Das rotinas · Desvios para atravessar os quintais · Meus Livros · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Revirei o baú das lembranças doces.

As cartas descrevendo as coisas do dia – a – dia. Os rumores dos insetos no jardim, o vento a balançar as folhas e a rotina a escancarar verdades.

O ritual da noite capta o silêncio e as horas se fazem de ciclos e o dia amanhece dourado de sol.

As luzes refletem nas letras que guardo no baú – mais uma vez não consigo eliminar os vestígios de sua presença na minha vida – junto da letra da canção que mais gostava.

A voz ainda a ecoar o nome e o tempo – quase nada – a passar diante da vida.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar os quintais
Scenarium Livros Artesanais
*imagem: Varya

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Em que asa, em que sol?

“Queria ter o sol só pra mim, tê-lo de forma a dele poder de vez em quando ceder parte apenas a um dos meus amigos mais íntimos” 

Luís Miguel Nava

Edi,

Posso eu te desejar mais do que o sol? Posso eu te desejar mais além do que asas? Devo te confessar que entre tantas conversas com sua mãe, em muitos momentos, nós duas te desejamos sol – nem sei se ela falou sobre isso com você – nos dias em que a notícia ou um telefonema dizia a ela sobre o frio do seu lugar. E em muitos momentos, eu te desejei asas… para que você fosse além das dificuldades que se apresentavam.

Sabe, dias desses, fiquei a lembrar-me da vez que te vi e te conheci… seu olho foi mais rápido do que a porta e alcançou sua mãe na cama. Eu, que já te conhecia de antes, de palavras, de fotos, fiquei ali, inerte, olhando seu olhar de amor para minha menina. Naquele dia, eu quis te tocar e dizer o quanto eu te admirava pelos olhos de sua mãe.

Lembro-me de quando nossos olhos se encontraram, eu já era reverência e logo quando você saiu, o brilho no olho dela foi de importância… Foi ali, que entre uma ligação de Marcelo e sua presença que senti a sensação de pertencimento em sua família. A minha – marido e filho – estavam no estacionamento aguardando o resultado da cirurgia, porque quando ela era frágil – e foi tantas vezes – ela era “nossa”. A gente a fazia forte para guiar você e seus irmãos.

Eu estive muitas vezes presente nas meias-noites em que ela esperava para te abraçar nesse 25 de julho – ihhh, e quanto ela demorava para abraçar vocês em datas especiais – e eu morando quase 15 Km de distância e brigando com o fuso – e sendo amparo ali. Ou parte do desejo dela. Ela era tanto amor quando desligava o telefone que eu movia céus e mundo para estar presente nas datas de 29 de maio, 16 de julho e 25 de julho.

Posso te confessar que você é um presente. Sua amizade é um amparo que me fortalece. Não saberia descrever a importância de sua mãe em minha vida e eu que ganhei ela através de Marcelo – ainda vou escrever sobre isso – tive a presença dela através de você.

Você é o extraordinário da poesia e tão menino dentro desse homem que abraço e te ofereço o sol para os dias frios e asas para alcançar o infinito, porque de alguma maneira ele te pertence… eu e ela já te demos ele de presente em anos anteriores. É seu! Basta pegar!
Abraço carinhoso,

Mariana Gouveia
Ph: Cristina Coral

Das rotinas

O vento se ausentou do quintal.

A lua andou inquieta e invisível em seu espaço lunar…

havia qualquer coisa de azul na flor que o tempo desbotou.

Era oblíqua em seu estado letárgico de ser.

O ruído da palavra era quase encontro com meu silêncio e o canto da ave em seu sistema de asa e o medo do chão.

A monotonia das tardes de domingo contrastando com o verbo voar e o astro celeste a vingar do sol, com sua presença singular.

A garoa veio e o tempo mudou. O frio entra pelas frestas das janelas, da porta e o dia se encarrega de procurar momentos mágicos na vida.

Mariana Gouveia
©️ Madalena Russocka

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

A vida por um instante parecia laranja.

Havia um céu dourado quando amanheceu. A vida por um instante parecia laranja.

Parece até que o céu está em festa. E devia estar… Descobriram sete exoplanetas no espaço. Eu descobri uma flor nova que se abriu e a manhã era desenhada a lápis.

Escrevi palavras no ar… coube no horizonte suspiros de encantamento quando acordei.

Falei sobre o tempo com as meninas que sempre me acompanham na rota do trabalho. Falaram da chuva que cairia segundo a previsão do tempo.

O mapa visto colorido fica tão bonito.

Pensei em quantas palavras você diria.

Senti fome dessas palavras e das coisas que a manhã trazia em outros tempos. Desejei viajar nas histórias que você me contou e caminhar pelas calçadas segurando suas mãos. Tem dias que o sonho beira a realidade.

Tive de viver o caos dentro das horas e cantei para o vento, você.

Mariana Gouveia
das palavras das cartas
©️Aleah Michele 

Das palavras das cartas · Das rotinas

Carta ao meu amor da vida toda.

Eu disse que ele viria, nasceu!
E eu nem sabia como seria
Alguém prevenia: filho é pro mundo
Não, o meu é meu
Sentia a necessidade de ter algo na vida
Buscava o amor das coisas desejadas
Então pensei que amaria muito mais
Alguém que saiu de dentro de mim e mais nada
Me sentia como a terra: sagrada
E que barulho, que lambança
Saltou do meu ventre, contente, e parecia dizer: É sábado, gente!
A freira que o amparou tentava reter
Seus dois pezinhos sem conseguir
E ela dizia: Mas que menino danado!
Como vai chamar ele, mãe?

Emicida

Filho, eu te chamei de Lauro Rodrigo, porém, mas do que seu nome composto, logo quando nasceu você era meu bebê… Depois, vieram os diminutivos – que aos olhos de quem ama é a expressão do amor. Você foi duas sílabas – rg – , foi Laurinho, zé das couves, John Play e é filho sempre. O tio, para os primos pequenos, o amigo que acolhe, o torcedor que sofre e empurra o time preferido, a voz em defesa dos animais, o homem que sonha e o nosso menino sempre.

Eu sempre achei que tinha essa doce carga de ser mãe. Antes de você, eu tentei duas vezes. Então, posso dizer que você foi o milagre das preces atendidas. E eu, que fico presa nas datas especiais, nem escolhi o dia 22 de julho. E como na ansiedade das esperas, você antecipou um mês a sua vinda. Um leonino que chega chegando. Era para ser agosto, o mês. Mas, com sua vontade de nascer, rompeu barreiras como se dissesse que pode fazer isso o tempo todo: Se eu nasci um mês antes do prazo, posso ser o que quiser. E pode!

Como se conta 34 anos em uma carta? Como se diz eu te amo nessa lonjura que nos afasta? Há uma semana e meia atrás, eu ouvi a palavra mãe sendo chamada de novo. Um barulho de chave no portão e sua voz ecoando na brincadeira com os cães.

E justificando esses momentos, guardei tudo em um potinho para abrir nos momentos de saudades. Parece que mãe sente saudades o tempo todo. Mãe sente medo o tempo todo e mãe tem coragem o tempo todo. E traz nas mãos sempre o rosário da fé, as orações na ponta da língua e o agradecer imensurável de quem foi atendida.

Se como artesã eu pudesse te bordar, te faria igual, porque a tenacidade e força que você carrega – mesmo duvidando dela, às vezes – é tão forte que ultrapassa a ciência. Isso, quando você era apenas o menino que saiu de dentro de mim e me fez a mais feliz das mães.

Te abraço dentro de minhas palavras nesse dia que não marquei, mas que ficou tão marcado em mim. O seu dia. Dá uma olhada na agenda que te enviei no seu dia. Antecipei um ano dentro de nossas vidas e se adivinhei o tempo de agora lá atrás, devo confirmar a teoria de que mãe sabe das coisas.

E sabe o que mãe é, filho? Mãe é asa o tempo todo, é colo o tempo todo e é casa o tempo todo… Então, como um filho nasce de Mãe, e sabe que se precisar, ele sabe sempre o caminho de volta e funciona como se nunca tivesse ido.

Feliz Aniversário em todos os seus dias sempre!

Te amo muito ❤

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Das rotinas

Carta direcionada para a esperança.

Mana,

minha caçulinha, eu ainda era menina e me lembro do dia que você nasceu. O céu era tão azul que eu cheguei a pensar que ele só tinha essa cor porque você tinha nascido. Todo mundo comemorava a Copa de 70 e eu e nossos irmãos comemorávamos teu nascimento.
Você não sabe o quanto te amo e o quanto te desejo o bem. Nas tuas escolhas, na tua vida, na vida de teus filhos.
Queria poder com palavras traduzir e talvez até consiga, mas ainda assim, acho que serão pequenas as dimensões que elas conseguirão passar.

Hoje, minha carta é escrita com toda esperança que existe em mim na sua cura e do nosso irmão Messias. Sei que essa máquina de hemodiálise será apenas um atalho e logo o transplante virá.

A vida é tão leve – assim como a água – e que ela seja vivida ao máximo. A umidade que precisamos ter seja em um copo com água ou na atmosfera do ar é apenas um agravante para que possamos dar valor ao que temos.

Que esse dia, minha irmã, seja de alegria em seu coração, mesmo que seja simplesmente por ter acesso a uma máquina de hemodiálise – há tantos e muitos que ainda nem tem – e que você valorize o instante. O agora.

Te amo muito. Você é minha caçula preferida… ops, é a única!

Feliz Aniversário!
Te amo muito.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas

Caso perca uma pena de sua asa…

Querido Jean,

Eu devia dizer que guardo uma aqui? Dia desses quando estava a caminho da fisioterapia, me deparei com um olhar atento a mim… Confesso que meu riso se abriu para logo em seguida a saudade me abraçar. Vi um rapaz que parecia demais com você e ele riu, me acenou e meu coração acelerou.

O cabelo, o olho e a voz… foi como se um sopro de esperança me tocasse, para logo depois, a sensação da realidade me atingir mais forte. Não sei se meu olho captou apenas a saudade, mas o moço, parado, no ponto de ônibus acenou enquanto o veículo seguia seu rumo. Lembrei-me de que você é apenas essa saudade que faz meu coração doer.

Enquanto eu tentava segurar as lágrimas – porque será que a gente tem vergonha de chorar em público? – fiquei lembrando das últimas palavras que trocamos, do momento em que nos aproximamos tanto e de como a canção do Charlie Brown Jr nos uniu em algum momento…

Mas pra quem tem pensamento forte
O impossível é só questão de opinião
E disso os loucos sabem
Só os loucos sabem
Disso os loucos sabem
Só os loucos sabem

Confesso que muitas vezes, a data de hoje me chateia… queria riscar do calendário e apenas dizer que te amo infinito, além desse tempo e espaço que os humanos sabem… porque os anjos só entendem de amor e esse amor meu por você, é incondicional. Guardo sempre uma pena aqui, caso perca uma da sua asa.

Te amo,

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas

Que a estrada te leve ao melhor caminho…

nesta via, de imprevistas geografias
curva fechada, pista escorregadia
só espero que os faróis iluminem este chão
– agora e na hora da mais árdua cerração
Albano Martins

Júnior,

“Roubei” uma fotografia que você tirou para falar um pouco com você e ilustrar o que meu coração te deseja. lembro-me de tantos momentos que te vi e hoje, confesso que lamento não ter conversado mais com você sobre as coisas.

Confesso que fiquei imaginando se te escreveria e como essa carta chegaria até você. Sempre te vi discreto e fiquei pensando se meu carinho chegaria até você da forma que eu gostaria que fosse. Espero que sim.

Meses atrás estive bem perto de você, e quis muito te ver, mas, infelizmente, não deu certo. Só que hoje é seu dia e como em dias especiais escrevo para alguém que toca meu coração de alguma maneira e veio em minha memórias alguns almoços juntos, nos sábados em que eu ia me encontrar com sua mãe. Resolvi te escrever aqui, no meu blog, que funciona às vezes, como uma caixa de correios, onde coloco minhas correspondências.

De alguma forma, me vi dentro de sua família há mais de duas décadas e a casa de sua mãe era meu ponto favorito nos sábados. Esse dia da semana era dela dentro do meu calendário e junto com ela eu vibrava nos aniversários de vocês. Eu vivia com ela uma extensão de minha família e isso não posso mudar, mesmo com a ausência dela. Quero estar perto de vocês, saber-compartilhar as vitórias e conquistas.

A minha memória revive ela diariamente. Todos os dias. Em pequenas coisas que nos ligava. Numa música que toca, no perfume que acabou, mas o vidro – mesmo que vazio – ainda permanece na cômoda, ao lado da caixa que ela fez para mim e nos dias especiais para ela, como hoje.

É o seu dia e te desejo muita coisa boa. Todas as coisas boas. Que teus olhos enxerguem além das lentes que mostram uma visão melhor e que você representa tão bem. Eu acho que ela está muito orgulhosa do pai que você é, do marido e do homem que ela deu a vida.

Que a estrada te leve ao melhor caminho e que você seja feliz. Temos em comum, além do amor por sua família, o amor pela fotografia e é baseado nisso que desejo que seus olhos só vejam imagens lindas, para além dos dias e de aniversários.

Abraço carinhoso,
Mariana Gouveia

Das rotinas

Mudou a rotina dos dias… 

abraçou a menina que pedia colo na madrugada. Alguém perdeu a alegria logo ali, entre a esquina de baixo e a caixa d’água.

A estrela gigante se ampliou no riso dela e o afago apenas foi automático.

Cantou as canções que lembrava da infância. Simulou esperança nas folhas e captou a ternura no olho de amor. As coisas miúdas criam fases de encantamentos.

Buscou histórias infinitas vividas nos dias. Desenhou nas mãos a minuta do sonho.

Às vezes, a vida tem coisas estranhas que escapam do normal

Todo dia é um instante de loucura dentro da lucidez.

Mariana Gouveia
dos dias diferentes dos outros dias
*Imagem: Gennady Tarakanov

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Carta para Luís Eduardo.

que abraço seria o nosso
se fosse possível podar um coração
como se fosse uma árvore
Raquel Serejo
Martins

Sabe, filho, depois que escrevi uma carta para seu irmão, que assim como você, só viveu algumas horas, venho aqui falar com você. Queria te contar tantas coisas e me vejo muda, sem palavras nesse dia que amanheceu estranho.

Acho que minha alma segue a tenacidade dos dias e como sempre faço cuidei primeiro das flores. Arranco as ervas daninhas que insistem em brotar aqui, uso o regador que improvisei para aguar elas e recebo o pouso das borboletas. Depois, sigo na rotina da casa e assim, a manhã passa ligeira.

Não me recordo desde quando os bichos vem para minhas mãos. Meu pai diz que desde sempre, porém, hoje, pensei no dia que em que você nasceu há 35 anos atrás. Molhei as plantas como sempre, recebi pousos na mãos… Alguém gritou no prédio vizinho, uma ambulância passou pela rua e a bolsa estourou. Minha vizinha protetora – dona Nega – me pegou pela mão e seguimos duas ruas acima rumo ao hospital, enquanto alguém avisava ao seu pai o tempo de você nascer.

As minhas mãos já antevia a vontade de te ter nelas e você foi leveza por alguns minutos. Nos dias seguintes, elas ficaram vazias. Repetiu-se o mesmo gesto que senti quando seu irmão também se foi. Repeti várias perguntas no coração, revoltei-me com a singularidade das coisas e chorei e mais uma vez, voltei para casa de mãos vazias.

Mas, descobri que o tempo é essa coisa inexplicável… e que você, filho, ainda é meu filho mesmo vivendo tão pouco comigo e que as mães sempre serão mães, mesmo quando os filhos vão embora… não importa de que maneira.

Ainda assim, eu folheio os calendários e conto os dias dentro dos anos. Minha memória ainda guarda coisas nossas e ainda tenho perguntas que nunca foram respondidas. Mas, cada vez que uma borboleta pousa em minha mão te embalo no coração.

Te amo infinitamente,
Mariana Gouveia