
se não era para nascer de semente
então, ela resolveu nascer de cor.
Mariana Gouveia.
Porque o melhor lado é o dentro

De todas as sortes que tive, havia sempre um professor(a) que estava comigo. Até quando eu pensava que chorava dores de amor, tive uma voz, um amparo, uma seta que me indicava o caminho.
Tive e tenho mestres que são mais do que mestres. São amigos que por fim, me orientam e ensinam a fé, perseverança, esperança, equilíbrio e coragem.
Muitos me ensinaram as letras, adjetivos, e tantas coisas que vão além do plano educacional. Mas, também aprendi que a educação transforma e que os professores vão muito mais do que uma profissão… Ser professor é uma missão e nos tempos atuais, é uma guerra. E vão à luta todos os dias, mesmo com todas as adversidades que uma guerra apresenta…
Hoje, vocês, professores, são mais importantes do que nunca.
Muito obrigada por tudo!
Mariana Gouveia
Ph: Pinterest
Repeti nelas o episódio do dia.
O pássaro de todo dia a vasculhar momentos no quintal.
O vento traz a brisa mansa.
Desenho rotinas dentro da memória.
Fotógrafo a ave que te falei para que fique registrado.
Algumas das cartas rasguei, sem colocar no envelope.
O sol colore o céu com suas nuances de laranja.
Chamei seu nome mil vezes ao anoitecer.
Cabia saudade dentro da palavra falta.
Mariana Gouveia
Eu, aos quatro anos na floresta encantada, andando com meu pai vendo um bezerro nascer, a comer uma fruta do conde e a olhar para a minha mãe, tão suave parecendo moldura de quadro, na janela da casa a sorrir.
Eu aos seis anos, com uma boneca de pano rasgada, a perguntar à minha mãe se ela morreu e se vai para o céu como os tios que já morreram.
Eu aos nove anos, com um cogumelo na mão entrava pela primeira vez na floresta adentro, cortei o dedo com o canivete e meu sangue se misturou à terra vermelha e fui batizada pela natureza, é o meu aniversário, estou feliz e as velas do bolo eram as estrelas no céu, e meu pedido era de que a poesia em que eu vivia preenchesse minha vida até o fim dos dias.
Eu aos treze anos sentindo a brisa no rosto, o sol do outono queimava a pele quase numa caricia, havia lido cartas de amor e sentia um fio de sangue quente e a voz da minha mãe a dizer-me que é assim mesmo, filha, agora já és uma mulher.
Eu aos quinze ano era coroada rainha da festa da cidade onde nasci, vestia o vestido bordado por uma fada e todos os olhares me fazia querer fugir e eu sem saber o que fazer. Via meu mundo mudar e a mãe ir para onde os tios já haviam ido e perguntava onde está minha boneca de pano e o cheiro da floresta e meu esconderijo de criança?
Eu aos vinte e um anos, recém-casada, a perceber que a vida real não era o conto de fadas, os pés inchados e a chuva súbita… um filho a crescer dentro de mim e a morte a tomar e eu a me perguntar se minha mãe o recolhia e cuidava dele pra mim.
Eu aos vinte e três anos mãe, a respirar comigo um menino que tinha olhos brilhantes e me fazia acreditar que havia um céu na terra.
Eu aos trinta anos num automóvel, morria de medo de dirigir e enquanto corria por medo de perder o ônibus a minha vida corria comigo, tal e qual como dizem que acontece a quem morre de repente ou ver um rio na tua frente e não sei nadar. Sinto o vento na cara, escrevo algo na janela, respiro e escrevo poesias…
(eu ainda escrevo poesias).
Eu, aos 43 anos descubro uma dimensão onde ela vive e passo a viver do mesmo ar e da mesma sintonia, me derramo em poesias e percebo que pra ser feliz é preciso pouco.
Eu, aos 46 anos volto ao mesmo lugar de antes, o lugar das poesias que revisitam meus sonhos e vejo que é o mesmo amor e há certa fascinação pelo abismo que é onde estou de pés no chão, prontos pra voar.
(e eu ainda escrevo poesias) …
Eu, aos 48 anos reparo que as rugas redesenham meu rosto e que alguma coisa sempre dói quando me levanto. Ainda não tenho netos. Visito a floresta de vez em quando. Vasculho as flores em busca de vidas mínimas, descubro que gosto mais de mim agora.
(eu ainda escrevo poesias, mas que para isso preciso de encantos).
Eu, aos 57 anos, ainda tenho muitas perguntas sem respostas – também tenho muitas respostas para algumas perguntas. Ganhei uma neta e um neto de coração. Ainda me encanto com as vidas miúdas, ainda sou dominada pelos animais.
(e ainda escrevo poesia – mesmo que o encanto não seja o ponto principal.)
Mais do que escrever poesias, já tenho 6 livros publicados. Ainda enfeito as tranças com fitas de veludo laranja – embora de cabelos bem curtos – a menina que habita dentro de mim.
Mariana Gouveia
Querida Maria,
Como vai? A leveza de sua liberdade te leva livre, com o riso no rosto pelos caminhos que percorre? Espero que sim… eu quero saber de você e também preciso entender como ignora a tarja exposta sobre meu país…
Se bem que hoje… eu prefiro não perguntar sobre o tempo… que é esse menino fujão a nos roubar a razão. O tempo é esse voo rasante na soleira dos dias, onde o horóscopo assombra o decanato dentro do ascendente que atravessou o dia em que meu país errou feio, perante o mundo — e eu, que simpatizava com astrologia —, me desencantei.
Eu vi no cartum do jornal do dia, bem no meio da página, a sua pergunta — “você votou em quem?” — e colhi o seu espanto diante de minha resposta, que foi cercada de outras perguntas.
Logo você, que possuía todas as probabilidades de ser afetada pelos gestos de um futuro governo inconsequente. Falei sobre o que acredito. Da liberdade que grita em minha pele e que vejo nos olhos de amigos, que sofrem todos os dias na rua. Maldita indiferença, intolerância, desrespeito que marca muros e calçadas das cidades desse país, tão cheio de fronteiras e divisas.
Se eu te contar que minha posição é ideológica, será uma mentira. A ideologia estampou minhas camisetas em uma adolescência que não vivi e cantava no meu jeans rasgado e no Karaokê: “ideologia, eu quero uma pra viver”. E você queria me ver ideológica aos 40?… depois aos 50? Impossível… tudo se quebrou diante dos mitos falsos… eu sei o nome de todos que surgirão ao longo dos anos desde o nascimento.
Não, Maria! A ideologia é apenas mais um cartaz exposto nas estações e nos muros pichados. Deixou de ser a frase de camisetas de pessoas rebeldes — como eu fui nesse antigamente, que ninguém se lembra.
Não pude fazer grande coisa, o medo tornou-se real e a afronta diária.
Hoje, no entanto, o meu medo tornou-se aliado do existir e com isso (r)eeinvento uma cidadã, que achei e não pensei existir ainda. Sou a própria resistência e indecência… a própria (r)existência dentro de um Sistema… e é como estar a bordo de um trem, que me renova a cada parada ou obstáculo. Não luto por mim e nem vou às reuniões no meio da noite pela minha paz. É pelos que amo que saio de casa. É por estranhos que insisto.
A tua visão de cidadã do mundo podia ser pragmática diante do que a imprensa de meu país espalha e justo eu que adoro as notícias, me vejo boicotando-as. Pior, duvido de tudo que leio e me espanto no que ouço-vejo nas pessoas, essa fé cega, essa esperança de futuro.
Portanto, Maria, a mudança está acontecendo aqui, ao meu lado… logo mais adiante, em um bairro distante… noutra rua-casa. No meu país e talvez eu não seja afetada pelas manobras do governo atual. Talvez muitos não sejam. Mas sei que alguma pessoa, em algum lugar, será… e por isso cumpro meu estado de (r) Existir. Preciso ser forte e seguir adiante, com a minha luta diária, que é a mesma luta de muitos.
#ninguémsoltaamãodeninguém #elenão #Lulalá!
Beijo,
Mariana Gouveia
O gato no telhado arrisca entre os pulos dos cães. Ostentou a palavra solidão na amplitude da tarde.
O pássaro vagueia entre o roubo da fruta ou a água do beija-flor. Reencontro o poema perdido na gaveta das linhas. O céu anuncia uma tempestade junto com o vento e seus trovões que me lembra alguém. Descubro o desencanto na pergunta perdida. O quintal é esse portal aberto para o nada.
Mariana Gouveia
Meu caro Obdúlio,
Já te contei várias vezes sobre meu lugar… acho até que você conhece as rotas e os meus desvios. Mas hoje, te pego pela mão e vou te mostrar logo aqui, a 100 km o meu Pantanal.
Deixa o seu coração se apaixonar pelas paisagens que vou te mostrar. A entrada se dá por Poconé, uma cidadezinha típica do interior – mas com tantas riquezas culturais como o cururu e siriri, a cavalhada e a apresentação dos mascarados. Uma tradição secular por essas bandas.
Sabe, moço, uma das tradições desse povo é a fé. Está por todo canto estampada… seja nas festas de Santo – a de São Sebastião é a mais tradicional – ou nas igrejas centenárias, como a igreja do Menino Jesus, datada de 1922.
Só delas eu falaria por dias… mas essa missiva tem o dever de te mostrar o Pantanal por meio de suas paisagens bonitas, conhecidas no mundo todo. Por isso, vou ser mais poética e te mostrar sob meus olhos a maneira que vejo essa biodiversidade fantástica. Já adianto que vai faltar espaço.
Os ipês nessa época se vestem para a festa e transforma o lugar em um jardim tridimensional. É lindo de ver!
E o pôr do sol, moço… é de encantar ou se apaixonar – você escolhe – e as aves fazem a festa nessa hora… Os tuiuius, gaviões, garças, as freirinhas, os papagaios e as araras são um show à parte. Não vou conseguir colocar todas as fotos…. Vamos deixar isso para quando você vier ver de perto.
E os jacarés, que vi de tão pertinho que podia tocá-los, assim como a cobra – para susto e desespero do meu marido – na beira da estrada.
Vi de pertinho uma comitiva e a boiada – foi como estar na novela, arraaaa – atravessando na margem de um rio quase seco de tanto que o homem devastou por aqui.
Na verdade, moço, somos nós que fazemos mal para a natureza… mas, como eu só queria te mostrar pelos olhos do encanto meu lugar, finalizo com a imagem que me fez falar uau. Sei que vou ficar devendo mais paisagens, mas quem sabe, um dia posso te mostrar pessoalmente.
Abraço carinhoso,
Mariana Gouveia
Missivas de Setembro
Scenarium Livros Artesanais
Estão junto comigo nesse projeto
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins

Rose,
Quando você me deu essa rosa, era de um rosa mais rosa. Eu comemorava um aniversário e você, mais uma vez, com todo amor que lhe cabe, quis povoar meu jardim.
Com o tempo, o rosa foi purificando e a rosa se tornou multicor… Quase branca.
Hoje, o aniversário é seu e eu poderia dizer sobre tudo que vivemos… Nem vou dizer o tempo que vivemos, porque, por mais que eu escreva sobre… você é em mim, de tanto tempo que só digo que existo sempre em você.
Assim como a rosa mudou o tom, enfrentou diversidades, a gente também mudou. Depois de quase dois anos sem te ver, mas nesse mesmo tempo sendo presença uma na outra, pude te abraçar e sabe, parece que nunca nos separamos… O riso, a cumplicidade, o amor ultrapassam esse tal de calendário.
O meu desejo é o mesmo de quando te dei o primeiro abraço e parecia que eu já te conhecia de muito antes.
Que você seja feliz e eu vou estar aqui sempre, nos dias bons e ruins… Sendo guia ou apoiadora.
Te amo infinito
PS: tem certeza de que a rosa era mesmo rosa? Porque o que impera em meu amor e coração é tu, Rose.
Feliz aniversário!
Mariana Gouveia
era uma vez, o tempo
esse oco de horas medidas em segundos
depois, houve o vento,
ecoando dados em corações que doem
o tic tac do tempo que não veio
e a ideia de que o mar
corria para o rio
esse oceano seco
de terra exposta
de mesa posta
a comida fresca
a alma perdida
eu, o peixe doce
para o seu mar salgado
sirva-se
– me –
Mariana Gouveia
Ph: Tumblr
Minha irmã querida,
Às vezes, me pego revirando as lembranças… lá dentro delas está você e seu jeito único na dimensão do amor… e confesso que nesse tanto de tempo que já vivi, conheci poucas pessoas com um amor tão grande pelos outros como você.
Não me lembro de você que não seja sendo mão, amparo, equilíbrio, conforto, cuidadora e vó… sua melhor versão, toda derretida e com o amor derramando nos olhos. E sua voz sendo prece é sempre a certeza de que as coisas vão melhorar, vão acontecer e tudo ficará bem.
Se eu soubesse desenhar dentro dos dias seria a figura de mãe, de amiga, de irmã, de vó que eu pintaria e seria o quadro mais perfeito. Seu olhar encontra o outro e sempre enxerga a melhor versão e mesmo quando tudo parece perdido, o seu sorriso evoca a confiança que as pessoas precisam para acreditar.
No seu dia, essa carta é apenas um carinho para você que me oferece suporte em todas as horas em que perco a fé, em que me desanimo… Você sempre está lá, de abraço terno e coração amoroso me indicando a coragem para seguir.
Que tudo isso que você transmite, seja vivificado em você todos os dias.
Feliz Aniversário!
Te amo muito
Mariana Gouveia