Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

*Quero fazer crer que é tardíssimo, ou qualquer outra urgência que te acarinhe para longe

Leonor,

quando a tarde vai caindo e o céu ganha os tons laranjas da primavera no meu quintal – esse mesmo que te viu dançar em tardes iguais – eu penso é tarde, Leonor… muito tarde para que chegue alguma respostas das mais de mil cartas enviadas.

É tarde para esquecer também, já que algumas coisas chegam até mim com todo simbolismo que nos rodeou. As ruas do meu bairro com casas coloridas que você fotografou. Quero fazer crer que é tardíssimo, ou qualquer outra urgência que te acarinhe
para longe..

De vez em quando eu esqueço, Leonor… nesses momentos em que o tempo acontece fora do padrão dentro de mim… esqueço até da estação que me rodeia e a vida segue constante no ritmo de antes. Mas logo depois, alguma coisa me leva até seu nome – seja uma canção, um voo de ave, um sol ardente, a chuva tardia de verão, os lugares onde fomos e tudo volta de novo.

Sabe, Leonor, às vezes, parece tudo distante e ao mesmo tempo parece que foi ontem… eu ainda reviro o baú com suas coisas e vasculho as correspondências que o carteiro deixa na caixa de correios. Também escrevo cartas que não envio, como essa de agora, só reafirmando que ainda te espero.

Beijo meu,

Mariana Gouveia
Missivas de Primavera
Scenarium Livros Artesanais
* retirado do texto do livro Poética de Ana Cristina César

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – dos corações que vejo

“Ela me dava a mão e então nada mais faltava.
Bastava para que eu me sentisse bem acolhido. Mais que beijá-la, mais que dormirmos juntos, mais que qualquer outra coisa, ela me dava a mão e isso era amor”.

Mario Benedetti

Bambina mia,

acostumei-me a te escrever no dia 6 de cada mês… talvez, porque ninguém entenderia essa coisa estranha de ligar fotos com carta – ou missiva, como tu gosta de dizer – mas você sabe que em alguns momentos, imagens e palavras se unem em uma perfeição para além do que somos. Talvez, por isso, eu quis falar sobre o cuore… os que vejo aleatoriamente, são os cuores que meu olho alcança.

Já te contei, bambina, que meu olho vê coração em tudo quanto é lado? Era uma folha aleatória? Não! Vi um coração na secura do cerrado… os meus, dizem – que sou assim desde criança – que vejo coração em tudo que encontro.

A gente sempre brinca que coração é um músculo, mas para nós a palavra tem o ritmo do tum tum, mesmo quando ele absorve, em alguns momentos as lágrimas dos olhos. Ou quando a folha imita o choro da natureza nas gotas de chuvas. tanto eu quanto você amamos esse momento.

E as vezes, bambina, o nosso cuore parece metade… seja ocupado por alguém, seja cheio de saudades… confesso que sinto saudades – embora saiba que a palavra não te alcança – de tantos momentos com vocês. Dizem que nessa hora o cuore se ocupa com as lembranças dos momentos bons. Posso enumerar todos eles…desde o encontro no aeroporto ao café da manhã… desde a chegada, ao abraço de despedida…

Bambina, sabemos também que em alguns dias o nosso cuore parece estar em um quarto escuro – conheço essa solidão ou sentimento e tu também – e em outros é como se estivéssemos em uma escola de samba… Dá até pra ouvir as batidas.

Em outros momentos, é como se ele fosse pequeninho e um ser gigante tomasse conta dele. Já passou por isso, amore? Eu já! quando vejo o céu, a tarde, se apoderar das nuvens e o prenúncio de uma tempestade se aproximar, eu abro os braços e meu cuore chama pelo seu. Grito seu nome e preparo para os tuns-tuns… Seja em poesia, ou em cartas, o cuore sempre é o mote principal. Como hoje, que te ofereço o meu em forma de 6 fotos para retratar meus carinho.

Bacio,

Mariana Gouveia
Projeto fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna GuedesObdúlio Nunes Ortega Roseli PedrosoCláudia Leonardi

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

*É mais fácil depois de ter desembarcado tantas vezes.

Messias,

te escrevo nessa tarde de raios e trovões depois de ter ouvido sua voz em uma gravação contando histórias. A carta é uma homenagem à primavera e essa será uma estação diferente e me lembrarei dela enquanto viver.

Meu irmão, a poucos dias de você ter desembarcado mais uma vez, em uma cidade distante para o transplante dos rins, você me disse em uma ligação: é mais fácil depois de ter desembarcado tantas vezes. E vai ser a definitiva!

Você, que desde pequeno foi meu guardião me trouxe a esperança de que, depois de tantos anos dependente de uma máquina de hemodiálise uma doação te faria livre de novo para beber água – que era o que mais te fazia falta.

Quando você ler essa carta já estará fora da UTI, e em ampla recuperação. Quero mais uma vez declarar meu amor por você e do quanto sou orgulhosa de sua força e coragem. Sabemos que ainda será um caminho longo para percorrer, e que ainda há algumas etapas em que a fé será a motivação para esses dias.

Sei que como eu, seu coração está agradecido pela família do doador ter tido a coragem, em um momento difícil optar pela doação. E tenho certeza de que você honrará essa doação vivendo ao máximo e bem, como amor e alegria, como sempre.

São apenas cinco dias de rim novo… a concretização de orações e esperanças. Ainda temos nossa irmã que também espera uma doação. Assim, como você, tenho certeza de que, em breve ela também irá desembarcar no mesmo lugar, para a alegria ser completa… Mas, como você mesmo disse: é muito mais fácil depois de ter desembarcado tantas vezes.

Estamos te esperando, mas seja paciente com os dias que virão. Logo tudo estará bem de novo.

Te amo muito!
Sua irmã,

Mariana
Missivas de Primavera
Sceanrium Livros Artesanais
* retirado do texto o livro do livro poética de Ana Cristina César

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Carta para minha mãe aos cuidados do amor

” Um dia, a palavra amor será seu lema em tudo que fizer. Desde as coisas mais simples, até o mais sublime ato seu, terá amor e é nessa palavra que me encontrará”.
Mãe.

Hoje vivi o dia dentro do silêncio. A voz sumiu e de repente, a vida passou feito um filme.
Posso contar tudo que você me ensinou dentro da palavra amor e de quanto carrego em mim seus ensinamentos – tão poucos – diante do que me lembro e tão intensos que revejo nas cartas que guardo comigo.
Suas letras aos poucos desbotam perante os anos que foram escritas… em outras, estão bem feitas como a última que escreveu para uma rádio, onde pedia sua música favorita e que trago comigo.
A letra miúda falando da primavera e de como as flores dos ipês te encantava tanto.

41 anos é uma vida. 41 anos sem sua presença física. Eu poderia dizer como foram esses anos todos, mas ao mesmo tempo, dentro do meu silêncio, às vezes, é como se eu abrisse o baú e tivesse ali suas fotonovelas e as histórias de amor que tanto gostava ao toque das mãos.
Aquela menina ainda está aqui, e roubo a frase que a mocinha dizia… Relembro seus suspiros e a mudança da história quando havia algo mais profundo para que a gente entendesse sobre o amor.

Há 41 anos, a vida te levou. Não sei para onde. Sei que de alguma forma você vive. Vive na sua estação preferida e nas canções que gostava de ouvir. Vive no riso dos irmãos onde cada um tem algo de você. Vive e permanece minha mãe sempre, nos momentos que mais preciso… e permanece viva em meu coração, mãe.

Beijo

Sua filha
Mariana

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

*Há apenas um quadro, retrato fiel, um cenário que recorta a janela por inteiro.

Ana,

Até anteontem era inverno… o mais quente de todos os tempos – dizem as manchetes – e é primavera, Ana! Poderia te dizer que os dias correram ligeiros. Era primavera dias desses e já se vão 365 dias desde então.

Lembrei-me de que faz dias que não nos falamos. eu iria repetir a velha máxima sobre a correria dos dias, mas Ana, confesso que perdi as palavras para falar com você. Ficamos estranhas nessa jornada de tempos que falamos mais de coisas dos outros do que sobre a gente,

Devia dizer que a a lua está divina hoje, que os barulhos dos fogos me lembrou o fim de ano – que se aproxima – e agradeço pelos cães daqui não terem medo deles. Os fogos é em comemoração de um time que foi campeão em alguma das infinitas copas que existem por aqui.

O calor ultrapassou todos os recordes. Tivemos hoje 42º registrados lá pelas minhas 14:00hs. Você poderia imaginar isso, Ana? confesso que estranhei tudo isso. Nem venta no meu quintal. As folhas das árvores nem balançam, mesmo fazendo o tal assobio que minha mãe ensinou.

Há apenas um quadro, retrato fiel, um cenário que recosta a janela por inteiro, nesse fim de tarde quase noite de uma primavera perdida para nós. Há qualquer coisa assim, de vazio, de silêncios amargos, Ana… diria que é a vida. Suspiro e perco as palavras diante da janela enquadrada enquanto as resgas da noite chega.

Talvez, em um fim de frase dessa carta não programada eu declare que ainda te amo, mas que te deixei só muito tempo com as estrelas, e isso é imperdoável. Como pude esquecer algumas datas importantes para nós? Seria a idade chegando e o calendário deixando de ter a importância de antigamente?

É o amor parado, Ana! Sem movimento, assim como o quintal agora, em um calor intenso e nem venta. É o fim da espera, Ana, e o início de um recomeço seu por aí…

Como diz a frase lida em algum lugar que esqueci: rega o teu jardim, pinta as tuas flores, come as tuas framboesas... e quando sair de vez, não esqueça de pagar as luzes e

Beijo meu

Mariana Gouveia
Missivas de Primavera
Scenarium Livros Artesanas
* retirado do texto do livro Poética de Ana Cristina César


Das rotinas

De ti digo sílabas e pétalas.

Leio histórias que lembra você. O homem da esquina entoa um mantra dentro da solidão – pede sementes da flor que nem nasceu – faz perguntas sobre o amor que canto na letra da canção.

Inventei sua presença, ali, no canto do jardim. É lá que beijo pétala a pétala da flor. Essa impossibilidade do toque não me afeta – fecho os olhos e a alma busca – porque eu toco-a.

Vejo de perto seus caminhos – seu céu sob o rio – e outras mãos que podem te tocar.
Era quase nada essa distância… é preciso um certo encantamento para viver a vida. Para superar esses corredores cheios da noite.
Perguntas rondam minha vontade de falar. Quase esqueço o último pedido do não. Onde esse medo de nada que vasculha minha noite? Onde essa flor que se abre dentro das ausências e mora nos poemas que me leem?
Onde o pólen se transforma na onda que se arrasta em meu quintal?
Dentro das perguntas em volta da flor apenas seu nome e minha declaração de amor.

Mariana Gouveia

Das rotinas

as minhas estranhas cicatrizes

Passeava pelo meu coração como se conhecesse as ranhuras, as cicatrizes. Por onde passava, abria as janelas da alma e deixava o sol entrar. Era estranho sentir as pegadas dela aqui e ali, mas a sensação de ocupação de mim era a coisa mais magnífica da vida.

Mariana Gouveia

Das rotinas

Ah, setembro…

Acho que foi em setembro quando os dias ganharam contornos de asas. A folhinha do calendário soltou-se – nem dava para saber que lua era – e o céu era povoado de flores.

Sabia apenas que ainda não era primavera, apesar das flores dos ipês mostrarem o contrário e tudo doía feito osso quebrado – na alma – e confundi a canção na voz estranha da cantora favorita.

Acho que foi nesses dias em que antecedem festas. Aniversário de alguém, sei lá! Só sei que me perdi terrivelmente dentro do dias e fiquei apenas sendo vazio sem você e quando vi os corações nas paredes, quase apagados e os corredores com a solidão do seu nome onde a lua em meus dedos escreve o amor.

Mariana Gouveia

infinitamente

Nomeei-te de liberdade

Um dia ela escreveu uma história sobre mim.
Fez com que eu coubesse dentro da latinha de sonhos dela e decorou de laranja para me enfeitar.
Guiou meus dias e me levava para onde quer que fosse.
Pendurada em seu pescoço, dentro da latinha de sonhos, eu podia observar o mundo pelos olhos dela.
Às vezes, ela ria e nesse instante, tudo valia a pena.
Minha gaiola era de lata. Reforçada. Com aves e cores que eu podia sonhar.
Fiquei pequena no espaço. Cresci.
Ganhei abraços, outros nomes. Outras cores.
Outras asas e resolvi voar.
A palavra mais linda que eu conheci ali, ao lado dela era Liberdade.
Quando enfim ela me libertou. Ela ficou livre.
Fui ponto final na história dela.
Continuo reticências dentro da minha história. Voando.

Mariana Gouveia

das coisas breves

E ali, nasceu pela segunda vez.

Os dias passavam como nos filmes
E a imensidão do mundo ganhou caos em seus olhos…
Um dia, não se sabe a razão, quis viver a fama de louca

Rasgou as roupas que lhe impuseram…
Não podia imaginar que era tão bonito morrer
E nasceu pela segunda vez.

Mariana Gouveia
Das coisas breves