Corredores, Codinome Locura

a vida não era abandono de céu.

Alguém rompeu com a tranquilidade do ninho…
A árvore sofreu cortes nos galhos e o vento tratou de levar o que era lar.
Havia um quintal onde os grãos eram jogados e as frutas disputadas no telhado e só por isso, a vida não era abandono de céu.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Na folhinha é oitava de Natal.

Há apenas 3 folhas do calendário para serem arrancadas. Os verbos indefinidos conjugam o tempo no passado. Era ainda ontem, a vida. Era ontem aquele desejo – lembra? – a vontade de ser mais na vida de alguém. As regras sendo mudadas dentro do diagnóstico. Os corredores lentos e frios.

A casa sendo indicadora da rua de cima. De lá, o quintal é esse vão de janelas invisíveis. O vento sendo mensageiro de boas novas. Nasceu a vida ali no quintal.

A única regra da manhã é a ternura instalada nos ramos de maracujás silvestres.

Escrevia as rotinas sentindo a fragrância da flor. A rota da fuga sendo espaço onde atravesso a solidão em meio ao jardim. A flor já é oferenda do tempo.

Nunca é permitido os pés descalços na relva seca. As respostas surgem secas nas folhas em branco enquanto o vento arranca mais um dia da folhinha na parede.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Minha rua…

tem palmeiras onde canta o sabiá

Dizem que a gente nunca esquece a primeira vez… e eu ainda guardo na memória a primeira vez que pisei em Cuiabá. Eu tinha sete anos e minha mãe veio visitar a minha avó, logo depois da partida repentina do meu avô.

A cidade grande encheu meus olhos ainda dentro no ônibus, na rodoviária. Minhas mãos, grudadas nas da minha mãe dentro do táxi que nos levava ao endereço escrito no papel: Avenida São Sebastião, bairro Santa Helena.

O carro cruzou a principal avenida – Getúlio Vargas – ladeada de palmeiras, onde não se enxergava o fim delas.
– Será que elas tocam o céu, mãe? – digo isso, enquanto o motorista conta que aquela avenida era o cérebro de Cuiabá e mostra do lado o direito, o cinema, a fonte luminosa na praça, que no fim de tarde, já fazia sua dança de cores e logo mais acima, ficavam os bares, mas viramos antes. naquela noite, eu nem dormi. As novidades eram muitas e dentro dos meus sete anos conheci meus tios maternos pela primeira vez.

Um dos meus tios me levou de bicicleta mais uma vez, antes de irmos embora, de volta para nossa casa, na rua que tinha as palmeiras. Tão imponentes e altas que pensei que tocavam o céu. Ali, ouvi os sabiás, de cantos diferentes dos sabiás da fazenda.

Anos depois, mudei para Cuiabá. Parecia que a avenida me acolhia todas as vezes que passava por ela. Era como se ela recordasse daquela menina cheia de sonhos. As palmeiras ainda continuam ladeando a avenida como se a protegesse. E eu ainda ouço os sabiás e outros pássaros por ali e já não penso que o canto seja diferente dos pássaros da fazenda. Talvez, a menina se confundiu com o canto, diante da magia das copas das palmeiras que ainda tocam o céu.

Mariana Gouveia
Todas as ruas

Corredores, Codinome Locura

Adie o Natal que o menino ainda não nasceu!

Adie o Natal que o menino não nasceu”! Era sempre com essa frase que minha mãe acalmava nossa ansiedade na espera dos presentes.

Nasci em uma fazenda no interior de Goiás. E nossos natais tinham a magia do dezembro dos contos de fadas. Não tínhamos neve, nem nada tão sofisticado, mas tínhamos a essência da espera para que Jesus nascesse calmo, sereno e as coisas continuassem como tinha de ser.

Dezembro chegava sempre antecipado nos afazeres dos presentes. Não eram embrulhos coloridos e nem brilhantes. Sacolinhas feitas de saco de linhagem, que hoje ainda uso para artesanatos – feitos por nós mesmos – e os presentes variavam entre a colcha de retalho feita especialmente para cada um dos sete filhos, para as noites frias de junho e o paletó de flanela que tinha o mesmo intuito. Os brinquedos, nós mesmo fazíamos com ossos secos pegos no pasto, galhos de árvores e espigas de milho.

A magia do Natal acontecia em nós na construção do presépio – minha mãe era uma artista sem nunca ter estudado para isso – desde os bonecos feito da argila colhida na beira da represa ao capim dourado, a areia fina que ela coloria com tintas feitas de folhas e frutas que buscávamos no cerrado e a fusão das linhas feitas no tear e o saco de linhagem usado para ensacar os grãos da lavoura, usado para montar nosso presépio.

Colhíamos o algodão, tirávamos do caroço e acontecia a magia do capucho se transformar em linhas variadas, e logo depois, tecidos. Coloridos com açafrão, folhas de cebolas e cascas de madeira, que um dia ensino aqui como fazer.

Cada um em sua função de fazer isso ou aquilo. Minha mãe contava a história do nascimento de Jesus com cada detalhe que parecia que ela presenciara tudo. E embora todos os natais a mesma história fosse contada, sem mudar nada, em cada ano era como se fosse a primeira vez que ouvíamos.

O mais esperado era o nascimento do menino Jesus. A noite, sempre estrelada e ritmada pelo caminhar da estrela guia, andávamos entre o presépio se emocionando com a voz de minha mãe que desenhava nosso Natal.

Há 40 anos o Natal deixou de ser contado por ela. A fazenda ficou lá atrás, como num sonho, mas a magia do esperar que Jesus nasça ela conseguiu plantar em mim e em cada um dos meus irmãos. Vivo adiando Dezembro dentro de mim e tento fazer com que o Natal seja todo dia em tudo que faço e quando a ansiedade bate na porta, relembro a frase que ela dizia: “Adie o Natal que o menino não nasceu”, mas quando no dia seguinte, queríamos as sobras da ceia, ela nos lembrava que Natal era todo dia e que a cada manhã podíamos fazer o menino nascer dentro de nós.


Que o menino Jesus seja um eterno renascer em fé, bondade e esperança.

Feliz Natal!

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

A rua da padaria que vendia sonhos

e se chamava Hortênsias

Eu, por acaso, fui morar naquela rua, amparada por um amigo que nasceu no dia de Natal. Estava grávida do meu primeiro filho e Natalino me acolheu depois que tive de sair de casa. Não foi só ele… mas todos os familiares dele e amigos. A gente se conhecia da rádio. Natalino entregava os jornais em todas as ruas do bairro. Era um meio de aumentar a renda. Nos trombamos em uma dessas madrugadas atrás de notícias, nos idos anos 80.

Nos conhecemos na madrugada, enquanto eu e seu Lino – ainda vou escrever sobre isso – íamos para o trabalho. Seu Lino trabalhava no cemitério – o mais tradicional da cidade – e eu na Rádio A voz d’ Oeste que ficava na rua que fazia fundo com o cemitério. E Natalino entregava jornais nessa região e me acolheu quando me vi só, grávida e sem lugar para morar. Fui morar na Rua das Hortênsias. Em um quartinho acolhedor na Vila Jardim.

A casa ficava nessa vila, na Rua das Hortênsias. As ruas do bairro tinham nome de flores, mas aquela rua não só tinha o nome de flor, mas em toda sua extensão, canteiros de hortênsias brotavam. Assim, como brotavam em minha janela o pão, o leite quente com chocolate, as frutas e o amor em forma de bilhetes encorajadores de irmãs e irmãos de Natalino – sete, ao todo – e de toda proteção de dona. Zenaide – mãe dele.

Eu trabalhava em uma rádio e meu horário começava na madrugada. A padaria, na ponta da rua preparava os pães para o amanhecer. O cheiro me acompanhava desde quando abria o portão até cruzar a esquina, rua afora. E a pedido de Natalino, o dono suspendia a porta para que eu entrasse e tomasse o café da manhã.

O sabor do chocolate quente e o pão amanteigado me encorajava em todas as madrugadas para continuar. Mas, o que me motivava era o pacote com papel de pão que embrulhava um sonho. Desses recheados de creme. Em muitas madrugadas eu vomitava, os primeiros meses de gravidez foram difíceis, mas os últimos, foram de serenidade e o creme ganhava o doce sabor da amizade. Assim como as hortênsias que abriam seus botões no azul suave que continha o nome da rua, pela qual eu passava sem esperança – ou com toda ela na barriga.

A rua parecia desenhada em folhas de papel e seus personagens pareciam transvertidos em anjos. E se não fosse por isso, eu teria perdido todo o sentido de viver quando meu filho morreu poucas horas após o parto. Tive mãos acolhedoras, abraços apertados, companhias silenciosas e sonhos embrulhados em papel de pão;

A vida corre ligeira demais. O calendário ultrapassa o tempo. E a vida cobre o determinado tempo de se viver. Dias atrás, fui abraçar Natalino em sua perda maior – a da mãe – e a rua me acolheu como naqueles tempos de dores. Mas, naqueles dias, eu nunca estive sozinha. Eu sempre tinha um riso, um amparo, um ombro e mesmo quando não havia ninguém, por algum motivo, as flores me faziam companhia.

Hoje, lembrando disso, o cheiro do pão da madrugada me acolhe. O sonho recheado de creme tem o sabor da amizade. Dessa que dura mais de 38 anos. A Rua Hortênsias ainda existe. O quartinho que era meu, acolhe outra menina cheia de sonhos e a minha coragem de viver se mistura apenas com a gratidão que sinto pelas pessoas que o Universo coloca em minha vida.

Marina Gouveia
Todas as ruas

Corredores, Codinome Locura

A rua do excesso

onde a solidão se escondia antes do botequim.

A frase na tabuleta me dizia que eu podia passar – pelo menos era uma justificativa plausível para dar ao meu pai – pela rua proibida. Afinal de contas, eu não era perfeita e a rua era de todo mundo. A gente havia mudado a pouco tempo para a pequena cidade – cujo município eu e meus irmãos nascemos, para além da fazenda – e meu pai arrendou um pequeno bar.

O bar ficava na rua proibida porque logo antes de chegar nele entre uma esquina bifurcada ficava a “casa das primas” que era o nome que a gente ouvia de todos entre outros nomes como Casa da luz vermelha, ou como minha mãe dizia: a casa das mulheres de vida fácil e explicava que não sabia de onde o povo tirou essa frase, porque a vida delas não era nada fácil.

Para fugir dessa rua tínhamos de dar a volta em um quarteirão e meio, o que tornava o caminho muito mais longe e claro que nem sempre obedecíamos nossos pais e com toda curiosidade atiçada passávamos na rua da casa das meninas.

A dona era Valci – que muitos chamavam de Valcizona – e que tinha um dos risos mais lindos que pude ver. Um dia, para não atrasar ao levar o almoço do meu pai não dei a volta como era combinado com minha mãe e ao passar em frente a dita casa vi ela abrindo o portão. Os cabelos vermelhos me deixou impactada. A roupa florida esvoaçante e o riso que me deu ao dar de cara comigo, ali, parada.

Eu não entendia porque as pessoas que passavam pela rua faziam o sinal da cruz e de como ela reagia a isso. Quis aquele cabelo, quis reagir as coisas como ela reagia e quis muito rir igual a ela.

Tempos depois, quando caí de bicicleta bem em frente a casa dela fui socorrida por ela, que mandou alguém chamar meu pai. Com o joelho arranhado e a mão com entorse e fui levada para dentro. Ainda me lembro das cortinas esvoaçantes e do chá oferecido enquanto eu enxugava as lágrimas. Por um momento eu esqueci a dor e me vi rodeada de várias mulheres. Embora, não entendesse realmente o que acontecia ali eu vibrei pela minha aventura.

Quando meu pai chegou ela nos acompanhou até a casa, mesmo com meu pai sendo contra. Minha mãe já nos esperava na porta e ofereceu um café, como agradecimento, afinal, ela era cliente do bar também e seria uma desfeita. Virei o centro das atenções quando ela macerou umas ervas e colocou em volta de minha mão e os olhares dos meus irmãos mostravam toda curiosidade sobre o que eu tinha vivido.

A partir daquele dia, ao passar pela rua – que já não era mais proibida para mim – ela me acenava com um sorriso e eu correspondia, com o coração aos pulos, jurando que um dia eu ainda pintaria meus cabelos de vermelho. E pintei… mas isso, é outra história.

Mariana Gouveia
Todas as ruas

Corredores, Codinome Locura

Foi uma rua…

que passou em minha vida.

A rua se chamava Liberdade e até hoje tenho na memória os momentos que vivi ali. Eu tinha 12 anos e na Rua Liberdade tinha um cinema que tocava músicas o dia inteiro. A gente veio morar ali por acaso, depois de mudarmos da fazenda.

Foi a primeira vez que vimos televisão e através da janela da vizinha – até o bom humor dela durar e fechar a janela bruscamente, e isso, acontecia muitas vezes – e a novela era Locomotivas. A trilha sonora da novela tocava no cinema da minha rua, alternando entre Diana, Porque brigamos, Odair José e seu Pare de tomar a pílula e Caetano com Sem lenço e sem documento.

Quando acabava a novela – ou D. Vilma, a vizinha, fechava a janela – a gente brincava de esconde-esconde, bete e de contar histórias. A calçada alta em frente da casa era o ponto de encontro. Eu sonhava com as histórias que o cinema contava. Via os casais passarem por nós comentando sobre um romance ou comédia. E havia os dias em o matinê acontecia, mas com sete filhos, minha mãe não podia pagara para todos irem.

Na rua morava um policial e muitas vezes ele nos contava histórias dos bandidos que ele prendia. Nessas noites eu não dormia. Me encolhia toda embaixo do lençol e encostava em minha irmã mais velha, já que eu dormia com ela. Qualquer barulho era motivo para o grito e eu acordava a casa inteira.

Nas tardes mornas, descobrimos o picolé minissaia – um picolé colorido com sabores de duas ou três frutas – que levava nossa mesada toda em uma semana. O picolezeiro era o Sebastião, que vendia picolés e doces para ajudar a mãe e os oito irmãos. Ele aproveitava a venda para brincar com a gente.

Ainda me lembro do sabor e de como dividíamos os picolés através de mordidas e repartíamos abraços. Sorríamos o tempo todo. Não havia uma razão para alegria, mas a gente sentia ela no sabor do picolé, na boa vontade da vizinha que, às vezes, esquecia de fechar a janela e a gente podia ver um episódio inteiro da novela, nas canções que tocavam no cinema e nas brincadeiras com as crianças da rua.

Foi ali que nossos cabelos foram cortados por causa do piolho e foi também onde minha irmã mais velha foi morar depois de casada. Eu quero muito continuar lembrando disso. Das coisas que me lembro e me fizeram ser o que sou hoje, Do cheiro das comidas das vizinhas, do riso guardado do policial que virou meu padrinho depois, do pé quebrado depois que caí da calçada alta, dos dias passados no hospital recebendo visitas dos meninos e ganhando picolé minissaia de graça do Sebastião e da rua que se chamava Liberdade.

Mariana Gouveia
Todas as ruas

Corredores, Codinome Locura

Em todas as ruas,

me perco…

A primeira rua que tracei sob meus olhos era na verdade uma estradinha, logo para além da floresta de bambus. Para mim, era a rua que dava para a prainha, aonde a gente colhia areia para arear os alumínios da cozinha.

Eu e meus irmãos seguiam minha mãe com os sacos de pano para trazer a areia, que dava para os quinze dias que ela mesmo definia. As margens do riozinho que circulava a floresta produzia uma areia tão branca e fina. A minha mãe tratava aquele lugar como se fosse o paraíso e parecia mesmo uma rua na beira do rio.

As panelas, mesmo depois de usadas no fogão a lenha ficavam brilhando na prateleira de madeira, com os forros bordados por ela. No dia da faxina, cada uma das filhas cuidava de uma tarefa predeterminada. A areia, tratada quase como um tesouro era colocada em um pote e as louças iam ganhando brilho.

Talvez seja um dos lugares que mais sinto falta. Era lindo passar pela floresta de bambu e dar de cara com o rio e sua areia branca estendida como se abraçasse a água.

Depois disso, outras ruas me abraçaram e em quase todas elas me perdi, de uma maneira ou de outra,

Mariana Gouveia
Todas as ruas

Corredores, Codinome Locura

Ausência… seu nome é quando?

Ph: Tumblr

Era essa a maneira de nos encontrarmos.
A fluidez do líquido – e a água – nas histórias contadas.

A parte do humano quase real – os ossos, a pele – ardendo em febre e a solidez do dia.

A colheita sendo parte da história. A moça de branco na ligação que não atendi. O diagnóstico mudado no envelope.

Era o amanhecer um dia típico. como a selva nas palavras que li e o jardim transversal era uma coragem dentro do medo.

Na ponta da unha, a cor. O carmim a exalar essências quando o sangue é tudo rubro.

Ausência… seu nome é quando?
A tatuagem invisível entre a primavera e outra estação.

Meu medo estampado nos tecidos da cortina e a rua de cima feita de silêncios.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Vácuo

Depois das perdas o corpo ganhou ares de memória. Seu nome apareceu nas lembranças e repeti o ritual de todo dia… Café, oração, café, busca, café, jardim, café, asas e só daí sigo o caminho rumo à rua de cima.

Enquanto atravesso a madrugada-quase manhã tento lembrar onde te perdi. Em que vácuo da vida você escapou?

Respiro enquanto corro para alcançar o ônibus e as lembranças ficam nas asas do quintal e na singeleza da rua de cima.

Depois das perdas, as lembranças se tornam apenas lembranças… Afinal, o dia é feito para viver.

Mariana Gouveia