Meus Livros · O lado de dentro · Scenarium Livros Artesanais

Beda – Oceânica

Ela, de terra firme
conservadora
Eu, de devaneios
lunática, aérea
Conta-me coisas de oceano.
Eu, recebo coisas do mar e mergulho entre corais, estrelas e ouço as ondas que vieram pelo ar, em conchas que traduzem para mim, a voz do Índico.
Ali, no meu quintal, o mar bradou silêncio. Calou maresia. Sufocou grito.
Lá no céu dela, a vida passeia no azul em asas.
Eu, tão lá e ela tão aqui.
Eu tão dentro dela e um oceano imenso de possibilidades.

Ela, mistura de ansiedade, contraditória.
Eu, infinitos delírios, às vezes.


Mariana Gouveia
Agosto é o mês de mar e de Beda.
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – 
Suzana Martins – Roseli Pedroso
O lado de dentro
Scenarium Livros artesanais
*imagem: Quoc Dinh

Colcha de Retalhos · Das palavras das cartas · Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

Beda – Sob o voo do tsuru.

A ave muda,
feita de papel
chora saudades

Watashi no amai Kaori,
私の甘いかおり,
Minha doce Kaori,

queria falar com você no seu idioma, mas minha limitação ficou apenas nas poucas palavras que me ensinou.

Na última segunda estive na rua em que moramos. Fui parar ali por acaso, na procura de um endereço e o aplicativo parece que seguiu meu coração e quando reparei – embora um pouco modificada – estava na esquina do lugar onde morei por tantos anos. No lugar da minha casa há um edifício enorme, a calçada alta onde sentei tantas vezes no fim da tarde nem existe mais. Tudo tão estranho.

Mas a casa que era sua ainda está lá… quase igual. As paredes em tons suaves de azul… Respirei saudades ali, Kaori e parece que o tempo voltou. Era quase noite e eu já não via mais o sol dourado… Ouvi vozes estranhas do lado de dentro da casa. Juro que pareceu a sua… mas, foi a minha imaginação que me pregou uma peça.

Ainda está lá a árvore que o Seiko plantou e ganhou galhos enormes. A cerca branca mudou de cor e já não há mais gerânios nas janelas. Uma cortina esvoaçava e vi vultos, ouvi risos e minha saudade encheu o coração de amor por você.

E há tanta vida em seu lugar, Kaori… olhando a ladeira que acaba na outra esquina – que era para onde eu deveria ir – pareceu ser seu vulto com seus passos desenhando nuvens no chão. Tantas vezes te esperei no pé dessa ladeira para te ajudar a carregar as sacolas de compras. Ali, lembrei-me de tudo que vivi… foi como se Colcha de Retalhos estivesse sendo exposto folha por folha, palavra por palavra. O livro, na lembrança e na pele que arrepiou.

Fui me afastando aos poucos e conversando com você as palavras dessa carta. Fui invadida por uma imensa gratidão e mais uma vez me senti inundada pelo seu amor. Foi como se um tsuru pudesse voar dentro de mim… foi como se mais uma vez Ana nos abraçasse em sua alegria contagiante. Foi como se Marte tivesse ao alcance das mãos.

Este é o meu livro, Kaori. Foi criado pelas mãos da Lunna Guedes, minha editora – ela soube captar o meu amor e transformar em um aconchego para aquecer os corações de quem o ler.

Quando sai de nossa antiga rua, rumo ao meu compromisso tantas lembranças me acompanharam… Programei voltar, Kaori e conhecer quem vive ali, no lugar que ainda guarda tanto de você. Prometo que assim que isso acontecer, volto a te escrever.

Um abraço de vento na asa de passarinho,


Mariana Gouveia
Agosto é o mês de tsurus e de Beda.
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – 
Suzana Martins – Roseli Pedroso

Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

O segredo do bolo de fitas

Seria a primeira vez que um homem entraria na casa de Iolanda, com a sua autorização, desde que Darci morrera. Estranhou o pedido feito através de um bilhete que o filho mais novo entregou com curiosidade.

– O padeiro pediu que lhe entregasse, mãe.
Sentiu qualquer coisa a incomodá-la ao desdobrar o papel para ler a mensagem:

         Prezada Iolanda,
Solicito uma consulta no dia e hora
em que for inconveniente.
Assunto do seu interesse.

Que assunto teria com o padeiro? Como era mesmo o nome dele? Inácio – disse o filho disse adivinhando o pensamento da mãe.

Lembrou-se das poucas vezes que havia entrado na padaria de Inácio, às pressas, em busca de farinha e ovos. E de vê-lo de longe… nas poucas vezes que varria as folhas da calçada pela manhã. Trocavam discretos cumprimentos – que acenavam a sua vaidade de Mulher.
Mas não conseguia pensar em qualquer assunto em comum para com aquele senhor.

Iolanda sabia que era bem-apanhado e considerado um bom partido pelas moças da cidade que, segundo Filomena, o disputavam entre si.

Inácio havia mandado um garoto entregar uma cesta de pães de doces, que ela retribuiu após recuperar-se de uma forte gripe. Preparou o seu famoso bolo de fitas e mandou entregar com um bilhete.

Toda vez que o seu caçula passava por lá, o padeiro lhe oferecia um lanche. No mais, nunca se falaram, nem mesmo no tempo em que frequentava a missa do Ambrósio.
Lembrou-se que ambos eram confeiteiros.

E, considerou que o padeiro pudesse ser apenas mais um interessado em descobrir a receita de seu famoso bolo de fitas. Tentativas não faltaram…

Marcou uma data no calendário fixado atrás da porta da cozinha e pronto:

vamos ver qual será a sua lábia, seu Inácio.

Considerou que seria o suficiente para por um ponto final ao mistério, trazendo sossego ao seu coração, que palpitava toda vez que pensava no padeiro.

Mas, durante as suas tarefas rotineiras, se surpreendia pensando nele. Ordenava que parasse, e tentava – sem sucesso – voltar a se concentrar em suas atividades. Até bilhete trocado mandou entregar, por estar com os pensamentos ocupados com o padeiro. E não foi a única confusão. Salgou um doce e adocicou o feijão.

Na quinta-feira – data marcada no bilhete entregue pelo filho – começou a aflição. Um pouco antes da hora se viu diante do espelho, arrumando os cabelos, retocando a maquiagem e renovando as gotas de perfume no pescoço. Escolheu um vestido vermelho – o seu favorito – por realçar suas curvas-retas e se arrependeu de não ter comprado os sapatos destacados na vitrine da única loja de calçados da cidade.

Estranhou a agitação que seu coração fazia… E ficou feliz com o elogio feito pelo primogênito. Sorriu suas vaidades e saiu desfilando pelo corredor até a cozinha – toda faceira. Retirou o bolo do forno e colocou a chaleira no fogo para o chá de cidreira.

Inácio bateu na porta na hora marcada. Trouxe uma farta cesta com pães e biscoitos e outra caixa embrulhada em papel de presente.

Iolanda reparou na elegância do padeiro, que havia cortado os cabelos, feito a barba e comprado um belo par de sapatos.

Tentando não demonstrar empolgação e aquietar o coração, puxou o baralho e começou a embaralhar as cartas.

– Eu não vim para uma consulta, Iolanda. Gostaria apenas de lhe entregar isso. – disse Inácio, colocando o embrulho, com algum cuidado, em cima da mesa.

Iolanda abriu a caixa e lá estava, diante de seus olhos, o par de sapatos desejados. Pensou em recusar, mas Inácio se antecipou:

– Eu reparei no seu olhar e fiquei feliz em poder atender a um desejo seu. Há anos tento descobrir com o seu menino mais novo, uma maneira de lhe presentear. Minha intenção era ver novamente aquele olhar.

Iolanda lembrou-se que era uma viúva e não deveria aceitar presentes. Mas o que mais poderiam dizer a seu respeito na cidade?

– Por favor, não considere um atrevimento da minha parte. Sou um homem solteiro e sei que passei da idade das escolhas. Mas, a verdade é que a única moça que me interessou, foi escolhida por outro de mais sorte que eu.

Inácio narrou toda a vida de Iolanda durante os anos de viuvez. Apontou as muitas vezes em que a defendeu da maledicência da cidade. E, finalmente, do momento em que tomou coragem para uma visita, encorajado pelo filho mais velho que fez questão de anunciar sua preocupação com a mãe.

– Vou estudar na Capital, e estou preocupado em deixar minha mãe sozinha, nessa cidade.

Inácio sentiu que o rapaz estava lhe dando o aval para a aproximação. E num gesto cortês, tomou as mãos de Iolanda junto as suas, pedindo para que buscasse nas cartas uma resposta.

– Não precisa ser agora. Eu prefiro que pense com carinho a respeito e me responda quando estiver pronta. Envie outro bilhete através de seu caçula, que virei correndo.

Iolanda sentiu o coração renascer. E ao calçar os sapatos naquela noite, em seu quarto, sorriu suas certezas. Entregaria tudo ao Inácio … o seu coração. E sua pele de mulher…

Menos o segredo do seu famoso bolo de fitas.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês de leituras e de Beda
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – 
Suzana Martins – Roseli Pedroso
Texto publicado no coletivo Scenarium Casa de Vidro
Scenarium Livros Artesanais

Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

Uma casa cheia

As lembranças me levam para minha infância.
A algazarra dos meus irmãos em suas brincadeiras de meninos. Uma irmã, na janela – seu lugar favorito – e a outra me desafiando a recitar poesia pegando as palavras que ela dizia.

Naquele tempo a casa era cheia.  Os sete filhos de seu Laurindo e Dona Ercina mal cabiam no banco comprido que contornava a mesa.

Cada um tinha seu lugar preferido naquela casa, mas acabávamos sempre disputando o lugar mais perto da mãe. O caldeirão da sopa no centro da mesa e os pães ao lado.
Até hoje, o cheiro daqueles momentos se faz presente.

A mais velha casou-se primeiro. Foi a primeira vez que minha mãe sentiu a sensação do ninho vazio. Um lugar no banco ficou vago. Mas, em cada refeição era como se ela estivesse ali. Com o prato estendido, sendo servida primeiro por ser a mais velha. Nos primeiros dias a poesia se calou em mim. Quando a outra se casou o vazio ampliou-se nos quartos. O meu irmão foi trabalhar fora e a gente ficou parecendo um colar que perdeu as contas. Os suspiros eram ouvidos diariamente entre as falas de minha mãe.

Minhas irmãs vinham em datas especiais. Natal, Páscoa e aniversários da mãe e do pai – mas já não era a mesma coisa.
 
Tudo ficou ainda mais estranho quando minha mãe foi morar com minha irmã mais velha para tratar de um problema de saúde.

O vácuo ficou ainda maior… a casa cheia e barulhenta ficou silenciosa. Nem o rádio de pilha no programa favorito mudava a sensação de orfandade que sentir. Eu, meu pai e os meus três irmãos mais novos nos fortalecíamos nas lembranças e nas brincadeiras em que sempre faltava um.

O tempo tratou de levar a gente para longe um do outro. E com a morte de minha mãe ficou muito difícil reunir todos.

Mesmo nas datas especiais a rotina de cada um interferia no encontro. Mas, os nossos corações estão ligados e quando acontece algum encontro – mesmo que falte um ou dois -, a memória de tudo que vivemos é refletida nas histórias que replicamos… e o riso ecoa de novo.

Os cheiros, a comida, a sensação da casa cheia regressam e atingem em cheio o coração e a alma.

Ao me sentar aqui para escrever… rememoro tudo. A sensação de aconchego eco na pele e eu me sinto cheia, o corpo convertido naquela casa. As histórias percorrem cada canto do meu corpo-memória e eu ouço a voz do pai e vejo os ingredientes da receita favorita do domingo da mãe sendo misturados. Tudo isso me faz uma casa habitada de saudades.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês de casa cheia e de Beda
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – 
Suzana Martins – Roseli Pedroso
Texto publicado no Projeto Coletivo Casa Cheia
Scenarium Livros Artesanais

Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

Beda – Como foi que a palavra te seduziu?

Havia um burburinho em toda fazenda. De boca em boca e com euforia a palavra era Lavorí e que ele havia retornado.
Vi toda gente a preparar a lenha, minha mãe foi cuidar dos frangos para a comida e apenas meus irmãos mais velhos e os meninos da região continham a expressão do medo no olhar.
– É o homem do saco – meu irmão dizia – se eu fosse você, tinha medo e desenhou-me em gestos e palavras um homem sujo, todo roto, com roupas escuras, barba por fazer, olhar estranho e o pior: levava consigo um saco de linhagem, onde dizem – e com efeito na voz – levava as criancinhas que teimavam com suas mães. Enfim, era um desses peregrinos que andavam sem rumo e na palavra do meu irmão medroso – um mendigo. Não tinha casa, nem família e isso segundo ele só acontecia a um homem que fosse tão ruim, mas tão ruim que ninguém mais gostava.

Ele chegou no fim da tarde, com o sol a beijar o horizonte e em contra luz a imagem dele descendo a estradinha me encheu de encanto. Um saco nas costas, algumas coisas dependuradas no cinto da calça e o riso largo do meu pai a recebê-lo tirou o medo que me rondava o dia inteiro.
Depois do banho tomado e o jantar, todos se puseram em volta dele e foi ali que a palavra encanto ganhou minha vida.
Do saco saíram os livros que ele dizia – amanhã vou ler todos para quem quiser – e da boca dele as histórias mais incríveis. Tinha o dom da palavra e explicava tudo com a magia de quem vivenciara tudo aquilo que dizia.
Foi ali que desejei ser palavra para que alguém, um dia, pudesse ler.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês das memórias e de Beda
Participam junto comigo:
Lunna GuedesObdúlio Nunes OrtegaDarlene Regina Mãe LiteraturaSuzana MartinsRoseli Pedroso

Das palavras das cartas · Projeto52 · Scenarium Livros Artesanais

Possuo a doença dos espaços incomensuráveis.

Se eu pudesse escolher, gostaria de me transformar numa música,
porque além de bonita ela desaparece.
Sumir por um tempo deve ser o máximo.

Luciane Recieri

Bambina mia,

Recebi sua missiva numa manhã seca, já com nuances de queimada em meu lugar. Diferente de você, eu aconteço nas manhãs e sigo rituais que meu corpo já acostumou viver. Coar o café, aguar as plantas, falar com os cães e pássaros, olhar o céu e sua infinidade de cores matinais e ouvir músicas… e daí me componho diante das horas…

Lendo sua missiva me vi durante horas no seu questionamento – quanta espera realizamos durante um dia inteiro? – e pensei nos caminhos invisíveis que cruzamos. No meu último encontro com meu pai falamos sobre o sentido das horas… ele disse que chega um tempo em que as horas não fazem mais sentido e que o sentido do tempo fica registrado no olho. Pensei em você e contei para ele como você “fazia” meus livros. O olho dele lacrimejou e um riso se desenhou dentro dele. Algumas pessoas são destinadas para nossas vidas – ele falou – e fiquei pensando nisso. E de como algumas coisas são comuns entre nós. Como os chás.

O chá ocupa minhas tardes, você sabe… Nas manhãs, eu sou cafeína e nas tardes sigo o ritual dos chás… Aprendi lá na infância com meu pai e tenho minhas ervas plantadas aqui, no quintal. Colho ora o alecrim, ora o hortelã, e outras ervas que tenho aqui… e também escolho a xícara. Sou apaixonada por xícaras e tenho uma preferida… Por falar em xícaras, queria te contar que meu pai ainda tem as xícaras esmaltadas em uma caixa de chapéu e fazendo a limpeza de algumas coisas, encontrei a minha – essa da foto que ilustra a carta – já gasta pelos anos e as mudanças.

Você sabe quantas coisas cabem dentro de uma simples xícara de chá?  Sua pergunta fez meu cuore saltar… eu poderia te responder essa pergunta com todas as memórias que o olho do meu pai desenhou. Nessa xícara com florzinhas amarelas, eu bebi leite tirado na hora, dentro do curral, café com bolo de queijo, na beira do fogão de lenha e chás de erva-doce para aliviar a febre. Ela foi companheira de uma vida toda e estava guardada com ele, como se fosse um tesouro.

Embora meu pai ame café, ele foi feito de rituais de chás. Daria um livro as histórias que ele conta sobre chás. Já te contei que na casa dele tem um pé de canela? Dessa vez, não tive sorte. As folhas ainda estavam verdes e não havia nenhum pau pronto para colher. Ai de mim se arranco qualquer folha sem o consentimento dele! Esse pé de canela é um santuário para ele e foi ali, na sombra dele que nossos abraços aconteceram na despedida. Parece que foi ontem e já fazem 7 dias.

O tempo e sua velocidade além de nós… O tempo e essa ligeireza das horas. Lembro-me que você me perguntou se eu já havia chegado de viagem… eu ainda tenho o olho do meu pai na alma. Acho que possuo a doença dos espaços imensuráveis, bambina. Cada vez que volto, fica um pouco de mim no choro de minha irmã, na benção do meu pai e em cada imagem que registro ao longo dos dias.

A tarde avança… é quase noite… uma canção ecoa aqui e o chá esfria na xícara. Aceitei seu convite brindando o ano 10 de Catarina.

Bacio,
Mariana Gouveia
*Último post do projeto 52 – 52 cartas escritas no último domingo de cada mês, durante um ano –
Scenarium Livros Artesanais
Participam desse projeto
Lunna Guedes Obdúlio Nunes Ortega

Das rotinas · Desvios para atravessar os quintais · Meus Livros · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Revirei o baú das lembranças doces.

As cartas descrevendo as coisas do dia – a – dia. Os rumores dos insetos no jardim, o vento a balançar as folhas e a rotina a escancarar verdades.

O ritual da noite capta o silêncio e as horas se fazem de ciclos e o dia amanhece dourado de sol.

As luzes refletem nas letras que guardo no baú – mais uma vez não consigo eliminar os vestígios de sua presença na minha vida – junto da letra da canção que mais gostava.

A voz ainda a ecoar o nome e o tempo – quase nada – a passar diante da vida.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar os quintais
Scenarium Livros Artesanais
*imagem: Varya

Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais · Sete Pecados

Inveja

Nosso amor era tão perfeito, que o destino
ficou com inveja.
Adriana Soleira

Ela era território meu. Lugar onde eu vagava e vivia e sentia quase posse. E sempre dentro da noite quando o silêncio dela chamava por mim, eu ia.
E assim, nas estações plenas que eu era feliz colhia vontades dela dentro de mim.
Ela era a origem onde meu poema nascia. Desenhada a dedo na pele nua.
Um dia e de repente alguém chegou. Primeiro, o riso dela dividiu-se e eu nem percebi. Mas, ela em sua transparência de rotinas me explicou sobre o desejo de ter um porto seguro. Eu, era a tempestade que a deixava plena, mas em voo constante.
(…)

Foi quando eu comecei a pecar. Sentir inveja…

Da lua que eu mostrei pra ela. Da cortina que o vento balançava e dançava pra ela. Invejava a rua que ela passava.
Eu era o hieróglifo onde ela gravara seu nome, seu código, seu mapa. Minhas histórias sempre terminavam nas dela. No meu quintal voavam os pássaros dela. Todo dia para mim era um recomeço e todo dia expiava meu pecado de invejar instantes dela.
(…)
Talvez a vida siga incompleta, talvez, talvez… Tudo é um caminho novo e desconhecido.
O que sei que é ali além das esquinas há um instante que invejo e que renego saber. O vento no telhado arrasta o nome dela e espalha pelo céu a imensidão de estrelas que ela fez nascer na minha vida, e enquanto abro o portão saio rua afora, reconhecendo os ladrilhos lilases na calçada e aliviada presencio a felicidade dela e para mim, é isso o mais importante.

Mariana Gouveia
Poema da Série Sete Pecados
Scenarium Plural Editora – 2015
*fotografia: Katia Chausheva 

Meus Livros · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Natureza na urbe.

Quando ando pelas ruas da minha cidade, ou até mesmo dentro dos muros do meu quintal, percebo a diferença que já é tão notória por aqui. Cada vez mais percebo a natureza “invadindo” os espaços da cidade, já que nós roubamos o espaço dela.

O que aos meus olhos parecia tão rural, hoje atravessa as avenidas, invade os canteiros e se tornou tão presente nas ruas que é como se estivessem sempre ali.

Os ipês, de variadas cores, que antes eu só via no cerrado, hoje compete com edifícios e a urbanidade toda. E embora grande parte deles tenham sido retirados em nome de uma “revitalização” em nome da Copa de 2014 – Sim, AINDA temos obras paradas em nome da Copa que aconteceu aqui – alguns ainda encantam com suas floradas.

O jacarandá do cerrado enfeita a paisagem de uma grande avenida e além dele, várias outras espécies do cerrado e do Pantanal transforma a cidade. É a natureza buscando abrigo na cidade como forma de proteção? Ou é apenas o reflexo da mão do homem trazendo a natureza para mais perto dele? Não é a função desse post discutir o meio ambiente e suas relações com a ação do homem. Posso até fazer isso como um grito de alerta, já que hoje seria votada, pela Assembleia Estadual de Mato Grosso – foi adiada para a semana que vem – o Projeto de Lei 561, que abre brechas para obras de infraestrutura que podem impactar o bioma, sua biodiversidade e as comunidades que nele habitam. A tramitação acelerada do Projeto de Lei não respeitou as regras do regimento, havendo pouca transparência no processo, por exemplo, reuniões a portas fechadas e apenas, com o setor produtivo. Se aprovado, o impacto será devastador para o Pantanal.

Mas, confesso que já me assusto ao andar nas imediações de um parque público, dentro de um bairro de condomínios de luxo. Os animais que antes eu só observava na natureza, como capivaras, pássaros silvestres, jacarés e outros animais estão cada vez mais perto de nós… de nossas casas e longe da natureza, além de estarem correndo risco de vida. Ou de morte. Nunca me dei bem com essa frase.

Na semana passada me deparei com um barulho no poste de energia elétrica, bem em frente minha casa com esse pica-pau que tentava furar sem sucesso o ferro que segura a caixa do relógio. Lembrei-me do pica pau do desenho e o que foi mais estranho, é que para ele, parecia normal a humana aqui, com sua câmera a incomodá-lo, procurando uma pose melhor.

E hoje, descobri que tenho novos vizinhos, no mesmo poste em que o pica-pau estava dias atrás. Um casal de joão de barro construiu sua casinha, não lá no galho da paineira, como diz a canção antiga que meu pai ama e sim, logo ali, ao alcance dos olhos. Prefiro acreditar que vieram para perto de mim, ou que sou eu quem atraio essas coisas da natureza. Me assusta o domínio do homem sobre ela. Me assusta a utilização e a transformação dessa natureza. Enquanto o homem vive uma busca incessante de domínio sobre todos os espaços, a natureza luta diariamente para continuar tendo aquilo que lhe sobrou. Mesmo que seja dentro da urbanidade que lhe cabe.

Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Participam desse projeto:
Lunna GuedesObdúlio Nunes OrtegaRoseli PedrosoSuzana Martins

Das palavras das cartas · Projeto52

Um elogio à sombra.

Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte
convergem os caminhos que me trouxeram
a meu secreto centro.
Esses caminhos foram ecos e passos,
mulheres, homens, agonias, ressurreições,
dias e noites,
entressonhos e sonhos,
cada ínfimo instante do ontem
e dos ontens do mundo


Jorge Luís Borges

Luci,

ontem senti tanta vontade de te escrever que acho que senti no meu coração o seu, todo doído. O tempo não é nosso, Luci… A gente olha a hora só de teimosia. Porque quando for o tempo de acontecer, seja voo, seja pouso a gente só vira essa miudez. Mas o tempo também é remédio e eu queria te dar um abraço nessa hora, sem tempo de largar.

Foi meu pai que me ensinou que o tempo cura e que a gente não deve temer as coisas que acontecem, pois de alguma forma, elas já estão destinadas a acontecer. Isso do destino, Luci, não tem como fugir, você sabe. Caetano já dizia que o tempo é um dos deuses mais lindos. Nana Caymmi, que ele é uma eterna criança que não soube amadurecer…

Sabe, Luci, a gente gasta tempo – que nem é nosso – demais com pensamentos ruins e às vezes, se esquece que a mente atrai as coisas. Então, que tal deixar essa sombra escura e começar a ver as coisas do seu lado da janela, com a visão que tem, de lugar bom e por isso, coisas boas te acontecem. Existe o lado bom, mesmo que a gente não veja, não perceba.

Eu espero que seu pai te receba com um riso hoje e que ele esteja forte par seguir vida afora. Ainda me lembro do tempo em que ele não queria comer. Você sabia, Luci, que os pais depois de um tempo viram crianças de novo? Meu pai está desse jeito. Mesmo com o olho lúcido e uma vontade grande de viver, ele, às vezes, parece que fica um tempo determinado em uma história que ele mesmo criou, como se fosse um personagem de um livro. O pai que vira menino e que conta causos que me faz ter medo das sombras.

Eu ouvi que somos o reflexo de nossa própria sombra, Luci e considerando todos os ensinamentos do meu pai a sombra não existe e eu fiquei olhando a borboleta pousada no chão do quintal e seu reflexo ali, grudado no cimento. Seria ela reflexo da asa da borboleta? Você entende de borboletas, Luci. Até cuidou de uma doente em sua casa.

Eu elogiei a sombra da borboleta e quando ela voou a sombra foi atrás, bailando como se dançasse, mas eu não consegui fotografar isso, porque parei no tempo, Luci, pensando no seu céu, no meu céu e no céu dos passarinhos… seria o mesmo céu das borboletas? Vamos tentar descobrir isso juntas?

Olha, Luci, essa minha carta é para te abraçar e dizer que às vezes, a beleza está no modo que vemos as coisas… mesmo em momentos tristes. A sombra pode vir até minha mão mesmo que a dona dela esteja de asas machucadas. A vida é assim. A única coisa que não podemos mudar é o tempo… mesmo que a gente possa pensar que pode.

Te amo, Luci.

beijo meu,
Mariana Gouveia
Projeto 52
Scenarium Livros Artesanais
Lunna GuedesObdúlio Nunes Ortega