Das rotinas · Divã

Abstrato desejo de amar

Cortava a garganta
e não sangrava
o nome dela escorria boca afora
a pele dela desmanchando nos dedos
saía flor de sua alma andante


Nas paredes o nome escrito mil e quatrocentas vezes
o azulejo cortado em forma de coração
e no ar o perfume impregnado


os cinco sentidos explorando seu desejo de toque
a língua a umedecer o canto da boca
Na moldura, a imagem viva do que era
Abstrato desejo de amar

Mariana Gouveia

Das rotinas · infinitamente

eu era um quase… uma parte

Foi no dia que te bordei
que a arte fez-se em mim

os pontos – quase toque – cerzidos com a linha de cetim

sua pele – tão alva – ponto cheio

tecendo flores em cada respiro
voos de borboletas
– feito asas –
a linha se desgrudou da agulha e uniu-se a mim

um nó feito
– na véspera do voo –
eu era pouso em ti.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês da arte e de Beda.
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega  – Mãe Literatura – 
Suzana Martins – Roseli Pedroso
arte: José de La Barra 

Das palavras das cartas · Das rotinas · Divã

beda – das cartas que rasguei.

A manhã desenhou na memória dias atrás. Era o ano que passou e a delicadeza da data destoa dentro das carta que escrevo… nela, eu posso dizer tudo que sinto e brigar… comigo, contigo e com esse sentimento infinito no sentido exato do amor.
Será mais uma que vou rasgar…

Não saberá das rotinas das manhãs e nem das minúsculas vida pelo quintal.
Nem quando a chuva se aproxima pelos lados do sul.
Em todo mundo amanhã será o dia do amor – como se amor precisasse de dia – e haverá vida além das palavras das cartas que rasguei.

Mariana Gouveia
das palavras das cartas
Agosto é o mês de envelopes rasgados e de Beda.
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – 
Suzana Martins – Roseli Pedroso
*Imagem: Marta Bevacqua

Das rotinas · Divã

Beda – Eu era a curadora da história.

Benzi três vezes em nome da flor.
A saudade é essa faca incrustada na garganta.
Os cravos rebrotaram em um inverno cruel.
A primavera anuncia seus dias no jardim sem chuvas e a canção do vento é a sinfonia nas janelas fechadas.
Montei as folhas em origamis de luxo.
A saudade tem que ser recebida em festa como quem se despede da vida.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês de sintomas de saudades e de Beda
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – 
Suzana Martins – Roseli Pedroso
*Imagem: Fabrizia Milia

Das rotinas

Beda -Meu guardião.

Desde que me entendo por gente, sempre ele estava lá, seguindo meus passos, como protetor. Por vezes, só de longe, quieto. Com o capim no canto da boca.

Ele é mais velho que eu dois anos e um mês. Me seguia, e em algumas vezes aquilo me irritava. Depois passei a não ligar. E mais tarde a adorar. Livrou-me de várias encrencas. Era sempre apoiado pela ordem de minha mãe e eu que não ousava reclamar, senão não podia ir além da cerca. E acostumei com minha sombra, que eu repetia sempre para irritá-lo:

– Vamos, sombra.

Resignado, paciente e silencioso, ia atrás de mim pelos caminhos da floresta, na beira do rio, no pé de amoras…onde quer que eu fosse ele era meu guardião.

O único lugar que me sentia resguardada dele era na casa da meio fada meio bruxa meio flor, mas se eu olhasse do buraquinho da janela podia vê-lo ali, além da porteira, atento ao menor movimento meu. Parecia nunca zangar-se com nada que eu fizesse. Por vezes, simulei queda só para vê-lo correr até mim e me ajudar.

Meu lugar preferido era o alto do descampado, no fim do dia. De onde eu podia avistar toda fazenda e o riozinho que serpenteava a floresta. O céu, mudando de cor me encantava.

Um dia, ele se aproximou, sentou do meu lado e disse:

– Não consigo entender o que te faz vir aqui todo dia.

– Não consigo entender porque você tem de andar atrás de mim onde vou. Você já reparou que nenhum dia é igual ao outro, nem a cor do céu, nem o vento?

– Hum…nunca notei não. Pra mim é tudo igual.

– Então, presta atenção hoje e amanhã perceberá que não será igual hoje. Nem o que você pensa.

O silêncio me fez olhar pra ele. Parecia que media cada canto com o olhar. Como se memorizando cada capim, cada brisa. Os olhos parecia notar algo. Mas não falou.

Eu, insistente, disse:

-Tudo isso aqui, é poesia. O capim, o dourado do sol, o aconchego da noite.

– Onde você aprendeu isso? – resmungou.

– Poesia não se aprende. Se enxerga. Você olha e percebe.

Levantei-me e não notei que atrás de mim havia um novo menino. Meu irmão, a partir daquele dia, conheceu uma nova forma de olhar a vida. Mas, eu só fui descobrir isso tempos depois.

PS: Meu irmão, Manoel Messias, junto com minha irmã caçula encaram dia sim, dia não uma máquina de hemodiálise. Estão no aguardo de exames para um possível transplante de rins. Nunca vi alguém com tanta coragem no coração. Já contei sobre ele aqui. Hoje, é o aniversário dele e brindo esse dia com agradecimento.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês dele e de Beda
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Darlene Regina – Mãe Literatura – Suzana Martins – Roseli Pedroso

Das rotinas

Cavou a sonoridade dos dias…

O vento tem essa mania de tocar impossibilidades
Você já viu essa dança das folhas no quintal quando o lugar vira flor?
O trevo de quatro folhas brotou as quatro folhas e a sorte desenhou rotinas para além dos muros.
A moça do tempo falou da falta de chuvas. Não percebi o que era para além das viagens.
Palavras do dia: esperança.

Mariana Gouveia
*imagem: Omerika

Das rotinas · Desvios para atravessar os quintais · Meus Livros · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Revirei o baú das lembranças doces.

As cartas descrevendo as coisas do dia – a – dia. Os rumores dos insetos no jardim, o vento a balançar as folhas e a rotina a escancarar verdades.

O ritual da noite capta o silêncio e as horas se fazem de ciclos e o dia amanhece dourado de sol.

As luzes refletem nas letras que guardo no baú – mais uma vez não consigo eliminar os vestígios de sua presença na minha vida – junto da letra da canção que mais gostava.

A voz ainda a ecoar o nome e o tempo – quase nada – a passar diante da vida.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar os quintais
Scenarium Livros Artesanais
*imagem: Varya

Das rotinas

O vento se ausentou do quintal.

A lua andou inquieta e invisível em seu espaço lunar…

havia qualquer coisa de azul na flor que o tempo desbotou.

Era oblíqua em seu estado letárgico de ser.

O ruído da palavra era quase encontro com meu silêncio e o canto da ave em seu sistema de asa e o medo do chão.

A monotonia das tardes de domingo contrastando com o verbo voar e o astro celeste a vingar do sol, com sua presença singular.

A garoa veio e o tempo mudou. O frio entra pelas frestas das janelas, da porta e o dia se encarrega de procurar momentos mágicos na vida.

Mariana Gouveia
©️ Madalena Russocka

Das palavras das cartas · Das rotinas

Carta ao meu amor da vida toda.

Eu disse que ele viria, nasceu!
E eu nem sabia como seria
Alguém prevenia: filho é pro mundo
Não, o meu é meu
Sentia a necessidade de ter algo na vida
Buscava o amor das coisas desejadas
Então pensei que amaria muito mais
Alguém que saiu de dentro de mim e mais nada
Me sentia como a terra: sagrada
E que barulho, que lambança
Saltou do meu ventre, contente, e parecia dizer: É sábado, gente!
A freira que o amparou tentava reter
Seus dois pezinhos sem conseguir
E ela dizia: Mas que menino danado!
Como vai chamar ele, mãe?

Emicida

Filho, eu te chamei de Lauro Rodrigo, porém, mas do que seu nome composto, logo quando nasceu você era meu bebê… Depois, vieram os diminutivos – que aos olhos de quem ama é a expressão do amor. Você foi duas sílabas – rg – , foi Laurinho, zé das couves, John Play e é filho sempre. O tio, para os primos pequenos, o amigo que acolhe, o torcedor que sofre e empurra o time preferido, a voz em defesa dos animais, o homem que sonha e o nosso menino sempre.

Eu sempre achei que tinha essa doce carga de ser mãe. Antes de você, eu tentei duas vezes. Então, posso dizer que você foi o milagre das preces atendidas. E eu, que fico presa nas datas especiais, nem escolhi o dia 22 de julho. E como na ansiedade das esperas, você antecipou um mês a sua vinda. Um leonino que chega chegando. Era para ser agosto, o mês. Mas, com sua vontade de nascer, rompeu barreiras como se dissesse que pode fazer isso o tempo todo: Se eu nasci um mês antes do prazo, posso ser o que quiser. E pode!

Como se conta 34 anos em uma carta? Como se diz eu te amo nessa lonjura que nos afasta? Há uma semana e meia atrás, eu ouvi a palavra mãe sendo chamada de novo. Um barulho de chave no portão e sua voz ecoando na brincadeira com os cães.

E justificando esses momentos, guardei tudo em um potinho para abrir nos momentos de saudades. Parece que mãe sente saudades o tempo todo. Mãe sente medo o tempo todo e mãe tem coragem o tempo todo. E traz nas mãos sempre o rosário da fé, as orações na ponta da língua e o agradecer imensurável de quem foi atendida.

Se como artesã eu pudesse te bordar, te faria igual, porque a tenacidade e força que você carrega – mesmo duvidando dela, às vezes – é tão forte que ultrapassa a ciência. Isso, quando você era apenas o menino que saiu de dentro de mim e me fez a mais feliz das mães.

Te abraço dentro de minhas palavras nesse dia que não marquei, mas que ficou tão marcado em mim. O seu dia. Dá uma olhada na agenda que te enviei no seu dia. Antecipei um ano dentro de nossas vidas e se adivinhei o tempo de agora lá atrás, devo confirmar a teoria de que mãe sabe das coisas.

E sabe o que mãe é, filho? Mãe é asa o tempo todo, é colo o tempo todo e é casa o tempo todo… Então, como um filho nasce de Mãe, e sabe que se precisar, ele sabe sempre o caminho de volta e funciona como se nunca tivesse ido.

Feliz Aniversário em todos os seus dias sempre!

Te amo muito ❤

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Das rotinas

Carta direcionada para a esperança.

Mana,

minha caçulinha, eu ainda era menina e me lembro do dia que você nasceu. O céu era tão azul que eu cheguei a pensar que ele só tinha essa cor porque você tinha nascido. Todo mundo comemorava a Copa de 70 e eu e nossos irmãos comemorávamos teu nascimento.
Você não sabe o quanto te amo e o quanto te desejo o bem. Nas tuas escolhas, na tua vida, na vida de teus filhos.
Queria poder com palavras traduzir e talvez até consiga, mas ainda assim, acho que serão pequenas as dimensões que elas conseguirão passar.

Hoje, minha carta é escrita com toda esperança que existe em mim na sua cura e do nosso irmão Messias. Sei que essa máquina de hemodiálise será apenas um atalho e logo o transplante virá.

A vida é tão leve – assim como a água – e que ela seja vivida ao máximo. A umidade que precisamos ter seja em um copo com água ou na atmosfera do ar é apenas um agravante para que possamos dar valor ao que temos.

Que esse dia, minha irmã, seja de alegria em seu coração, mesmo que seja simplesmente por ter acesso a uma máquina de hemodiálise – há tantos e muitos que ainda nem tem – e que você valorize o instante. O agora.

Te amo muito. Você é minha caçula preferida… ops, é a única!

Feliz Aniversário!
Te amo muito.

Mariana Gouveia