Cadeados Abertos · Projeto Diário das quatro estações

Nascimento

Nascimento

Vi a vida nascer do lado da cerca. Era uma explosão de amor nos olhos de quem paria.
Lembrei-me de quantas vidas vi nascer assim, ao pé dos olhos.
Bicho de asa, de voo, de bico, bicho que ama. Era quase uma magia pura ver nascerem as coisas. A flor que brota, o milho plantado. O bebê esperado.
Vi a graça de um sol que nascia. A lua que surge enchendo o céu com sua beleza.
Sou uma parteira de nascimento. De pegar na mão e chorar pela dom da vida de quem nasce. Seja gente, seja bicho, seja planta. Tudo que nasce me toca.
Nesse instante, Deus me faz um carinho na alma.

 

Mariana Gouveia
In Cadeados Abertos – Diário das Quatro Estações
Editora Scenarium Plural
pág. 25

Cadeados Abertos · Projeto Diário das quatro estações

Havia prenúncio de ave na chegada

Havia prenúncio de ave na chegada.

Os olhos comiam o dia amanhecendo. Alguém dava pinceladas de cores nas tintas. Verde em profusão de amor. Nos tons que ultrapassam cinquenta vezes mais do que os olhos podem contar.
Lembrou-se da aula de arte. Verde-água, verde-musgo, verde-bandeira, verde!
De repente, o inverno se desenha colorido. Pega a mala da saudade e ali guarda o instante. Ri. Logo ele aponta ali, mais ali.
Flashes que quando criança podia imitar.
Ousa repetir o gesto. Parada em um mesmo ponto. Se vendo ali, criança. Gesticulando sonhos. Ainda nem era tempo de chegadas e já murmurava alegria.
Bem ali, o dia acelerava a magia e era necessário viver.

 

Mariana Gouveia
In Cadeados Abertos – Diário das Quatro Estações
Editora Scenarium Plural
pág. 23