Cadeados Abertos · Projeto Diário das quatro estações

b.e.d.a – Sobre as esperas e as manhãs rotineiras

Pegou a senha … havia uma fila imensa na espera dos dias.
Cavocou a terra e plantou asas.
Quem sabe um dia poderia colher voos.
A menina do lado riu da piscadela do olho.
Ali, onde a vida já nem era mais,
outra vida gera esperança
… era dia de contar as horas. Idealizou a condição do dia. Pegou a receita das asas…
e foi viver!

Mariana Gouveia
Cadeados Abertos – Diário das Quatro estações
Scenarium plural Editora

*b.e.d.a — blog every day april — um desafio que surgiu para agitar os dias de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.

Cadeados Abertos · Projeto Diário das quatro estações

b.e.d.a – Colheita

” No pé de algodão bordaste
o bom dia dos nossos dias
O cheiro a café dos teus lábios entreabertos…
escutando os meus
O céu desabrochando estrelas
entre os nossos dizeres do amor
… e puramente voamos”

Ana Christelo

O dia tem o ataque das abelhas…
Invadiram o espaço do quintal. Atrasou tudo para o encaixe das horas.
Precisei ajudar para conter o mel… era a colheita do dia dentro das flores… cabiam dimensões de céu dentro de mim. Ela escreveu poemas em segredo… enquanto a vida me pede passagem.

Mariana Gouveia
Cadeados Abertos – Diário das Quatro estações
Scenarium plural Editora

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Cadeados Abertos · Projeto Diário das quatro estações

b.e.d.a – O dia acontece na magia do instante…

O sol rompe a barreira das nuvens e muda a cor da paisagem. Pela poça d’água eu vejo uma lua em forma de rua.
Os pássaros, pequeninos, em seus pulos à procura de qualquer coisa para comer, ciscam enquanto cantam… eu descrevo o dia assim para que saiba o que sinto. É mais uma manhã… mais um dia de sol ardente, mais horas em que a solidão bate e eu chamo seu nome…

Mariana Gouveia
Cadeados Abertos – Diário das Quatro estações
Scenarium plural Editora

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Cadeados Abertos · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

b.e.d.a – mudei a porta de lugar várias vezes.


… uma, para que o vento entrasse… outra, para que ele saísse. Descortinei as vidraças embaçadas! – vi azul e mudei a cor no meu quintal… o sol alaranjou o gris que morava ali.
Vi vidas estranhas passando e risos infantis no vizinho do lado.
Alguém vende frutas na rua.
O menino pede ajuda na lição da escola…
era apenas uma pergunta para a redação.
Vale nota…
Para onde vão os sonhos quando a gente acorda? Como explicar a casa sem portas?
Parei de mudá -las de lugar desde o dia em que saí pela janela…

Mariana Gouveia
Cadeados Abertos – Diário das Quatro estações
Scenarium plural Editora

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b.e.d.a – A palavra do dia é suspirar.

O dia não acontece laranja por acaso. Não fosse por causa da cor, seria pela maneira que me traz recordações. As lembranças tomam conta de mim, enquanto o ônibus apressa o dia em seu destino.
A manhã acontece diante dos olhos.
Idiomas diferentes…
Palavras novas…
– Aprendizagem.

O acaso acontece quando a voz do outro lado da linha se encanta pela borboleta…
Céu, suspiro, gozo. É o viver todo dia… a mesma história – de jeito diferente. Com novos tons, sons – novas palavras. O amor a descobrir nos olhos do encanto.

À tarde, a vida acontece em velocidade máxima… o relógio para no instante seguinte. Respiro a tonalidade do céu que se prepara para abraçar a noite.
A palavra do dia é suspirar.

Mariana Gouveia
Cadeados Abertos – Diário das Quatro estações
Scenarium plural Editora

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Cadeados Abertos · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Sorte do dia

Atravessou meu caminho. Pediu para ler a minha mão. Eu descrevi poesia no dia.
Ela jurou que via mar na trilha do destino.
Senti o sal na boca. Nos meus cabelos havia jeito de maresia.

Olhou bem nos meus olhos e riu. Previ encantos na vida dela. Estendeu-me a mão e pediu que eu a lesse. Sou analfabeta de sonhos – ela disse.

Em dois sopros de vento dei-lhe a sorte do dia.
Palavra de ordem: Acreditar.

Mariana Gouveia
Diário das Quatro Estações – Cadeados Abertos.
Scenarium Plural Editora
*imagem: Pinterest

Cadeados Abertos · Scenarium Livros Artesanais

Projeto Fotográfico 6 on 6 – — meus livros!

nenhum abismo me cabe
nessa hora, eu voo

Mariana Gouveia

Ter um livro publicado era o sonho de criança. Quando em 2015 a Editora Scenarium Plural me fez o convite, a emoção tomou conta de mim e veio a parte mais difícil que era escolher entre infinitos poemas apenas 50 deles para fazer parte do livro. O livro fazia parte da Série Exemplos e coube a Lunna – minha editora preferida – a fazer a seleção. Desde então, O Lado de Dentro se tornou o filho do qual cuido com carinho.

Em Diário das Quatro Estações – Cadeados Abertos fui fiel ao meu estilo de vida.  Era como me desnudar diante de quem lia:

preciso sobreviver ao encanto
que teus olhos me apresentam em miudezas e rotinas
Dou-te os sentidos plenos no toque
das palavras, invento recantos onde seu amor me ampara
Para isso, basta sentir-me tua.
Adivinho que você nasceu em algum canto do mundo. E os séculos nos pertencem.

Mariana Gouveia – Cadeados Abertos – Diário das Quatro Estações
23, Outubro Pág. 93

Os dias foram acontecendo dentro da minha rotina. Entre o trabalho e as previsões, a lucidez das horas e a saudade o diário foi criando vida. O horóscopo trazendo opções de escolha e a bênção do pai a dirigir sentimentos. Assim, o diário foi visto pelos olhos do amor. Um convite e ele virou um livro. Um livro onde dedico alegria, esperança, momentos lindos e uma história rica de amor. Em alguns dias, uma palavra bastava. Em outras, vivi todas as estações e ainda assim, era náufraga de um mar que não conheço e de um rio onde bebo na fonte.

Entre um livro e outro aconteceram outros projetos onde fui acolhida dentro do amor e da pluralidade e me vi pecadora em Sete Pecados. Na delicadeza do fluir, dentro de um conjunto Plural fui liberta e Coletiva.

Mas, em fases de Lua, me transformei juntamente com seis mulheres em Sete Luas. Um trabalho lindo, delicado, minucioso e generoso com as autoras. Serei suspeita se dizer que foi o mais lindo dos trabalhos… Serei suspeita se dizer que nos transformamos em lunação.

Depois de luas, diários e Plural ganhei a dor e a leveza em Corredores. Foi o que me fez chorar e eu vivi a história na pele e na dor de alguém. Mas, também vivi a liberdade e a alegria de ser mão ao toque e te convido a passear pelas páginas deles.

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural – 2019
Participam também desse projeto: Lunna Guedes– Obdúlio Ortega

Cadeados Abertos · Projeto Diário das quatro estações

A capa do meu diário

IMG_20160811_165803.jpg

A palavra diário sempre me pareceu algo secreto – proibido – e na extensão das palavras, guardei confissões que talvez, abertamente, não diria.
A ideia sempre foi de ter o diário ali, com uma chavezinha do cadeado, como um cofre onde como se joia fosse, ficaria ali, germinando emoções.
Daí, quando surgiu a ideia do Diário das quatro estações, quebrei o cadeado, joguei as chaves fora e deixei que a emoção fluísse em forma de palavras.
Aí está a capa do diário. O vermelho simbolizando a paixão com que dedico à escrita.
Falta pouco para que as palavras voem em direção ao infinito e que você partilhe comigo da emoção vivida.

Mariana Gouveia
O lançamento será pela Scenarium Plural Editora.
No dia 27/08, às 16h, na Biblioteca Mário de Andrade
Rua da Consolação, 94 – Consolação
SP – SP
Aguardo você lá!
Mariana Gouveia

Cadeados Abertos · Das palavras das cartas · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Carta ao meu pai aos cuidados das lembranças

juara

Choveu essa noite, pai. E enquanto assistia a chuva a cair, o cheiro de terra molhada me carregou para a infância. Virou quase abril esse dia que antecede junho.

É seu aniversário amanhã, pai, e a chuva benze o dia para que seja abençoado também. Sabe aquele cheiro que exalava quando as primeiras gotas caiam e a roça de toco ganhava o respirar para acolher sementes? Senti o mesmo cheiro aqui. Deve ser o céu a te brindar mais um ano. Perdi a conta dos dias que não chovia, talvez por isso, o barulho das gotas no telhado tenham me levado para dentro das lembranças. Quase me envolvi no paletó de flanela com florzinhas miúdas. A sensação é plena, pai, e, embora já tenha passado tanto tempo, eu ainda sinto tão forte os instantes vividos, que é como se fosse um filme a desenhar as lembranças diante dos meus olhos

O fogão a lenha a crepitar ardência e o cheiro do café coado na hora acordada nossa fome e todos os sentidos. Hoje os cabelos brancos emolduram seu rosto e distância não me permite o abraço de perto. Ligo o rádio e ele toca suas músicas, enquanto as gotas suavizam e um céu alaranjado anuncia mais uma vez essa coisa insistente de quebrar as previsões.

A canção me traz o encanto da terra e, nessa hora meu coração te abraça. Posso dizer que o tempo não parou, pai, e o seu radinho de pilha intocável, a nos contar histórias e nos ligar ao mundo. Lá fora, o dia pinta diante de mim a cena que revivo e quase chego a sentir o cheiro de relva molhada, enquanto os animais se preparam para o dia que vem chegando.

Engraçado que a gente não manda nas lembranças e a vida acontece dentro delas. Sempre quando chove me lembro do cheiro da horta, onde colhíamos os legumes fresquinhos. Essa sensação é tão estranha que é como se eu estivesse com um livro aberto e as imagens aparecessem em minha frente.

Meu encanto pelos cavalos, as borboletas e aves é como se fosse um presente seu, em seu amor pela natureza e sua força diante do trabalho. Como nesse dia deixar de te escrever e dizer do meu amor, embora saiba disso sempre. Estamos marcados pela sua força e vontade de viver. A vida te deu momentos difíceis, mas a maneira de ainda cultivar a fé e levantar os olhos ao céu em agradecimento, é o mesmo sempre; e é com esse gesto que dedico minha oração a Deus.

Feliz Aniversário,

Daqui, de onde as lembranças me abraçam, te beijo

Mariana Gouveia
In Cadeados Abertos – Diário das Quatro Estações
pág. 171
Editora Scenarium Plural

Cadeados Abertos · Projeto Diário das quatro estações

Colhe-se leveza nos caminhos percorridos.

Uma brancura se estende e o infinito é logo ali…
me surpreende a vida do lugar… a maciez do toque, as cores misturadas e um horizonte todo para percorrer – onde o olho alcança há colheita ou plantação…
O dia, ao nascer, reserva sementes para logo se tornarem frutos, e os frutos, logo serão matéria-prima de algo para se construir... e assim, construo pontes rumo à minha história.

Mariana Gouveia
In Cadeados Abertos – Diário das Quatro Estações
Editora Scenarium Plural
pág. 15
*Campo de algodão depois da colheita – Interior de Mato Grosso