Das palavras das cartas · Das rotinas

Carta direcionada para a esperança.

Mana,

minha caçulinha, eu ainda era menina e me lembro do dia que você nasceu. O céu era tão azul que eu cheguei a pensar que ele só tinha essa cor porque você tinha nascido. Todo mundo comemorava a Copa de 70 e eu e nossos irmãos comemorávamos teu nascimento.
Você não sabe o quanto te amo e o quanto te desejo o bem. Nas tuas escolhas, na tua vida, na vida de teus filhos.
Queria poder com palavras traduzir e talvez até consiga, mas ainda assim, acho que serão pequenas as dimensões que elas conseguirão passar.

Hoje, minha carta é escrita com toda esperança que existe em mim na sua cura e do nosso irmão Messias. Sei que essa máquina de hemodiálise será apenas um atalho e logo o transplante virá.

A vida é tão leve – assim como a água – e que ela seja vivida ao máximo. A umidade que precisamos ter seja em um copo com água ou na atmosfera do ar é apenas um agravante para que possamos dar valor ao que temos.

Que esse dia, minha irmã, seja de alegria em seu coração, mesmo que seja simplesmente por ter acesso a uma máquina de hemodiálise – há tantos e muitos que ainda nem tem – e que você valorize o instante. O agora.

Te amo muito. Você é minha caçula preferida… ops, é a única!

Feliz Aniversário!
Te amo muito.

Mariana Gouveia

Das rotinas

Mudou a rotina dos dias… 

abraçou a menina que pedia colo na madrugada. Alguém perdeu a alegria logo ali, entre a esquina de baixo e a caixa d’água.

A estrela gigante se ampliou no riso dela e o afago apenas foi automático.

Cantou as canções que lembrava da infância. Simulou esperança nas folhas e captou a ternura no olho de amor. As coisas miúdas criam fases de encantamentos.

Buscou histórias infinitas vividas nos dias. Desenhou nas mãos a minuta do sonho.

Às vezes, a vida tem coisas estranhas que escapam do normal

Todo dia é um instante de loucura dentro da lucidez.

Mariana Gouveia
dos dias diferentes dos outros dias
*Imagem: Gennady Tarakanov

Das rotinas · Divã

Lembro o branco sobre o branco…

Perto da janela desejou voltar no tempo,
costurar pedaços pequenos de lembranças na memória.
Sentia que esquecia,
às vezes,
as sensações que viveu.

Tocou o céu com os olhos.
Lembrou das chuvas.
Mexeu nas anotações da mesa.
Sentiu saudades.

A flor, quase sol em giro,
trazia à memória os poros.
Miúdas flores como se fosse pele.
Digitais


No canto do lugar
– o cheiro –
como um arqueólogo
vasculhou antiguidades dentro dela.

Revisitou estações noites inteiras.
Pele, toque, mão.
Os sentidos aguçados no instante de amar.
Ela – artista –
quando a amo e desenho partituras em seu corpo.

Um modo de amar é assim.
Na loucura que herdou.
Em silêncio e cansaço.
Em guerra e paz.

Da pele
– a palavra –
de um dia que se abria
e que não havia código a decifrar…
Era apenas ela e mais nada.

Mariana Gouveia
Ph: Els Vanopstal

Das rotinas

Polaroid

Roubei os momentos instantâneos do dia em
que te encontrei e escrevi cartas sobre isso…
A voz rouca a suspirar vontades
A carta lida como se não tivesse sido entregue.
Na janela, a moldura escondida com o teu nome rabiscado.
Mais de mil vezes desenhei um coração e apaguei…
E o teu olhar ainda mora em mim e a estrofe do
poema morre de solidão em dias que nunca terminam…

Mariana Gouveia
Coletivo Mosaicum
Scenarium Livros Artesanais