Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Carta à primavera aos cuidados de minha mãe

 

Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia.
LeonTolstói

 

 

Ah, mãe… a vida é engraçada e muitas vezes, pintada ao avesso… São 36 anos sem você e parece que foi ontem. Olhando da janela para trás, ainda era dia e o rádio ligado na radionovela e você, muitas vezes, torcia para os vilões.

–  Os mocinhos são previsíveis – você diria – e são tão comuns que me faz preferir sempre o inusitado.

E com isso, você mudava o dia com suas pinturas e seus bordados. Sua habilidade em costurar retalhos e atravessar a visão de seus filhos e transformar o destino de cada um com sua sabedoria.

As cartas, mãe… ah, essas cartas que atravessam o universo todo foram ensinadas por você.  Os destinatários não interessam… o que importa é que você escreva e leve sua palavra onde o vento alcança.

Muitas vezes, a palavra é feita sozinha. O papel manteiga dos riscos dos bordados, esse da foto, feito por você, já mostrava a singela das asas que rodeiam minha vida.

Os galhos colhidos com suas cores diversas, para que a linha ganhasse a tintura que você queria. O som da roca a desfiar o algodão e dali, se formar o fio. Eu ficava horas a te espiar diante do papel e lápis para  então o desenho ganhar vida e diante de meus olhos a magia acontecer em um pano comum e eis a arte.

Os filtros do vento invadindo o silêncio em sintonia com as folhas das árvores.

Devo dizer que a saudade me abraça e que hoje te chamei muitas vezes? Estou aqui como mãe, a rezar para que a vida faça de meu filho coluna forte da descendência herdada de você. Dá para você soprar e vir aquele instante de magia em que você conseguia sarar a dor com um sopro? Ou beijo?

Me ensina a fazer assim com ele, mãe e que eu seja nas lembranças dele tudo aquilo que você é para mim:
Leveza, sem negar a força. Coragem sem perder o medo e principalmente colo sem esquecer o amor.

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

Projeto Fotográfico 6 on 6 – Passos

“São os passos que fazem os caminhos”.
Mario Quintana

Luci, faz tempo que eu queria te escrever….

Mas meus dias esteve – ou estão – tão cheios de realidade que as palavras não cabiam dentro do seu mundo. Escrever sobre a realidade, Luci, é quase como rasgar as folhas do caderno quando você tem pouco papel para a caneta trilhar entre as linhas e a gente aproveita cada cantinho em branco para desenvolver escrita. Realidade é o álcool gel de uma UTI, touca e pantufas sem bichinhos engraçados… realidade é o apito estridente de um aparelho que te assusta e te faz tremer feito vara verde. Realidade para além dos dias é a reza para tudo que é místico e acreditar que a vaga venha, que a febre ceda e que o amor minúsculo – tamanho da irmã caçula – vença a luta contra a morte – aquela imagem da foice e uma boca aberta vem à memória e você acha tudo tão engraçado que a fé se torna concreta em tudo que é santo-nossa-senhora-ave-maria…
Hoje tenho que falar de passos e pensei que esse seria um tema ideal para que eu pudesse fugir do trilho do tocável e te alcançar dentro da magia que seu olho me alcança.

Vem comigo?

Já te contei que ando sobre instantes e que quando meus passos tocam terra-chão-grama acontece coisas inimagináveis? Às vezes, até eu mesmo duvido, Luci e juro que esses momentos me levam ao estuque do seu quarto e sua parede quase azul – era isso mesmo? ou seria verde? – e lembro – me de que nessa altura da lembrança você não queria comer – e que te dei asas para além das florestas e dos pajés que reverencio todo dia… não comer era quase um desaforo diante de tanta fome no mundo. A fome atravessa os séculos e as florestas e para ali, dentro da imaginação do meu quintal, não comer é quase um atentado contra o que de mais sagrado que existe. Você tem o que comer? Tem de onde tirar a comida? Tem a sonoridade da alegria de quem encontra a comida, em qualquer lugar que seja?
Ainda bem que isso seja só lembranças, Luci e que ela nos leva sempre para as cartas e palavras.

Acontece que em alguns acontecimentos me transmuto para além do que escrevo e só para comprovar que não é miragem, eu registro o minuto dentro da magia.
Por falar em magia, conheci um cacique tão mágico – que parecia ter surgido de um filme desses da sessão da tarde – e que trazia a mansidão no olhar – a realidade, pelos olhos dele, tem a docilidade da aceitação.

” O que não se pode mudar, aceite… “

Falou na sonoridade do ar condicionado que acontecia entre um gruuu – ou seria vraaaaa?

E meu pensamento viaja para onde não posso estar e nesse momento sou quase rebeldia dentro da fé, Luci, enquanto o olho dele me atinge e leio quase uma floresta inteira e suas densidades. Um dia, Luci, quero te mostrar esse olhar… Você nunca mais vai querer ficar sem comer nessa vida e em todas as outras vidas que tiver – e eu, nunquinha mais, perderei a fé – e tudo será apenas gratidão.

Tem o jeito tão fácil de pai – o cacique – que quase me aninhei nos braços dele, Luci. Tive que me conter, devido a seriedade do encontro. Dava a impressão de que ele era o Samurai de todas as histórias e até da música do Djavan – se bem que nunca entendi direito essa música do Djavan, que pensei no tal verbo inventado sobre djavanear…

Os passos nos levam para cada caminho, que muitas vezes, só o lúdico nos faz fortes para que a caminhada seja fácil.
Lá na rua de cima tem cada instante de rua florida que dou uma volta enorme para não pisar nas flores. Você iria rir e talvez até me convencesse a deitar sobre elas – aposto…

Mas você não faria isso com o quintal “florido de teias de aranhas”…

Isso, eu consegui registrar e não importa se é aqui, logo que abro o portão, depois desses dias frios, de garoa – ou na rua de cima, logo além das porteiras do sítio Altos da Mata, para onde os olhos do meu pai vigia.
A vida, é o aceitar, Luci… tipo presente ou bolo da vizinha que insiste em nos imputar o pecado da cobiça. Vai me dizer que nunca cobiçou o cheiro de bolo que vem pelo vento e que a gente nunca sabe de qual casa vem o tal cheiro?

É um querer tudo e até o que não nos cabe na mão. Se minha mãe estivesse aqui, talvez, o olho fosse o termômetro para a vontade de ser, Luci… e ser é apenas aceite… Aceite dos caminhos que os passos cruzarem…

Os passo fazem parte do caminho… seja no ar, na imaginação ou na terra…

Luci… ah! Chego a suspirar quando me lembro dos pés a beijar a terra e a vida se torna tão gigante nos retratos pendurados nas memórias.
Era Maria, Branca de Neve, era Dolly e logo atrás de tudo aonde a câmara-olhos não alcançaram Manu, brigadeiro a desenhar instantes do para sempre. Devia ter escrito conto de fadas, Luci… igualzinho tu fez com Baunilha e tua Anna e nessa hora imagino tua grandeza dentro do poema do Bukowski…

Já te contei que meus passos me levaram às nuvens, Luci e que lá de cima sua cidade ficou quase que ao toque das minhas mãos? Juro que se tivesse poder de verdade, soprava as dores e tudo viraria apenas histórias para tua Anna.

Eu estive aí, Luci… tão perto de você que em alguns momentos a visualizei no rompante da escada e lá estava seu riso anos 60 e Anna para os passos do abraço.
Corredores me alcançou na graça do amor e resiliência dentro dos dias. Foi pura emoção, Luci. O livro sendo fonte de resiliência e amor.

Enumerei um a um a quem eu daria abraços no ar – porque alguns, abracei de cheiro de perfume e de café – e esse cheiro sempre me levará para a magia que me rodeava como se fosse eu mesma uma personagem das histórias que a vida escreve…

Talvez seja! Vai saber!

Mas a vida, Luci… Ah, a vida? A vida é feita de passos.. Ah, se eu pudesse escrever sobre os passos da vida…

Ainda bem que existe a fotografia pra se fazer entender.

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural
Participam desse projeto:
Cilene Mansini | Maria Vitoria | | Mari de Castro | Obdulio Nuñes Ortega | Lunna Guedes

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Missiva à Senhora D, aos cuidados de Hilda.


“Queria tanto te falar, por favor, queria te falar, te falar desses nadas do dia a dia que vão consumindo a melhor parte de nós, queria te falar do fardo quando envelhecemos, do desaparecimento, dessa coisa que não existe mas é crua, é viva, o Tempo”.  

Hilda Hilst
In: A obscena Senhora D.

 

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Sabe, senhora D. muitas vezes também me vi à procura do sentido das coisas. Olhava o pé de ipê – que nesse mês renasce nas minhas ruas, no meu cerrado – e indagava por infinitas vezes o porquê de tamanha beleza. Buscava as dobras dos muros, pensando ali ter além da quina feita de concreto batido, um portal para o mundo das solidões.

Talvez nossas indagações se diferem muito umas das outras ou não.
Também indago sobre a morte. A vida parece aquela bolinha de tênis que sempre cai no meu quintal e o filho da vizinha sobe no muro, mesmo com os latidos dos cães, e aponta a bola atrás de um arbusto. O tempo é esse curioso menino que cresce a cada dia. A vida é a rede que treme ao toque da bola. A morte é essa bolinha amarela fugindo para além dos quintais. O meu, por exemplo.

Sabia que aqui os peixes também morreram? Não foi por falta de cuidado com o aquário não. Foi o calor que é tanto por aqui. Um dia, eles não aguentaram os mais de 40º e quando vi, já não eram mais.
Perdi – me nas cores mortas dentro do vidro, sem vida e decidi que não seria mais rio sem corredeira.
Hoje, meus peixes são as sardinhas de louça ou material similar que vieram de Portugal embrulhadas em papel de presente. No dia que chegaram – o carteiro que não suportava mais minhas perguntas sobre alguma correspondência para mim, gritou para além da caixa de correios: até que enfim! – eu abri o portão e assinei os papéis com meu nome e timbre de vários selos e segui casa adentro. Desde então, os peixes ocupam a sala numa decoração que traz o oceano nas paredes da sala e cozinha.

Mas eu gosto das coisas vivas. O pé de romã – que ganhei da moça que é portal de humanidade – cresce dentro da caixa velha de Eternit. Ali, faz companhia para o pé de mamão – que precisa ser cortado – as raízes já invadem as paredes do canil. Meu pai disse que a vida é assim. Tudo tem o tempo certo das coisas.

Isso de sentar no vão da escada também nos une. Na verdade, eu uso o vão do telhado. É a hora que tento chegar mais perto de Deus – e do que é profano.
Já fixei desejos no corpo deitada sob o céu estrelado. A geografia sendo sempre imaginária nos relevos das mãos que nunca me tocaram.
Sempre a imaginei nua, a andar pela casa, no quintal e o vento a beijar-lhe a pele.
Hoje, ela só é um vulto dentro da lembrança.

Por isso, escrever talvez seja a forma mais lírica de viver e morrer e endoidecer deve ser essa coisa de alma fechada. Meu pai me contou tantas histórias onde as pessoas perderam a alma e ficaram fechadas por anos em lugar de louco. Meu pai tinha medo de loucura. Tirava o chapéu e erguia os olhos para o céu. Dizia que não tinha estrutura para passar na rua dos doidos.

Dava uma volta imensa para atravessar a ponte do outro lado. Meu pai tinha medo de vazios. Gostava da casa cheia de gente e eu tenho medo de casa cheia. Caibo sozinha nessa solidão onde deito no telhado e finjo saber o nome das estrelas. Já te contei que vi dali de cima do telhado, a lua dentro de um balde de água? E que às vezes eu sou esse rompante do universo e só de vez em quando cruzo a barreira do sexo e das vontades?

Desde menina, sentia essa barreira dos sexos e das vontades.  Meu pai me proibiu de contar sobre a ruas das meninas. Duas vezes, ele me pegou no quarto da Valci – que meus irmãos a chamava de Valcizona, só porque ela era grande – e mal sabe ele que muitas das vezes eu ia escondida e saí dali com tantas histórias para contar. Mas ele proibiu e dizia que as moças de famílias não podiam nem passar naquela rua, apesar da padaria ser muito mais perto passando pela rua delas do que atravessar o gramado do campinho onde meu irmão perdia toda vez que insistia em jogar.

O dia que disse para ele sobre as vontades e de como seria depois de casar ele envermelhou-se e disse que eu aprenderia quando fosse o momento certo e passou a falar do enxoval bordado que a mãe deixara.  E que o resto era tudo loucura e lá ia ele dirigir o olho para o céu e tirar o chapéu em sinal de reverência e saia falando que eu só perguntava sempre o irrespondível e que a vida para ser boa era preciso aprender a entender os mistérios e o tempo certo de cada coisa.  Mal sabia ele que as meninas da rua do pecado já haviam me contado sobre tudo que devia saber para viver o amor ou mais coisas além dele. E como o menino deixou mais uma vez cair a bola de tênis, lá vou eu a catar atrás dos ipês que crescem no meu quintal a tal bola perdida, porque meu pai também dizia que era através dos meninos que a vida fluía.

Mariana Gouveia
Carta publicada na Revista Plural – Clandestina Agosto 2018
Editora Scenarium Plural

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

“Acorda, joga água nele!”

Pai, acho que você iria se orgulhar de mim.

Talvez, você em sua rotina de menino que sonha e vê a lentidão dos dias em sua cadeira de rodas nem imagina que sua filha escreveu mais um livro.

Eu te contei anos atrás sobre Corredores e vi seu olho atento à minha história e vi sua afirmação dentro dos momentos.

Pai, grande parte do que escrevo vem do que aprendi durante os caminhos. Não é só juntar letrinhas e cavoucar memórias, é desenhar instantes e com eles o apontamento de direção.

Descobri hoje que ontem, o moço que fez com que com que eu me apaixonasse pelo rádio se foi. Você e minha mãe dizia que se eu escrevesse as histórias que declamava para vocês eu iria ser contadora de histórias.

Zé Betio era a voz no velho motor rádio e seu riso diante do bule de café feito fazia com que a madrugada soasse vibrante nas manhãs.

” Acorda, joga água nele, dona Maria!” E ali, discorria sobre o galo a cantar, a vaca a esperar pela ordenha.

Eu poderia escrever sobre isso e aquele homem que lia as cartas que a gente enviava, hoje, a voz se transformou em restrospectivas …

As canções que você queria ouvir ganhava tons dentro da resposta à canção: 🎵🎶 quem é… 🎵

E o locutor a responder: é o Zé Bétio!

Pai, hoje, caminho pelos Corredores… Os mesmos que detalhei como se fizessem parte de nossa história e que você apenas suspirou e enumerou nomes dos quais nem me lembrava.

Afinal, como o locutor dizia a vida está logo ali, para ser vivida.

Você é essa criança levada pelas mãos enquanto realizo sonhos. E levo comigo a certeza de que se orgulharia de mim, não pelas palavras que espalho feito sopro de vento, mas sim pela delicadeza de ainda lembrar 41 anos depois do homem que me fez apaixonar pelo rádio.

Tenho certeza de que você tiraria o chapéu em sinal de reverência a quem fez parte de nossa história…

E é o que faço, pai.

Te amo!

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Pai,

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Pai, a vida é esse pouso na mão. Isso de comemorar um dia seu, tem minha implicância desde sempre. Teu dia é todo dia em que seu ombro foi amparo.

Hoje, as janelas se abrem e dizem que vai ter chuva de meteoros. Sei que você riria e diria que quando as estrelas “chovem” alguma coisa de importância acontece. Você era o homem das importâncias. Desde o desencaroçar o algodão e dele, com sua sabedoria na roca, fazer com que aquele capucho vire linha, tecido até o saco pronto para receber a semente.

Pai, o cotidiano é esse céu que se abre quando nasce e se esconde quando ele se vai. Daí, vem as estrelas e essa imensidão de luzes, tal qual os vaga-lumes no quintal.
Você entende essa nossa paixão pelo inexplicável  e me apresentou a força maior das orações. Segui o rito de tuas bençãos. A leitura de palavras direcionadas dentro da fé.

A vida é leve, pai e quando me pego pensando em você, sou pura gratidão. Embora, tão longe, estamos tão juntos em tudo que você me ensinou. Sou essa vontade de vento, de liberdade e de alcance. Alcanço nos gestos os afagos de tudo. E tudo isso, devo a você, pai.

E quando tua oferta vem com gesto de amor, sou pouso dentro das suas vontades.

 

Grata tanto!
Te amo infinito!

 

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas

Pai

 

Pai, os anos são desaforados demais. Hoje, depois de falar com o senhor e te abraçar com o coração, fiquei a pensar em quanta coisa vivemos e quanto tempo perdemos. Venta aqui e te ver assim de longe consola, mas ao mesmo tempo é estranho. O senhor foi sempre essa presença forte na vida, nas palavras e nos gestos.

Sempre foi senhor do seu destino e decidido nas questões de viver.

Na sua fé, a palavra vem acompanhada de um olhar para o céu e no tempo dos chapéus ele era retirado da cabeça e sua reverência era instigadora.

Hoje o senhor completa mais um ano e eu cumpro o ritual de escrever mais uma vez e talvez meu maior desafio seja te falar coisas sem repetir o de sempre.

Em alguns momentos sou forte como o senhor, mas em outros, a fé é cambaleante, pai.

Como o senhor atravessou todo esse tempo sem perdê-la? Como não sucumbiu com as perdas? Como ainda mantém vivo esse olhar inquietante diante das dificuldades?

Não sei se sei todas as respostas, mas é dentro de sua força que busco rumos para orientar os que precisam de mim.
Na emoção da tua voz eu me vejo ainda tateando diante da vida, pai e é essa vida que te desejo força sempre… Feliz Aniversário!
Te amo sempre

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Projeto Fotográfico 6 on 6

Projeto Fotográfico 6 on 6 | Lembranças…

Falar com você sempre me permite essa viagem nas lembranças… É como se você sentasse para me ouvir e eu estivesse pronta para dizer…
E elas – as lembranças – me vem em forma de cartas – missivas para ti.

Bambina Mia.

Esse mês traço o caminho da volta e antes mesmo de ir já sei o que vou encontrar… e desenho no ar, nos dias que antecede a volta as coisas que sei que encontrarei no “meu lugar”… O meu lugar é o colo de pai, abraços de irmãos e todas as lembranças intactas esperando por mim:
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No pomar, a fruta temporã, plantada para a ocasião – azeda demais, talvez – totalmente fora de época, mas com o sabor lá da infância. Sei que o cheiro irá ficar nas mãos e é desse cheiro que me lembrarei quando a memória invocar a lembrança.
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As manhãs, bambina, tem o sabor da neblina fria e o sol anuncia logo após a mata que o dia se prepara para nascer…
Revigoro-me na visão dos animais e a estradinha me leva para a colina, de onde eu abraçarei o Universo em orações. Eu posso fechar os olhos e sentir cada partícula das lembranças sendo refeitas dentro de mim como se fosse um bordado feito pela minha mãe e sua memória vindo nos cheiros das plantas, no canto dos pássaros e no chá exalando poemas em mim na beira do fogão a lenha.

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A leveza me carrega entre a espera do abraço e das lambidas do cão que me espera afoito e que eu ouço o latido em algumas ocasiões. Sei que ele ficará dias a andar atrás de mim e a aguardar meus movimentos… Me levará pelos mesmos lugares e rodopiará feliz ao acordar e sentir minha presença.
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E no fim da tarde, as asas virarão uma árvore inteira em brancura no pouso das garças… Todas as vezes, isso me lembrará Manoel de Barros e seus poemas. E dentro deles me deixarei levar por palavras que coloco no papel e te dedicarei.

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E mais do que lembranças, bambina, ecoará dentro de mim todos os dias o riso da criançada enquanto a vida conta os dias que eu espero. Falta pouco e logo estarei ali, colhendo no pé, a amor que a vida me dá diariamente de várias formas.
Ali, onde busco forças e equilíbrio dentro dos dias em busca de fé e esperança.
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Grazie por me permitir escrever-te sempre. Grazie por fazer parte desse núcleo de amor.

Bacio
Mariana Gouveia

Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural
Participam desse desafio:
Frasco de Memória e Catarina Voltou a escrever

 

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Conduz-me ao precipício onde hibernou a alma

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“Havia duas maneiras de partir: uma era ir embora, outra era enlouquecer”.
Mia Couto

                                                                                                                                     Querido abismo,

Hoje, mais uma vez estou de frente para você, na tentativa do pulo ou da coragem de enfrentá-lo. Você tão desafiador, mais uma vez me oferece colo, espaço e eu, tão cheia de liberdade arrisco essa carta como se pudesse voltar atrás, recontar histórias, recriar recomeços, mudar rumos – sei que não posso – mas posso modificar caminhos a partir daqui.
Você já conhece os telhados por onde em noites seguidas encarei para vigiar o céu e as estrelas – você estava sempre ali, à frente da escada – enquanto eu, fascinada olhava o espaço infinito.

Também já sabe das montanhas que avistei… longas horas a ver sua imensidão e sua cor disfarçadas nas cores das árvores e o verde a convidar para o abraço.

Já te enfrentei algumas vezes… atravessei vales inteiros, desci colinas e senti seu toque a me abraçar. Devo confessar que você é tentador.

Nas noites de insônia, você surgia absoluto, incógnito e tolerante… Única opção madrugada inteira, vigia constante das minhas dores e fraquezas.

Hoje te encaro, olho no olho… sem vacilo, chego mais perto daquilo que me oferece e estendo a mão… quase um toque em seu vento oscilante e convidativo.

Você não sabe, mas me fortalece, com sua presença intrigante, sempre a me entregar a amplitude pela qual sempre lutei e seu nome muitas vezes, vem disfarçado de liberdade.

Você me enxerga normal, com medo e me faz ter coragem sempre que te enfrento. Me lembra todas as vezes que o medo rouba sonhos e me instiga ao pulo…

Me instiga diante de sua presença – você tão gigante – e me oferece a opção de escolher. Posso ir embora e reconhecer meu ponto fraco diante de sua magnitude… Devo dizer que você é o precipício e que a loucura seria minha companheira, se eu permitisse… Que minha alma se esconde dentro de sua palavra, como se buscasse acalanto.

Mas eu não permito e não aceito seu chamado voraz em cada instante que me aproximo de seu espaço, mesmo porque o espaço é meu e sou eu a dona das minhas vontades. Você é apenas uma das coisas que tenho de enfrentar e encarar nesse mundo de cão.

Eu aceito sua presença infinita em mim e nessa hora, me permito ao voo.

Mariana Gouveia
Projeto Missivas de Abril
Scenarium Livros Artesanais

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Ninguém conhece a fundo a luz do seu abismo

“Nenhum abismo me cabe
nessa hora, eu voo”.
Mariana Gouveia

Querida T.

Enquanto você compõe pássaros dentro de seus silêncios, eu voo… Descobri asas no seu lugar e ali, envolvo dentro de suas palavras…

Tomo a liberdade de te escrever cumprindo um ritual que faço desde sempre – que me lembro –  de rabiscar palavras em forma de cartas. Já me disseram que sou assim, meio mãe de todo mundo e quando vi o azul dos seus olhos te imaginei celeste – tal qual o céu do meu lugar – mergulhei em seus abismos, me preparei para voos dentro das emoções que você tão lindamente entrega de presente para quem te lê.

Quando abrimos os jornais, sites de notícias ou falamos com alguém, as notícias ruins imperam as conversas e isso aqui é um alívio nesse ritmo de coisas tristes que andam por aí.

Não é que eu seja alienada e não esteja nem aí para as coisas que andam acontecendo, mas é que já há tanto de desânimo que prefiro usar as palavras para falar de amor, de vida, de natureza e de mostrar nas fotografias que o mundo pode sim ser diferente, vivido em seu extremo prazer de viver.

A vida não tem sido generosa comigo e ao mesmo tempo me enche de delicadeza como retribuição. Eu vejo a vida miúda no meu quintal, vejo o gigante acontecer no céu e abraço pessoas até mesmo sem tocar, que tudo que vivi e vivo deixa de ecoar em dores no corpo.

A gente que escreve tem esse conceito de tentar derramar nas histórias o nosso sentimento e isso, você faz magistralmente… embora, isso não nos impede de percorrer a linha tênue entre o espaço e o abismo.

Esse abismo instigante que nos chamam quando estamos a poucos passos do pulo ou o espaço ali, oferecendo um voo saboroso dentro da poesia e do amor.

E como você mesma encara a palavra tua, dona dela e maravilhosamente inspiradora, finalizo essa carta com a simbologia dos seus versos:

“Que eu saiba ser
buquê de pássaros
para perfumar os sonhos
em pleno voo”

Tríccia Araújo

Que os voos sejam teus sempre, menina coração.

Beijo,
Mari

Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Uma das minhas gavetas está cheia de pretéritos

 

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Bambina mia,

… enquanto te escrevo mio menino arranca as ervas daninhas no quintal – tenho de ficar de olho para que ele não leve entre elas algumas ervas que são remédios e que curam… Outras são folhas para o chá e que ele não sabe quais são – é uma espécie de vigia entre a palavra ” essa não… é poejo”… e o grito “Nãããooo! É alfavaca!”

Abril hoje é presente aqui – mesmo – com sua ventania quase frio. Trovejou aqui e você veio pelo meu chamado. Choveu e agora está aquele vento meio pingo meio frio que adoro. As cortinas dançam com isso e acho esse balé a coisa mais linda. As folhas do pé de algodão caem com esse sopro e arrastam no quintal como se chamassem atenção para a cena.

O vento é quase uma carícia na pele e recebo ele de olho fechado e alma aberta – de vez em quando danço com ele… vou para o meio do quintal e abro os braços enquanto ele levanta meu vestido – o pássaro de todo dia ronda meu lugar… chama atenção no varal de roupa com sua miudeza e chilreio… ainda não descobri como se chama o canto do beija-flor. Será que é floreio?

Hoje é aquele dia comprido que demora a passar. Trago nele tantas lembranças da infância. As histórias de meu pai e o mistério de uma data que todos vivem sem viver de fato o verdadeiro sentido dela. Confesso que por força de algo maior que não consigo definir sigo alguns rituais que meu pai seguia. Digo no tempo passado porque é algo que marcou minha vida – acho que sou a única dos irmãos que ainda faz isso – e pela primeira vez em muitos anos não vou seguir a procissão que começa lá em cima, na avenida. Já ouço o canto pelo microfone . Alguns rituais precisam ser rompidos. Alguma coisa vai mudando com o tempo ou são as pessoas que vão se tornando estranhas aos meus olhos e já não me sinto necessária em alguns lugares.

A vida tão cheia de verbos e frases feitas. Datas singulares que abrem a gaveta de minha memória tão cheia de pretéritos que sobram para fora algumas peças extras que tento decifrar ainda.  Coloco o envelope laranja junto com os outros. Aspiro o cheiro de palavras que se juntam e aceito seu convite. Dou-te a mão e vou contigo pelas suas calçadas e ruas.
Abraço-te e rio na sintonia da resposta  que sai ao mesmo tempo que a pergunta chega…

Bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Missiva de Abril
Scenarium Livros Artesanais