Das rotinas · Scenarium Livros Artesanais

o acalanto da memória.

O encantamento começa com a magia da manhã. Vasculho os instantes no quintal e a memória busca o tempo que acabou. Nada dura para sempre e nem o encantamento permanece o mesmo diante das coisas.

Havia o tempo certo para o pouso da asa e a mania de querer pousar. Toda passagem tem o exato momento para acontecer.

O fio é tênue e imprevisível e rompe quando o sentimento muda de lugar.

Cantei canções de outros tempos, podei as plantas e preservei a morada dos que moram na árvore do canto.

Refiz os espaços do jardim…Refiz os espaços dentro de mim. Hora de recomeçar.

Mariana Gouveia
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Participam comigo
Lunna Guedes – Suzana Martins – Roseli Pedroso – Obdúlio Nunes Ortega

infinitamente · Scenarium Livros Artesanais

Dos dias aleatórios de abril

Havia roteiros de lua no quintal. Um vaga lume invadiu a sala e chamou a atenção do cão – logo ele que gosta de correr atrás da luz da lanterninha vendida nos ônibus – foi um achado! Teve de contê-lo e socorrer aquela luz que voava.

Procurava no céu alguma coisa que estivesse escrito nas estrelas. Elas desenham o caminho de Santiago – alguém disse um dia – desde então, lembra-se disso quando olha para o céu em noite de lua e estrelas. Depois disso, sonha em fazer o caminho de Santiago e já desenhou o mapa quinhentas vezes mentalmente e outras quinhentas vezes no papel. De tão lindo que ficou, pensou em bordar.

Olha para o Cruzeiro do Sul e vê Vênus quase na ponta da Lua – um piercing ou um riso disfarçado de Lua – no quadrante leste do céu.

Relembra coisas da infância. Das regras que seguia em relação à lua. O cabelo – sob recomendação séria da mãe – só poderia ser cortado na lua cheia. Era assim que os cabelos das mulheres indígenas ficavam fortes e bonitos. As pontas poderiam ser tiradas na lua crescente.

As rosas brancas deveriam ser replantadas na lua nova. O feijão, colhido durante a minguante de Maio – evitava perdas, o pai dizia – e fazia o feijão não carunchar. A macela, colhida na lua cheia específica da sexta-feira da Paixão para fazer chás potencializava a cura.

Tudo na vida dela fora um ritual de datas lunares e solares. De cores e de sabores. De magia e expectativas.

Quando deita no chão do seu quintal, refazendo o mapa das estrelas que indicam o caminho para Santiago, revê esses instantes que fez de sua infância uma riqueza só.

Os rituais ficaram marcados – segue até hoje – Deus a livre apontar o dedo para uma estrela! Apesar de ter ficado lá atrás a lenda de que se fizesse isso, nasceria uma verruga na ponta do dele.

Fica horas ali, todas as noites. É um momento único de lembranças que vão e se recriam no doce modo de espiar o céu.

Sabe desenhar cada coisa sentidas nas fases que a lua inventa em seu caminho no céu. É o ritual que segue quase místico na essência de viver.

Mariana Gouveia
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Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Carta à Emily

Eu te dou metade dos meus pássaros
— sobre a doce condição de que você os trará de volta
— você mesma,
e habitará um dia comigo,
alegria sem preço,
eu mesma ganhei da natureza.

Emily Dickinson

Querida minha!

Talvez seja intimidade demais para nós… eu, que conheço tanto de você, por tudo que li e reli sobre sua vida e você, nas palavras das cartas — e eu, uma estranha apenas, que te admira — e juro que já fiz esse diálogo infinitas vezes em dias que não era assim como hoje.
Já te falei que chove? Chove incessantemente há três dias e no quintal os musgos já acumulam com suas cores verdes nos cantos do jardim. A roseira, que antes estava exuberante, teve as pétalas arrancadas pela força da água. O rio, logo abaixo algumas ruas já atinge um nível de alerta.
Devo confessar que até gosto do barulho da chuva nas telhas e o gluft gluft em algum balde esquecido logo debaixo da escada. A passagem bucólica que preenchia minhas manhãs ganha cores dos infinitos guarda — chuvas e as imagens que meus olhos alcançam são as das meninas que voltam da escola com seus uniformes molhados. Chega a ser estranho ver minha cidade sem sol e enquanto aguardo o ônibus releio as cartas que escreveu em um livro puído:

“Uma palavra morre
Quando é dita —
Dir-se-ia —
Pois eu digo
Que ela nasce
Nesse dia”

E assim, a palavra ganha o contorno de cuidado com o qual falo com você. Imagino você corrigindo os erros e rindo das infinitas traduções e interpretações de um pedaço do poema. Os manuscritos é esse fôlego de alma e eu a catar letras para te prender aqui.
Ainda chove e os vizinhos ouvem futebol. Eu penso em amores que você tenha vivido e tento comparar com os meus.
O que dizer do amor dos outros que brotam em cartas tão fora de moda hoje em dia? Talvez te escreva outra carta falando mais sobre isso… talvez só converse com você nas janelas embaçadas dos ônibus… Talvez apenas mergulhe meus pés na bacia de água gelada para o cansaço ir além da simples vontade de ficar só. Talvez…
Talvez o amor que exala em mim e que misturo nos seus poemas seja feito de asas… em mim, o pássaro de todo dia é aconchego e divide com as abelhas jataí a água preparada para quem beija a flor… e quem sabe esse amor seja só essa gota que pinga constantemente em um balde esquecido…

Abraço carinhoso
Mariana Gouveia
Carta publicada no blog da Scenarium Livros Artesanais
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infinitamente

Rotas

Ph: Tumblr

Viveu ausências nos dias. Traçou rotas, criou mapas.
Foi buscar cura em aconchegos distantes.
Viu loucura nos olhos das pessoas – epelho refletido – alguém disse.
A loucura é da dona do espelho.
Tudo que acontece de maneira estranha enlouquece.
Visitou um sábio numa manhã de rotinas. Não falou nada. Apenas concordava. O olho atingia o centro da lucidez.
Pegou ramos verdes e a benzia.
Murmurava orações antigas que ela conhecia de outros tempos.
Abençoou um casamento.
Ainda acredita em tradições.
Registrou os instantes da fé, da troca do beijo, da aliança na mão.
Lembrou da sua. Do vento uivante que cantava no dia.
Desejou as rotas todas vividas para o coração da noiva.
O noivo tinha riso de filme de cinema.
Falou tudo isso num ímpeto e ela nem teve tempo de anotar nada.
Os ramos verdes que murcharam ficaram em cima da mesa.
Era a benzedura que tinha efeito de saudade.

Mariana Gouveia
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Das rotinas · Scenarium Livros Artesanais

Quando escrever era apenas uma maneira de dialogar comigo mesma

Muito antes dos blogs virarem tendências eu usava os cadernos. Eu os consumia com tanta vontade que o moço da papelaria já me conhecia pelo nome. Além dos cadernos, eu escrevia/escrevo muitas cartas. Hoje, há aqui no blog um espaço dedicado à elas. Mas, houve um tempo em que eu queria apenas dialogar comigo mesma e para isso o caderno de capa dura feito de diário era a maneira mais fácil.

Ali, eu podia dizer o que queria e evitar de certa forma, as piadinhas dos meus irmãos. Era onde eu falava da melancolia e de sentimentos diversos que eu vivia durante o dia. O diário passou a ser o meu “amigo” visível. Aceitava todas as palavras sem reclamar e mesmo quando errava alguma letra ou palavra não reagia ao uso da borracha.

Nas linhas cabiam minhas inseguranças, medos e a fuga da realidade. Eu me diluía nas tintas das canetas. Era onde eu me despia… e descobri que se os deixasse em cima da mesinha da cabeceira exposto nenhum dos meus irmãos leria… mas quando comprei um dos cadernos que possuía um cadeado eles não sossegavam até encontrar a chave.

Os cadernos possuíam meus voos e meus pousos… as loucuras e a lucidez de quem tinha tanto no peito gritar. Quando saí da fazenda, e da pequena cidade onde nasci, a cidade grande me engoliu e eu escrevia em todo tipo de papel… há pouco tempo encontrei alguns guardanapos antigos com poemas que foram dores esparramadas em forma de letras.

Vieram os blogs e os livros – que se transformaram em uma maneira mais direta de falar comigo e com o outro que me lê – e em alguns textos uso a personagem para falar por mim. Empresto à ela o meu sentimento-angústia-saudade-medo-coragem… e assim, consigo falar de mim com a palavra de outros. Ah, e eu ainda continuo a escrever em diários.

Mariana Gouveia
Scenarium Livros Artesanais
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infinitamente · Scenarium Livros Artesanais

Ao Sul de nenhum Norte

Ph; Pinterest

Não fosse eu esse rio,
que deságua em meu peito
Morreria todo dia
feito flor no deserto
e com a solidão dos quintais.

não fosse eu esse céu,
as asas… 
sem o dom de voar

enquanto espero o ônibus da linha 508
as ruas ganham o vento de companhia
e na calçada  
o cacto de tantos anos que floresce… 

não fosse eu a cor…
desbotada, sem realces e tons

o sabor da invenção das palavras na boca
tal qual um beijo que nunca veio.
Solidão.

Não fosse eu,
seria o perfil de uma casa que
não lembro mais o nome.

Mariana Gouveia
Poema publicado no Projeto Coletivo Ao Sul de Nenhum Norte
Scenarium Livros Artesanais
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Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Parabéns, Cuiabá! 304 anos.

Amar você virou rotina. Dessas rotinas comuns de espiar você além da janela e do meu quintal. Do céu que vejo amanhecer em tons laranja e da vida que começa em ti em cada manhã.

Amar você gera conflito, porque você mudou tanto.

Antigamente, te amar era tranquilo. Eu podia te abraçar dali da calçada e meus olhos te alcançavam na leveza do vento que batia nas folhas da mangueira que me traziam sombra e aconchego.

Eu não entendo mais teus modos e talvez você me diga que é isso que me encanta. Que é ali que esconde tua beleza. Que teus lugares são feitos para mim, que é em ti que eu me encontro. Encontro-me nas tuas esquinas onde corri, onde brinquei. Nos muros onde rabisquei meus primeiros poemas de amor.

Amor que falava de sua cor, do fruto doce que como presente você derramava no meu quintal. Do sol abrasador que me aquecia e que eu insatisfeita, sempre, reclamava.

Eu sempre te amei. Desde quando as tuas ruas se abriram pra mim me envolvendo com as folhagens das palmeiras que te ladeava. E eu, menina, corria solta pela vida em você. E sonhava com você dominando o mundo, senhora de si, com tuas cores redesenhando o amor que eu sentia por ti. Depois teu colorido foi se tornando cinza e tuas possibilidades de cores enfeitavam minha vida.

Me vestia de chita, te vestia de chita. Te cantava nas canções de amor. Te enchia de poesias pelas vielas. Serenava para você nas madrugadas frias. Umedecia nas tardes de calor.

Reclamava, reclamava e ainda assim, longe de ti, queria existir em você.

Sempre amei caminhar nas tuas rotas, desvendar as teus lugares secretos, comer e beber de ti, na essência pura de tua alma. Eu sei que tudo isto está aqui ainda, mas aquela menina que aprendeu a desvendar o amor que sentia por ti, cresceu. E o amor… esse amor infinito por você cresceu junto comigo, na mesma intensidade do sol que em ti, se torna especial.

Com o tempo, me transformei arrogante pelo simples fato de te possuir, porque te queria a melhor.

Eu andei por aí, e nos becos, descobri que tua força não é mais a ingenuidade de menina. Você cresceu. Tomou proporção de gigante e  teu tamanho é efêmero porque ainda guarda a singeleza do teu linguajar, se tornou maior do que podia aguentar e ainda assim permanece intacta na simplicidade.

Já fui pra outros lugares,  outros amores… Eu sempre voltei para você, por vezes insatisfeita, mas com aquela sensação única de que só a ti eu poderia chamar de lar. Meu porto seguro.

Ali, entre a ponte que dividia lugares, onde guarda meus desejos mais secretos e que para ninguém descobrir você os levou pra água mansa do rio. Aqui, debaixo de teu ipê florido e nas calçadas onde cresci sentindo aroma doce do cerrado.

Busco justificativas para aquilo que eu sinto, sendo de verdade, o amor.
Ainda me encanta a tua diversidade, os teus mil jeitos e lugares que me acalma.

A mansidão com que me abraça, mas eu odeio a tua falta de regras, a tua desigualdade, a tua falta de respeito, de solidariedade.

Pode ser que eu me engane ao ver nascer uma flor debaixo de tanto concreto, onde as escadarias me leve aos lugares de fé. De tua fé e do acreditar que é possível que você continue a mesma e  mude.  Que os encantos aconteçam nas manhãs em que vejo pássaros tão variados voando no teu céu cinzento e pense que você ainda é a menina simples que me encantou.

Eu te amo e te odeio, mas não te deixo, porque você sempre coloca em meu caminho uma descoberta que me conduz para lugares lindos, pessoas inesperadas, histórias de contos de fadas e que estampa em tuas praças a esperança.

A esperança do amanhã. Um amanhã novo que se desenha e sem medo de ser feliz eu te abraço. Te abraço e nesse teu renovar de dias eu me derramo de amor pra você.

Enfim, sabe como despertar em mim a cada dia um novo sentimento que me direciona, invariavelmente, a ti, Cuiabá.

Parabéns pelos seus 304 anos, Cuiabá, meu amor!


Mariana Gouveia
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Participam comigo:
Lunna GuedesSuzana Martins – Roseli Pedroso  Obdúlio Nunes Ortega

Goiana, cidadã cuiabana desde sempre, mas  desde 2009 cidadã orgulhosamente cuiabana e irremediavelmente apaixonada por Cuiabá.

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

carta para a solidão.

Cara Solidão,

Em muitas noites a insônia habita o meu corpo e os olhos acompanham o desenrolar da madrugada que num estalar de dedos se dissolve e vira dia, manhã de sol e eu cambaleando pelos cômodos, arrastando o passo pelos cantos.

Quando isso acontece, tenho a impressão de que a solidão é uma presença, uma entidade. Figura gigantesca. Mas, se antes, você habitava as noites mornas, nos últimos dias, tenho sua companhia nas tardes, com as réstias de sol atravessando as cortinas e o vento bailando num tímido vai e vem. Sinto seu toque na pele e suspiros vazios. Percebo-te entre as paredes da sala e dentro das gavetas que vasculho em busca de memórias perdidas – cartas que não foram enviadas e algumas que nem escritas foram.

Eu nunca tive medo de viver só. Sempre soube aproveitar de minha companhia e entre sorver uma xícara de café e escrever, na realidade, nunca estive só. Os pássaros, as flores e as sombras de meu quintal preenchem lacunas-espaços – ocupam-me. Tu és esse vento que passeia pela casa, sopra as roupas no varal e provoca tumulto. É a mão que toca a minha e me lembra do meu lado de dentro.

Houve muitas tardes que o silêncio da casa era quase um alívio e escrever-te é como afirmar sua presença pelos cantos, como o chapéu que uso vez ou outra, por causa do sol ou o som do relógio a ressoar por aqui.

Será que estou inventando uma personagem? Não seria a primeira vez que invento um substantivo ideal para ser o meu par, como a cortina é companhia ideal para dançar com o sol.

Mariana Gouveia
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Texto publicado no Projeto Coletivo Roteiro Imaginário
Scenarium Livros Artesanais

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Carta à Anne

Querida Anne,

Devo te confessar que meu ritual ao te escrever possui a magia simples de entrega – tão eu/você aqui – em frente a janela repetindo nos gestos ao longo dos dias: isso de ser mulher é angustiante. É estranho imaginar como seria se você vivesse nesse tempo. Teriam teus poemas a mesma forma de atingir quem te lê? A mulher que luta pelo que acredita, agora.
Você conseguiria ao longo desse tempo tecer um diálogo comigo sobre os tabus da época em que você viveu? Lembro – me de minha adolescência e da força que minha mãe possuía com seu livro na mão.

Ela era como você… CONFESSIONAL! Estava ali, de pé, as mãos sobre as cortinas esvoaçantes e os olhos dentro do livro, a brisa a tocar a alma e ela tão real, diante da vida e tão certa das dores de quem não queria ser apenas uma dona de casa, mas libertária.

Vi seu olho escorregadio nas fotografias antigas e respiro essa ansiedade vinda de você e atravesso sua poesia com a alma nas mãos.

Como não confundir esse medo real que bate a porta com a sensibilidade quase habitual na palavra morte? Como falar sobre sexo, amor, medo e solidão? Já viajei contigo nesses caminhos tortos e quando percebi, estava só e seus poemas ecoando em mim:


Tudo em mim é um pássaro.

Adejo com todas as minhas asas.
Queriam extirpar-te
mas não o farão.

Diziam que estavas incomensuravelmente vazio
mas não estás.
Diziam que estavas doente prestes a morrer
mas estavam errados.

Cantas como uma colegial
Tu não estás desfeito.

Um sino que toca me faz lembrar que hoje tem missa e que mais uma vez perdi a hora e não pude atender a senhorinha da esquina que pedia um poema quase reza em homenagem a santa do mês. A fé se perdeu nas pessoas que se foram. Sou eu, essa falta de tato dentro da solidão.

Sou esse pulso vazio sem veias na impressão do que acontece no dia seguinte no diário oficial. O rito é esse compasso de espera, de vagar nas lembranças de um tempo que passou enquanto olho-e-te-vejo-olho-e-me-vejo. Sou eu ali, nas entranhas das frases escritas por você e onde me perco na vaga promessa de uma oração de fé no que não acredito.
Hoje, o livro dorme em silêncio enquanto abro os braços e chamo seu nome… vem?

Beijo,

Mariana Gouveia
Carta publicada no Projeto coletivo La Barca
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Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Carta para Sylvia aos cuidados do poema

Ph: Mariana Gouveia

Sylvia,

Amanheci lendo Ariel… caminhei pela cozinha e descalça fui até o quintal com a xícara de café me acompanhando… Devia ter pensado em um vinho para te brindar…  mas para isso, uso o orvalho que cai das folhas da clitória — flor que absorve bem a umidade da noite – e molho o dedo no líquido que escorre da flor. Lembrei-me de que a primeira versão de Ariel foi publicado no ano em que nasci. E por isso me vesti do poema – que abuso, o meu – e me despi logo depois. Eu me vi erótica e te vi gritante, pulsante, violenta e mansa. É contraditório, eu sei…  mas é que você é essa explosão de sentimentos transbordantes dentro de um poema só e que ultrapassa sua obra inteira.

Busquei o êxtase no azul do céu aqui e fiquei a imaginar a cena que você descreve. Repeti infinitas vezes o penhasco, o sulco, o arco, o pescoço e suspirei. Foi tão intenso que pensei em como você conseguiu cruzar esse meio fio e não se encontrar. O eco das palavras ressoava no interno de mim. Sabe o que é isso? Ah, sim! Você sabe muito bem.

Sabe, fiquei presa dentro das palavras e reverenciei as várias deusas em uma só com seu nome. Pensei que estava delirando quando rodopiei no quintal e atravessei meus olhos além dos muros por que me senti sendo espiada. Chamei seu nome e confesso que quase ouvi uma resposta… claro que é apenas meu lado lúdico bebendo suas palavras. Isso porque o café nem é o vinho.

Fiquei pensando em como você é tão atual e de como suas palavras foi esse grito de prazer e dor. Não sei o que te falaria se estivesse frente a frente com você. Acho que o mundo era pouco para sua dimensão e entendo que nem as palavras conseguiram tornar mais leves os seus momentos. Se me pedissem para te traduzir em uma palavra, eu diria: I n t e n s a… tão tridimensional que Godiva se encaixa entre o sagrado da vida e o pecado da morte: d e u s a e deusas não morrem. São deusas.

Mas ainda assim deusas são ousadas e frágeis… e a escritora foi puro desaforo diante da vida e também a flecha e o alvo.  Mas, para mim, você será sempre algo mais do que uma mulher que escreveu… você é a leoa que deixou suas palavras para que ecoassem com elas as dores, o sofrimento e os amores para que o mundo conhecesse você.

Mais do que a escritora, a mãe, a doente, a morta, a viva, a deusa você é a poesia e o poema. Ousada e submissa. Contraditória e subversiva e inspiração para muitas que como eu quer que a liberdade seja sempre sinônimo de mulher. 

Grata tanto!
Mariana Gouveia
Carta publicada no Projeto coletivo La Barca
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