Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Ignoramos ser no horror, que forjamos nossa mortalha.

Bambina mia,

Quando me fez o convite para a próxima viagem, não pensei duas vezes… sabe aquele instante em que a pessoa te pega pela mão e te puxa levando por histórias, caminhos, ruas e praças? Foi assim que me senti. Adoro quando você me leva pelos seus caminhos, pelas suas ruas, pelas suas praças e feiras.

Adoro quando me mostra as folhas que você encontra por aí. Adoro ainda mais quando sua história se mistura com a minha. E cá estou eu, no quintal enquanto a lua cheia surge imensa logo depois do muro. Você sabe que sou fascinada pela lua e ontem aconteceu a lua de “morango”. Uma super lua que caminhou lentamente no céu. Fiquei horas com a câmera em punho registrando – e ainda estou – o movimento dela. Ora entre nuvens, ora em um céu forrado de estrelas. Ouvi Bethania e vi a lua se banhando em um balde aqui.

Me vi embalada pelas lembranças. Já te contei tantos causos do meu pai e de como ele nos envolvia em poesia, talvez até sem saber. Meu pai banhava a lua cheia… – te contei isso hoje – e guardava a água em potes de barro ou moringas. Servia para curar males da alma e do corpo. Descobri que sua nonna também e quando descobri isso meu cuore acelerou. Nossas falas foram se entrelaçando e como sempre, você está sempre na minha frente. Quando eu vivo as horas, você já viveu. Mesmo você sendo minha bambina, é como se estivesse um tempo a frente do meu… o meu espelho reflete em tantas coisas que você já viveu.

Você precisa do elemento urbano para existir… já eu, preciso do lúdico, dessas coisas que as memórias me trazem. Já tenho tantas suas guardadas aqui. Ainda me lembro de alguns edifícios com seus nomes enquanto um ônibus nos levava pelas ruas do seu lugar. Mas também tenho nas memórias coisas de sua vida em que eu nunca estive e senti-me lá. Eu seria capaz de atravessar o oceano agora e ver a lua sobre tua cidade… e mesmo sem poder fazer isso, parece que já fiz… entende isso?

A lua segue seu curso, bambina e consigo ver as estrelas sendo apenas acompanhantes desse movimento lunar. Parece que vi um pássaro noturno voar aqui e lembrei-me de um poema de Matilde Campilho, que gosto:

“Li sobre pássaros e passei a saber que os pássaros medem a distância em unidades de corpo e não em metros: a densidade de cada corpo não importa, o que importa é a distância entre eles. Ainda assim me perguntei muitas noites sobre a qual seria a medida de uma asa”

O poema me lembrou coisas que conversamos… será que a asa é essa sintonia que nos liga? Ou seria a medida dela seria esse convite aceito para continuar a viagem com você? Para responder a sua pergunta digo: vou sempre, bambina mia… com você, vou até a lua.

Bacio,
Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Projeto52 · Scenarium Livros Artesanais

Duas pessoas sentam-se à mesa.

Marcelo querido,

Eu poderia começar essa carta da mesma maneira que comecei naquele caderno que te dei – lembra? – contando o que aconteceu de mais importante no ano em que você nasceu até chegar o dia de hoje… mas naquele ano, o fato mais importante foi mesmo seu nascimento. Então, vou falar de outras coisas.

Duas pessoas sentam-se à mesa e ali, durante quatro horas usam o microfone para levar informações e entretenimento para quem está do outro lado do rádio. Ainda tenho na memória algumas frases, alguns nomes ditos com a zueira de Ronaldinho Gente Fina e suas mensagens. Poderia repetir algumas, hoje já conhecidas por tantos. Foi ali que eu o encontrei… Você ainda quase um menino e através de uma mensagem sua mão me tirou de um fundo do poço… Depois disso, eu apenas continuei gostando de você.

Passei a ser sua amiga e isso me honra muito. Passei a fazer parte de sua vida através de sua mãe e como eu já disse acho que foi o destino que te trouxe até mim através de um MHz… Quando você ganhou asas e voou além do rádio sua falta foi suprimida pela nossa bandida. Todos os sábados, eu atravessava a ponte e passava o dia com ela. Era quando eu sabia de você e de como a vida te guiava nos caminhos.

Semana passada, revirando meu baú de fotos encontrei uma foto nossa, tirada na rádio, próxima da mesa que nos ligou. Lembrei-me de uma pergunta que sua mãe fez uma vez: por que eu gostava de você? Lembro-me de que na época falei sobre o sentimento de gratidão e ela disse que gostar era relativo. Talvez você não compartilhasse desse gostar.

Tempos depois, ela te trouxe à minha casa. Era uma visita inesperada. Você era apenas meu ídolo e estava ali, no sofá da minha sala, conversando com meu marido sobre futebol… sua voz que havia me acompanhado em tantos momentos ecoava no meu quintal. Naquele dia, eu amei ainda mais a sua mãe. No sábado seguinte, ela repetiu a pergunta… nesse dia eu soube explicar: gostar de você é simples. Qualquer pessoa que te conheça sabe do que falo. Gostar não tem justificativa e nem explicação.

Se eu fosse contar os anos de você na minha vida contaria os 23 anos desde então… mesmo que a gente fique sem falar por um tempo, quando te chamo, é como se estivesse sempre ali. Me emociono saber que você é o elo que me liga com sua família.

No seu dia, os meus pensamentos te acolhe com carinho. Te desejo todas as bênçãos do mundo e vou estar sempre aqui, se precisar.


Feliz Aniversário!
Beijo meu,

Mariana Gouveia
Projeto 52
Scenarium Livros Artesanais

* Você pode acompanhar a voz de Marcelo Venturin aqui
Confira a programação.

Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Vermelho por dentro.

Quinta-feira… o sol a pino e uma fuga por ruas inventadas para automóveis e não para pessoas.
O silêncio dos contornos a faz feliz.
Ela dispara seus passos e leva consigo qualquer coisa de felicidade.”

Pela quarta vez – e como se fosse a primeira – li Vermelho por dentro, de Lunna Guedes, publicado pela Scenarium Livros Artesanais. A primeira vez que o li, ele trazia o cheiro de livro novo, com a delicadeza das ilustrações de Adriana Aneli. Sorvi o livro em dois dias, na época, como se bebesse uma taça de vinho. A história me encantou. Mãe e filha e seus sentimentos misturados em mágoa, ausência, distância e ainda assim, o amor e seus paralelos mesmo com tantas contradições nessas relações.

Na segunda vez, fiz uma leitura via chamada de vídeo com uma amiga. De tanto eu comentar sobre a história, nas manhãs de terças e quintas-feiras eu lia para ela. Foi como ofertar um presente. Explicar os personagens, comentar sobre algumas frases. Levamos um mês para ler as 323 páginas. O livro já não tinha cheiro de livro novo, mesmo porque já havia sido emprestado para algumas pessoas… mas tinha cheiro dos lugares que o livro descrevia… era como se eu estivesse andando pelas ruas de Paris ou São Paulo.

Na terceira vez, li o livro em um projeto que faço parte, onde cuidamos de mulheres em situações de risco, ou sofreram agressões de seus companheiros e senti que a leitura foi um bálsamo para elas. O livro tinha o cheiro de esperança. Nas manhãs de sábados, passávamos duas horas entre aulas de artesanatos e leituras. Era uma desculpa para que pelo menos, em algum momento, elas se desprendessem das suas próprias histórias e embarcassem numa viagem… Confesso que em muitos momentos me emocionei e de como algumas partes do livro cabiam na vida de cada uma delas.

No mês de abril, ao abrir a estante o livro me chamou. Foi um convite. Ele se ofereceu e eu mergulhei de novo na história de Eva e Deborah. Confesso que sou apaixonada pela Anne. Talvez pela paixão pela fotografia tenha nos unido. Novamente me vi envolvida na história e foi como se tivesse lendo pela primeira vez. Não vou dar spoiler por que quero que você descubra e se encante pelo Vermelho por Dentro.

Respirou fundo… a cabeça estava cheia, a alma em suspenso e todas as coisas de sua vida embaralhadas. Sentiu o coração palpitar, o ar lhe faltou.
Medo da vida, dos afetos… de acreditar de novo e falhar. Deu um passo para trás, baixou os olhos para ver dentro.
Sentiu o toque na pele… o beijo nos lábios…

Vermelho por dentro me vermelhou em encantamentos. É uma história que te prende do início ao fim e por fim só nos faz suspirar. Se eu fosse você, eu clicava aqui e pedia um para chamar de seu.

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Ações-emoções-falas-gestos se oferecem em reprises, como um filme. 

Bambina mia,

Aceitei um convite seu de agora a pouco para aumentar o som e foi o que fiz… Pink agora ecoa no meu quintal enquanto te escrevo e lembro-me que a primeira vez que ouvi Try foi aí no seu lugar. Você estava a beira da mesa tecendo fitas de cetim unindo minhas palavras de Cadeados Abertos. Em pé, na porta, guardei aquela imagem e salvei na memória o refrão para quando voltasse ao meu quintal. Desde então, a canção faz parte da minha playlist que tem seu nome. Essa playlist é a trilha sonora de minhas tardes-noites de todos os dias onde acrescentei algumas canções coreanas que tocaram meu coração nos últimos meses.

Mas, eu queria te falar da manhã que surgiu aqui, sem o frio intenso que já arrastava há alguns dias… Busquei no canto norte – ah, o Norte – do muro os primeiros raios do sol que falamos tanto e revisitei nosso diálogo de ontem – as últimas palavras antes do sono me consumir – e do quanto elas me acalentaram depois de um dia triste e tenso. Me aninhei no seu abraço e vaguei pelo espaço do meu lugar.

Depois dos afagos nos cães e de coar o café, a primeira coisa que faço pela manhã é caminhar no quintal, com a xícara nas mãos… verifico os casulos, as joaninhas no pé de algodão – que pasme! nasceu de novo e já está grande, depois do último que foi arrancado em uma tempestade – e vou aguar as plantas. Mas, hoje, meus olhos pousaram no Encontro – esse pássaro que ganhou ninho por aqui, com sua asa de filete laranja – e fiquei horas a ouvir o trinado dele que você já ouviu em alguns dos meus áudios, no varal. Somos sim essas observadoras de pássaros e tudo isso se transforma em momentos nossos.

Já te contei que chorei com sua missiva e de como comecei a manhã igual você descreve nela… Mas juro que só vi sua missiva depois das palavras iniciadas em meu caderno de florzinhas rosas no começo da tarde e fiquei a imaginar como o universo nos liga mesmo que através da escrita em momentos – quase – iguais onde me aconchego dentro do abraço que sempre me oferece. Já te disse que é o melhor lugar do mundo para mim?

Aqui, encostadas no pé de ipê estão as cadeiras – não tenho poltronas – de fios onde suspiro em alguns momentos do dia. É onde disputo os voos dos pássaros que voam por cá e muitas vezes com Yoshi que quer a cadeira preferida e seu inseparável travesseiro. É aqui que te acolho em tantos momentos e onde meu riso te alcança nas conversas bobas e variadas.

É onde também te grito quando os trovões ecoam por aqui. Maio já se precipita dentro dos dias e eles só aconteceram por aqui uma vez… Por enquanto, o som que ecoa aqui é Try – que está no modo repeat enquanto as imagens invadem minhas mente como se fosse reprise, como um filme. 

Bacio,

Mariana Gouveia

Revista Plural · Scenarium Livros Artesanais

Lembranças

O doce branco do açúcar
a ativar o café torrado…
o bule antigo, com florzinhas
decoradas, cor verde-oliva.
Alguém… na carta disse
que o azul das pétalas lembrava
a cor do céu e que não mudava
o sabor e nem o aroma
do café a espalhar essências
pelos quartos e acordar o dia
na canção.

A mãe teimava que azul era o céu
quando o relógio dava
meio-dia.

Alguém saboreava histórias escritas
mas o livro do sebo não tinha
as dez páginas finais…
E teve de recriar a história
com os irmãos. Depois se descobriu
que a irmã tirou de propósito
as folhas…

O riso do irmão mais novo
era afago… um dia seria palhaço de
circo e viveria a desafiar
o globo da morte.

Não foi…

Mas os filhos acabaram
dentro do globo
da morte-vida

No quarto ao lado,
o baú, na casa antiga
da infância… descobriu
o sentimento que sentia
todas as vezes que alguém
falava de saudade:

Era amor!

Mariana Gouveia
Texto publicado na Revista Plural Inéditos & Dispersos
Scenarium Livros Artesanais

Scenarium Livros Artesanais

Tentação ou tentador – Conto Erótico

Um passo depois do outro… apressados como os ponteiros das horas e cheguei à esquina. Enquanto esperava o sinal abrir, acusei cansaço e quase me arrependi de ter aproveitado cada segundo para fazer compras. Tentei trocar as sacolas de mãos, mas não resolveu.

— Deixe-me ajudá-la.

Reconheci a voz que chegou acompanhada de mãos, recolhendo as minhas sacolas… fazendo trepidar o coração dentro do peito. Era o homem em quem eu esbarrava nos corredores da Faculdade. O lendário filho da Santa, que não se importou com a minha falsa recusa.

— Não é necessário…

Quando dei por mim, seu passo avançava por cima da faixa de segurança, como se adivinhasse o meu destino. Precisei apressar o passo para juntar a ele e a cada nova tentativa de pegar de volta as minhas sacolas, ele reagia, erguendo-as numa altura impossível para mim. Percebi que ele se divertia e reagi magoada, feito menina que perde um balão.

Não sei quem seguia quem pelas calçadas, mas sempre que possível, espiava o corpo dele e sentia vontade de me benzer, ao me lembrar da história que corria de boca em boca. A mãe, com dificuldades na hora do parto, entregou a criança nas mãos da Santa. Pensei em milhões de possibilidades. Uma imagem num altar improvisado no quarto ou a Padroeira na cidade, sendo carregada em procissão. E não pude deixar de pensar na infância do menino, na condição de filho da Santa. E agora, feito homem e tão bonito e com um sorriso tão largo, que me fazia passar mal.

Ao chegar no portão de casa, me atrapalhei com a bolsa e não conseguia encontrar as chaves. E quanto mais revirava, mais nervosa ficava e olhava para aquela calma inabalável e me sentia a pior das devotas. Fechei os olhos e pedi ajuda para a minha Santa protetora. E pronto: a chave apareceu, como por milagre. E a mão dele — tão forte e firme — esbarrou nas minhas ao tocarmos juntos a maçaneta.

Agradeci, esperando que ele me devolvesse as sacolas e fosse embora. Mas ele ficou lá parado à espera de um convite que eu não pude deixar de fazer. E quando dei por mim, lá estava o homem colocando as sacolas de compras feitas no supermercado, ficando com as minhas calcinhas em suas mãos. Quase desfaleci — minha nossa senhora das crises. Claro que ele não tinha como saber que eu havia passado na loja de lingeries e comprado algumas peças. Mas por que razão ficou justamente com aquela pequena sacola de papel em mãos?

Respirei fundo e agi… fui e voltei do quarto, onde deixei minhas calcinhas novas e ao voltar, achei melhor oferecer um café. Era o que me restava a fazer, depois de tudo. Liguei a cafeteira sob o olhar atento e matreiro do Filho da Santa. E confesso que não sei se foi ele quem disse “sem açúcar” ou se fui eu quem fez a pergunta enquanto decidia entre o ristretto e o rome.

Xícaras em mãos e eu a fugir do olho dele. Havia alguma coisa no ar — podia sentir e era forte. Eu nunca fui tímida, mas estava insegura, trêmula e toda errática. Dizia as coisas mais impróprias, absurdas e ele se divertia com os meus desacertos. Um verdadeiro desastre e eu quase recorri à minha Santa. Desisti da ideia ao pensar que talvez fosse a mãe dele. O pensamento me fez arregalar os olhos… e ele sorriu, como se adivinhasse o meu pensamento.

— Que tal você cozinhar para mim, hoje à noite? Eu chego às sete, está bom para você?

Eu não me lembro de ter concordado… A única lembrança que permaneceu em mim pelo resto do dia foi do seu último gesto: fechando o portão e deixando um aceno no ar… E pelas horas seguintes, o meu coração acelerou descompassadamente. E piorava quando eu pensava nele…e vinha a bendita imagem da minha Santa — que talvez fosse a mãe dele —, em mente. Como eu queria me libertar daquela história. Esquecê-la. Não sabê-la.

Sentia uma espécie de taquicardia que começava no meio do peito e se espalhava por todos os cantos do corpo. E eu ainda tinha que preparar um jantar. Fui para a cozinha e depois de tentar pensar um cardápio — sem sucesso — me lembrei do que dizia a minha avó enquanto picava as ervas para a massa que ela mesmo havia feito e deixado descansar sobre a toalha enfarinhada: “Cozinha primeiro no coração porque cozinhar é como fazer amor… É preciso sentir prazer”.

Decidi repetir a receita da minha avó. Eu já tinha feito aquele prato milhões de vezes e o molho pesto era uma das minhas especialidades. Colher o manjericão a poucos minutos do preparo era o segredo e quando ele suspirou depois da primeira garfada… percebi que havia acertado.

O Sauvignon Blanc que ele trouxe combinou perfeitamente e me fez mais leve depois da segunda taça. Fomos para o sofá da sala e quando ele se aproximou de mim, não recuei…

As mãos dele alcançaram o meu pescoço, ele se inclinou e o beijo que tanto imaginei… aconteceu. Pareceu interminável e eu quase perdi a consciência. A boca caiu sobre o meu pescoço, na fenda da blusa, alcançando os seios, provocando uma espécie de devaneio…  

Ele revirava a minha pele, descobria lugares inexistentes até então… e antes que eu me perdesse de vez, ele me conduziu pela mão até o quarto e caímos juntos na cama. Lembro de ouvir o riso dele tocando a minha tatuagem de dente de leão como se fosse um sopro e depois disso, ouvi o meu próprio riso ou grito, não sei.

Acordei e lá estava ele… ao lado e fiquei a admirar seu corpo escultural e me lembrei da lenda que o envolvia. Vasculhei seu corpo em busca de respostas, tentando imaginar qual santa o havia criado. Enumerei muitos nomes em minha mente e só consegui pensar: bendito seja o teu fruto. Mas tinha dito em voz alta e ele, recém despertado e fui obrigada a falar a respeito da história que corria de boca em boca havia anos e mencionei Shakespeare — “o tentador ou o tentado, quem peca mais? ”  E a gargalhada dele ecoou pela casa inteira e até hoje mora nas esquinas do meu corpo por onde andou o filho da Santa.

Mariana Gouveia
Conto erótico publicado no livro:
Na esquina com o filho da Santa
Scenarium Livros Artesanais

Caderno de Notas

Desde que o mundo começou a ser mundo.

“Tomaste o caminho do vento e por lá te demoras”
–  Isabel Mendes Ferreira-

Havia pouco tempo que eu morava ali. Mudamos dias depois que minha mãe morreu. Não sei se para meu pai ficar livre das lembranças e do cheiro dela na casa, nas coisas. O fato é que a casa nova tinha mais coisas dela do que a antiga. Ao arrumar os móveis, tudo era dela e tinha o seu jeito. Tudo foi arrumado, até inconscientemente, da maneira como ela gostava e o jardim, no fundo da casa, parecia haver sido plantado por ela.

Casa nova, novos vizinhos e foi ali, duas casas depois da nossa, para onde elas também haviam mudado recentemente. Um dia depois de nós. E pelo mesmo motivo. A perda da mãe. Elas eram Ana e Cristina. Gostei logo de Ana – tipo amor à primeira vista. Mas, foi Cristina quem ocupou espaço em minha vida. Era tipo aventureira, corajosa e nos empurrava para as experiências dela.

A casa delas tinha um sobrado com um quarto, mas que permanecia trancado desde que se mudaram. Na divisão da herança, elas ficaram com a casa, em que o tio havia morado a vida toda. A chave permanecia debaixo do tapete, antes da escada. E Cris, na sua impetuosidade, obrigou-nos a abrir a porta. Além da poeira em todos os móveis, que um dia retratarei com mais detalhes, havia um baú enorme e é claro que abrimos.

Entre roupas, pequenos bibelôs e livros, havia ali um diário, que as meninas interessadas em tesouro nem deram atenção. Logo começaram a dividir os objetos e, em meio a eles, um sapato de verniz roxo, que Ana calçou como se fosse uma princesa e, então, colocaram o diário em minha mão como presente. Foi ali que desejei ser escritora. Foi ali que desejei conhecer o amor que surgia à minha frente com uma história emocionante de Anna Lee e que retrato agora, em pequenas nuances, em um relato diário de amor:

1º de abril de 1958 – o dia amanheceu nublado e frio. Nas ruas quase não havia ninguém. Foi quando ele surgiu não sei de onde. Vinha cabisbaixo como que procurando algo. Eu havia ido à janela abrir a cortina. Nossos olhares se encontraram e meu corpo reagiu ao encontro. Não sei o que senti, mas sei que foi algo que não poderia escrever sobre. O vento cantava a melodia das folhas das árvores e meu coração cantou junto. Desde que o mundo começou a ser mundo eu já te amava e te conhecia antes mesmo de ver-te. Ele seguiu rua abaixo olhando para trás de vez em quando, abraçando o próprio corpo, como para se aquecer. Aquele gesto mexeu comigo. Meus olhos seguiram e no buscar ele aonde a rua sumia, bati a cabeça na janela. Ele riu. Pude ver isso. Foi a maior certeza que tive em toda a vida. Eu já o amava.

2 de abril de 1958 – Ouvi um barulho na janela, como se fosse uma pedra. Não sabia o que era. Mas, já tinha a sensação plena dele correndo em meu sangue. O coração acelerado, e as mãos suavam, apesar do frio. Quando cheguei à janela, lá estava ele… O sorriso que eu imaginara no dia anterior agora tomava seu rosto e os olhos me desenhavam um horizonte em que eu queria morar a vida inteira. Se possível, morrer dentro deles”.

O diário relatou aos meus olhos uma história de amor. Que descrevi e que vai virar livro. Ana e Cristina foram frutos desse amor. Embora só tivessem descoberto mais tarde. E nós descobrimos um tesouro. A vida nos distanciou nas lembranças, nas histórias livres de cada uma. Ana se tornou enfermeira, profissão que a mãe teria, se não fosse tudo que aconteceu pelos dias dela. Cristina cumpriu a sina de aventureira e perseguiu seu sonho de conquistar o vento.

Quando me chegou o tema do Caderno de Notas desta quarta edição, tive a certeza de que teria de falar sobre isso. Porque o assunto era exatamente o tema do diário escrito por uma mão que já amava alguém antes de o mundo ser mundo.

Mariana Gouveia
*Este post é parte integrante do projeto “Caderno de Notas – Quarta Edição”
Scenarium Livros Artesanais

Revista Plural · Scenarium Livros Artesanais

Na rota do blues

A minha memória ainda guarda aquele dia. Eu, menina, a viajar para o interior de outro estado em um lugar fora do mapa a procurar meu pai. A estação tinha ar de filme antigo que eu nunca havia visto, mas que já tinha lido sobre. O ônibus me deixou ali durante a madrugada. Fazia frio e o paletó de flanela xadrez feito por minha mãe antes de adoecer me aquecia.

A estação não era o fim do caminho. Era o meio. E o ônibus só passaria por ali no meio da manhã.

As duas pessoas no local me olhavam com curiosidade, mas não sabiam me dar nenhuma informação. A luz fraca do gerador a óleo parecia querer apagar a qualquer momento. Não se via quase nada. Apenas uma luzinha azulada vinda de uma janela a poucos metros da estação. Dali vinha um cheiro bom de café e algo que imaginei ser bolo – só aí me lembrei que havia comido apenas na tarde anterior – e o som de uma guitarra que tocava suavemente.

Caminhei até a janela para pedir ajuda e vejo ele, de olhos fechados – e foi uma das cenas mais lindas que já vi – a tocar. Eu, que crescia sobre o manto da música sertaneja encantei-me com a suavidade da canção.

Me convidou a entrar e enquanto eu contava um pouco sobre minha história e o porquê estava ali foi colocada diante de mim uma xícara de chá e um pedaço do bolo ainda quente.

Parecia que eu o conhecia desde sempre. Orientou-me a voltar para casa. Falou do perigo de uma menina da minha idade sair assim, sem ninguém acompanhando e que iria me ajudar. Elogiou minha coragem de ter chegado até ali. Mas que agora era com ele.

Falou da vida, do blues – o ritmo que era a vida dele – da filha que criava só desde que a mulher morreu. Eu, declamei poesias que eu mesma havia escrito e prometemos fazer uma música juntos – quem sabe, um dia, nas minhas férias escolares.

Pegou meu endereço e logo que o dia amanheceu pediu para alguém me levar até em casa em sua caminhonete azul.

Não sei se foi pelas mãos dele, mas dois dias depois meu pai apareceu com uma carta escrita para mim, com o convite para nas férias visitá-lo e a vida seguiu.

Nas férias seguinte, meu pai me levou lá e dali, desenvolveu-se uma amizade tanto pela música como pelo homem. E naquele lugar passei a viver dias de sonhos. As férias eram aguardadas como se espera pelo domingo. Enquanto isso, trocávamos cartas onde eu traduzia as canções que ele gostava.

A vida me levou para longe dali. Algumas vezes, foi possível voltar. Em outras, enviava cartas com presentes para retribuir a atenção de um avô postiço.

Ganhei instantes lindos junto com ele. Dançávamos no campo com as cores de um outono dourado.

Recebi a carta dele monitorada de ausência. As letras miúdas como se fossem desenhos. Todo mundo devia ter essa letra – pensei. Devia ser decreto – Na carta falava que lá tudo continuava igual. Parado no tempo. O ônibus passa agora três vezes ao dia, porque as crianças cresceram e formaram famílias e foi a única coisa que mudou. Não. Ele se enganara. Agora havia também ao lado da estação uma antena enorme que levou modernidade para o lugar e graças a essa antena – que ele odiara no início – podia ouvir minha voz através do telefone da filha.

Mas da janela, a estação que ele vê é a mesma. Era outono quando escreveu. Descreveu o campo em tons dourados igualzinho como quando fui lá pela última vez. E igualzinho eu me lembro e tenho em fotos.

Falou que a música ainda alimenta a alma dele é que a vitrola que eu dei a ele funciona como se fosse nova e que foi o melhor presente da vida. Que quando o carteiro entregou o pacote com o LP que faltava do B.B. King ele quase abraçou o moço. Só não o fez porque iriam interná-lo. Mas que ouviu tanto que a filha reclamava da repetição e que não só ela como os vizinhos, até os mais distantes sabiam de cor e salteado todos os acordes.

A carta tinha o perfume de lavanda no papel. Era uma loção pós barba. Foi descrevendo letra após letra a solidão das tardes e de que pensava em mim com emoção.

Por fim, me disse sobre não deixar de ouvir a música nunca. E que eu plantasse flores sempre.

A resposta foi uma carta da minha maneira com um LP encontrado no sebo, mas descobri hoje que ele não pode ouvir nem ler. Havia partido para uma rota que não sabemos qual, mas sei que continuará seu caminho tocando blues e cada vez que eu ouvir I Believe To My Soul ele estará comigo.

Mariana Gouveia
Texto publicado na Revista Plural Blues
Scenarium Livros Artesanais

Das palavras das cartas · Projeto52

Um tempo para anoitecer à luz de lâmpadas…

A vida, ela mesma, nos empurra para que continue sendo.
Luciane Ricieri

Luci,

Eu queria nesse fim de tarde – quase noite – sair com você, pelas suas ruas, de mãos dadas e te oferecer meu silêncio. Confesso que antes da carta iniciar andei pelo meu quintal… arranquei algumas ervas para um chá, tirei as folhas secas que caíram. Também brinquei com Chiquinho que voava atrás de mim. Só depois, me sentei aqui vendo o sol se esconder e a noite começa a pedir para acender as lâmpadas.

Falei baixinho com você pensando em sua frase acima sobre a vida e é isso mesmo, Luci… A vida, ela mesma, nos empurra para continuar sendo. É sempre um dia atrás do outro. Lembra-se de quando seu pai se recusava a comer? Nunca esqueci disso. Naquele tempo doía e parecia que ia doer para sempre e hoje, ele te acolhe em sua dor de falta. Nesse meio tempo, já aconteceu tanta coisa ruim e tanta coisa boa que a gente sente apenas o alívio de que tudo passa. Até as dores.

Lembro-me que pouco dias antes de minha mãe morrer ela me disse que “a gente se apega muito a presença física e esquece que algumas presenças invisíveis são mais fortes. Nós é que não escutamos os sinais.” Na época, eu nem pensei muito nessa frase. Só fui deparar-me com ela em um caderno antigo tempos depois dela ter partido. E comecei a sentir a presença dela mais forte em coisas que eu fazia. em coisas que em tantas solidões era como se o travesseiro fosse o colo dela.

Hoje, sei que algum canto de sua casa está vazia da presença física de Teté Binoit… mas, se reparar bem, haverá sempre resquícios dele por aí… e assim a vida segue para além do que somos. Sabe, Luci, eu só quero agradecer por me permitir dividir com você e os seus esses instantes de singeleza da sua vida e até mesmo os momentos de perdas.

Aprendo muito com você a ver a beleza das coisas. Aprendo com sua coragem, com a delicadeza com que trata esses momentos, mesmo nos apontamentos dos dias mais tristes. Sei que foram poucas coisas que você se acostumou na vida. Sei também que não se acostumará com a tristeza e que logo tudo será apenas lembrança, afinal, as cores te rodeiam e por enquanto te abraço. Estou também aprendendo a rezar seus silêncios. O ontem será sempre figurativo, Luci… A vida é hoje – minha mãe diria, se estivesse aqui – porque a gente só pode medir 15 anos de amor e doação contando os dias como a vida toda mesmo.

Te amo!
Abraço carinhoso,


Mariana Gouveia
Carta parte do Projeto 52 Missivas
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega –  Ale Helga – Mãe Literatura 

só porque quero te dar um abraço

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Ana, que tal um café?

Oi, Ana,

Começo a te reescrever na madrugada. Sinto que o vento traz o cheiro de café de algum vizinho madrugador. Coloco a água para aquecer em um ritual antigo — já que fiz a burrada de, em um momento de distração, jogar o suporte da cápsula da cafeteira fora — enquanto preparo o coador para então saborear o café a me acordar de vez.

Enquanto sigo até o ponto de ônibus, vou criando notas mentais do que gostaria de te dizer. Quase crio uma canção ao repetir as palavras para não esquecer.

Continuo na segunda parada… onde aguardo pelo outro ônibus e mais uma vez o cheiro do café chama a atenção. O vendedor de bolos de arroz me serve com a delicadeza de todo dia. O sabor do bolo típico daqui me leva à infância. Minha mãe usava a latinha de sardinha como fôrma para assar no fogo de barro. Enquanto o ônibus não chega, falamos do momento atual na política e ele logo discorre sobre o filho que tentou um concurso público.

Penso que hoje completo uma carta que comecei a escrever ainda adolescente, quando você chegou a minha mão, através de um exemplar sem capa… de Inéditos e Dispersos que continha correspondências e poemas. Eu saindo da infância e todas as melancolias do mundo dentro de mim. O livro parecia ter sido manuseado sem cuidados e apesar de fino, tinha folhas soltas. Comi as palavras e a palavra correspondência ganhou sentido em minha vida.

Minha mãe usou a palavra “poeta impetuosa” para te descrever. Parei entre a soleira da porta que dava para a cozinha e comecei a escrever essa carta, que ficou parada no tempo. Talvez eu clamasse pela liberdade que você esbravejava e eu invejava nas palavras. Ou talvez simplesmente vivesse essa mesma inquietação tua e que só exercesse minha versão transgressora longe de minha mãe.

O dia chega ao fim. Sinto que não consegui dizer tudo. Hoje, as lembranças pesaram junto à realidade. Embora um sol brilhante do lado poente desenhe nuvens no céu, no ponto leste de minha janela um arco-íris redesenha coragem em mim. Há situações de chuva no céu e os trovões bradam o interior e é dentro de mim que te abraço.

Beijo,
Mariana Gouveia
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Carta publicada na Coluna Plural
Scenarium Livros Artesanais
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega –  Ale Helga – Mãe Literatura 
Fotografia: Cristina Lorenzo

só porque hoje é o Dia Mundial do Livro