Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Das lembranças das cartas

A previsão se corrompeu com o tempo. Havia uma nuvem de poeira dentro do vento. Solitária, a ave que trazia nas asas a lenda de agouro tinha o abismo do amanhã dentro dos olhos. Era a estação das flores misturadas dentro de outra estação. Relembrou histórias da infância. Viajou nos dias e suspirou. Era criança e ouvia a mãe contar sobre os telegramas que chegavam, logo depois que avistavam a ave no tronco de madeira da porteira, no telhado… Tudo era culpa da ave – coitada – que apenas cumpria seu destino de voar. Acontecia de que, por acaso, o aparecimento da ave se dar por ocasião dessas notícias ruins que o carteiro trazia num envelope estranho, diferente dos normais. A notícia da morte do avô veio em um desses que trazia códigos e letras e depois disso, a mãe viveu em luto por anos a fio. A perda do tio querido e o acidente que levara a vida de pessoas que ela nem conhecia – e a mãe amava – por isso se trancou no quarto e começou a maldizer a ave, que estivera pela manhã por ali. Para ela, a culpa era do carteiro que surgia na estradinha que fazia curva ao lado do rio, com sua farda amarela e azul. Pensou em escrever uma carta pedindo para que ele não trouxesse mais esses envelopes, fora das cartas que aguardava com a ansiedade de quem esperava uma vida. Hoje, lembrou -se do agouro da ave, logo quando, por fim, o ônibus e sua curva lhe fizeram ver a ave posta, solitária. O olho atento ao que nem era exato. O sangue a fluir dentro da veia.  Relembrou as estações misturadas dentro do dia. A urbanidade dos pássaros que logo pela manhã cantam no telhado das casas vizinhas e nos envelopes dos telegramas que nunca mais viu. E no olhar da menina que a fixou com o olhar de espanto e a chamou de bruxa.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Carta para Esther aos cuidados de domingo

Esther querida,

domingo para mim é feito de silêncio – interno, eu diria – mas, se eu te dissesse que o quintal é um alvoroço só você iria rir, eu sei. Mas, eu consigo ouvir o bater das asas das borboletas ou as asas de Chiquinho chamando por mim.

Nos domingos, eu deixo de lado as agulhas, as linhas, as canetas e vou tirar as ervas daninhas dos vasos, dos canteiros e eu sei que tudo dói na flor que seca, mas é natural que seja assim.

Essa é a primeira das muitas cartas que quero te escrever, Esther e já vou dizendo que também sinto saudades de tudo que não vivemos, que não fizemos e das cartas que ainda não te escrevi. Mas, eu sinto que sua mão me chega nesses dias difíceis. Foi um afago saber que também sente saudades de mim… e daí, a gente fica pensando de onde, de quando e como… Você sabe que nem tudo tem respostas, né?

Mas é domingo, Esther e eu já deixei de ir na missa faz tempo. Houve um tempo em que as minhas manhãs eram dedicadas às orações… nunca mais fui desde o dia em que a igreja fechou as portas para mim, em um dia que precisei de amparo e nem era dia de missa. Depois disso, passei a orar no quintal, a usar desvios para chegar ao universo pleno. Passei a reverenciar o pleno das asas que pousam em minha mão, a ouvir os cantos do pássaros e a ficar em silêncio aos domingos.

Sabe, Esther, tem domingos que aqui é pura gritaria… tanto no interno de mim quanto no pé de ipê onde um casal de bem-te-vi fez um ninho. Isso para mim virou quase um santuário… também há os barulhos dos meninos da redondeza. Parece que todos vêm brincar na minha rua. Ás vezes, eu até gosto disso. Ouvir os gritos, a correria atrás de uma pipa, a bola batendo forte no muro e vez ou outra, o chamado do meu nome para devolvê-la quando cai no quintal.

Mas em outros domingos, eu quero silêncio de voz e de sons. Fico em reverência com as ervas ou um livro que me leva para viagens além de mim. Sei que você também deve ser assim. Talvez seja por isso que nossas saudades se unem em torno desse carinho de outrora e que não sabemos de quando. Como eu disse antes, tem coisas que não têm explicações. E nem precisamos delas. Basta sentirmos e pronto.

Por aqui, o barulho que ecoa são dos trovões que é um dos sons que me fascina, e já sei que em poucos minutos os pingos da chuva que se aproxima me tocará como se fosse uma melodia. O vento já traz os primeiros sinais em gotículas que fazem com que o petricor – o cheiro da chuva – exale em meu quintal e eu me despeço com um abraço carinhoso.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Carta para Luci aos cuidados das árvores

Querida Luci,

Hoje eu vim responder seu puxado de assunto sobre árvores. Aqui choveu o dia inteiro… aliás, desde ontem chove e o rio que corta minha cidade ao meio está a ponto de esparramar água ruas afora. São quase doze horas de chuva ininterrupta.

As árvores do meu lugar fazem festa… tem até pé de manga dando flor. Da porta da sala onde trabalho vejo as manguinhas se formando. São temporãs, eu sei…Mas essa água benta que cai favorece algumas a se manter em pé, florir, dar frutos e outras até cair, Luci.

Nos meus arredores não caiu nenhuma… mas foram derrubadas. – e isso é pior do que cair porque já cumpriu sua missão de árvore –
Aqui, derrubaram em nome de um progresso que nem veio. Falaram que iam construir o VLT, Luci e levaram centenas dos meus ipês que coloriam as ruas com suas cores para o lixo.

As ruas hoje, estão peladas de árvores. E não há também o tal VLT. Mas ainda há alguns lugares onde elas exalam a singeleza pura da natureza.

Ali, eu me faço descalça e peço a permissão para o abraço. Há o ipê rosa, o branco e o amarelo dourado… além do roxinho do araçá e a magnitude dos flamboyants.

Não sei se o tempo de uma figueira para renascer de novo. Sei que o cedro demora anos. Lembro até a canção que meu pai cantava quando ia campear o gado.

As árvores cumprem uma missão, Luci…A sua também teve. E assim, vamos seguindo catando sombras que tão gentilmente nos dão. As flores e algumas, a cura em forma de folhas e raízes.

Todos os dias, quando o ônibus me leva rumo a mais um dia de trabalho, eu ainda busco as que existiam por aqui. E faço como você, olho para o canto e as vejo – ou imagino – e ali, acato o céu em seu rumor de asas e sigo.

Dia após dia.

Beijo, Luci
Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Acho que gosto de São Paulo…

A primeira vez que fui em São Paulo foi em 2005. Fui participar de um evento e fiquei poucas horas. Vi São Paulo de relance, entre os vidros da janela do ônibus e não foi amor à primeira vista.

Em 2015, quando vi São Paulo do alto eu apaixonei. Eu ficaria horas vendo aquela imensidão e vi São Paulo com olhos de paixão. A cidade me acolheu e me fez sentir em casa e fui guiada pelas ruas e calçadas como se fosse um primeiro amor.

Fui acolhida como se já tivessem me esperando, com mesa posta, sorriso largo e abraço aconchegante. As ruas eram extensões do meu quintal e as pessoas sabiam-me em amor. Me vi dentro das canções que retratam a cidade e vivi as melhores emoções nas noites da cidade.

Voltei mais vezes – algumas até – e revivi tudo de novo e o amor e a intimidade foi aumentando. Eu amo a cidade pensando nas pessoas que enfeitam meu olhar pelo ângulo dessa imensidão que é São Paulo.

469 anos e São Paulo vive suas contradições e seus afetos e sei que muitas outras vezes, vou olhar a cidade do alto, de perto, de pé no chão, nas ruas e no coração dos que amo e vou voltar como se nunca tivesse partido.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

tua voz há de ecoar eu te amo como quem sonha

Ph: Tumblr

Nascia uma árvore no quintal. Abracei o vento como quem dança valsa na vida. Os pés alados atravessam o oceano a nado. O corpo, essa sede de toque, quase súplica para o desejo. Apenas o resquício de uma vontade que já foi. Pedindo voz para dentro do beijo. Alguém me disse que o amor nascia hoje, pelo riso dado e as declarações feitas. Lembrei-me da diferença da estação. A meteorologia e sua fúria em errar as previsões. As palavras do dia – lá, naquele passado estranho – revividas em contagem regressiva para desejar o amor e tua voz há de ecoar eu te amo como quem sonha e minha delicadeza comerá ternura dentro dessas palavras. Nascia a sorte nas cartas lidas, nos símbolos onde o coração foi rabiscado nas paredes tortas, nos trevos de três folhas mesmo com uma joaninha a dançar na folha. Quando os poros irreconciliáveis, com a pele que implora toque no braço que se abraça e a distância dita – quase nenhuma – entre o som do riso e a voz. Dentro da curva da noite, a chuva – na gota – coincidência do nada entre o nascer do amor aconteceu o mar.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Floreia

Ph: Ziqian Liu

Havia jeito de asa para o lado do Sul
a maré previu a fase da lua
e a maresia invadiu meu quintal

eu era só teu olho diante da janela
a tarde tinha a brisa

tinha gesto

Guardei o meu amor em palavras

escrevi seu endereço no voo do pássaro
e seu nome foi jogado no céu antes que as estrelas acordassem.

Havia gestos de flores no quintal. O cão latia para o riso das crianças.
Era assim a vida na docilidade das coisas.

Mariana Gouveia
dos Rituais da maresia

Corredores, Codinome Locura

Dei-lhe o nome de flor

Chamava ela pelo nome e docemente ela respondia.
Trazia sorrisos, às vezes, quando me atendia. Quase nunca o coração.
Não sabia extrapolar as coisas – dizia –
era feita de matéria perene, ela – a que eu criei.
Nos meus sonhos vinha feito névoa.
Me tocava com a maciez das nuvens e eu era etérea. A felicidade cabia tudo dentro de mim.
Dei-lhe o perfume do nome. O toque das pétalas. Dormia sobre ela. Por ela
e quando amanhecia eu dançava para ela, chovesse ou fizesse sol e regava as sementes que enviou para o jardim.
Um dia, chamei seu nome. E não veio riso, nem coração. Não veio nada.
O eco vagou pelos quartos todos. Visitou gavetas. Bateu janelas e ela não estava.
A montanha onde venta ecoou em resposta do meu grito.
Procurei-a nos lugares, e feito névoa se dissipou.
Eu, que buscava minha lucidez perdi de vez.
Endoideci. Ainda assim a chamava. Ora com a calma do amor,
ora com a tirania dos amantes. Com a raiva de quem endoideceu de amor.
Não veio mais. Nem em sonho.
Desde então, nas madrugadas vazias vago pelas ruas, nua. Coberta apenas com a flor que ela me plantou, com o riso de doida no olhar, cantando o nome dela como se fosse canção.

Quando o sol sai. Volto ao normal. Se bem, que sem ela nunca sei o que é normal.

Mariana Gouveia
*imagem: Anna O.

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Em algum lugar além do arco-íris

Luci,

Eu também vi um arco-íris hoje… ainda era manhã chegando e ele engoliu a casa da vizinha num gesto de abraço. Sorri quando vi a cena e quis registrar. Depois, caiu uma garoa miúda e a chuva se foi. Ficou nas trepadeiras as gotas como se fosse um colar de contas.

Eu vi o dia passar leve dentro do segundo dia do ano. Brinquei com o estuque do muro e lembrei-me do seu pai na época em que ele não queria comer. Depois, procurei por nuvens que talvez te servissem de estimação e no fim do dia eu queria te contar uma história bonita…

Vi as aves retornando aos seus umbrais, os cães se estranhando por causa de uma bolinha e a magia do casulo se fechando…

Tinha ainda tanta coisa que eu queria te falar, mas o que ficou em mim nesse dia é o arco-íris abraçando a casa da vizinha.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Do dia diferente dos outros dias

Retirei a tipoia do braço na ânsia de escrever. O vento lembrou Berlim em uma época que não estive por lá. Havia margaridas alimentando insetos com seus polens. O último dia que antecede ao primeiro. As janelas dão vistas para a lateral da canção. Um ciclo se encerra e outro começa.

Rabisquei à lápis o nome das cidades que nunca visitei.

Eu adoraria andar descalça pelas ruas de Paris. Em Lisboa, conheceria a voz dentro dos fados… pelas vielas e ficaria em silêncio reverenciando os arrozais da China.

Lembrei-me de que tinha visto em algum lugar, as vilas coloridas e suas casinhas brancas, com gerânios florindo nas janelas. Parecia uma pintura feita pela irmã, que sabia mexer com tintas desde pequena. Fiquei em dúvida se era verdade ou apenas poesia para acalmar a minha alma e afastar a solidão de um dia grande.

O pai incutiu-me a ideia de reverenciar os dias grandes e eu decidir que iria seguir os rituais aprendidos na infância. E, muito embora, soubesse se tratar de uma superstição, segui rigorosamente cada um.

E eu resolvi deixar de lado os dias pequenos e por isso alcancei a soma… e as palavras dentro dos dias, das cartas. Vibrei na estação das águas e me renovei nos dias aleatórios de abril. Vivi cada um dos momentos e fui narrando num sem fôlego. Conheci a autonomia dos voos e senti as impressões do dia seguinte — que era nada mais do que o

agora. Entre uma estação e a primavera, me coube nas infinitudes das coisas. Tudo tão mágico e grande. Tudo tão pequeno. Dentro dos verbos indefinidos ousei viver… mesmo quando o diagnóstico dizia o contrário. A vida é logo ali. Cada dia é um dia grande para viver. E o desafio foi cumprido. Somente um dia, em todos esses dias se resumiu em umas poucas palavras. Os próximos dias serão de dias grandes! Faça valer a pena!

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

O novo ano é logo ali.

O céu amanheceu colorido e a rua de cima sente a falta de quem se foi. Nas esquinas, o homem da reciclagem recita poemas de amor e recolhe as garrafas e latas da festa de alguém.

Soube de quem partiu por ele e de quem vai voltar. Soube da lua que será cheia hoje e de júpiter com seus domínios fechados com a lua em caranguejo e de como tirar as agruras lavando os pés com a água quente do sol e sal grosso. O novo ano é logo ali. Dia de limpar a mente.

Mariana Gouveia