Corredores, Codinome Locura

Da autonomia dos voos…

Havia um menino que criou asa, virou ave,
e com ele a ternura espalhada.
O reggae no canto e havia um turbilhão a povoar seu sonho.
Clamava pela vida – e nas poesias a encontrava – nas letras das canções, ele vivia.
O menino buscava por riso e essa aventura despeitada de viver.
Cabia nas promessas de paz enquanto travava uma guerra pela liberdade sem medidas. Não se mediu. Sorriu. Voou – o menino – em um dia onde o mês avançava nas horas a vontade plena de esperança.
Se via em qualquer asa, em qualquer pouso… se via vivo em qualquer espaço.
Era assim o menino, que ainda sendo meu, foi do céu.
Foi de ave, foi de pouso e se viu além.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

O futuro demorou dentro dos dias…

A carta fora escrito no tempo do passado. As flores se preparavam para o fruto da estação. O céu tinha cores dentro dos olhos dela e a gente se despedia dos dias.

Ela falava de outro país e das ruas em que andou em peregrinação. Eu, dos insetos diferentes que surgiram no meu lugar.

Ela passava por um inverno castigante, lareira, vinhos… ruas com neve e fogueiras sem luar. Eu, os chás frios na madrugada quente, o calor a arder a pele e a alma.

Escrevia-me aos pés da torre famosa e eu, do meu quintal simples de todo dia. Um universo de distância nos separavam e nunca estivemos tão juntas como se as mãos pudesse tocar.

Perguntava das árvores que quase tocavam o céu dentro do quintal que ela deixara e eu dos cheiros das flores de lá.

Inventei orquídeas novas para ela que nunca existiram – só para ver o brilho nos olhos cheios de expectativas – e ela me dizia sobre o perfume da laranjeira no meu quintal onde a joaninha se aninhava.

Eu, era a menina laranja para além dos dias e ela a moça lilás que foi colher futuro. O futuro demorou dentro dos dias e quando ela voltou já não havia mais tempo.

Deu-me a moça subversiva e revolucionária dos poemas e apresentou-me o paraíso com nome de filtro de cor.

A vi dentro do sonho que tive e brilhava lindamente dentro da minha poesia.

Mariana Gouveia
das palavras das cartas
Ph: Ekaterina Ignatova 

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

As cartas são passaportes para viajar no tempo.

Pai,

mais um ciclo se inicia a partir de hoje. A gente conta os seus 91 anos e grande parte das lembranças se misturam com as datas do calendário. O dia do santo, a quaresma, os aniversários dos irmãos, o início da plantação, o dia da colheita e tantas outras datas que nos marcaram ao longo da vida. Mas o 1° de junho ninguém nunca esqueceu. O seu aniversário sempre foi dia de festa para nós.

Essa semana, um de seus filhos – meu irmão mais novo que eu, esteve aqui, no meu quintal comigo. Junto com a família, presenciou o voo do Chiquinho, vindo ao meu encontro, conheceu meu lugar que ele tanto lia nos poemas e posts das redes sociais… No suspiro dele, uma palavra me marcou. Ele disse que sou igual a você. Essa história antiga de que te puxei no trato com os bichos.

Ele lembrou, pai… Mesmo sendo pequeno na época, ele lembrou que você separava uma parte da roça para os pássaros. Para mim, tudo aquilo, era magia… Mas aos olhos dele, era oferta. Você “doava” uma parte da lavoura para que os pássaros não atacassem a lavoura toda. Os vizinhos diziam que era bruxaria, enquanto as plantações deles eram atacadas, a nossa permanecia intacta, com exceção da parte ” doada” às aves e bichos.

Sabe, pai… durante o tempo que ele ficou aqui relembramos nossas histórias. Os causos, as festas dos santos e o seu aniversário. Mostrei a ele a sua pedra de amolar que ficou comigo. Perdi a conta dos anos dela. Se ela pertenceu mesmo ao seu avô, deve caber séculos na pedra onde hoje amolo minhas facas de cozinha.

Lembro-me de que ela já amolou tesouras, facões, enxadas e tantas coisas de corte. Ficou comigo quando você se mudou para aí. Só comigo, ela já está a mais de 40 anos. Você dizia que ela conheceu todas as gerações da nossa família. Foi bom falar sobre isso com meu irmão. É assim que a história permanece. O brilho que vi no olho dele me fez acreditar nisso. O olho vagando vendo meu pequeno beija-flor cruzar o espaço entre os bebedouros e as árvores. Um dia, com certeza, ele contará para o filho dele e assim, a semente que você plantou continuará a germinar nos seus descendentes.

Pai, quantos mundos te abraçaram nesses 91 anos? Quantas memórias você carrega no coração? Quantas perguntas minhas você já respondeu? Foram tantas e ainda serão. Desde os porquês lá da infância até às dúvidas respondidas no nosso encontro há pouco tempo.

Você me disse tantas vezes que as dúvidas fazem parte do ser humano e que as memórias são ativadas com essas dúvidas. Disse também que as cartas são passaportes para viajar no tempo. As cartas que te envio desde quando comecei a escrever são os registros dessas viagens. Mais uma vez, desembarco no seu mundo só para te abraçar mais uma vez.

Feliz aniversário!

Te amo sempre
Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Para sempre é muito tempo para quem não tem tempo.

No corredor, a cortina foi trocada por persianas por sugestão do vento que veio do sudoeste.
A esperança trazia a sorte na mão. As asas tinham a dimensão exata da dor.
Os vidros das janelas dos casarões da esquina foram quebradas além do muro.
Sentiu saudades da chuva. O céu anda tão estável. A mão é esse abandono de toque.
A vida, parada, sem diagnóstico e endoidava com a tarefa simples de viver.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Até que um pássaro me saia da garganta

“Horas, horas, sem fim,
pesadas, fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.

(…)

Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça.”

Eugénio de Andrade

Eu esperei muito antes de escrever, mas descobri que só colocando as palavras para fora essa solidão dolorida caiba em algum canto. Já te disse que desde ontem eu estou me sentindo estranha e que mesmo que busque dentro de mim o motivo ele foge como se fosse ágil demais para essa letargia que sinto.

Foram poucas vezes que senti essa imensa vontade de chorar. Você sabe que as emoções, pra mim, sempre vem em camadas e que na maioria das vezes consigo atravessá-las sem maiores danos… mas ainda não vou chorar hoje… O dia afinal, será amanhã… Amanhã vou chorar até que um pássaro me saia da garganta, tal qual o poema do Eugénio… hoje, serei apenas essa vontade desavisada de que posso esperar mais um dia… o dia em que estarei só e ninguém poderá perguntar o motivo.

Por hoje apenas espero a lua caminhar no céu enquanto o cheiro de ervas exalam no quintal e brisa suave invade a noite… Por enquanto, hoje apenas repito seu nome como quem canta uma canção.

Mariana Gouveia
fotografia: Pinterest

Corredores, Codinome Locura

Na geografia das coisas

Há o abandono nato das asas que voa.

O pássaro não veio. Ela não quer falar. O cansaço das horas vazias.
A esperas das horas em que não veio.
A solidão é dentro da gente.

Tanta intensidade até na palavra vazio. O vento empurra o meio do nada.
Às vezes, é preciso entender os silêncios…

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Pelas pequenas alegrias da vida adulta…

Eu vou pro fronte como guerreiro
Nem que seja pra enfrentar o planeta inteiro

Emicida

foi ouvindo a música…

Menina Samara.

Quando li a frase acima no seu story achei que cabia uma carta, dessas que costumo escrever para quem cabe no meu coração. Eu adoro escrever e amo muito mais escrever cartas… às vezes, eu escrevo para ninguém, ou em muitos momentos escrevo para coisas, tipo o vento – já escrevi uma carta para ele e virou parte de um documentário – ou para meu beija-flor.

Tenho escrito para minha mãe – que já se foi há 40 anos, para meu pai e meu filho, que é o elo que nos une. Enfim, escrever cartas me acalma e me coloca em diálogo com quem eu gosto. O destinatário delas é escolhido pelo coração e dessa vez você foi a escolhida.

Li a frase da música de Emicida e pensei nessas pequenas alegrias da vida adulta. As minhas são fáceis de perceber. Fotografar meu quintal, meu lugar, brincar com os cães, cantarolar e tantas outras coisas bobas, mas que fazem com que os dias fiquem mais leves. Torcer para meu time ganhar e se perder, que não seja de tanto que me faça ser a chacota da sala de fisioterapia… e as suas? Onde cabe essas pequenas alegrias em seu peito?

Já vi que tocou a primavera com as mãos, que adora noites de lua, dias de praia e os animais. Seria esse o motivo da frase que a canção repete: “é pra você, amor?” Atuar, cantar, dançar e rir. Ver seu time ganhar… poder falar em nome dele. Ser madrinha da bola… talvez, eu tenha acertado pelo menos uma…

Sabe, muitas vezes não damos valor para essas coisas pequenas e também esquecemos que são elas que transformam as rotinas todas. Um riso para alguém desconhecido na rua, ceder um lugar no ônibus, ajudar alguém a se levantar depois de um escorregão… ouvir um amigo durante um desabafo. São coisas que talvez nem nos toque, mas muda o dia de alguém, porque a gente gosta de se sentir tocado seja por uma mão amiga, um olhar de cumplicidade ou até mesmo caminhar em silêncio. A vida precisa dessa sintonia toda com o universo.

Que você tenha sempre alguém para ouvir: “é pra você, amor… e que as pequenas alegrias da vida adulta te leve para os caminhos do bem e que você tenha a sorte de um planeta inteiro – ou pelo menos toda a torcida do Flamengo – torcendo por você. Eu estarei na linha de chegada com bandeiras e flâmulas vibrando por você.

Abraço carinhoso
Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Era amarelo…

Era amarelo. Era todo amarelo o quintal da casa onde cresci. Era amarelo e havia um pé de flores amarelas. Me lembro de mim, desde sempre, correndo sobre o ouro do quintal.

Amarelo-dourado era o sol, a espernear sobre as pedras, quarando lençóis. As minhas quedas bruscas eram também amarelas. E a baba do cachorro doido, do qual eu sempre devia fugir. De vez em quando eu o via, para lá do meu quintal. Parecia sempre o mesmo, mas havia muitos. Cachorros endoidando no redemoinho amarelo.

Ata, fruta-do-conde, manga – amarela em suas nuances de cor, depois do verde – O verde é o fruto da terra e o amarelo é o fruto do sol. Pintávamos de amarelo as descobertas. Nós, os sóis.

O amarelo é uma cor que não passa como as outras cores passam. Enquanto as outras cores desbotam, o amarelo, com o tempo… Amarela. Do amarelo se fez o rio onde desaguam lembranças, o sol dourando as margens, em um campo amarelo. Pinto este amarelo e revivo do quintal com gotas de memória. Pingo essência dourada e desenho na areia os contornos deste jogo de amarelinha. Meu quintal era o céu, todo feito de nuvens amarelas.

Lembro-me disso e de minha mãe que pintava minha vida. Em cada manhã de colo sagrado e olho terno. Ela se tingia de um amarelo intenso. No meu quintal, mesmo os dias sem sol eram dourados O quintal não havia descoberto a noite.

Só descobriu a noite quando minha mãe se foi. Hoje, além de se comemorar o dia das mães minha mãe faria 78 anos e deixou em mim o amarelo da saudade. A sua mãe também pode ser colorida, se você assim a enxergar. Ela pode tingir sua vida da cor que você quiser e você será o papel onde ela desenhará a vida.

E se você é mãe, pode pintar a vida de seu filho. E quando ele crescer, ele terá um colorido diferente e especial. E um dia, quando você se tornar saudade, terá seu filho ou filha lembrando suas cores. E se ela também se foi, tente imaginar a cor que ela te deixou, seja em uma palavra, um ensinamento ou a dedicação.

Através desse texto quero apenas agradecer minha mãe por cada instante que ela colocou poesia em minha vida e me fez enxergar um mundo colorido, hoje um pouco sem cor, sem ela.

Quem tiver sua mãe por perto, dê um abraço, que é ele o que falta para repor tintas na vida dela. Você, de alguma forma, é a cor da vida dela.

Faça com que, em cada instante de sua vida valha a pena ser filha(o).

Mariana Gouveia.

Corredores, Codinome Locura

A garota de scarpin vermelho

“na outra margem da noite
o amor é possível
leva-me
leva-me entre as doces substâncias
que morrem a cada dia em tua memória”
Alejandra Pizarnik

Trazia a delicadeza na pele. Cheirava a algum perfume novo que não consegui desvendar.
Os olhos me acompanhavam por onde eu ia. Entre as prateleiras dos livros, entre um exemplar e outro, estávamos frente a frente. Passou de leve por mim e senti a curiosidade de olhar as mãos. O anel acentuava ainda mais o esmalte vermelho. Paramos no caixa, ela em minha frente e eu ali, a espiar a nuca, onde os cabelos caiam discretos em ondas.
Enquanto pagava sua compra olhou para mim e sorriu:
– Não, as palavras não fazem amor. Fazem ausência. Se digo água, beberei? Se digo pão, comerei? Busquei pela memória onde já tinha ouvido essas mesmas palavras e sorri de volta:
– Alejandra Pizarnik?
Concordou com os olhos e perguntou se eu gostava dela.
– Ah, muito! Adoro o estilo!
-Tenho sede quando leio. – riu de suas próprias palavras.
Na minha vez de pagar, meus olhos a acompanhava e ela rapidamente saiu porta afora.

Não vi nenhum sinal dela na rua. Pensei nos olhos, no perfume e senti uma leve saudade bater o peito. Não sei nada sobre ela. Apenas que sente sede quando lê Pizarnik.

Sentei em um banco da praça e folheei o livro recém comprado. Os olhos enxergavam sonhos nas letras quando senti um movimento leve nas minhas costas e duas mãos tapavam meus olhos. Na memória, no toque das mãos que acariciavam meus olhos, não consegui reconhecer a dona delas.
– Adivinha quem é? – nem a voz me parecia conhecida – Tenho sede quando leio.
Acho que te segui, tive curiosidade em conhecer quem lê Alejandra, como eu.

Sentou ao meu lado, com uma intimidade que não tínhamos. Falou-me sobre sua vida, seus desejos e seu riso encheu minha tarde de improviso.
Falei pouco. O que não é normal, no meu caso, e a hora começou a me cobrar urgência no dia. Era para o riso dela ter o nome de alguém e ter a mesma alegria que os olhos dela tem. Falei de ir, já me levantando.

-Ah, não! Mas, já? Nem falou sobre você e nem respondeu sobre o pic-nic de amanhã…
-Pic nic? Que pic nic?
– O que faremos amanhã, ali, naquele canto da praça e pode deixar que venho com meu scarpin vermelho! Me faz sentir mais chic.
Saiu em disparada sem deixar eu dizer nada. Mas deixou comigo a certeza de que adorarei ver ela amanhã de scarpin vermelho.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

 As palavras escritas em um futuro impossível…

Acordei ainda na madrugada para ver algum resquício da “lua negra” que ocorreu ontem, no início da noite. Queria ver também Júpiter e Vênus alinhados, quase se tocando. É impressionante como Júpiter “desaparece” calmamente a medida que o sol vai surgindo com seus raios. O silêncio da madrugada foi quebrado pela cantoria do moço da reciclagem, que com sua carrocinha percorre as ruas do bairro recolhendo tudo que se pode reciclar.

Ele mora na rua de cima e a gente sente um afeto especial um pelo outro. De tudo que se pode reciclar e que eu não aproveito, separo para ele e quando ouço sua cantoria abro o portão e aguardo ele parar na minha porta. Geralmente, saio com as xícaras de café e falamos sobre coisas. Já ficamos em silêncio também, em alguns dias, cada um com sua dor, como se não pudéssemos falar sobre. Cada um entendendo cada palavra não dita.

Hoje, ele falou da lua e de como as estrelas estavam bonitas – fazia tempo que não via um céu tão lindo – e a lua era um risco, quase meio sorriso, quase vírgula em seu caminhar lento. Falou também do ontem, do abril que acabou e de como os dias tem passado ligeiros…

– Ela foi embora em uma noite assim, não sei se para guerra ou se para paz. E depois daquela noite eu não olhei mais o céu. Hoje, foi a primeira vez – e já não havia mais tanta amargura em sua fala.

Ela era Maria, a mulher que seria o futuro dele, dentro de tantas palavras que falamos. Não houve o porquê. Ela apenas se foi e ele ficou tantos dias a esperar por ela. Depois, desistiu de esperar e passou a andar pelas ruas a catar o que os outros jogam fora com sua carrocinha de rodas barulhentas atraindo os latidos dos cães e acordando as pessoas com sua cantoria triste.

– Já não há mais tristeza em mim – falou como se adivinhasse meu pensamento, enquanto me entregava a xícara vazia, depois do pesado gole de café – já virou costume e a falta se transformou em presença, sabe? – Achei lindo aquela frase. Apenas simulei um sorriso e o transformei no meu personagem de hoje. Já amanhecia quando nos despedimos. O domingo já ganhava a cor do sol nascendo. Ainda acenei para ele antes que virasse a esquina. O homem da reciclagem carregando o fardo do amor não reciclável.

Mariana Gouveia