das coisas breves

Dançava com o vento

Dançava com o vento, na maioria das vezes, continha o riso para não escandalizar os ausentes.
– diziam que tinha a loucura no olhar –
De vez em quando, por reflexos, através de um espelho, via a vida como se fosse um autógrafo para que ninguém apagasse dela o costume de viver. Ainda assim, todo dia escrevia uma carta sem destinatário contando seus segredos internos… Ou seu diário de amor.

 Mariana Gouveia
Das coisas breves

das coisas breves

Das coisas breves

Se apaixonou por heras, por folhas secas que caiam como brindes do quintal da vizinha. Desenhava nos muros coisas aleatórias de quem acreditava que só se vive uma vez.
Essas coisas de quem se acostuma com uma única estação – o outono era sua preferida –
O ocre das paredes sem estuque, também.
Conhecia os odores da terra e o cheiro de chuva quando cai.

Mariana Gouveia
Das coisas breves

Das rotinas · Scenarium Livros Artesanais

Ritual marítimo

Era sagrada a lua quando teus pés pulavam a poça d’água no chão e tocava o céu com as mãos na água onde refletia as nuvens e seus azuis entremeados de branco.
Procurava figuras nelas, tentava encontrar estrelas cadentes num céu de maio desmaiado de luz. Era noite quando regressava de sua viagem transgressiva e me contava seu caso de amor interestelar com a areia do mar… trazia para dentro de casa a maresia e invadia o quarto com sua intenção de amar. E deixava meu quintal com o ritual marítimo de ser e cheio do desejo de estar.

Mariana Gouveia
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.
Participam comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso  Suzana Martins e Bob F

Das rotinas · Scenarium Livros Artesanais

e eu nem sei se a luz madrugou ou chegou tarde

Releu as cartas que escreveu. A emoção era puro amor além da voz. Tem dias que nem precisa de carteiro para a carta ser entregue. Basta a emoção que a faz parecer menina.
O mensageiro era o vento, que em dias como hoje finge não existir. Um cheiro de flor cruza o quintal. Usa os desvios da rua de cima para atravessar os muros e virar poesia na leveza da flor. Repito a pergunta de outro tempo: seria a nuvem atravessadora de ritmos?! Era quase dança a pétala desmantelada. Tem noites que as flores perdem o sentido de jardim. Tem noites que a emoção não é invenção minha. Eu apenas vivi.

Mariana Gouveia
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Das rotinas · Scenarium Livros Artesanais

é sem raízes, o jardim virado do avesso

Há um oco no peito que grita o vazio rasgado de flor. A mulher que lê o destino dos outros – e quase sempre erra o dela – fala sobre mudança de hábito. Os búzios indicam o caminho da paciência. A maré muda dentro da estação. As ervas indicam a rota da cura. O jardim virado do avesso. Um monge atravessa a rua com olho para o nada. Alguém predestina a palavra da fé. Depois disso digo que aceito tudo: Que venha o destino com sua fome de lobo e pele de cordeiro! Aceito na boa os 40º na sombra e as flores murchas do meio dia. A sorte chamando o inseto na cor. O trevo batendo à porta desejando favor. Os corredores pintados de cinza… armários sendo esvaziados e histórias dentro dos livros jogados em um quartinho qualquer. A mudança é favorável ao novo – diz as cartas de tarô – e a linha da vida formando a letra do ontem. Tomara, vida que fosse hoje. Quem dera, sorte que fosse amanhã!

Mariana Gouveia
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Das rotinas · Scenarium Livros Artesanais

das impressões do dia seguintes

Encontrei um ninho no meu quintal e a vida ali, sabia voar. Primeiro chorei pela benção, pela graça da vida gerada diante dos meus olhos e quis desenhar o ninho e seus gravetos. Depois, registrei para o álbum das emoções e desejei escrever a carta para contar a história. O pé de algodão virou maternidade e tenho a vista aérea da varanda. Meu medo dos incidentes com os cães e virei vigia de ninho de ave. A delicadeza acontece nos momentos estranhos. O amor nasce entre as flores e os chumaços do algodão. A vida tem a leveza do ninho branco junto da folha seca e das folhas verdes. Descobri o sentido da árvore ali, a derramar folhas inventando estações e o chiado de dois bebês passarinhos que resolveram nascer ali, no quintal onde o rio faz curva no mar na esquina do muro.

Mariana Gouveia
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Quando o azul invadiu meu quintal,

busquei nos cantos do muro a maresia. O vento oscilava no jardim e a brisa chamava seu nome – era só fantasia, eu sei – e o eco rebatia no estuque das paredes. A cascata das flores renascendo dentro da cor me trazia a canção na voz de Elis onde o pedido era morar no azul… Foi quando eu cantei e abri meu braço de rio para alcançar o teu mar.

Mariana Gouveia
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Das rotinas · Scenarium Livros Artesanais

O tempo mudou na previsão do dia.

Da janela, vejo que o vento não me obedece no silêncio das horas. Eleva as folhas no quintal e chama para a dança – furiosa – com os galhos todos.

Salvo as vidas, que quase sem tamanho, se engrandecem na segurança da varanda. Há terra seca em cada canto. Perigo para quem tem asas – essa sorte de voo quando o vento é passivo – mas, é voo cego nessa previsão que chega diante dos olhos. Só o som da rajada de vento para parecer canção.

Mariana Gouveia
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Das rotinas · Scenarium Livros Artesanais

Choveu e aspirei a saudade no ar.

Esqueço a nomenclatura dos dias. Eu sou solar e a chuva invade esse dia lento. Já não sei dizer o sol e a meteorologia prevê a estação de fato, onde moro.

Entre o silêncio e o vento, trovoa. O eco do céu ruge feito um animal bravio. Salvo as delicadezas do quintal uma a uma e a metamorfose acontece diante do dia. E eu a esperei como se espera o dia que amanhece depois de uma noite longa de insônia. Eu a esperei como o jardim espera a flor nascer e como o inseto espera a mão que o acolhe. Talvez amanhã, o cotidiano aconteça nas rotinas da espera.

Mariana Gouveia
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Gravidade

Gravidade de lua.
Bastava fechar os olhos e flutuava.
Dentro das palavras dela.

Mariana Gouveia
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