Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Beda – azul de qualquer céu.

O barulho do envelope rasgando apenas insinua a expectativa das letras. Havia um perfume entre as palavras.

As pedrinhas quase imperceptíveis acariciavam as mãos.

– Vê? Toque a areia do mar! E assim ela me trazia a maresia e seus arredores.

Dias depois, as folhinhas das árvores do Central Park viriam desenhar a estação dentro dos meus dias.

Depois, os bordados de Guimarães a caber vontades e a areia do deserto.

Relatou a neve, a chuva e os dias longos dentro do quarto.

A sala de aula na faculdade do sonho. O sabor da paella a evaporar caminhos.

Santiago foi dominado sozinha por ela. Acho que ela fingia lugares pisados, gramas mais verdes que os olhos dela podiam prever. Amores estranhos que eram personagens reais dentro da história dela.
Detalhava os ruídos das ruas. A cor dos carros. O vento a derrubar as violetas na janela.

O lenço com poema bordado. O ” pensei em você” era engraçado diante de coisas simples ou encantadoras. A rosa que nascia na casa vizinha. A cor do batom.

Eu, apenas podia desenhar os dias por aqui, O azul do céu. O azul dos dias e o azul dos bichos…Ela somente ria – bicho azul, tirando passarinho…nunca vi – e o sol em seu estranho jeito de ser no meu lugar.

As palavras dela desenhavam rotinas no meu dia e meu dia desenhava cores nos dias dela.
Há que estalar os dedos diante da vida. Essa é a mágica diante do redemoinho dos dias.

Mariana Gouveia
Das palavras das cartas
Agosto é o mês de céu azul e de Beda.
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – 
Suzana Martins – Roseli Pedroso
Fotografia: Ines Kosic

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Beda – Carta para a menina nuvem

Versos. Rimas.
Palavras distraídas.
Submersa. Dispersa.
Um poema rasgado
despedindo-se do papel.
Suzana Martins

Minha menina nuvem,

Confesso que nem me lembro quando comecei a gostar de você, mas sei que quando percebi já estava cheia de carinho e te nomeei minha menina nuvem. Depois disso, já tomei posse dessa amizade e cá estou eu a te escrever.

Sabe, Su, desde menina fui-sou apaixonada por nuvens. Você precisa ver o céu do meu lugar! Eu fico horas olhando para ele e dependendo do dia vejo figuras que parecem saídas de um livro… já vi asas de anjo, corações, nomes, palavras de cartas e letras. Vai me dizer que o céu não quis escrever seu nome aí?

E hoje, Su… o céu desenhou o S como se fosse uma estrada e fiquei lembrando do nosso carinho e de como meu abraço alcança também quem você ama… e se eu te disser que, às vezes, bem às vezes mesmo, o universo conversa comigo?

Mas, não lembro de você só quando surgem as nuvens… lembro de você também quando a poesia me alcança para além dos olhos e lembro da sua risada. Nessa hora, lembro-me de que a poesia tem som… sua voz ecoando poemas é de aconchegar o coração.

Há um antes e depois nessa carta, Su… o antes – a menina nuvem – e o depois – a menina marítima – porque te vejo de pé na areia, cheirando a sal e com sua poesia espalhando ondas. Te vejo água e abraço no seu amor e isso, de alguma forma, me toca.

mas, também gosto da artista que se desdobra e milita. Gosto das nuances e de como os caminhos ligam os iguais. Eu gosto imenso da mulher que se apresenta em tudo que faz e gosto de todos os Inversos que sua poesia provoca em mim…

Posso dizer que em muitas vezes, eu apenas suspiro e digo: uau!!! E uso todas as exclamações que tenho direito. Em outras, eu apenas me silencio e te reverencio… de todas as maneiras sua poesia me abraça e me aconchega. Muitas vezes, me tira o ar e em todas as vezes, me arrebata para além das nuvens da minha menina nuvem.

Grata por tanto!

Mariana Gouveia
Agosto é o mês de ver desenhos em nuvens e de Beda.
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega  – Mãe Literatura –  Suzana Martins – 
Roseli Pedroso

Corredores, Codinome Locura

Era primavera em qualquer lugar

misturou riso com lágrima
comprou coisas pela net.
rasgou a renda da saia
atendeu um moço que pedia água
fazia tempo que ninguém pedia água pra ela.
Era quase despejar o que chorou no copo.
Lembrou qualquer coisa da infância.
A lembrança fez qualquer coisa de grito dela.
redemoinho e nuvens vasculham o céu.
espalhou as flores no outono. Era primavera em qualquer lugar.
A dor veio de novo e deu as boas vindas.
Afinal, eram companheiras inseparáveis.

 

Mariana Gouveia
Agosto é o mês de todas as estações e de Beda
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – 
Suzana Martins – Roseli Pedroso
imagem: Elisa Lazo de Valdez

 

 

Corredores, Codinome Locura

Eu era peixe.

A vida era você, em todos os artigos perfeitos
em pretérito e sede de mar. Talvez por isso,
o cheiro do mar me traga seu corpo
sabe a sal, o dialeto marinho em meu corpo
Agridoce,
a doçura da alma

 

Dou – te o desgosto da falta
Essa ausência que você tatuou debaixo da água
onde eu era apenas letra muda e absoluta
Sinfonia abafada nas ondas de a – mar.
Você era isca

eu, era peixe.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês marítimo e de Beda
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura –
Suzana Martins – Roseli Pedroso
*imagem: Khaterina Plotnikova

 

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

beda – quais os caminhos azuis que sua pele tece?

Não fora o teu olhar a ditar-me o caminho
e seria mais um na guerra dos sentidos
Contigo sinto azul em qualquer céu.


Edgardo Xavier, in Azul como o silêncio

Ana,


Às vezes, eu volto nas noites, em dias que já fazem parte do passado… essa história de guardar os dias nos calendários que não gosto, mas que fica registrado na memória. Nessas horas, eu fico em silêncio e quase não cabe em mim a respiração.

Já te contei sobre sua pele e as veias azuis? lembro-me que quando a vi pela primeira vez – em algum agosto de algum ano – seu rosto escondido na cortina e vi suas mãos. Eu disse que nunca vi mãos tão brancas, com as veias saltadas e o azul fluindo… Pensei: ela tem sangue azul… Só te falei isso tempos depois, quando já conhecia toda sua pele, tecida pelas minhas mãos, nas curvas onde desenhei corações.

Hoje vi o céu e seu azul celeste… fiquei horas a espreitar as nuvens desenhando formas e o vento ia empurrando uma a uma rumo ao sul. A gente sempre falava do sul e de quais caminhos a gente seguiria até lá. Não fizemos isso e nem tivemos tempo de viver o norte. Ficamos com a bússola nas mãos a rir do nosso centro oeste. Era assim a vida com você… leve como o azul e as nuvens caminhando para o sul.

Esqueci algumas datas – você deve ter percebido – e algumas coisas que eram para serem esquecidas ainda continuam aqui. Já parei várias vezes na esquina da sua rua, como se algo me levasse até lá. O moço que agora é dono da casa me deu flores hoje… Disse que sentiu vontade de trazer, já que nunca mais fui lá. Dei um café para ele em troca e ele disse que o pé de laranjas deu flores e que logo teremos frutos. Ele disse nesse verbo mesmo, como se eu ainda tivesse parte nas árvores. Dei a ele mudas do alecrim que plantamos e que nunca deu flores. Não sei porque.

Fiquei buscando na memória esse dia, para ver se a data diz algo sobre nós… não me lembrei de nada, mas isso acontece sempre aqui… é nesses dias que busco Marte nesse azul do céu para chegar mais perto de você.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês das memórias azuis e de BEDA.
Participam junto comigo:
Lunna Guedes  Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – Suzana Martins – Roseli Pedroso

Corredores, Codinome Locura

Neste começo d’hoje

tuas costas negavam
qualquer espécie de outono
Afinal
a ideia de estação
é só um tema ilusional
engendrado por humanos
que nunca puderam desenhar
tua coluna vertebral
a dedo nu


Matilde Campilho
Ph: Heather Marie

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Em que asa, em que sol?

“Queria ter o sol só pra mim, tê-lo de forma a dele poder de vez em quando ceder parte apenas a um dos meus amigos mais íntimos” 

Luís Miguel Nava

Edi,

Posso eu te desejar mais do que o sol? Posso eu te desejar mais além do que asas? Devo te confessar que entre tantas conversas com sua mãe, em muitos momentos, nós duas te desejamos sol – nem sei se ela falou sobre isso com você – nos dias em que a notícia ou um telefonema dizia a ela sobre o frio do seu lugar. E em muitos momentos, eu te desejei asas… para que você fosse além das dificuldades que se apresentavam.

Sabe, dias desses, fiquei a lembrar-me da vez que te vi e te conheci… seu olho foi mais rápido do que a porta e alcançou sua mãe na cama. Eu, que já te conhecia de antes, de palavras, de fotos, fiquei ali, inerte, olhando seu olhar de amor para minha menina. Naquele dia, eu quis te tocar e dizer o quanto eu te admirava pelos olhos de sua mãe.

Lembro-me de quando nossos olhos se encontraram, eu já era reverência e logo quando você saiu, o brilho no olho dela foi de importância… Foi ali, que entre uma ligação de Marcelo e sua presença que senti a sensação de pertencimento em sua família. A minha – marido e filho – estavam no estacionamento aguardando o resultado da cirurgia, porque quando ela era frágil – e foi tantas vezes – ela era “nossa”. A gente a fazia forte para guiar você e seus irmãos.

Eu estive muitas vezes presente nas meias-noites em que ela esperava para te abraçar nesse 25 de julho – ihhh, e quanto ela demorava para abraçar vocês em datas especiais – e eu morando quase 15 Km de distância e brigando com o fuso – e sendo amparo ali. Ou parte do desejo dela. Ela era tanto amor quando desligava o telefone que eu movia céus e mundo para estar presente nas datas de 29 de maio, 16 de julho e 25 de julho.

Posso te confessar que você é um presente. Sua amizade é um amparo que me fortalece. Não saberia descrever a importância de sua mãe em minha vida e eu que ganhei ela através de Marcelo – ainda vou escrever sobre isso – tive a presença dela através de você.

Você é o extraordinário da poesia e tão menino dentro desse homem que abraço e te ofereço o sol para os dias frios e asas para alcançar o infinito, porque de alguma maneira ele te pertence… eu e ela já te demos ele de presente em anos anteriores. É seu! Basta pegar!
Abraço carinhoso,

Mariana Gouveia
Ph: Cristina Coral

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

A vida por um instante parecia laranja.

Havia um céu dourado quando amanheceu. A vida por um instante parecia laranja.

Parece até que o céu está em festa. E devia estar… Descobriram sete exoplanetas no espaço. Eu descobri uma flor nova que se abriu e a manhã era desenhada a lápis.

Escrevi palavras no ar… coube no horizonte suspiros de encantamento quando acordei.

Falei sobre o tempo com as meninas que sempre me acompanham na rota do trabalho. Falaram da chuva que cairia segundo a previsão do tempo.

O mapa visto colorido fica tão bonito.

Pensei em quantas palavras você diria.

Senti fome dessas palavras e das coisas que a manhã trazia em outros tempos. Desejei viajar nas histórias que você me contou e caminhar pelas calçadas segurando suas mãos. Tem dias que o sonho beira a realidade.

Tive de viver o caos dentro das horas e cantei para o vento, você.

Mariana Gouveia
das palavras das cartas
©️Aleah Michele 

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Carta para Luís Eduardo.

que abraço seria o nosso
se fosse possível podar um coração
como se fosse uma árvore
Raquel Serejo
Martins

Sabe, filho, depois que escrevi uma carta para seu irmão, que assim como você, só viveu algumas horas, venho aqui falar com você. Queria te contar tantas coisas e me vejo muda, sem palavras nesse dia que amanheceu estranho.

Acho que minha alma segue a tenacidade dos dias e como sempre faço cuidei primeiro das flores. Arranco as ervas daninhas que insistem em brotar aqui, uso o regador que improvisei para aguar elas e recebo o pouso das borboletas. Depois, sigo na rotina da casa e assim, a manhã passa ligeira.

Não me recordo desde quando os bichos vem para minhas mãos. Meu pai diz que desde sempre, porém, hoje, pensei no dia que em que você nasceu há 35 anos atrás. Molhei as plantas como sempre, recebi pousos na mãos… Alguém gritou no prédio vizinho, uma ambulância passou pela rua e a bolsa estourou. Minha vizinha protetora – dona Nega – me pegou pela mão e seguimos duas ruas acima rumo ao hospital, enquanto alguém avisava ao seu pai o tempo de você nascer.

As minhas mãos já antevia a vontade de te ter nelas e você foi leveza por alguns minutos. Nos dias seguintes, elas ficaram vazias. Repetiu-se o mesmo gesto que senti quando seu irmão também se foi. Repeti várias perguntas no coração, revoltei-me com a singularidade das coisas e chorei e mais uma vez, voltei para casa de mãos vazias.

Mas, descobri que o tempo é essa coisa inexplicável… e que você, filho, ainda é meu filho mesmo vivendo tão pouco comigo e que as mães sempre serão mães, mesmo quando os filhos vão embora… não importa de que maneira.

Ainda assim, eu folheio os calendários e conto os dias dentro dos anos. Minha memória ainda guarda coisas nossas e ainda tenho perguntas que nunca foram respondidas. Mas, cada vez que uma borboleta pousa em minha mão te embalo no coração.

Te amo infinitamente,
Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Meus tantos… eu…

Mariana, Mariana…

Te escrever é como abrir um mapa e encontrar suas rotas… já se deu conta de quantos caminhos você andou? E os atalhos? Já pensou nas escolhas feitas a partir de um ponto?

Você se fez menina e suas memórias se alimentam das coisas vividas entre o campo e a cidadezinha, da lavoura para a cidade grande, de ouvinte para dentro do rádio. A menina franzina que teve de crescer… a mulher transgressora, que teve de virar menina.

Já te contei que você cura, foi bênção e foi milagre? Já te falei que aquele sonho de escrever para as pessoas virou realidade aos olhos do mundo e que suas palavras são lidas mundo afora?

Sabe, Mariana… já vivemos um pouco de tudo. Já enfrentamos algumas batalhas e foi aí que descobri que as escolhas tem sempre dois lados – no mínimo – e que nem sempre fazemos as escolhas certas. Quebramos a cara algumas vezes – e vamos continuar quebrando – porque a vida não vem com um manual onde você segue as regras e pronto.

Mas, sabe o que descobri? Que ser feliz só depende de mim, mesmo quando algumas coisas não vão bem. Que eu não posso colocar sobre o outro o poder de decidir quando e como eu possa sentir e isso, só mesmo o tempo que ensina.

Outra coisa que aprendi é que o tempo é realmente um dos deuses mais lindos, como diz Caetano em uma canção. E que ele passa em um galope. Daqui a um ano estarei escrevendo para a mulher em mim ou a menina sonhadora do meu coração?

Sempre digo que sou protegida e abençoada pelo universo pelas pessoas que ele coloca em meu caminho. As minhas raízes são profundas e feitas com muito amor e a minha entrega pela vida tenho certeza de que aprendi com você.

Seremos sempre pouso para os bichos – sem dúvida nenhuma – e seremos sempre abraços e mãos estendidas para quem precisar. Isso é o que faz com que no fim do dia o coração entre em acalanto e sossego.

Sabemos que mesmo que o dia não esteja tão bom, o riso será nosso escudo, mesmo que entre lágrimas… e que a vida é mesmo bonita de se viver.

Viva os 57 anos que a ternura nos moldou. Continuo contado com você.

Abraço,

Mariana Gouveia
Para a Mariana tantas que existem em mim.