanchão para os dias ensolarados da cidade. Ali, onde sento, quase no fim do dia, antes do sol se pôr e respiro momentos vividos no fundo do quintal de onde avisto grande parte da cidade. Olhando assim, parece surreal.

Quantas vezes esse lado da cidade foi guardião do meu passado, da minha adolescência, da minha juventude, dos meus medos e da minha segurança.
Dou um relato rápido sobre os últimos meses em que não pude vir. Ela entende e parece até que já sabia. Uma neta havia me visto aqui e ali. O silêncio nos une ainda mais. Só ouço o leve respirar dela e percebo que a vida lhe é sugada a cada dia. Penso que Deus a criou para me guiar. Para me benzer quando minhas energias estivessem em alvoroço dentro de mim, buscando rumos.

A oração ela me ensinou em uma manhã de inverno. Todas as vezes que a vejo relembramos o dia. Inverno castigante para uma cidade do calor e havia rojões que rasgavam o céu, por que era dia de festa junina na vizinha do lado. Quando recordamos disso, os detalhes me povoam a mente. O cheiro do gengibre no quentão preparado. Os bolos sendo assados e o cheiro impregnando o jardim realçando a fome, ou só mesmo a vontade de comer. O frio que parecia maior por causa do vento. A fogueira sendo preparada por netos e filhos e amigos e a oração nas palavras quase mantra dela.

A repetição era para aprender mais rápido. A atenção, para memorizar; o respeito, para a reza funcionar e a alegria interior era o agradecer da oração já atendida. E mais uma vez, repetimos as histórias, as lembranças que tiramos do baú e a oração é dirigida ao Universo.
Quando me despeço olho mais uma vez a casa, quase no meio do nada e tão dentro da cidade. Uma cidade tão cheia de passados guardados nas ruas que me levam para as bênçãos da vida.

Mariana Gouveia

Agosto é o mês de benzeduras e de B.E.D.A
Participam desse projeto: Claudia LeonardiObdúlio OrtegaLunna GuedesRoseli Pedroso – Adriana Aneli – Darlene Regina
Texto publicado no “Caderno de Notas – Terceira Edição”, pela Scenarium Livros Artesanais.