Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

cabem dois pais em um só coração?

Pai,

era uma estrada, aquela que a gente pensava que era trieiro – de tanto que passávamos – e que mostrava o descampado para além da floresta. Hoje, busco o mesmo caminho dando voltas no quintal.

Sabe, a sua filha anda cheia de perguntas e não vejo mais ninguém que possa responder… fico buscando as respostas em conversas antigas e que só me levam para as lembranças.

Eu escrevo essa carta dividida para você e o pai do Lauro, que você só viu pequeninho. Embora, a carta seja direcionada para você, pai, o pai do meu filho vai ler também como se fosse para ele. Não posso separar o homem que me criou e me fez tão ciente do mundo do homem que me faz ser alguém no mundo.

Acho, pai, que não poderia ter escolhido pai melhor para o menino, para o adolescente e para o homem que se formou dentro de suas vontades. Eu quis que o pai do meu filho fosse exatamente – até com os mesmos defeitos – igual a você.

Ele ri das minhas bobagens, se zanga de coisas menores, mas é imenso em segurar minhas mãos. Das minhas memórias, pai, você era o vigia das vontades nossas. Sete filhos da mesma mulher e só depois veio mais um… já com o pai do meu filho foi diferente… a vida levou um e ele, que era tão pleno de ser pai desejou ser mais que pai. Desejou ser amigo e assim é…

A data se torna obsoleta nesse domingo estranho… agosto é esse tempo de fogo, de secura, de fumaça no céu… lembro-me, pai, do senhor cuidando dos aceiros para proteger a lavoura e da florada dos ipês. Foi vendo a florada dos ipês com o senhor que me apaixonei pelas árvores.

E foi pensando em meu encantamento pelas árvores, pai, que o pai do meu filho plantou o ipê que hoje abriu suas flores mais uma vez no meu quintal. O amarelo doura o chão e eu penso no senhor e abraço o pai do meu filho aqui em extensão ao meu abraço para o senhor.

Te amo e amo ele, de maneira especial e única!
Mariana Gouveia

Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.
Participam comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso – Suzana Martins e Bob F

Afetos

Era apenas a palavra poesia que findou.

I

Havia papéis rasgados
Corações que alguém descolou

– o lado certo virado para o negrume da noite –

O avesso.

II
Junto ao chão
A poeira dos dias

– o vento a rastejar enquanto deseja voo –

O espaço.

III
Era apenas a palavra poesia
Que findou.

– outro dia seria assim, se desejasse –

Não quis.

Mariana Gouveia
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.
Participam comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso – Suzana Martins Bob F

infinitamente · Scenarium Livros Artesanais

De noite, o mar é dourado

Você poderia me dizer se amanhã vai ser quente, se a cortina azul ainda dança na sua janela e que a brisa faz lembrar de mim.

Poderia me falar das coisas bobas que você fez. Da areia da praia onde encontrou os búzios coloridos e de como a exatidão da conchas cabem dentro do meu quintal.

Às vezes, as conversas bobas trazem o encanto e o sol debrua buscando a maresia que sopra aqui.

O vento te conta histórias que antigamente você lia. Os séculos perduram em relógios quebrados com as ondas do mar.

Os teus olhos buscam a incompletude onde o mar avança sobre meus passos.

Como desenhar as digitais de sua mão dentro de minhas histórias?
Como atravessar em pensamento um oceano inteiro onde é secura logo além da varanda e meu suspiro avança noite adentro.

De noite, o mar é dourado, enquanto pirilampos invadem meu quintal sem luz. O teu corpo vazado em meus dedos de artesã.

Mariana Gouveia
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.
Participam comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso – Suzana Martins e Bob F

Das palavras das cartas · Projeto Fotográfico 6 on 6

BEDA – dos dias aleatórios ao encantamento

estranha que fui 
quando vizinha de longínquas luzes 
acumulava palavras tão puras 
para criar novos silêncios 
 Alejandra Pizarnik

Bambina mia,

de repente, hoje, percebi o silêncio no quintal através das teias de aranhas… geralmente, o quintal é barulhento por si só. Não bastasse o Chiquinho e seu chilreio atrás dos invasores da sua água no bebedouro, ainda há um bando de Encontros – o pássaro preto com o filete laranja na asa – o bem-te-vi e o pé de ipê com seu farfalhar de folhas nessa estação estranha por aqui.

Engraçado que falo de todos os bichos e de todas as coisas e me deparo com as teias enquanto dou água às plantas. Confesso que fiquei presa por um bom tempo dentro desse silêncio de domingo assistindo elas a cruzarem fios como se fossem tecelãs.

Algumas, parecem que foram abandonadas depois de tecidas. Geralmente, ficam entre o pé de clitória e capins que nasceram ali e que deixei ficar por causa dos cães. Parecem toalhinhas de crochê, e com os respingos da água parecem pérolas penduradas.

Sabe, bambina, fiquei pensando em como algumas coisas me causam encantamento no quintal e quis dividir com você o silêncio delas… Até o vento silencia perto das teias… a memória me leva para os campos do lugar onde meu pai mora e de como a vida vai me apresentando esses encantamento em dias aleatórios, como hoje.

A luz atravessa os fios e olha, bambina, os desenhos modificam de uma para outra… fiquei impressionada com isso e de como o silêncio se dá bem com isso. E em algumas, a doçura do erro não estraga a forma da teia… apenas a torna mais encantadora.

Confesso, bambina, que não sou muito fã do bicho que tece, talvez por isso, meu olho nunca tenha esbarrado nelas… mas, hoje, é domingo e descobri que não há dia para se encher de encantos nem de silêncios. O domingo parece acordar, para além dos muros e a vida já corre ligeiro por aqui. Vamos ali, viver!

Bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.
Participam comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso – Suzana Martins e Bob F

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Codinome: Coragem

Querida Maria,

É verdade que você se transformou. E se eu fosse detalhar resiliência, seria teu nome que estamparia nas camisetas que usaria todos os dias.
Lute como uma garota! – eu diria – e não seja normal – as pessoas normais são chatas e sem histórias.
Quando me deu sua história, era um dia chuvoso e as palavras se uniam em tom de desabafo e você, ali aos meus olhos nua e crua. Resiliente e aspirante no modo amar. O medo em cada gesto e um desejo absurdo de falar.
Você me usou para ser voz e ao mesmo tempo me silenciei e dei voz a você. Fui seus passos aqui do lado de fora e testemunha do amor que foi plantado e que virou esse romance que traduzo nos gestos de quem ama o amor.
Hoje, Maria, você ganha ares de vencedora e coloca um ponto final naquela história que dói e recomeça a contar seus momentos a partir do belo, da casa com quintal, dos chás de cidreira e noites de amor.
Talvez você se encante por essa nova vida. Talvez você se inquiete com alguns momentos, mas o que posso garantir que tudo se trata do destino.

E do destino, você não tem como fugir.

Mariana Gouveia
Portas Abertas – Codinome Lucidez
Scenarium Livros Artesanais
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.
Participam comigo:
Lunna Guedes Obdúlio Nunes OrtegaRoseli PedrosoSuzana Martins e Bob F

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

carta para Edi aos cuidados do extraordinário

Edi,

quero te dizer antes de qualquer coisa que o extraordinário me rodeia. Acontece com momentos, com fatos vividos e com amizades. Sempre repito que sou abençoada porque o universo é generoso comigo. O extraordinário acontece no meu quintal, seja em forma de pássaros ou de flores. De céu e de gente.

Eu queria colocar uma foto que me enviou dos caminhos que faz quando volta para casa depois do curso e me contou da placa sobre o amor – essa palavra que sempre me lembra sua mãe – mas, as mensagens temporárias me roubou a foto. É que através dela eu queria falar do extraordinário do universo… essa força estranha que liga pessoas, que liga momentos, que liga carinhos… tudo é como se fosse uma linha que vai dando seus nós e eu chamo de destino.

Sabe, Edi, eu o vejo extraordinário e não ousa me contradizer. O que nos liga é extraordinário. O que nos fez igual em dor e perda é extraordinário e sei que um dia choraremos e riremos juntos de tudo isso que o extraordinário nos liga…

Acho que te falei desse pássaro laranja – da foto que emoldura sua carta – que passou a visitar o meu quintal. Eu o vi, de relance através do vidro da porta num desses domingos frios de julho… Ele vem sempre pela manhã e já me deixa chegar perto. Isso é extraordinário! O comum já nos rodeia sempre.

Lembrei-me de que nossas conversas beiram ao extraordinário e que de repente, é 25 de julho de novo. Um dia santo – que meu pai levantava o chapéu sempre que levantava e fazia o sinal da cruz. A vida é cheia desses momentos, Edi… a gente, às vezes, apressada, não vê. Preocupamos com o futuro e esquecemos do presente – essa palavra extraordinária que sua mãe amava – ou ficamos presos no passado.

Eu queria te contar tantas coisas e ao mesmo tempo queria sentir o silêncio com você. Ainda me lembro de quando te vi a primeira vez e do seu riso de amor para sua mãe. Se eu soubesse que no futuro falaríamos tanto teria te puxado pelo braço e te dado o abraço que hoje pela distância, te mando por aqui.

Que seus caminhos te mostrem sempre o extraordinário e que a vida seja vivida na intensidade dos dias.

Meu abraço carinhoso!
Feliz Aniversário!

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Lunna Guedes

para além das flores do ipê

Bambina mia,

Devo confessar que todos os dias eu vigiava o pé de ipê em uma das avenidas principais da cidade. A minha expectativa era vê-lo florido e te escrever junto das flores.
Por dias a fio eu via os galhos secos e pensei que as flores esperariam o agosto fugaz para desabrocharem…
Mas, o tempo delas veio hoje, e corri para te mostrar o quanto o dia pode ser iniciado na singeleza das flores.
Faz tempo que não te escrevo – pensei nisso enquanto me preparava para vir ao trabalho – e quero reparar essa falha dentro dos dias corridos.
A segunda – feira chega na forma inesperada de um buquê. Que seja assim então diante do namoro com a vida.

Bacio
Mariana Gouveia

infinitamente · Scenarium Livros Artesanais

Você é minha melhor história

Era manhã quando você nasceu. O dia estava bonito quando as dores chegaram. Só depois de alguns anos entendi a sua pressa ao nascer. Você é desses meninos/homens/pessoas apressados para viver. Chegou antes – mas quem disse que era antes? – segundo a previsão dos médicos e sob o signo de leão me fez mãe. São 35 anos com sua voz me chamando assim. O meu olho de amor te abraça mesmo com tanta distância de lugar. O meu olho de poesia te faz minha melhor obra e o meu olho de mulher se orgulha do homem que criei. Dizer que te amo é repetir mantras feito aqueles que acalma a alma. Minha alma se acalma quando você sorri.

Mariana Gouveia
Agenda Scenarium Livros Artesanais 2023

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

De noite o silêncio estica os lírios. 

Jean,

hoje eu pensei muito em você… tentei contar os anos e deixei pra lá… lembra quando a gente desdenhava do calendário na soma dos dias? Lembrei-me disso hoje. Lembrei-me de você e a mochila de sapinho, da maneira como você mexia e jogava o cabelo para trás… lembrei-me de você se espantando com minha tatuagem e de como isso nos aproximou… lembrei-me de você hoje….

Recebi um poema logo cedo e nas primeiras linhas pensei nos lírios que plantei e coloquei seu nome… sempre dei importância para eles, mas hoje, incrivelmente, sem sinal algum de botão pela manhã, eles estavam abertos a noite, ainda com a garoa desse tempo doido de julho.

Quando lembro de você, em consequência, vem sua mãe e seus irmãos… e eu evito algumas perguntas para evitar a dor. Mas, em silêncio, faço milhares para você – está em algum lugar bonito? Os lírios se esticam a noite em silêncio? Há silêncio aí? Tem noite? – e sei que tudo é um mistério indefinido diante das coisas que vivemos. a vida é esse pedaço tão pequeno de tempo, que às vezes, nem o calendário define. E nem o dicionário explica saudade…

Hoje, mais uma vez, meu coração te dedica amor para além da vida. Ouvi Charlie Brown Jr, ouvi Bob Marley e de alguma forma te toquei…

Agora, vou molhar as plantas e os lírios que como o poema diz? de noite o silêncio estica os lírios. Será que você sente daí?

Te amo sempre,
um beijo,

de sua tia Lurdes

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Quem disse que é preciso estar junto para estar perto?

Júnior,

de repente, é 16 de julho de novo e mais uma vez estou aqui te escrevendo. Quando olhei o calendário lembrei-me de você, de seus irmãos e de sua mãe… havia uma rotina que ela seguia nessas datas especiais… ela esperava meia noite… era quando o “especial” acontecia. E eu sempre fazia parte do especial. Mesmo com sono, sabia que ela ligaria e dizia: é aniversário do Júnior!

Nessa hora, estivesse onde estivesse ela falava com você, para logo depois me recontar pela milésima vez como foi o trabalho do parto, o jeito “só seu” de quando nasceu. Eu poderia escrever um livro só desse momento. Da sua ida à escola, do seu amor pelos irmãos e do jeito marrento ‘chic” que é único seu. Com todas as sílabas reforçadas por ela. O Júnior é diferente! Ele brilha!

Acho que dos filhos dela, você foi o que mais convivi pessoalmente. Embora Marcelo seja o principal motivo de ligações entre nós, eu e você estávamos juntos em alguns sábados, na mesa do almoço, no sofá da sala, na conversa sobre fotos e depois, sobre Duda. Eu era parte de sua família mesmo não fazendo parte dela, porque sabia de tudo que se passava ali, dentro do coração e no olho de sua mãe.

Sabia suas paixões, seus sonhos e vontades. Rezava junto com ela para que algum anjo no universo inteiro te guiasse sempre no caminho do bem e continuo rezando…

Esse universo é tão amplo… as estradas tão intensas/imensas e cheias de obstáculos. Mas, a gente sabe do seu potencial e do quanto você se dedica e do quanto de kms você percorre para ultrapassá-los. Você também sabe quantas pessoas te esperam e torcem por você em cada curva. Quem disse que é preciso estar junto para estar perto? Você está sempre dentro dos corações dos que te amam. Tão perto! Todos os dias, além de aniversários e vida afora.

Eu aprendi a ser coadjuvante nessa torcida e vou estar sempre aqui, torcendo para que em seu caminho as imagens sejam motivos para a chegada. Que em cada momento que você olhar para o lado e se encantar com o que vê, seus pensamentos te levem para os que te esperam… e que em cada abraço, a natureza que te protege seja guia nos caminhos em que trihar.

Feliz aniversário!
Abraço carinhoso ❤
Mariana Gouveia